3. Before Installing Ubuntu
3.3. Information You Will Need
Orlandi, E. P., 1999, Análise de Discurso
O texto é a unidade que o analista tem diante de si e o remete para um discurso que se explicita por referência a uma outra formação discursiva a qual ganha sentido porque deriva de um jogo definido pela formação ideológica dominante na- quela conjuntura, (ob.cit.)
P
or definição, todo o discurso se estabelece na relação com um discurso an- terior e aponta para outro.0 texto de que sai a reflexão que Boaventura S. Santos vai tecendo ao sabor da gestão peculiar das questões/comentários que vou propondo, resulta, como atrás se disse, de uma leitura comparativa dos seus textos de referência.
«Dizem que sou muito mais moderno que pós-moderno». Como já se alu-
diu, o raciocínio demonstrativo desenvolve-se em Boaventura de S. Santos no qua- dro de uma lógica argumentativa, combinando o que parece inarticulável, à luz de um estreito olhar positivista: uma tensão entre linguagem técnica e linguagem meta- fórica que é muito produtiva em termos de comunicação.
Na leitura despreocupada de uma das suas obras, dei comigo a apreciar a ar- rumação do seu pensamento num "jogo de linguagem" matemático, pela via de uma lógica de esquema sequencial ordenador de dupla/tripla proposição, que não é dua- lista mas de decorrência ou de complementaridade, em todo o caso, de uma certa linearidade no modo de construção. Por exemplo, quando, em Introdução a um Pa-
radigma Pós-Moderno (p.46ss.), descreve os três topoi de orientação a que está su-
jeita a desconstrução hermenêutica que se realiza na dupla ruptura epistemológica, essa ordenação pode ser simplificadora e ofuscar o seu complexo carácter interrela- cionai de tal modo que se prejudique uma leitura complexa que os compreende constitutivos uns dos outros (Q6).
Poderemos fazer disto uma leitura simples, de estratégia textual para tornar o discurso mais claro? Ou quererá isto confirmar que, embora a nossa reflexão seja de futuro, os nossos "jogos de linguagem" ainda se constróem simbolicamente com os materiais das "formas de vida" do passado que trazemos ao presente para transfor- mar em futuro, no passo lento (ao ritmo) das transformações profundas?
Porque o pensamento não existe fora da sua expressão potencial e, por con- sequência, fora da orientação social dessa expressão, esta questão me remete para Bakhtine.
Em Le marxisme et la philosophie du langage, de Mikhail Bakhtine, Marina Yaguello esclarece que, diante da controvérsia entre duas tendências linguísticas - o formalismo abstracto e homogeneizante e o sociologismo, vulgarmente conhecido por Marrismo, (por referência a Nicolas Marr), que leva às últimas consequências a comparação da língua a uma superestrutura: existência de línguas de classe e de gramáticas de classe independentes, e teoria da evolução «por saltos», conduzindo a que, a toda a revolução na base deveria corresponder uma evolução, também re- pentina, na língua - Bakhtine insiste na noção de processo ininterrupto. E, apesar de nunca afirmar que a língua é uma superestrutura no sentido restritivo definido por Marr, para ele, a palavra veicula, de modo privilegiado, a ideologia; a ideologia é uma superestrutura; as transformações sociais da base reflectem-se na ideologia e, logo, na língua que as veicula. A palavra serve de "indicador" das transformações. Ou seja, todo o signo é ideológico; a ideologia é um reflexo das estruturas sociais; logo, toda a modificação da ideologia desencadeia uma modificação da língua. Mas, a uma evolução repentina (no caso de Marr), ele contrapõe, então, a noção de pro- cesso ininterrupto.
Staline - como foi referido quando se falou mais detalhadamente sobre tradu-
ção - ao participar deste debate, tomou a posição de a língua não ser uma superes-
trutura, mas um instrumento de comunicação, e com esta concepção instrumental da língua, facilitaria o desenvolvimento das teses estruturalistas. Por razões de política interna (unificação da URSS) que estariam na base das suas motivações e argumentação (cf. ob. cit.: 16), numa tentativa de dar da língua uma imagem unifi- cadora, homogénea, e neutra no que diz respeito à luta de classes, paradoxalmente, ele junta-se ao objectivismo abstracto.
Bakhtine demarca-se destas posições e afirma claramente que a língua não é comparável a um instrumento de produção. E num "recado" marxista, que também serve para Marr, denuncia o perigo de toda a sistematização ou formalização exces- siva das novas teorias, mostrando que um sistema que se "congela" perde a sua vi- talidade, a sua dinâmica dialéctica.
