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humanas
Não há análise de discurso sem mediação teórica permanente.
A
esta altura, suponho ter-se tornado claro que as minhas leituras em torno dos autores para que me remetem os textos de Boaventura S. Santos vão no sentido de "dar-me os meios" de, de certa maneira, tentar uma participação imaginativa no universo do qual (e apesar do qual) se constituiu o projecto criador de que vem nascendo e crescendo a sua obra escrita (Q1 ), o que subentende a an- tecipada leitura estratégica desses textos. É na lógica dessa estratégia, que atrás referi o propósito de ancorar a minha leitura das respostas da entrevista ao "es- quema" mental em que configurei o artigo Ciência, com todas as consequências de derivação incursiva na sua obra escrita, marcada pela intencionalidade de eviden- ciar o que nela remete para a centralidade da comunicação. Ou seja, o texto Ci-ência como uma espécie de matriz de um jogo intertextual, talvez melhor, de «mo-
delo» interpretativo, desempenhando não mais que «o papel de simples referência conceptual» (Método-Teoria/Modelo: 219).
Mas a polissemia da palavra modelo e o inegável parentesco entre modelo e
metáfora (que neste trabalho é uma palavra-chave) aconselham a que me detenha
Para Ricoeur, a passagem pela teoria dos modelos foi decisiva para o apro- fundamento do seu estudo sobre metáfora e referência. Nesse aprofundamento, o argumento central é uma analogia de proporcionalidade: a metáfora é para a lingua- gem poética o que o modelo é para a linguagem científica na sua relação com o real. E, se bem que as teorias contemporâneas tenham tomado consciência do uso que a Ciência (e a Filosofia) faz de modelos, pensar por comparação, segundo um modelo, remonta à visão sociomórfica ou tecnomórfica do homem mítico. O texto, quer na sua dimensão científica, quer pela profundidade poética é promovido a modelo de todas as ciências humanas, quer do ponto de vista estrutural quer do ponto de vista hermenêutico, dada a referência ao mundo dessas ciências (cf. Ricoeur, 1983: 358- 368). Perde-se no tempo a tradição do texto, enquanto modelo interpretativo, e a metáfora Livro, surgida em diferentes épocas da História da humanidade para ex- primir realidades últimas como a Natureza, a História, o Divino, materializa-se em expressões como Livro da Vida, Livro da Natureza.
O princípio que subjaz à teoria do texto (de Ricoeur), como modelo, é a afir- mação de que a acção, enquanto objecto das ciências humanas, tem a estrutura de um texto e, portanto, é-lhe aplicável a mesma metodologia que se pratica na inter- pretação de um texto (cf. B. Pereira, in Ricoeur, 1983: XL).
Mas, com tudo isto, o que é um modelo? Quando Boaventura de S. Santos se empenha no desenvolvimento das suas metáforas cartográficas, em que matriz as- senta a transferência de sentido que consubstancia essas metáforas? •
Max Black (citado por Ricoeur, 1983: 257) caracteriza o modelo como um ins- trumento essencialmente heurístico, um instrumento de re-descrição. «O modelo pertence, não à lógica da prova, mas à lógica da descoberta. (...) Essa lógica da descoberta não se reduz a uma psicologia da invenção sem interesse propriamente epistemológico, mas comporta um processo cognitivo que tem os seus próprios câ- nones e os seus próprios princípios.» (ob. cit.: 358). A dimensão epistemológica da imaginação científica surge apenas, segundo o autor citado, quando se distinguem os modelos, segundo a sua constituição e a sua função: modelos à escala; modelos
analógicos; modelos teóricos, com cuja produtividade no pensar por comparação nos iremos confrontando nesta parte do trabalho.
Geymonat e Giorelo, em Modelo, invocam Autour de la Lune de Júlio Verne e a pergunta dos seus exploradores espaciais sobre «que curva teria seguido o projéc- til em que viajavam», pondo o assunto nos termos que assim resumo: suponhamos que'uma situação X, de algum modo enigmática, suscita em nós perguntas. Para fi- xar as ideias, alguém pergunta Q'. Para dar uma resposta modeliza-se X, ou seja, constrói-se um dispositivo (real ou abstracto) - M - que é considerado a imagem ou o análogo de X (que, no exemplo de Júlio Verne, no espaço tridimensional da mecâ- nica clássica, é a trajectória da pequena nave espacial).
