2.2 Live-looping hi´erarchique
2.2.1 Live-looping
Nem só de vozes as trilhas sonoras são feitas. Não estamos aqui tentando reduzir a importância dramática e narrativa dos diálogos nos filmes, mas discutirmos sobre o papel dos efeitos sonoros nas mesmas construções. Muitas vezes os diálogos acabam se tornando efeitos e, em outras, os efeitos se tornam vozes, como na animação “Wall-E” (2003). Mas como chegamos ao que ouvimos hoje nos filmes? Como o desenvolvimento tecnológico inerente às produções cinematográficas afetou a estética sonora dos filmes?
Cinema e tecnologia sempre andaram juntas, uma vez que os realizadores encontraram nas próprias ferramentas (como câmeras, gravadores, etc.) um arcabouço de possibilidades para sua criação. No primeiro momento, a vontade de representar imagens em movimento ou adicionar a elas uma camada sonora movimentou uma corrida tecnológica para viabilizar essas criações, como aconteceu nas primeiras décadas do cinema. Em outro momento, o desenvolvimento da informática instigou as criações sintéticas de imagens e sons. Mas antes de dissertarmos sobre esses momentos específicos no desenvolvimento da estética do som cinematográfico em paralelo à história do cinema, começaremos com a seguinte pergunta: Onde estamos hoje?
Uma maneira interessante de começarmos esse capítulo, que traçará um panorama histórico do desenvolvimento som no cinema e do uso dos efeitos sonoros nas produções audiovisuais, é analisarmos onde estamos hoje de acordo com o desenvolvimento tecnológico e estético do som no âmbito da criação e da reprodução para, na sequência, resgatarmos o caminho que nos trouxe até aqui. O contexto a partir do qual percebemos a produção cinematográfica no momento em que escrevemos21 esse texto se insere nos meios digitais, que acompanham a produção de ponta a ponta, um cinema digital em todas as suas instâncias. Em sua grande maioria, e independente dos orçamentos, os filmes são produzidos utilizando-se câmeras digitais e gravadores de som digitais. Os filmes são editados e finalizados completamente em meios digitais com softwares de edição de imagem, edição de som, correção de cor, animação, composição e criações gráficas em geral. Diferente de
21É importante ressaltar que o desenvolvimento das tecnologias têm modificado o fluxo de produção de maneira acelerada e pode ser que em um futuro muito breve os meios de produção possam ter sido modificados.
outros momentos na história do cinema, essas tecnologias estão disponíveis não só para os profissionais da indústria cinematográfica ou projetos com recursos financeiros abundantes. Essas ferramentas estão disponíveis para uma parcela muito maior de pessoas, que com câmeras e gravadores simples e de boa qualidade ou mesmo com seus smartphones, ganharam a possibilidade de produzir filmes, experimentar a linguagem e se expressar.
Mas porque o futuro é tão brilhante? Porque pela primeira vez na história dessa forma de arte, filmes podem realmente ser feitos com muito pouco dinheiro. Isso não era escutado quando eu estava crescendo e filmes de baixos orçamentos extremos tem sido sempre a exceção ao invés da regra. Agora, é o contrário. Você consegue capturar imagens lindas com câmeras acessíveis. Você pode gravar som. Você pode editar, mixar e corrigir cor em casa. Isso tudo aconteceu. (SCORSESE, 2014)22
A carta de SCORSESE fala sobre o "futuro" do cinema, no qual a tecnologia e o comportamento social mudaram as maneiras como os filmes são produzidos e a maneira como são consumidos. Tanto é possível produzir com qualidade utilizando muito poucos recursos quanto ganhar visibilidade nas criações audiovisuais a partir de diversos meios de reprodução que não se limitam somente às telas de cinema. O contexto atual é um momento em que o consumo de filmes e vídeos, de uma maneira geral, acontece nas televisões, nos
smartphones, tablets, computadores. E, por outro lado, a tecnologia de streaming permite
que eventos esportivos e até mesmo concertos musicais possam ser assistidos em transmissão ao vivo, em alta definição e com som imersivo dentro das salas de cinema. As câmeras cada vez menores, mais acessíveis e ainda assim com resoluções extraordinárias, toma conta dos meios de consumo e criação. No som, mais especificamente na música, encontramos a possibilidade de termos uma biblioteca imensa de músicas na palma de nossas mãos23 com alta qualidade de reprodução e uma busca por melhorias constantes nos sistemas de reprodução de som através dos fones de ouvido ou sistemas de alta fidelidade até mesmo portáteis. É possível gravar com fidelidade utilizando-se gravadores compactos. As pessoas podem ter em casa uma experiência sonora antes possível apenas nas salas de cinema, através dos Home Theaters com sistemas surround até mesmo com Dolby Atmos.
22 Tradução livre de um trecho da carta aberta de Martin Scorsese publicada em 07/01/2014, segue texto original: “So why is the future so
bright? Because for the very first time in the history of the art form, movies really can be made for very little money. This was unheard of when I was growing up, and extremely low budget movies have always been the exception rather than the rule. Now, it’s the reverse. You can get beautiful images with affordable cameras. You can record sound. You can edit and mix and color-correct at home. This has all come to pass. Disponível em http://www.indiewire.com/article/martin-scorsese-explains-why-future-of-film-is-bright-in-open-letter-to-
Outro meio que tem influenciado essas modificações culturais no consumo e estética sonora é o desenvolvimento acelerado dos Games (jogos digitais), com elevado nível de qualidade de reprodução e a possibilidade de criações imersivas e interativas para os players. Em resumo, o consumo midiático influência a própria produção cinematográfica e isso não é algo novo, SERGI (2002) aponta essa relação direta entre o referencial auditivo e as modificações no processo de criação. Em seu artigo "O Playground Sônico de Hollywood e Seus Ouvintes"24, o autor disserta sobre as modificações na cultura auditiva de acordo com o aparecimento dos sistemas "hi-fi" (de alta-fidelidade) de reprodução musical e como isso afetou a produção cinematográfica para atender essa demanda de qualidade auditiva dos ouvintes.
Isto significava duas coisas: Primeiramente, Hollywood teve que "alcançar" a qualidade sonora (na verdade, isto é algo que aconteceu a intervalos regulares desde o começo de som no cinema), precisava reagir para ganhar a mesma atração auditiva em plateias jovens que as novas tecnologias de consumidor pareciam ter. Em segundo lugar, e mais importante, esta reação teria que negociar com as crescentes expectativas auditivas, nascidas da disponibilidade de meios crescentemente sofisticados de reprodução de som que aquela mesma plateia jovem estava trazendo para o cinema. Talvez não surpreendentemente, estes dois aspectos chave eram perfeitamente claros nas mentes e intentos da geração emergente de cineastas como Lucas, Spielberg, Coppola e etc. Eles entenderam a relação crucial que existe entre expectativas auditivas nascidas fora da sala de cinema e o que o som dos filmes de Hollywood filme poderia oferecer a seus ouvintes. (SERGI, 2002, p.??)