3.2 Combinaison de mappings audiovisuels
4.1.4 Techniques d’interaction
Primeiramente, a reprodução técnica mostra-se mais autônoma em relação ao original do que a manual. Ela pode, por exemplo, revelar na fotografia aspectos do original que não são acessíveis somente à lente ajustável, que escolhe seu ponto de vista arbitrariamente, mas não ao olho humano; ou, com ajuda de certos procedimentos, como ampliação e a câmera lenta, pode reter imagens que simplesmente escapam à ótica natural. Isso em primeiro lugar. Em segundo lugar, reprodução técnica pode ainda colocar a cópia do original em situações inatingíveis a esse mesmo original. (BENJAMIN, 2015, p.54)
Para além de uma reprodução direta, que pode sim, em conformidade com a citação de BENJAMIN (2015), revelar aspectos não acessíveis aos sons originais, muitos dos efeitos sonoros são frutos de combinações e composições. Quando ouvimos sons pontuais e cotidianos representados em um filme, como um contato com um objeto, o som de um eletrodoméstico ou mesmo passos, esses sons costumam ser representados por uma gravação única, seja realizada pelo som direto ou pós-gravada. Além desses sons em suas unidades enquanto objetos sonoros, os editores de som utilizam composições sonoras para criar sonoridades distintas. O som de um monstro ou mesmo de um robô costuma ser construído a partir da soma e manipulação de um conjunto de efeitos sonoros. Sons que, sincronizados com as imagens são também compostos com outros sons para criarem uma representação expandida. É bem possível que se pegássemos um plano de um monstro rugindo e somássemos o som de um rugido de leão, a síncrese faria com que os espectadores admitissem aquele som como verossímil para a situação proposta. Mas como criar um som que vá além de uma representação direta? Como criar algo completamente novo sem
necessariamente sintetizar aquele som? É essa a busca concentrada por muitos sound
designers durante sua realização. Combinar sons para buscar algo único.
Pode ser que nossos exemplos de monstros ou robôs possam ser mais óbvios para a percepção de efeitos sonoros compostos. Mas essas composições acontecem o tempo inteiro na criação dos filmes. Ambiências de cidades por exemplo, são, em grande maioria, construídas. Vento, pessoas, automóveis, buzinas, aviões, pássaros e até mesmo músicas incidentais são dispostas em camadas para a representação do plano. Isso se dá tanto na intenção de criar-se algo distinto e inédito, mas também pela possibilidade de se ter controle sobre todas essas camadas para que possam ser definidos volumes, frequências e principalmente seu posicionamento dentro do campo sonoro. Essa ação é uma aplicação do
design de som, fazendo uma referencia direta ao design das composições com imagens.
Algumas dessas criações podem até mesmo ocorrer de maneira intuitiva, mas o fato de serem bem-sucedidas pode ser esclarecido ao nos basearmos em teorias que regem o próprio
design. Mais especificamente, estamos falando dos princípios da Gestalt e suas relações
adaptadas para a psicoacústica, que lidam com as caraterísticas físicas do som em relação às sensações auditivas dos espectadores. Esses princípios partem da hipótese de que os indivíduos tentem a organizar elementos visuais em grupos ou como unificados. Tentam perceber os objetos de uma maneira simplificada. Alguns dos princípios utilizados são: figura e fundo, similaridade, continuação, destino comum, pertencimento e fechamento. Mas como isso funciona para os sons?
Figura 16: Exemplo visual de alguns dos princípios da Gestalt
(fonte: https://michelleesoto.files.wordpress.com/2015/03/gestalt-principles.png)
“A partir da década de 1920, um grupo de psicólogos na Alemanha, examinando a psicoacústica clássica chegou à conclusão de que havia outros métodos mais holísticos para aplicar a forma como os seres humanos percebem o som” (HOLMAN, 2010, p.34). O principio mais fundamental, já citado anteriormente, e que dialoga com as análises de paisagens sonoras desenvolvidas por SCHAEFER (2011), é o de que os sons estabelecem uma relação de figura e fundo. Podemos partir do principio que na reprodução dos sons de um filme, há sempre uma composição mínima, dificilmente escutamos um objeto sonoro único sem relação com outros. Mesmo que os sons estejam ali como ruídos indesejados de captação ou até ruídos externos ao filme, como o de espectadores comendo pipoca nas fileiras adjacentes. Além disso, quando assumimos a estrutura básica do som do filme, dividido entre diálogos, efeitos e músicas, essa relação de figura e fundo é estabelecida de maneira clara, principalmente no momento da mixagem, no qual, de acordo com a importância narrativa de cada uma das categorias, podem ser reproduzidas em primeiro plano ou plano de fundo. E essa relação pode variar sem ônus para a percepção dos espectadores, até dentro de um mesmo plano. Majoritariamente, e de acordo com as características “vocêntricas” do cinema, citadas por CHION (1999), as vozes agem
reproduzidas simultaneamente. Mas isso pode ser modificado, um efeito pode interromper um diálogo e pode, pouco depois, ser sobreposto por uma música que passa da diegese para a não-diegese.