Assim, o modelo (M) de X é construído de tal modo que na analogia de X com M, a pergunta Q', posta por X, se traduz numa pergunta Q, respeitante a M. Trata-se agora de explorar a articulação do modelo (M), ou seja, de o preparar em determina- das condições iniciais, de o deixar desenvolver-se e de estudar essa evolução, ob- tendo-se assim uma resposta (R): explorando em sentido inverso a analogia (A) consegue obter-se a partir de R uma resposta R' respeitante a X que, por fim, é submetida a controlo.
Esta modelização, em que ressalta o papel da analogia [à qual Boaventura S. Santos dedica especial atenção sobretudo (mas não só) no capítulo "Ciência e Lin- guagem" em Introdução a um Paradigma Pós-Moderno], virá a desenvolver-se sofis- ticadamente. Os modelos astronómicos são exemplares de todo o articulado proces- so dessa sofisticação, mas nem por isso menos sujeitos aos "Não" da Natureza na validação da sua condição preditiva, trazendo para a ribalta o questionamento do pa- radigma em que essa validação se inscreve, ou seja, o questionamento das tradicio- nais concepções da racionalidade científica. A ênfase no qualitativo das modeliza- ções passa, então, a ser partilhada em vários campos (da embriologia à linguística), não com finalidades preditivas, mas sobretudo hermenêuticas. No nosso caso inte- ressa reter que «não é a situação concreta mas antes os pontos críticos da relação entre essa situação e o modelo que conduzem a melhores modelos».(ob. cit.: 219).
De resto, a modelização não é uma actividade exclusivamente humana, nem exclusivamente científica. Cada animal modela, de certo modo, o seu ambiente para poder sobreviver. Ora «sem modelos o próprio homem não estaria em condições de pensar o mundo e os seus elementos, nem de agir de forma eficaz. Depois, os nos- sos modelos são frequentemente inconscientes, como, por exemplo, os que estão na base da linguagem, e nem sempre intencionalmente construídos» (ob. cit.: 222). (O conceito de Habitus de P. Bourdieu é exemplar do efeito desta não intencionali- dade).
Por outro lado, magia , alquimia, e astrologia criam os seus próprios modelos tal como a astronomia, a cosmologia e a física. O próprio conceito geral de ciência, não é senão um caso particular de modelização, (cf. ob. cit.: 222) baseado em todos os passos de construção de um modelo.
A prática de magia e de feitiçaria, propondo-se conhecer e/ou agir sobre X, age de modo análogo sobre M, mesmo quando estas técnicas mágicas se baseiam no emprego de um simulador material cuja morfologia, convenientemente interpreta- da, deve revelar o futuro ou a situação que é objecto das questões do consultante.
Como se refere na obra acima citada, do uso científico com carácter mais abstracto ou com auxílio de objectos reais, à geomância do mago de Aladino e a
Lâmpada Maravilhosa, o problema das relações históricas entre ciência e magia não
é simples. E, neste ponto, Durkheim opôs-se a Lévy-Bruhl quando esclarece que, na linguagem de numerosas sociedades primitivas, há conceitos abstractos como Mana (Polinésia), Orenda (Sioux) e outros, que expressam o facto de uma determinada re- gião do espaço esconder poderes, virtualidades de carácter sagrado. Nesses concei- tos Durkheim viu os antepassados dos conceitos modernos de força ou de energia, não existindo, portanto, qualquer descontinuidade relevante entre o pensamento mágico primitivo e o pensamento científico moderno. Ora, há nesta reflexão, por as- sim dizer, uma inserção do problema da alteração conceptual na ciência (do seu próprio questionamento paradigmático) no problema da modelização, podendo-se assim dispor de quadros conceptuais que facilitam a delimitação de pontos críticos
do contacto entre a situação concreta e os modelos: as várias reconstruções racio- nais (as quais, para Lakatos, são uma caricatura da história real). E é também as- sim que, de um impante conhecimento verdadeiro, a Ciência se vem consentindo do
conhecimento aproximado. É também assim que vem retomando em consideração o verosímil e a ambiguidade da linguagem em que este se materializa, começando a
desconfiar de uma linguagem unívoca (materialidade de uma verdade única); e que a predição pura e dura vem deixando um espaço à hermenêutica. Afinal, «as teorias da racionalidade operam como metafísicas influentes que seleccionam a família dos modelos admissíveis e na construção dos modelos entram inevitavelmente, também neste caso, analogias, simplificações» (Modelo: 220). Simplificações de que é preci- so sublinhar a condição arbitrária, acrescentaria S. Santos. Apesar disso, não pode ser esquecida a força da caricatura, tal como não deve ser esquecida a força da abs- tracção. Ironicamente, «se a reconstrução racional é uma caricatura da história real,
determinadas histórias reais são, por sua vez, caricaturas de caricaturas» (ibid). É também assim que a epistemologia passa de um empreendimento de filóso- fos para, cada vez mais, uma preocupação dos próprios cientistas.
