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De acordo com Kozinets (2010), outros métodos de análise podem ser adicionados à netnografia, os quais podem trazer novos insights e pontos de vista acerca do objeto de estudo. Esses métodos adicionais, entretanto, devem estar em conjunto com uma observação-participante longa e imersiva que está na base do fazer netnográfico. Visto isso, decidimos incluir a semiótica discursiva (FIORIN, 1995; FIORIN, 2013; GREIMAS, COURTÉS, 1979) como método para análise de dados. Entretanto, não aplicamos a semiótica em todos os posts analisados, mais em algumas publicações em que consideramos relevante ou tendo em mente várias publicações e experiências vivenciadas ao mesmo tempo, pois de outra forma seria necessário um gasto muito grande de tempo e espaço.

Segundo a semiótica discursiva, há três níveis de análise a serem realizados: o nível fundamental, o nível narrativo e o nível discursivo. Cada um desses níveis possui um componente sintático e semântico, e eles se configuram como passos da análise que, em conjunto, formam o percurso gerativo de sentido, que se inicia com os aspectos mais simples e abstratos até chegar àqueles mais complexos e concretos. Cada um dos níveis e seus respectivos aspectos sintáxicos e semânticos serão explicados nas próximas subseções.

4.2.1 Nível fundamental

Na semântica do nível fundamental, deve-se abstrair ao máximo o objeto de análise para extrair dele os valores mais profundos que engendram os sentidos, dando base a todo o texto.

Esses valores semânticos devem ser analisados num quadrado semiótico, numa relação de contrariedade, subcontrariedade, contradição e complementariedade – por isso a denominação de “sintaxe”. “São contrários os termos que estão em relação de pressuposição recíproca” (FIORIN, 2013, p. 22); a negação dos contrários gera os subcontrários que estão em situação de contraditoriedade com os objetos valores que negam. Cada subcontrário está em uma situação de complementariedade com o objeto valor contrário ao que negou.

Depois de realizada essa operação, parte-se para verificar como cada um dos valores recebem uma valoração eufórica ou disfórica, conforme a intencionalidade apresentada no texto que está sendo tomado para a realização da análise. De tal leitura sobre os termos, depreende-se a axiologização do texto, isto é, o que é, de acordo com o seu discurso, positivo e o que é negativo. (FIORIN, 1995, 2013; GREIMAS, COURTÉS, 1979).

Com relação ao empreendimento analítico que deve ser feito na sintaxe do nível fundamental, Fiorin (2013) afirma o seguinte:

A sintaxe do nível fundamental abrange duas operações: a negação e a asserção. Na sucessividade de um texto, ocorrem essas duas operações, o que significa que, dada uma categoria tal que a versus b¸ podem aparecer as seguintes relações: (1) afirmação de a, negação de a, afirmação de b; (2) afirmação de b, negação de b, afirmação de a.

4.2.2 Nível narrativo

De acordo com Fiorin (1995, 2013), na sintaxe do nível narrativo, observa-se qual o percurso feito pelo sujeito para transformar um estado inicial para outro estado, considerando que a narratividade é um componente de todo texto. O movimento pode ser de um estado de conjunção inicial com um objeto valor para um estado de disjunção com esse objeto valor ou vice-versa. Essa transformação apresenta uma narratividade que se dá em 4 etapas, as quais compõem o programa narrativo canônico que é uma previsibilidade, um modelo possível, para analisar as ações humanas:

a) manipulação: nessa fase da sequência canônica, um sujeito manipulador age sobre o sujeito do fazer, persuadindo-o a querer ou dever fazer algo em específico. Essa manipulação pode ocorrer de formas diversas, algumas são: tentação, quando se manipula o sujeito a querer fazer algo, oferecendo-lhe um objeto positivo; intimidação, quando se manipula o sujeito a dever fazer algo ao informar que caso ele não faça terá um objeto negativo; sedução, quando se manipula o sujeito a querer fazer algo, ao construir uma imagem positiva dele; provocação, quando se manipula o sujeito a dever fazer algo, ao construir uma imagem negativa dele;

