Effectifs: 420
5) Systèmes d’information
Os movimentos corporais do sono são uma constatação antiga da humanidade, visto serem facilmente observáveis em animais domésticos, como cães e gatos, e terem na involuntariedade uma das suas características fundamentais. Durante o sono, um número considerável de movimentos e posturas espontâneas é observado, incluindo movimentos dos olhos, da boca, das extremidades, da região
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cervical, do diafragma, etc., além dos movimentos motores generalizados, localizados e os “abalos” musculares.
Os movimentos corporais espontâneos são controlados pelo SNC, em diferentes níveis de organização – dos mais simples aos mais complexos-, e estão relacionados ao processo de maturação cerebral, diminuindo em freqüência com o grau de diferenciação celular, após o nascimento (FUKUMOTO et al., 1981). Também é conhecido que os movimentos corporais do sono aumentam em freqüência e em intensidade após a privação do sono (JOUVET, 1967; HOSHINO, 1972), e que este aumento é parte da compensação do sono em rebote à sua privação. Entretanto, se desconhece por que e para que esta compensação ocorre. Sabe-se, também, que esta compensação ocorre após a submissão dos animais a alguns tipos de estresse (PALMA et al., 2000).
Neste sentido, o monitoramento da quantidade e da qualidade dos movimentos corporais espontâneos presentes no sono tem tido particular interesse na prática clínica para se avaliar o grau de comprometimento do SNC do RN, especialmente quando este é acometido por intercorrências clínicas ligadas ao período perinatal, como ocorre na AP.
Em que pese as boas perspectivas desse marcador diagnóstico na avaliação da performance cerebral, não há um consenso na literatura sobre as potencialidades do método para prever o prognóstico dos RN vítimas da AP, quanto à prevalência de seqüelas neurológicas em longo prazo.
Os dados por nós obtidos no presente trabalho mostram que, após um período inicial de alerta induzido pela asfixia, os períodos de sono voltam a ter a duração semelhante àquela anterior ao agravo sofrido, sugerindo fortemente que o sono desempenhe alguma função primordial, além daquela de prover um estado adaptativo de baixo consumo energético para esperar o retorno de condições favoráveis.
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A questão que se impõe, e que ainda permanece em discussão no meio científico, é saber se as eventuais alterações da atividade muscular espontânea, observada durante o sono neonatal, de fato estão relacionadas ao dano causado pela hipóxia sobre o desenvolvimento funcional do SNC, ou se as mesmas refletem apenas uma fase normal de recuperação dos eventos perinatais sofridos pelo bebê, durante o trabalho de parto e o período expulsivo.
Por essas razões, são inúmeros os trabalhos clínicos publicados na literatura, tentando estabelecer o valor preditivo dos movimentos corporais do sono na avaliação do bem-estar do RN após o nascimento, bem como do seu status funcional neurológico (FUKUMOTO et al., 1981; HAKAMADA et al., 1982; VECCHIERINI-BLINEAU et al., 1986; 1989; PEIRANO et al., 1986; ERKINJUNTTI, 1988; PRECHTL, 1993; FREUDIGMAN & THOMAN, 1993; van KRANEN-MASTENBROECK et al., 1994; PADULA, 1999).
Por outro lado, são escassos os estudos experimentais onde os movimentos corporais foram avaliados durante o sono, sendo a maioria das pesquisas realizada em animais acordados, submetidos a hipóxia, ou vítimas de sofrimento fetal determinado pela hipóxia materna durante o período gestacional.
Não há, porém, relatos na literatura de estudos experimentais que utilizaram a metodologia por nós empregada, sendo o monitoramento dos movimentos dos olhos, do diafragma e da musculatura cervical o foco da atenção dos poucos estudos publicados (MEGIRIAN et al. 1980; FEWELL & BAKER, 1987; HORNER et al., 1998).
MEGIRIAN et al., 1980, ao estudar a atividade diafragmática de ratos submetidos à inalação de concentrações diferentes de O2, durante os estágios de sono, observaram aumento da atividade EMG do diafragma, durante o período de sono paradoxal, tendo concluído que a hipóxia, muito mais que a hipercapnia, é um potente estímulo respiratório, uma vez que reduz a resistência à entrada de ar nas vias aéreas.
