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os mitos, o mito é uma narrativa fantástica que possui uma estrutura que se repete em diversas sociedades, muito embora haja as variações próprias na superfície que contribuem para que cada grupo de pessoas tenha uma versão própria do mito. Dito de outro modo, aos mitos subjazem narrativas mínimas que são reiteradas em diferentes culturas, embora tais narrativas sejam revestidas figurativamente de maneira diferenciada, de acordo com o local/contexto em que elas são produzidas.

Para Camargo (2011), o mito é um produto da cultura e não é necessariamente uma mentira ou algo falso que tenta esconder e suprimir uma verdade, como quer muitas vezes o senso comum; para ele, o mito é real na medida em que nasce de relações sociais existentes e no passo em que influi nessas relações sociais. Entretanto, consideramos um pouco problemática essas duas últimas afirmações, pois elas recaem na teoria reflexiva da representação, que rejeitamos neste trabalho; o próprio Camargo (2011) chega a citar Lévi-Strauss (2008 apud CAMARGO, 2011, p. 73, grifo nosso) ao dizer que “a mitologia é considerada um reflexo da estrutura social e das relações sociais”. A primeira ideia do mito como produto das relações existentes entre as pessoas de uma sociedade normatiza o mito como um reflexo de algo já

estabelecido nesse grupo ou do próprio grupo já estabelecido; enquanto, por outro lado, a ideia de relações sociais influenciadas pelo mito considera a sociedade como reflexo dessa narrativa já existente antes e que supostamente, para alguns, está enraizada de maneira inabalável no íntimo do ser-humano.

Acreditamos que o mito não simplesmente influencia a sociedade ou nasce dela, mas que é parte de sua constituição como algo que possui uma existência com sentido. Quando, por exemplo, uma personalidade midiática como Andressa Urach17, por ser tão obcecada com sua aparência física, quase morre após injetar hidrogel nas pernas para lhes dar uma aparência musculosa, nem ela nem nós que acompanhamos sua história estamos sendo simplesmente influenciados pelo mito grego do Narciso que se afogou por estar apaixonado por sua própria beleza; a história dela é o mito vivo, confirmando mais uma vez que o amor pelo mundo material e pelos desejos da carne nos leva à perdição.

Dado o exposto, podemos conjecturar que talvez aqueles dois pensamentos acerca do mito se deem devido, primeiro, ao método estruturalista que parte de uma perspectiva indutiva, analisando as várias versões do mito até achar a narrativa básica que “estrutura” todos eles, o que dá a noção de que os mitos “nascem da sociedade” como se ela já formada intentasse agora produzir uma narrativa sobre si ou para si mesma. E, talvez, por outro lado, os resultados atingidos através desse método estruturalista acabam servindo para que outro pesquisador, por meio agora de uma abordagem dedutiva, tente encaixar determinada sociedade naquela estrutura que foi encontrada anteriormente, o que dá a aparência de que a estrutura do mito influenciou a sociedade estudada. Porém, esses são métodos científicos criados em determinados contextos para explicar a sociedade, e seus passo a passos apresentados nos textos finais de pesquisas publicadas nem sempre podem ser encontrados de maneira fiel no comportamento cotidiano das pessoas fora da academia.

A abordagem reflexiva da representação parece se fazer presente também no pensamento exposto por Camargo (2011, p. 73), quando ele defende que “o mito é

17 Andressa Urach, nascida no Rio Grande do Sul em 1987, em sua biografia, relata que era uma

prostituta de luxo, e tinha o dinheiro como seu deus, pois devido ao seu passado na pobreza

acreditava que se tornar rica era a única coisa que poderia a fazer feliz. Ela foi ganhadora do título de Miss Bumbum. Fez ensaios sensuais e nus. Ela se submeteu a diversas cirurgias plásticas e, quando aplicou hidrogel nas pernas, ficou com uma infecção generalizada que a deixou em coma na UTI por vários dias. Após quase morrer, ele afirmou ter tido um encontrou com Deus, e hoje é evangélica. (URACH; TAVOLARO, 2015)

um texto que estrutura outros textos”, sem considerar que esses “outros textos” não estão apenas sendo organizados e estruturados por uma historinha externa e primeira, mas, na medida em que são construídos da forma que são, se constituem em uma nova versão do mito, mesmo embora não sejam representados por meio de palavras escritas ou faladas.

De acordo com Lévi-Strauss (2012), o mito é da ordem da linguagem, porém funciona num nível mais elevado. Assim como há fonemas, morfemas e semantemas na estrutura linguística, sendo cada um deles mais complexo que seu anterior, há também os mitemas que são as grandes unidades constitutivas do mito.

Lévi-Strauss (2012) elaborou um método para analisar os mitos, o qual acabava com a necessidade que muitos estudiosos de sua época tinham de “achar” o sentido do mito através da identificação de sua primeira versão inventada. O método de Lévi- Strauss (2012) leva em consideração as variadas versões do mito na definição de determinado mito. Esse método consiste em apresentar cada versão do mito a partir das suas unidades constitutivas distribuídas horizontalmente, da direita para a esquerda, formando colunas enumeradas a partir do numeral 1. Cada versão do mito é posicionada uma abaixo da outra, ou seja, verticalmente, formando linhas. Assim, o mito apresenta um caráter diacrônico na vertical, e um caráter sincrônico na horizontal, pois cada uma das unidades constitutivas posicionadas na mesma coluna devem possuir um traço em comum que as agrupam como um feixe.