b) competência: o sujeito é dotado de um poder e/ou saber fazer para realizar o que foi manipulado a fazer;

c) performance: o sujeito entra em conjunção ou disjunção com um objeto valor específico, cumprindo o que foi sugerido que fizesse durante a manipulação ou, ao contrário, realizando outras ações não previstas, caso a manipulação, o fazer fazer, não seja imbuído de valores para ele;

d) sanção: na sanção cognitiva, há um reconhecimento de que o sujeito fez (ou não) algo. Os simulacros, as imagens construídas no ato comunicativo, são mais uma vez acionados (sendo que eles entram em funcionamento desde a manipulação proposta). Se o sujeito é e parece, então ele está no âmbito da verdade; se ele parece, mas não é, então sua performance o levou à mentira; se não é e não parece ser, então alcançou a falsidade; e, por último, se é, mas não parece, então está em segredo (figura 1). Na sanção pragmática, o reconhecimento toma forma de recompensas ou castigos.

Figura 1 - Quadrado semiótico das modalidades veridictórias a partir dos contrários /ser/ e /parecer

Fonte: Barros (1988 apud Balogh, 2002).

Fiorin (2013) apresenta uma explicação simples e eficaz de como se dá a análise semântica do nível narrativo.

A semântica do nível narrativo ocupa-se dos valores inscritos nos objetos. Numa narrativa, aparecem dois tipos de objetos: objetos modais e objetos de valor. Os primeiros são o querer, o dever, o saber e o poder fazer, são aqueles cuja aquisição é necessária para realizar a performance principal. Os segundos são os objetos com que se entra em conjunção ou disjunção na performance principal. [...] O valor do nível narrativo é o significado que tem um objeto concreto para o sujeito que entra em conjunção com ele. (FIORIN, 2013, p. 36-37)

4.2.3 Nível discursivo

Na sintaxe do nível discursivo, deve-se reificar a instauração de pessoa, espaço e tempo, ou seja, analisar se há marcas da enunciação no enunciado. Na semântica do nível discursivo, deve-se definir os temas presentes no discurso, assim como as figuras que dão concretude aos elementos abstratos dos níveis mais profundos do texto.

5 EUROCENTRISMO E RACISMO EM RELAÇÃO AO CORPO NEGRO, À CULTURA NEGRA E ÀS RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS

Nesta seção, inicialmente apresentaremos conceitos mais abstratos e gerais acerca do racismo, do eurocentrismo e do padrão de poder mundial hegemônico e, em seguida, iremos observar algumas das formas concretas dessas relações de poder especificamente no Brasil e, de forma mais aleatória, no mundo.

Muito conhecimento tem sido produzido acerca do racismo e da população negra brasileira. Seria quase impossível acessar todo o material disponível e resumi- lo nas páginas desta dissertação, na verdade, seria dispensável, também, para os fins desse estudo. Resolveu-se, entretanto, apresentar um aprofundamento em questões e pautas em comum levantadas pelos próprios sujeitos desta pesquisa ao longo do tempo que dispendemos juntos deles.

Ao percebemos, portanto, quais eram os assuntos que eram vinculados pelas pessoas negras que participaram do estudo ao consumo de vestuário, buscamos fontes que tratassem desses assuntos, para nos inteirarmos do que tem sido discutido por eles. Isso não deixa de fazer parte da imersão na cultura desse grupo, pois é necessário compartilhar o ponto de vista deles sobre a realidade, para, assim, entendê-los.

Desse modo, fora a subseção sobre colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina, apresentaremos mais três subseções, as quais tratarão respectivamente sobre o eurocentrismo e racismo em relação ao corpo negro, à cultura negra e às religiões afro-brasileiras, que são três temáticas fortemente conectadas com o consumo de vestuário pelo movimento da negritude. Na seção de número 6, nós pensamos em algo semelhante, mas ao invés de tratar especificamente sobre o racismo e eurocentrismo, iremos tratar sobre as táticas de resistência dos negros e negras em relação ao corpo negro, à cultura negra e às religiões afro- brasileira.