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Dans le document Ubuntu Installation Guide (Page 17-22)

D

a leitura de uma entrevista de Boaventura de S. Santos, suponho que ao Jornal de Letras, rétive na memória a sua origem familiar e o percurso de estudante que avisava sua mãe, na hora da partida para outras paragens, da neces- sidade da (ao tempo) muito comum recomendação: «filho, não te metas em políti- cas».

Ciente da importância actuante do sistema de disposições em que se desen- volve a socialização primária, já que o passado continua presente nas disposições que produziu - também nisto partilho da visão determinista-dinâmica (parece, mas não há aqui incompatibilidade) de Bourdieu - resisti, no pensar desta entrevista, à sedução da orientação biográfica.

Se bem que os dados atrás referidos e muitos outros que, por diferentes vias - trata-se de uma figura pública ... basta ir estando atenta - fui acolhendo como in- formação que se me foi tornando pertinente à compreensão política do seu trabalho científico, aconteceu-me (consciente e inconscientemente) desenhar a entrevista, em coerência com o meu encontro teórico com Boaventura de S. Santos que, com a ajuda de Barthes, descrevo em Das Palavras.

Para o desafio de estudar um aspecto da obra de um autor contemporâneo, que está a produzir, era vantajoso, como já se disse, discutir com ele, num primeiro momento, no campo dele. É daí que nasce a entrevista.

Quando, há uns bons anos atrás, já com informação que confirmava as mi- nhas suspeitas e acautelava para a não inocência dos procedimentos tecnico- metodológicos - remetendo-me, em congruência, para uma postura epistemológica crítica, também face à análise de conteúdo - me entreguei a um intenso e extenso exercício de cruzamento de dados provenientes da análise do conteúdo de entrevis- tas, com dados que, ao registo de incidentes críticos se me ofereciam, o sentimento final foi o da grande conveniência de ter passado por este sério e prolongado exercí- cio para se me aclarar a importância da consideração da subjectividade na preten- ção de objectivação esperada do tratamento (clássico) da entrevista. E de como uma intenção mecânica de objectivação, com todo o arsenal técnico que a inflacio- nada e, as mais das vezes, acrítica literatura a esse respeito põe ao nosso dispor, pode ser eficaz no obscurecimento do principal, obliterados que sejam pequenos

nadas na voragem da partição e repartição classificatória de onde saem tecnicamen- te relevantes retalhos com que, abnegadamente, se reconstituem novos todos os

quais, com muita sorte, terão alguma coisa a ver com o todo que a tudo isso deu ori- gem. [Afinal, «o paradigma da Ciência Moderna assenta na obsessão do método e esta obsessão nunca se manifestou com tanta evidência como nas últimas décadas (sobretudo nas ciências sociais)»] (S. Santos, 1987: 82).

Dois anos adiante, confrontava-me com uma daquelas entrevistas que nos mandam arrumar as malas das nossas teorias e das nossas práticas e perguntarmo- nos, muito seriamente, o que é que andamos aqui todos a fazer. Ultrapassado o embate, sentimos a coragem de afrontar o que classicamente se espera do trata- mento académico destas recolhas. A impotência face à brutalidade de condições de vida que, nessa entrevista, desfez a vontade de dela fazer um objecto académico, remetia-nos, vigorosamente, para que ela falava por si, apesar da consciência de a própria transcrição fazer o discurso oral passar por uma transformação decisiva, apagando os gestos, a postura, as mímicas, os olhares, os silêncios.

I É que aqui, nem era preciso investir em deixar claras as condições sociais e os condicionamentos dos quais o autor do discurso é o produto ou seja, a sua trajectória e experiências de vida.

Elas ressaltam, como pedras de uma Intifada, de uma sua leitura sensível. E não podia permitir-se-lhe outra.

Alguns anos de partilha da docência na cadeira de Métodos de Investigação em Educação indicam-me que não se passa incólume por estes incidentes críticos. Eles fortalecem decisivamente a nossa auto-vigilância. E, ou eu tenho tido muita sor- te, ou cada vez é mesmo uma vez singular.

