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Para Quijano (2005), o eurocentrismo é a racionalidade própria da atual hegemonia que é constituída pelo padrão de poder “capitalista colonial/moderno e eurocentrado” (QUIJANO, 2005, p. 107), que tem como um dos principais pilares de

sustentação a ideia de raça, que legitimava a dominação exercida pelos europeus sobre outros povos na América durante o Período Colonial, mas que permanece até hoje ainda como sustentáculo do poder hegemônico atual.

A concepção de raça só foi criada no contato dos conquistadores europeus com as terras que viriam a ser chamadas de América. Por eles foram dadas identidades raciais primeiramente aos diversos povos que eram conquistados e colonizados, e depois ao restante das pessoas do mundo. Foi então que categorias como negros, amarelos, índios e o próprio branco surgiram. A categoria branca foi construída numa oposição direta com a negra, na área britânico-americana, onde a codificação das raças passou a ser por cor, que foi considerada a característica racial mais representativa, pois os negros eram as principais pessoas exploradas nesse local e também “a raça colonizada mais importante, já que os índios não formavam parte dessa sociedade colonial” (QUIJANO, 2005, p. 107).

Uma vez que os europeus passaram a dominar esses povos, exercendo poder sobre eles, as categorias raciais foram hierarquizadas e associadas a determinadas funções, condições comportamentais e lugares. Dessa forma, a raça do sujeito se tornou a essência do que ele era, definindo sua posição e papeis sociais, e, por isso mesmo, naturalizando e legitimando a dominação que era exercida pelos brancos europeus sobre as demais raças do mundo, que eram vistas como inferiores. (QUIJANO, 2005).

Em contrapartida, “a escravidão, a servidão, a pequena produção mercantil, a reciprocidade e o salário” (QUIJANO, 2005, p. 107), ou seja, as diferentes maneiras de se explorar os trabalhadores e de exercer o controle sobre o que era produzido, foram todas ligadas ao capital e ao mercado que agora passava a ser mundial. Entretanto, essas formas de exploração não constituíam uma mera reprodução do que havia anteriormente à era moderna, mas eram novas, pois, pela primeira vez, foram associadas e organizadas para satisfazer as necessidades do mercado mundial; porque se articulavam umas às outras por estarem todas ligadas ao capital; e porque elas foram reconfiguradas para se ajustarem às novas funções à que estavam designadas. Como afirma Quijano (2005, p. 108)

Na medida em que aquela estrutura de controle do trabalho, de recursos e de produtos consistia na articulação conjunta de todas as respectivas formas historicamente conhecidas [de controle/exploração do trabalho], estabelecia- se, pela primeira vez na história conhecida, um padrão global de controle do trabalho, de seus recursos e de seus produtos. E enquanto se constituía em torno de e em função do capital, seu caráter de conjunto também se

estabelecia com característica capitalista. Desse modo, estabelecia-se uma nova, original e singular estrutura de relações de produção na experiência histórica do mundo: o capitalismo mundial.

As categorias raciais que foram criadas no contato dos europeus com outros povos do mundo foram ligadas a essas novas formas de controle do trabalho/produção, também num modelo hierárquico. Às pessoas racializadas pelos europeus como negros e negras, foi reservada a mais baixa das atividades, a escravidão. Muitos índios foram renegados à servidão, ou então poderiam perpetuar as formas de reciprocidade que já praticavam; e, de acordo com Paiva (1982), vários jesuítas apoiavam a sujeição do índio não por meio da escravidão, mas através do aldeiamento, onde a cultura portuguesa, incluindo a religiosidade, poderia ser transmitida para eles. Os mestiços, filhos de homens brancos com escravas negras, que tinham pele clara, por vezes podiam executar atividades comuns aos brancos europeus serviçais ou aquelas em que fosse necessário ter algum destreza e maestria específica; mas ainda assim sofriam com a opressão do racismo, ao terem suas funções deslegitimadas por serem descendentes de pessoas negras escravizadas e por partilharem da mesma condição escrava dos negros. (QUIJANO, 2005).

Por sua vez, os brancos europeus podiam receber salários pelos trabalhos que faziam e podiam produzir mercadorias de forma independente, enquanto os cargos mais elevados de governança eram ocupados pelos brancos europeus de sangue nobre. (QUIJANO, 2005).

Essa categorização das pessoas por raça foi levada a cabo pelos europeus por todo o mundo. Desse modo, surgiram outras identidades raciais, como os amarelos, também chamados de asiáticos. Todas essas classificações racistas foram continuamente sendo associadas àquelas formas de controle do trabalho/produção. Dessa maneira, quem controlava o trabalho/produção controlava, simultaneamente, grupos sociais racializados específicos. Ou seja, a relação raça/trabalho se tornou uma tecnologia de poder usada para exercício do poder sobre determinados grupos de pessoas pela raça dominante, a branca/europeia. (QUIJANO, 2005).