Bakhtine definiu a língua como expressão das relações e das lutas sociais, veiculando e submetendo-se ao efeito dessas lutas, servindo ao mesmo tempo de instrumento e de materiais. Para ele a língua é (tal como para F. Saussure, a quem, por outro lado, censurará o fazer da língua um objecto abstracto ideal - tal como, mais tarde, o fará Bourdieu - consagrando-se a ela como sistema sincrónico homo- géneo e rejeitando o que entendia como as suas manifestações individuais - a pala- vra) um facto social cuja existência se funda sobre as necessidades de comunica- ção. Mas, contrariamente à corrente saussuriana, Bakhtine põe justamente toda a ênfase na palavra e na enunciação, e afirma a sua natureza social, não individual: a palavra ligada, indissoluvelmente, às condições da comunicação, que estão sempre ligadas às estruturas sociais (cf. ob. cit.: 12,13). Se a palavra é o motor das trans- formações linguísticas, ela não é um feito individual; com efeito, a palavra é a arena onde se confrontam os "sotaques" sociais contraditórios, os conflitos de língua, re- flectindo os conflitos de classe no interior do próprio sistema. A comunicação verbal, inseparável das outras formas de comunicação, implica conflito, relações de domi- nação e de resistência, adaptação ou resistência à hierarquia, utilização da língua
pelas classes dominantes para reforçar o seu poder. Mesmo as correntes descritivis- tas abstractas (linguística descritiva e funcionalista), reclamando-se da não normati- vidade, estabelecendo classes de contextos e classes de unidades, fornecem, im- plicitamente, uma norma.
Os imperativos pedagógicos não deixam de influenciar a prática do linguista, na medida em que se procura transmitir um objecto-língua tão homogénio quanto possível, segundo a norma das classes dominantes. «Podemos dizer que a filosofia burguesa contemporânea está a caminho de se desenvolver sob o signo da pala- vra», alertava Bakhtine em 1929, chamando a atenção para a ligação da linguística com todas as áreas do conhecimento: «depois da era positivista, marcada pela recu- sa de toda a teorização dos problemas científicos, a que se junta, nos positivistas tardios, uma hostilidade acerca dos problemas de visão do mundo, assiste-se a uma clara tomada de consciência dos fundamentos filosóficos desta ciência e das suas relações com todos os outros domínios do conhecimento» (Bakhtine, 1977: 21).
Roman Jakobson, no prefácio a esta obra de Bakhtine, refere que este, ao de- finir Dostoïevski (acerca do qual desenvolveu trabalho que o viria a projectar como uma das mais fascinantes e multifacetadas figuras da cultura europeia do século XX), caracteriza, implicitamente, o entendimento que tem da metodologia científica: «Nada lhe parece completo; todo o problema permanece aberto, sem fornecer a menor alusão a uma solução definitiva» .
Segundo Bakhtine, na estrutura da linguagem, todas as noções substanciais formam um sistema sólido, constituído por pares indissolúveis e solidários: o reco-
nhecimento e a compreensão, o diálogo e o monólogo sejam enunciados ou inter- nos, a interlocução entre o destinador e o destinatário, todo o signo provido de signi- ficação e toda a significação ligada ao signo, a identidade e a variabilidade, o univer- sal e o particular, o social e o individual, a coesão e a divisibilidade, a enunciação e o enunciado (op. cit.: 8). Sempre o eu e o outro, sustento da imaginação dialógica, num claro desafio à dominância de uma lógica dicotómica. Ao contrário, adivinha-se nestes pares uma espécie de solidariedade orgânica, resultante do reconhecimento
de tudo ser incompleto, que Bakhtine atribui a Dostoievski; incompletude que, tam- bém por este tempo, a insuspeita lógica matemática confirmaria no teorema do não completamento de Godel.34
Não sei se a atrás mencionada ordenação discursiva em dupla/tripla proposi- ção, tão comum a Boaventura S. Santos, quando quer expressar-se mais descriti- vamente, corresponderá a traços remanescentes da herança metodológica do seu sub-campo científico (a sociologia) ou se, não sendo dualista (como atrás se reco- nhece), se inscreve, mais ajustadamente, na lógica destes pares Bakhtinianos.
Por alusão à noção de processo ininterrupto que Bakhtine opõe à evolução
repentina da língua, como pretendia Marr, talvez tenha interesse referir que Whi-
tehead - contemporâneo de Bakhtine - impressionado com o conceito científico de fluxo ou campo de força e de energia, e recusando quer o atomismo newtoniano, quer o que resulta da análise da experiência em percepções distintas, de Hume - desenvolve a sua filosofia dos processos, na tentativa de formular um sistema meta- físico à luz da lógica e da ciência modernas (Whitehead - Process and Reality, 1929 in Blackburn, 1997). Nesta filosofia, o desdobramento dos processos (que se inter- ceptam) é concebido, não em termos de modificação da substância, mas unidos por redes de relações.
340 primeiro teorema da incompletude do lógico-matemático K. Godel afirma que, para qual-
quer sistema lógico consistente S que possa exprimir a aritmética, têm de existir frases que são ver- dadeiras na interpretação standart de S, mas que não são demonstráveis. E, em determinada situa- ção sistémica, existem frases tais que nem elas nem as suas negações são demonstráveis.