Esta muito breve (e não me parece aqui lugar de outra coisa) referência a
modelo que, tal como teoria, cobre um campo semântico extremamente indefinido,
dada a variedade de usos que se lhe dá na língua falada e escrita, é também pretex- to para aludir à situação paradoxal de um campo (o campo científico) que, imerso na imagem e na analogia - j á que modeliza para prever e interpretar - "amedronta- do" com a contaminação de uma linguagem pura, expressão de um pensamento
puro, se dê à retórica da sua recusa. Com cada vez menor sucesso, apesar de tudo,
já que, como referimos anteriormente, citando S. Santos, o paradoxo ganha visibili- dade (condição da sua desconstrução) quando se recusa a linguagem imagética, analógica, metafórica, com cada vez mais comunicativas imagens, analogias, metá- foras... «à medida que os anos passam e os cientistas avançam na sua investiga- ção!...» (S. Santos, 1989: 129).
Neste retorno à linguagem e comunicação (se é que, por algum instante, saí- mos delas) retomam-se as vertentes em que se manifesta a preocupação de Boa- ventura de S. Santos com os silenciamentos e a procura da sua regressão e impe- dimento, através de mecanismos de tradução: «ao nível das práticas sociais, eu que- ro que elas se compreendam sem perderem nada do que são e apenas tomando conhecimento dos outros e, portanto, saber em que medida é que as suas preocu- pações podem ser traduzíveis noutras preocupações» (R8).
Ora, tal como nos dois termos exemplares de indefinição (teoria, modelo), na
tradução, a sua percepção intuitiva é suficientemente forte para que a sua utilização
seja muito frequente e sem grande risco de maiores incompreensões, apesar da po- lissemia. «Não se trata de legislar acerca do bom uso dos termos; seria uma preten- são vã, uma vez que a prática linguística espontânea é sempre mais forte do que as disposições fixadas a priori» (P. Delartre, 1992: 223). E diz este autor que «as defi- nições normativas só têm razão de ser para os conceitos que se querem inserir em linguagens com uma estrita vocação de univocidade, como a matemática». (O que, diga-se de passagem, nem mesmo isso sei se sobrevive ao questionamento do rigor e univocidade matemáticos, depois que os teoremas de Godel demonstraram que nenhum sistema pode mostrar a sua própria consistência). «Pelo contrário, quando se trata de simples denominações evocadoras de actividades cujo campo é mais ou menos amplo e variável, o rigor das definições toma-se ilusório, e mesmo às vezes nefasto» (ibid). O jogo livre dos usos linguísticos pode ser bastante produtivo na re- velação dos diversos aspectos da noção e da actividade em questão, assim como dos factores internos e externos que levam a acentuar ou a negligenciar certos as- pectos, de acordo com as pessoas, os contextos e as épocas ou seja, de acordo com as ressonâncias particulares que despertam, segundo o contexto do seu uso. Esta indefinição relativiza conceitos, significações, sentidos, em proveito de uma plu- ralidade de perspectivas, correspondente à pluralidade de pontos de vista co- existentes: o que é manifestação de dignidade numa cultura pode muito bem não o ser noutra. Mas, ao mesmo tempo, acautelar para o fim de linha niilista a que um
perspectivismo relativista radical pode conduzir. Para não acontecer Auschxwitz, não precisaremos de sínteses ... obviamente, outras?. «Como é que a dignidade humana se pode traduzirem diferentes paradigmas do conhecimento?» (R11).