Essa associação do trabalho não-remunerado com as raças consideradas inferiores, vistas como indignas de receber pagamento e com o dever de servir os dominadores, e do trabalho assalariado como privilégio e direito exclusivo da raça tomada como superior e digna, a branca, fez com que o modo de exploração baseado na mercantilização do trabalho ficasse concentrado geograficamente na Europa, e socialmente nos brancos europeus pelo mundo, o que serviu de base para a

“concentração da produção industrial capitalista durante mais de dois séculos” (QUIJANO, 2005, p. 109).

Dessa forma, a colonialidade foi constitutiva do novo padrão de poder mundial que se estabelecia, pois a relação capital-trabalho assalariado era o eixo ao qual todas as outras formas de exploração do trabalho se ligavam e o que exercia domínio sobre todas elas; sendo que todas essas diferentes maneiras de explorar o trabalho estavam associadas a raças específicas, de modo que os brancos europeus exerciam poder sobre os demais grupos sociais racializados. “E nessa medida e dessa maneira, a Europa e o europeu se constituíram no centro do mundo capitalista. [...] O capitalismo mundial foi, desde o início, colonial/moderno e eurocentrado” (QUIJANO, 2005, p. 110).

O centramento da hegemonia na Europa e a extensão de seu poder sobre o restante da população do mundo levaram à criação, pelos europeus, de novas identidades de caráter geocultural para os colonizados, sempre numa oposição aos colonizadores. Assim surgiram primeiro identidades americanas e europeias, nessa ordem, depois africanas, asiáticas e oceânicas. Entretanto, foi a invenção do Oriente que se tornou o grande Outro do Ocidente, incorporando toda uma grande diversidade de povos e culturas numa só categoria. (QUIJANO, 2005).

A incorporação de tão diversas e heterogêneas histórias culturais a um único mundo dominado pela Europa, significou para esse mundo uma configuração cultural, intelectual, em suma intersubjetiva, equivalente à articulação de todas as formas de controle do trabalho em torno do capital, para estabelecer o capitalismo mundial. Com efeito, todas as experiências, histórias, recursos e produtos culturais terminaram também articulados numa só ordem cultural global em torno da hegemonia europeia ou ocidental. Em outras palavras, como parte do novo padrão de poder mundial, a Europa também concentrou sob sua hegemonia o controle de todas as formas de controle da subjetividade, da cultura, e em especial do conhecimento, da produção do conhecimento. (QUIJANO, 2005, p. 110).

Três procedimentos foram executados para condicionar a dominação europeia sobre a intersubjetividade dos diferentes povos das novas América, África, Oceania e Ásia: (1) tomada dos conhecimentos produzidos pelos colonizados que poderiam servir para a colonização efetuada pela Europa; (2) repressões em diferentes medidas da liberdade de produção e reprodução de práticas significantes que mantivessem vivas as culturas desses diferentes povos; (3) tentativas em diferentes medidas de direcionamento do comportamento dos colonizados, de modo a fazê-los internalizar da cultura dos colonizadores tudo que pudesse favorecer à dominação. Esse conjunto

de procedimentos Quijano (2005) diz ter constituído uma colonização da cultura exercida pelos brancos europeus durante a colonização. (QUIJANO, 2005).

O etnocentrismo dos europeus era naturalizado pela operação de racialização dos diversos povos do mundo. Ou seja, a superioridade da cultura europeia e sua ascensão ao posto de padrão, assim como a inferioridade das culturas não-europeias, eram legitimadas através do discurso racista que associava determinados comportamentos e subjetividades a determinadas raças que eram hierarquizadas. Uma das manifestações disso foi a construção europeia de uma História linear que começa de um estado de natureza até chegar à Europa moderna. Todos os povos não-europeus e suas culturas, por serem associados a determinadas categorias raciais que os tornavam inferiores, foram colocados no passado dessa História que tinha como fim a Europa, como se fossem “anteriores aos europeus” (QUIJANO, 2005, p. 111).

De acordo com essa perspectiva [da História], a modernidade e a racionalidade foram imaginadas como experiências e produtos exclusivamente europeus. Desse ponto de vista, as relações intersubjetivas e culturais entre a Europa, ou, melhor dizendo, a Europa Ocidental, e o restante do mundo, foram codificadas num jogo inteiro de novas categorias: Oriente-Ocidente, primitivo-civilizado, mágico/mítico-científico, irracional- racional, tradicional-moderno. Em suma, Europa e não-Europa. [...] Sob essa codificação das relações entre europeu/não-europeu, raça é, sem dúvida, a categoria básica. (QUIJANO, 2005, p. 111).