O segundo teorema afirma que nenhum desses sistemas pode ser suficientemente poderoso para demonstrar a sua própria consistência.
Estes resultados, publicados em 1931, determinaram os limites dos métodos puramente for- mais em matemática. E a maneira como demonstrou o seu primeiro resultado tem um significado filosófico adicional: Godel definiu uma fórmula P que, apesar de indemonstrável, se vê ser verdadei- ra, dada a maneira como é construída, no que resulta a verdade ultrapassar, de certa maneira, a dempnstrabilidade, pelo menos quando é considerada em termos formais. A partir de 1943, Godel passa a dedicar-se sobretudo à filosofia, interessando-se, não apenas pela filosofia da matemática mas também pala filosofia da relatividade generalizada e pela cosmologia.
Os resultados revolucionários dos seus estudos vieram a colocá-lo, no plano filosófico, diame- tralmente em oposição ao Círculo de Viena (cf. S. Blackburn, 1997: 190ss).
Ao processo está associada a sequência de acontecimentos, o encadeamen- to, a rede.35 Por outro lado, conforme se desenvolveu em capítulo anterior, à ideia de
paradigma está associada a ideia de ruptura.
Onde situar aqui a transição paradigmática, enquanto pressuposto da reflexão teórica de Boaventura S. Santos?
A questão da temporalidade (sincronia? descompasso?) das mudanças lin- guísticas em relação às transformações da base, se, em Marr, são de ruptura co- ocorrente às mudanças revolucionárias, tomam, em Bakhtine, a configuração de processo contínuo, em contínua mutação, conceito que , neste autor, melhor se compreende ultrapassando a dicotomia forma/substância.
Ao jogar com as palavras, Boaventura S. Santos apanha no ar a sua ambigui- dade e dela tira partido comunicacional num magistral jogo do tempo, pondo em interacção íntima passado, presente e futuro.
Todo o Discurso Sobre as Ciências se revê neste jogo, logo claro nas suas primeiras páginas: «tempo de transição, síncrone com muita coisa que está aquém e além dele mas descompassado em relação a tudo que o habita» (p. 6).
Como em Dostoïevski, tudo em aberto. Se algum contributo se dá a esta re- flexão, é o de, interrogativamente, tentar trazer aqui elementos de complexificação da teia de relações conflituais que a configura.
Para uma perspectiva racionalista-construtivista (piagetiana), crescemos por mecanismos de conflito cognitivo que, internamente, se vai resolvendo, em função da satisfação de necessidades, que constantemente se renovam. Mas o processo de acomodação/assimilação tem uma natureza conflitual que não se circunscreve ao conflito interno piagetiano, mas ele mesmo é condicionado socialmente, como o mostram os estudos sobre conflito socio-cognitivo pós-piagetianos 36, para já não fa-
35 Este último conceito - rede - levantará, em Bakhtine, importantes questões de que à frente se dará conta. 36 Sobre as características da interacção social que constituiriam uma fonte de progresso do desen-
volvimento cognitivo, A. Nelly - P. Clermont, em A Construção da Inteligência pela Interacção Social (1978), põem a hipótese de que um processo fundamental dessa interacção é aquele que suscita um conflito entre centrações opostas, o qual implica, para poder ser resolvido, a elaboração de sis- temas que possam coordenar diferentes centrações.
larmos dos contributos pioneiros de Vygotski sobre a origem social dos processos psicológicos superiores.
Sendo o saber (o saber que é já ser) incorporação do outro no próprio numa re- lação desalienante (por referência a Levinas), isso remete para um processo em que os elementos internos e a exterioridade estão em relação porque estão em conflito. A diversidade de culturas, de experiências, de pontos de vista, de centrações, em in- teracção dinâmica, promove e estimula o conflito socio-cognitivo, pelo que, uma Pe-
dagogia do Conflito, também passa por aqui. E o exercício de fazer uma dissertação
não lhe é certamente alheio.
A escola Piagetiana também considera que a interacção com o real para o progresso do co- nhecimento consiste, nomeadamente, na produção de contradições entre as predições ou juízos do sujeito e a constatação dos factos observáveis. Mas as autoras citadas situam a causa primeira des- tes mecanismos, não ao nível de uma contradição no âmbito da qual o sujeito se confrontaria consi- go mesmo ou com o real, mas sim ao nível de uma confrontação entre o sujeito e as afirmações ou acções de outras pessoas.
Daí decorre uma consequência importante: aquando de uma interacção entre dois indivídu- os que se encontram a elaborar certas formas de coordenar as suas actividades, tanto o indivíduo que se encontra já relativamente mais avançado, como aquele que o está menos podem igualmente progredir. Este ponto de vista construtivista-interaccionista, é um poderoso argumento na defesa de um escola inclusiva.