5.2 Performances musicales immersives
5.2.3 Sc`ene Virtuelle
O curta, com duração de aproximadamente 28 minutos é apresentado como uma “jornada sensorial” segundo a própria sinopse. E, de fato, é um filme que direciona os espectadores para uma percepção detalhada dos sons. O personagem Alexandre é surdo e o filme o acompanha em seu cotidiano apresentando os desafios impostos por esse fato. Ele tem uma filha, mora com a mãe, trabalha como instalador de som em uma oficina e é
acompanhar de perto a jornada de Alexandre. O silêncio do personagem faz com que a camada sonora seja evidenciada e trás uma importância para as construções e escolhas dos editores. O filme é uma mistura de documentário e ficção que nos faz perceber o quanto os sons mais cotidianos acabam sendo ignorados. O som do filme é composto com o uso predominante do som direto, mas acrescido de detalhes em pontos chave da narrativa.
Nas primeiras cenas do filme, vemos Alexandre lavando roupas e alimentando seus periquitos. O acompanhamos em silêncio, à principio, ainda sem saber da sua surdez. Essa relação imediata é importante pois acaba gerando uma expectativa em relação ao próprio ritmo de montagem do filme, que é construído com planos longos e majoritariamente estáticos. As cenas são montadas de tal modo que tenhamos tempo para perceber o ambiente sonoro que envolve a narrativa, há um tempo para ouvir e processar cada som. Na terceira cena, Alexandre chama a sua filha que brinca no corredor para entrar na casa e aí percebemos que ele é surdo-mudo e fica claro a sua dificuldade de se comunicar através da fala, ele usa palmas para chamar a atenção da criança e tenta esboçar um grito. Durante toda a sequência inicial do filme escutamos, além dos sons de contato e manejo dos objetos, uma textura sonora de sons externos, um som leve de carros, eventuais vozerios de pessoas passando na rua e também o som dos periquitos que acaba fazendo parte da paisagem sonora da casa constantemente. Uma característica do filme em geral é o fato de que as mudanças de planos e ângulos de câmera também determinam mudanças na perspectiva sonora representada, ou seja, é como se o som acompanhasse a câmera tanto temporalmente quanto espacialmente. Esse uso do som se faz possível pelo uso de planos mais longos como citamos e também com o uso de fusões sonoras (crossfades) para garantir uma suavidade nas transições. Essa escolha por um som fragmentado entre planos possivelmente causaria um certo incomodo caso as cenas fossem muito recortadas. As mudanças sonoras soariam como interrupções do princípio de continuidade.
Nas cenas 4, 5 e 6 (de acordo com nossa planilha de decupagem), é apresentada a relação do personagem com a filha. Ele prepara uma mamadeira pra filha e a acompanha enquanto assistem televisão. Nesse momento, um som que nos chama atenção é o do ventilador, que volta a aparecer em outros momentos do filme como uma espécie de “personagem”. O ventilador está ligado e é mostrado no canto do plano, tendo seu som
representado próximo a um primeiro plano sonoro. Na cena 6, Alexandre observa a filha dançando em frente à televisão e tenta ajuda-la com uma coreografia. A filha reage negativamente falando que o pai estaria errado. É uma cena que demonstra a dificuldade de tentar se relacionar com a filha sem a fala. Durante todo esse momento com a filha, o som externo é quase nulo, o que representa um momento de proximidade entre os dois e faz com que os espectadores possam vivencia-lo dessa maneira.
Figura 28: Momento de interação entre Alexandre e a filha. Ventilador no canto do quadro.
(fonte: captura de tela)
A próxima sequência do filme se passa na oficina (equipadora) de som automotivo na qual Alexandre trabalha. É uma relação curiosa dentro do filme o fato dele não ouvir mas trabalhar instalando sons e alto-falantes. Por outro lado, o personagem busca materializar os sons visualmente, o que é parte da sua jornada no filme. Na cena, ao testar um alto-falante grave ele coloca brinquedos (um pequeno pandeiro, possivelmente da filha) em cima da caixa para perceber a vibração. Essa relação se repete na cena seguinte, na qual ele dança em seu quarto com uma camisa com luzes de led que reagem aos sons e posteriormente, com suas luvas, também com leds, durante uma performance na cena final do filme. Em dois outros momentos do filme essa materialidade visual do som também é representada: na cena 25 vemos um copo e um chaveiro pulando sobre o capô de um carro a partir da vibração grave de uma caixa de som que Alexandre está testando e na cena seguinte vemos o personagem sentado e mexendo os pés em uma poça de água. Escutamos o som da água em detalhes, mas o fato que marca a cena é exatamente a formação visual das ondas na água que é um dos meios utilizados para se demonstrar visualmente uma onda sonora.
Figura 29: Diferentes meios de representar visualmente os sons
(fonte: captura de tela)
Na cena 10 vemos Alexandre em um diálogo com um amigo também surdo utilizando linguagem de sinais. A cena tem aproximadamente 2 minutos e o único som que escutamos é o das ondas do mar. Nesse momento o filme nos coloca em uma posição na qual não conseguimos entender o que eles estão dizendo durante a conversa (mesmo que consigamos perceber alguns dos sinais). De certa maneira é como se nesse momento os espectadores fossem os surdos. Uma relação interessantíssima que contrapõe o vococentrismo de grande parte dos filmes. Na cena seguinte, o personagem vai pegar seu ventilador com um homem que conserta eletrodomésticos e a situação se inverte. O homem tenta comunica-lo de que o ventilador “não presta mais”, utilizando sua voz e percebemos a dificuldade de Alexandre em compreendê-lo. A mesma situação acontece na cena 20 durante uma consulta médica. O médico tenta falar alto e pausadamente com Alexandre para tentar coletar informações, mas o personagem não consegue compreende-lo. Essa são duas das pouquíssimas cenas do filme que apresentam diálogos e vozes, que totalizam cerca de 15% do tempo total do filme.
Na cena 19, anterior à do médico, há uma construção sonora no som do trem que é uma das mais perceptíveis como uma possível recriação com efeitos. Vemos Alexandre
sentado em uma cadeira no vagão a partir de dois planos de imagem, um plano conjunto e um plano próximo. Apesar de vermos outras pessoas conversando dentro do vagão, não escutamos qualquer outro som que não o da mecânica do trem.
Durante um encontro de amigos também surdos (cena 22), temos uma relação interessante dentro do filme, um jogo de bingo acontecendo, várias pessoas reunidas, mas não escutamos o vozerio comum que escutaríamos em uma festa. Percebemos o som das pessoas no ambiente, passos, objetos, a roleta de bingo e apenas vocalizações sem palavras dos personagens. A cena cria um contraste em relação ao que o cinema costuma representar como a sonoridade de uma festa e nos apresenta os sons que possivelmente não escutaríamos durante uma festa com vozes e músicas predominando o campo sonoro.
O filme “A Onda Traz, o Vento Leva” é de fato uma construção que lida com um caráter sensorial do cinema e isso acontece com grande importância dedicada à camada sonora. O filme é um exemplo no qual pode ser aplicado com muito ganho para a percepção os “método das máscaras” proposto por Chion (2011). Ao assistirmos ao filme sem os sons, é como se estivéssemos vivenciando aquela história a partir do ponto de escuta do personagem, ou seja, um predomínio do silêncio. Por outro lado, ao escutarmos a camada sonora sem a banda de imagens, percebemos todos os sons que o personagem está deixando de escutar. Ao unirmos as duas camadas temos uma convergência de relações sinestésicas e até mesmo um questionamento sobre como lidamos com os sons que escutamos em nosso cotidiano.