Conforme os brancos europeus iam estabelecendo seu poder sobre outros povos, esse modo eurocêntrico de pensar a história das diversas populações mundiais se tornou hegemônica, sempre se baseando num evolucionismo cultural e num dualismo que se fundamenta na diferença racial, ambos os quais estão no cerne do eurocentrismo. (QUIJANO, 2005).

Entretanto, para Quijano (2005), a modernidade não é uma exclusividade da Europa, pois não é produção sua e não se restringe a ela, como se os europeus fossem os únicos modernos do mundo. Entretanto, do mesmo modo, não é a modernidade um fenômeno presente em todas as culturas ao longo do tempo. De acordo com o autor, o que tem de ser discutido não é necessariamente quem inventou e detém a exclusividade do fenômeno, mas o que há de único e novo que caracteriza a modernidade como um fenômeno diferente de qualquer outro. Para Quijano (2005, p. 112-113), estas são as principais proposições que demonstram a constituição da modernidade como um fenômeno desenvolvido historicamente que é “específico do atual sistema-mundo”:

Em primeiro lugar, o atual padrão de poder mundial é o primeiro efetivamente global da história conhecida. Em vários sentidos específicos. Um, é o primeiro em que cada um dos âmbitos da existência social estão articuladas todas as formas historicamente conhecidas de controle das relações sociais correspondentes, configurando em cada área um única estrutura com relações sistemáticas entre seus componentes e do mesmo modo em seu conjunto. Dois, é o primeiro em que cada uma dessas estruturas de cada âmbito de existência social está sob a hegemonia de uma instituição produzida dentro do processo de formação e desenvolvimento deste mesmo padrão de poder. Assim, no controle do trabalho, de seus recursos e de seus produtos, está a empresa capitalista; no controle do sexo, de seus recursos e produtos, a família burguesa; no controle da autoridade, seus recursos e produtos, o Estado-nação; no controle da intersubjetividade, o eurocentrismo. Três, cada uma dessas instituições existe em relações de interdependência com cada uma das outras. Por isso o padrão de poder está configurado como um sistema. Quatro, finalmente, este padrão de poder mundial é o primeiro que cobre a totalidade da população do planeta.

Desse modo, todas as pessoas do mundo participam de um sistema-mundo que cobre todo o globo terrestre, não no sentido de que esse sistema apaga todas as outras formas de ser e estar no universo e nem todas as outras estruturas sociais e visões de mundo, mas no sentido de que se impõe como padrão a ser seguido por todos, ao definir a intersubjetividade modelo para o conjunto das pessoas e o campo de atuação onde as práticas sociais se dão. Dessa forma, a modernidade não é uma exclusividade da Europa ou do Ocidente, mas abriga toda a população do mundo, ao vincular toda ela ao novo padrão de poder eurocentrado, colonial/moderno e capitalista. (QUIJANO, 2005).

Nesse sistema-mundo, a nova subjetividade que se constitui tem como base a “percepção da mudança histórica” (QUIJANO, 2005, p. 113). É a partir disso que se torna possível visualizar o futuro no hoje, o que faz com que as mudanças no mundo moderno não sejam percebidas como possuindo um fluir espontâneo, natural ou divinamente projetado, mas sejam pensadas e produzidas pelos sujeitos sociais que são vistos como os próprios impulsionadores e criadores das transformações. Com isso, as instituições, o passado, o poder, são todos dessacralizados, tornados instáveis, de modo que podem ser constantemente repensados e mudados. É nesse contexto em que a individualidade vai ser valorizada, pois é o indivíduo que pensa e transforma as estruturas. Nesse sentido, a igualdade social se torna desejável, e a “existência social das pessoas é continuamente democratizada” (QUIJANO, 2005, p. 114).

Contudo, esse novo sistema-mundo tem como centro hegemônico a Europa, por isso aquela perspectiva evolucionista da História, lá criada, foi disseminada, imposta e aceita; e por isso há uma colonialidade do poder empreendida pela Europa

que, como visto, centralizou a relação capital-salário, submetendo os outros povos ao vinculá-los a outras formas de exploração do trabalho, todas as quais se ligavam ao capital e se tornavam uma tecnologia de poder. (QUIJANO, 2005).

Aí, encontra-se uma contradição, pois a mesma modernidade que permite um maior espaço de possibilidades de liberdade para os sujeitos, que lhes dá o vislumbre da igualdade social, que lhes permite sonhar com um mundo mais justo e questionar os padrões de poder que lhes subjugam; é a mesma modernidade que desde o seu início é colonial, capitalista e eurocentrada, onde a igualdade é limitada pelos interesses do capital, que se baseia justamente na exploração e dominação. Isso tem implicações diretas na cidadania, democracia e nacionalização dos Estados-nação. (QUIJANO, 2005).