Para Lévi-Strauss (2012), não interessa quão aparentemente deformada é uma versão do mito ou o quão ruim é sua tradução, ela ainda faz parte do mito, e “o mito continua sendo mito enquanto for percebido como tal” (LÉVI-STRAUSS, 2012, p. 233). Campbell (1997) também afirma que é possível que uma versão do mito não apresente alguma das unidades constitutivas, mas que isso não deve ser pensado como algo que a invalida enquanto uma narrativa mítica; pode ser que essa aparente ausência apenas seja causada pela falta de percepção do pesquisador e de certa forma uma unidade constitutiva esteja implícita, mas passível de ser reconhecida por meio de um procedimento denominado catálise (pressuposição); ou então, a falta de um desses elementos básicos vai ajudar a dar sentido à história, pois a ausência também significa.

Para Henderson (2008), o mito do herói é o mais conhecido no mundo. Ele está presente em muitos lugares, na mitologia grega, nas etnias africanas, no cinema e na literatura com seus personagens como o Super-Homem e Harry Potter, em textos

jornalísticos sobre os jovens pobres que venceram na vida, na vida de Jesus Cristo, só para citar alguns poucos. De acordo com Campbell (1997, p. 17-18):

O percurso padrão da aventura mitológica do herói é uma magnificação da fórmula representada nos rituais de passagem: separação-iniciação-retorno que podem ser considerados a unidade nuclear do monomito. Um herói vindo do mundo cotidiano se aventura numa região de prodígios sobrenaturais; ali encontra fabulosas forças e obtém uma vitória decisiva; o herói retorna de sua misteriosa aventura com o poder de trazer benefícios aos seus semelhantes.

Essas três unidades separação/partida-iniciação-retorno, cada uma delas é dividida em partículas menores que a elas pertencem, formando no total dezessete etapas que compõem o mito do herói, que, conforme Campbell (1997), são discretizadas do seguinte modo:

A partida possui as partes: (1) o chamado para a aventura, ou os indícios da vocação do herói; (2) a recusa do chamado, ou a temeridade de se fugir do Deus; (3) o auxílio sobrenatural, a assistência insuspeitada que vem ao encontro daquele que leva a efeito sua aventura adequada; (4) a passagem pelo primeiro limiar e (5) o ventre da baleia, ou passagem para o reino da noite.

A iniciação contempla: (6) o caminho de provas, ou aspecto perigoso dos deuses; (7) o encontro com a deusa (Magna Mater), ou a bênção da infância recuperada; (8) a mulher como tentação, a realização e agonia do destino de Édipo; (9) a sintonia com o pai; (10) a apoteose e (11) a bênção última. [...] O retorno abriga: (12) a recusa do retorno, ou o mundo negado; (13) a fuga mágica, ou a fuga de Prometeu; (14) o resgate com auxílio externo; (15) a passagem pelo limiar do retorno, ou o retorno ao mundo cotidiano; (16) senhor dos dois mundos e (17) a liberdade para viver, a natureza e função da bênção última. (CAMPBELL, 1997, p. 20-21, adaptado).

Assim como outros estudos sobre mitos, Campbell utilizou um método estruturalista em sua pesquisa, observando as versões do mito de várias sociedades para sistematizar essa narrativa essencial que as estrutura. (CAMPBELL, 1997).

Durante a etnografia que realizamos junto aos sujeitos colaboradores da pesquisa na internet, percebemos temas similares que apareceram frequentemente nas postagens. Esses temas, em conjunto, contribuíam para a construção de uma narrativa acerca dos negros e negras descendentes da diáspora ocorrida no período da escravidão: uma narrativa fantástica, mas não menos factual, sobre um passado glorioso do negro na África que é interrompido quando ele é trazido à força para o Brasil (partida), sobre sua vida sofrida e cheia de lutas longe de suas origens e submetido ao racismo e sobre sua vitória contra o racismo e eurocentrismo (iniciação) e sobre a volta simbólica a um corpo, cultura e religiosidade anteriores à colonização, e a recuperação da liberdade (retorno).

De publicação em publicação, foi-se percebendo que aquelas pessoas compartilhavam uma narrativa mítica na qual o negro era o herói e não mais o escravo

dos heróis brancos colonizadores. Entretanto, essa narrativa não vinha necessariamente em forma de um único texto escrito contendo toda a história do começo ao fim, mas se perpetuava e se fazia existir em vários posts sobre assuntos diferentes; alguns posts às vezes apresentavam apenas um ou outro mitema, mas no conjunto eles contribuíam para a construção de uma identidade negra heroica e triunfante, na qual o vestuário também tem uma participação muito importante não apenas como reflexo do mito, mas como parte de sua construção.

Nas próximas subseções, exploraremos mais detalhadamente/detidamente a construção da narrativa mítica do Negro Herói pelas pessoas que participaram da pesquisa, propondo o estabelecimento de uma relação entre a teoria já apresentada por Campbell (1997) e os dados obtidos na etnografia, e mostrando, desse modo, as particularidades da versão do mito do herói que é compartilhada entre os sujeitos que identificamos como formadores de um movimento da negritude devido às suas práticas e visões de mundo em comum que valorizam a negritude e buscam um retorno aos comportamentos do passado negro e africano.

Reiteramos o fato de as fases do mito do herói não necessitarem se alinhar perfeitamente à proposta de Campbell (1997). Isso significa que o quadro de base que ele estipulou é também um simulacro, um modelo de previsibilidade e, portanto, o que não se encontra nele, ou o que a partir dele se expande, produz sentidos, como já dissemos. Numa pesquisa empírica e indutiva, como a nossa, podemos acabar por não encontrar alguma fase, e/ou acrescentarmos ao modelo (de previsibilidade, apenas) alguma outra fase, ou ainda não apresentá-las de maneira tão linear.