Ora, desta vez, em vez do investimento no exigente (e permanentemente auto-reflexivo) esforço de auto-destituição de poder simbólico inerente a quem, nes- tas coisas da entrevista, tem a iniciativa das "operações" (os cuidados de indevida projecção no alter-ego que é sempre o objecto a transmutar em sujeito da entrevista, funcionavam aqui ao contrário), o mecanismo compensatório da óbvia (e invertida) assimetria de poder simbólico consistiu na organização prévia de questões resultan- tes da preparação que fiz da entrevista. Mas este esgar de violência simbólica foi anulado pelo pedido do meu entrevistado, do envio (com intenções expressas que muito me gratificaram e devolveram auto-confiança) com antecedência, das ques- tões a colocar numa segunda parte da entrevista (R9).

O meu entrevistado, é claro, é também um mestre na arte de bem lidar com todo o instrumental de pesquisa em Ciências Sociais e Humanas.

A demonstração inicial da minha inabilidade técnica para lidar com um sim- ples gravador, que teimava em se manter encravado, não augurava um grande co- meço. E vi-me confrontada com os conselhos de dominar as "máquinas" que costu- mo dar aos meus alunos. Fiquei muito mais à-vontade quando o meu entrevistado, descoberto o botão salvador, agarrou ele no gravador e ... vamos a isto. Aliviada de um tal "fardo técnico", despachei o assunto do meu pressuposto de relação assimé- trica, dando, por completo, o flanco da minha assumida condição one-down. Cartas psicológicas (que não verbais) na mesa e, afinal, a relação foi-se horizontalizando à medida da progressiva explicitação de uma subentendida cumplicidade teórica que é também o núcleo psicológico da "razão desviante" que fez pensar este trabalho: a uma esperada exploração teórica de uma prática reflectida de dentro de um intenso

vivido na intimidade colectiva de grupos onde o crescimento intelectual, reflexiva- mente, fecundava cumplicidades das quais afinal nascia, eu sobreponho que há coi- sas que não são partilháveis fora da densidade do sentir que as gerou ... para que não passem pelo amargo de ser "usadas". A gente dá-se no quotidiano banal dos nossos passos. Não com declarações subtis de que o faz (Q1). E o "desvio" nem o é tanto assim. É mais a sedução pelo do outro lado do espelho.

5,3.

«Dizem que sou muito mais moderno do

que pós-moderno»

T

alvez, professor. A modernidade entrou nos nossos mêmes (passe a alusão socio-biológica)32

Em todo o caso, o que me parece é que se serve muito estrategicamente da mo- dernidade, para ser pós-moderno.

É assim que toma de Merleau-Ponty a urgência de, no projecto sociocultural da Modernidade - assente nos pilares da Regulação e da Emancipação e no trânsito praxístico entre eles, com tensões propulsoras do seu constante e variado desenvol- vimento - se explorarem as potencialidades do que deste está ainda em aberto: identificando e circunscrevendo o que está em deficit no cumprimento das suas ex- cessivas promessas; descentrando as energias emancipatórias da modernidade, do campo da ciência e da técnica, recentrando-as nas racionalidades e princípios colo- nizados e esvaziados pela gestão da Modernidade a estas confiada, por critérios de eficácia e de eficiência por elas próprias ditados e avaliados; nessa recentração ins- crever o reequilíbrio (utópico) das relações de vinculação recíproca entre os dois pi- lares.

32 Même - Metáfora resultante da abreviatura de mimeme (do grego) para estabelecer homofonia

com gene: unidade de transmissão cultural, ou unidade de imitação. Considerando o novo caldo da cultura humana, même designará, (à luz da discutível teoria socio-biológica de Dawkins) o novo repli- cador. (cf. Dawkins, R. - 1989 - O Gene Egoísta: 295-310 - Gradiva).

, Projecto Sociocultural da Modernidade33

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