O princípio da similaridade faz com que os sons, a partir de suas caraterísticas semelhantes – dentre elas volume, tonalidade, timbre e localização – sejam agrupados em fluxos sonoros. Esse princípio é responsável pelo fato de que efeitos compostos por vários sons, como o rugido de um gorila gigante ou um dinossauro possam ser compreendidos como um som único. Esse exemplo pode ser observado durante uma cena de luta entre o King Kong e um Tiranossauro Rex no filme “King Kong” (2005). Outro exemplo desse agrupamento por similaridade é o de um telefone tocando em meio a uma cena ruidosa, mesmo sendo um som descontínuo, o fato dos toques serem iguais, faz com que percebamos o som do telefone como um objeto sonoro único e não como vários objetos, um para cada toque. Em uma cena do filme “O Chamado” (2002), ouvimos o telefone tocando em primeiro plano enquanto o personagem observa uma imagem estranha em sua TV, nesse momento som do telefone está em primeiro plano, a cena continua com a personagem Samara (o “monstro” do filme) saindo da TV. As relações sonoras mudam e a trilha sonora, seguida por efeitos que marcam o movimento anômalo da personagem, tomam o primeiro plano, enquanto os toques do telefone se tornam um fundo sonoro, mas de acordo com seu ritmo e tonalidade constantes, partindo do princípio da similaridade, mantemos a sua percepção enquanto um objeto único.
w Exemplo: Trecho do filme “King Kong” (2005) w Exemplo: Trecho do filme “O Chamado” (2002)
A continuação diz respeito ao princípio no qual mudanças de frequência, intensidade, localização ou espectro de uma única fonte sonora tendem a ser suaves e contínuos, e não abruptos68 (SONNENSCHEIN, 2001, p.81). Isso se aplica tanto para o uso em efeitos sonoros quanto para vozes. A continuação é muito utilizada na construção de ambiências sonoras em filmes, as quais podem trazer fluidez aos cortes de imagens, quando as ambiências entre planos se fundem no momento de passagem. Por outro lado, uma quebra
68 Tradução livre do autor. Segue o texto original em inglês: “Good continuation relates to the principal that
changes i the frequency, intensity, location or spectrum of a single sound source tend to be smooth and continuous rather than abrupt.”
da continuação sonora também é um fato expressivo que potencializa momentos da narrativa. Um plano com som ruidoso, ao ter seu som interrompido abruptamente, trás até mesmo uma sensação de desconforto aos que assistem e ouvem ao filme. Esse princípio também está presente no momento da edição de vozes e diálogos, a intensidade, ritmo e tonalidade com as quais as palavras são faladas podem ser alinhadas para suprimir trechos de uma fala de maneira imperceptível e também construir falas a partir de tomadas distintas de uma cena.
O destino comum de dois ou mais sons, parte do fenômeno desses sons sofrerem as mesmas alterações dentro do mesmo espaço de tempo. Dessa maneira, são percebidos como um grupo. Uma utilização clara desse princípio é a transição de cenas externas para cenas internas. Os sons do ambiente externo podem ser mantidos quando passamos para o ambiente externo, mas costumam ser filtrados em suas frequências mais altas e têm seu volume reduzido. Isso acontece naturalmente quando passamos por uma porta e a fechamos. O isolamento das portas dificilmente é total, mas consegue conter parte do volume e as frequências mais altas.
Partindo do conceito de “fluxos sonoros”, pensado pelo sound designer e autor Walter Murch (2005), o princípio do pertencimento se estabelece a partir do momento que os sons não podem ocupar mais de um fluxo ao mesmo tempo. Em suma, não podem ser figura e fundo no mesmo momento. Em meio a uma ambiência com sons de passarinhos, o canto de um pássaro em específico, pode ser ele um personagem da narrativa, tem a capacidade de se destacar. Mas o canto desse passarinho passa para um fluxo autônomo, diferente da ambiência de fundo criada.
O fechamento trata de “um som que é intermitentemente mascarado é percebido como contínuo, desde que não haja evidência direta ao contrário” (HOLMAN, 2010, p.35). O próprio princípio da continuidade, que citamos acima, faz com que o ouvinte espere um acontecimento contínuo. Isso pode ser percebido em uma ambiência sonora e fica ainda mais claro em uma música. O fato de a música seguir comumente uma sequencia clara e rítmica, faz com que esperemos a continuidade temporal desse som. Caso uma interrupção tenha que
qualquer ponto sem que causem estranheza nos espectadores. Se esse momento de corte acontecer e for coberto pontualmente por um som impulsivo mais alto do que a música, essa “distração” criada faz com que a atenção se volte para o primeiro plano sem que percebamos essa interrupção. É um princípio de mascaramento que funciona para esconder, esses ajustes. No design gráfico, esse fechamento acontece a partir do momento de que observamos elementos abertos e tentamos completar mentalmente essas lacunas. Linhas pontilhadas por exemplo, as percebemos enquanto linhas e não como uma série de pontos, por mais que os sejam. Sons pontuais como o de um eletrocardiograma, juntamos os bips em um fluxo contínuo, da mesma maneira que as linhas pontilhadas.
O sound design seguem muitas das vezes os princípios que relacionar com as criações visuais. Mas outro aspecto relevante é o fato de que esses sons construídos dentro do contexto audiovisual são acompanhados de imagens e criam relações sinestésicas. Assim como as imagens são organizadas para estruturar uma narrativa, os sons, compostos ou unitários, são acrescentados a essas imagens como na composição de uma partitura musical. As camadas se tornam vozes e podem ser percebidas em uníssono ou em contraponto.