Conforme Quijano (2005), o Estado-nação moderno é uma estrutura de poder, onde um poder político central e estável se impõe sobre determinado espaço geográfico, cuja delimitação se perpetua durante um grande período de tempo, e sobre as pessoas que estão localizadas nesse espaço. Dessa forma, a constituição do Estado-nação está associada ao processo de nacionalização que só ocorre quando uma população se reúne em certo território de forma estável.

O que garante o sentimento de pertencimento ao Estado-nação entre os seus membros, ou seja, o que garante a cidadania, é o compartilhamento entre todos de algo em comum que os identifique com o Estado-nação. “E isso, em todos os reais Estados-nação modernos, é uma participação mais ou menos democrática na distribuição do controle do poder. Esta é a maneira específica de homogeneização das pessoas num Estado-nação moderno” (QUIJANO, 2005, p. 119).

Entretanto, nos países da América Latina, os grupos dominantes brancos não compartilhavam com os demais grupos raciais interesses em comum que pudessem fortalecer o sentimento de unidade, justamente porque o interesse dos primeiros era garantir a manutenção de seus privilégios por meio da exploração e domínio desses últimos. Os grupos dominantes brancos tendiam muito mais a enxergar seus interesses como similares aos dos brancos dominantes dos países europeus e norte- americanos. Entretanto, a colonialidade do poder que os fazia se identificarem com os brancos da Europa e dos Estados Unidos, que então estavam industrializando cada vez mais os seus países e passando a expandir a mão-de-obra assalariada em detrimento às outras formas de exploração do trabalho, era a mesma colonialidade do poder que fazia com que eles perpetuassem a escravidão e servidão, uma vez que

eram essas as condições específicas que garantiam suas posições como senhores. Quando a escravidão foi abolida, não foi para que os escravos que foram libertos passassem a receber salários, mas para que eles fossem substituídos por imigrantes da Europa e Ásia, esses sim com direito a serem trabalhadores assalariados. (QUIJANO, 2005).

O processo de industrialização da América Latina também se deu de forma dependente dos países europeus e norte-americanos, pois com a crise de 1930, viu- se a necessidade de industrializar os países, de modo a garantir a produção de mercadorias que os grupos dominantes brancos latino-americanos consumiam da Europa para ostentar sua posição privilegiada na sociedade. Desse modo, a industrialização e assalariamento não significaram um fim real da subordinação dos grupos raciais considerados inferiores aos grupos dominantes brancos, pois a colonialidade do poder foi perpetuada. Como afirma Quijano (2005, p. 123-124):

Neste sentido, o processo de independência dos Estados na América Latina sem a descolonização da sociedade não pôde ser, não foi, um processo em direção ao desenvolvimento dos Estados-nação modernos, mas uma rearticulação da colonialidade do poder sobre novas bases institucionais. Desde então, durante quase 200 anos, estivemos ocupados na tentativa de avançar no caminho da nacionalização de nossas sociedades e nossos Estados. Mas ainda em nenhum país latino-americano é possível encontrar uma sociedade plenamente nacionalizada nem tampouco um genuíno Estado-nação. A homogeneização nacional da população, segundo o modelo eurocêntrico de nação, só teria podido ser alcançada através de um processo radical e global de democratização da sociedade e do Estado. Antes de mais nada, essa democratização teria implicado, e ainda deve implicar, o processo da descolonização das relações sociais, políticas e culturais entre as raças, ou mais propriamente entre grupos e elementos de existência social europeus e não europeus. Não obstante, a estrutura de poder foi e ainda segue estando organizada sobre e ao redor do eixo colonial. A construção da nação e sobretudo do Estado-nação foram conceitualizadas e trabalhadas contra a maioria da população, neste caso representada pelos índios, negros e mestiços. A colonialidade do poder ainda exerce seu domínio, na maior parte da América Latina, contra a democracia, a cidadania, a nação e o Estado- nação moderno.

Diante disso, percebe-se que a questão da raça no padrão de poder capitalista, eurocentrado e colonial/moderno que se perpetua até os dias atuais, é primordial no impedimento de uma real nacionalização das sociedades latino-americanas baseada na democratização e cidadania, pois nesses locais permanecem as relações coloniais onde o poder é exercido pela “raça” dominante branca sobre as demais, de modo que seria necessária uma descolonização dos grupos raciais e uma redistribuição do poder de forma democrática para uma real nacionalização e constituição legítima dos Estados-nações. (QUIJANO, 2005).