FEWELL & BAKER, 1987, ao estudarem a atividade dos músculos cervicais, diafragmático e dos olhos de carneiros, submetidos a baixas
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concentrações de O2 no ar respirado, observaram redução dos movimentos da musculatura cervical, aumento da atividade do músculo diafragmático e ausência de alterações significantes dos movimentos dos olhos, durante o estágio de sono ativo destes animais.
Resultados similares, relativos aos movimentos dos olhos, foram observados por HORNER et al., 1998, em cães submetidos a apnéia do sono, onde também não houve alteração significativa da quantidade de movimentos oculares durante a fase de apnéia, quando comparado à fase controle. Os autores, contudo, observaram aumento significativo na quantidade de movimentos dos olhos, na fase de recuperação da apnéia, fato analogamente constatado em nosso trabalho com os movimentos do corpo, na fase que sucedeu à asfixia.
Em nosso estudo, também observamos diminuição significante na quantidade de movimentos corporais durante o sono, em ambas as fases de asfixia; não havendo, porém, variações significantes da resposta motora dos animais entre estas duas fases e, também, no início, meio e fim dos períodos de asfixia.
Infelizmente, como salientamos previamente, não é possível traçar um paralelo entre os nossos resultados e a literatura, em razão da absoluta falta de estudos experimentais análogos ou similares.
De qualquer forma, vários estudos experimentais realizados em animais acordados comprovam que a hipóxia é capaz de afetar os movimentos corporais, a coordenação motora e o aprendizado no primeiro ano de vida e na vida adulta.
SCHONFELDER et al., 1989, tentando demonstrar que a hipóxia grave é capaz de comprometer a rede neuronal, responsável pela formação reticular do cérebro de coelhos, mostraram que animais que sobreviveram a concentrações muito baixas de O2, no primeiro dia de vida, apresentavam retardo na coordenação reflexa dos movimentos da cabeça e do corpo, quando comparados com coelhos normais, em observações realizadas no 10o. e 20o. dia de nascimento.
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LUN et al., 1990, estudando a atividade motora e o aprendizado de ratos submetidos a hipóxia crônica, do 2o. ao 6o. dia de vida, durante 10h por dia, observaram que os animais se apresentavam hiperativos na fase adulta, emitindo respostas tardias no aprendizado, quando comparados a ratos controles. Os autores, porém, não observaram diferenças significantes entre os dois grupos, quando os animais foram submetidos à hipóxia aguda.
WOUDSTRA et al., 1990, observando carneiros submetidos a hipoxemia, mostraram redução significativa da atividade muscular cervical destes animais, avaliada pela EMG, quando a saturação de O2 no ar inspirado foi reduzida de 34,6 ± 10,5% para 20,9 ± 13,9%. Os autores observaram, ainda, que a redução da atividade motora foi mais pronunciada nos primeiros 15 minutos de hipoxemia.
HERMANS et al., 1992, também comprovaram que a hipóxia, mesmo que leve e intermitente, no período que antecede ao parto, pode conduzir à alterações, em longo prazo, no desenvolvimento comportamental e neurobioquímico de ratos.
JANICKE & COPER, 1994, estudando ratas prenhas expostas a hipóxia normobárica a 12%, do 7o. ao 17o. dia de gestação, observaram que os filhos destes animais apresentavam importantes desvios da performance motora, habilidade cognitiva e adaptação ao estresse físico, nas primeiras 3 semanas de vida, quando comparados ao desempenho motor dos filhos de ratas grávidas controles. Os autores observaram também que algumas destas deficiências desapareceram na vida adulta, como a aptidão para a marcha. Porém, os distúrbios da coordenação motora permaneceram parcialmente alterados pelo resto da vida. Segundo os pesquisadores, é possível que, na dependência das diferentes funções danificadas pela hipóxia, os distúrbios motores possam se intensificar com a idade, ou apenas provocar alterações transitórias, sem afetar o curso normal do desenvolvimento.
ANTIER et al., 1998, utilizando a radiotelemetria, também estudaram a influencia da hipóxia e isquemia focal sobre a função
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cardiovascular e o desenvolvimento motor de ratos adultos, com 15 semanas de idade, e observaram, além de hipertensão, hipotermia e alterações do ritmo circadiano, significativa redução da atividade locomotora dos animais. Os autores sugeriram que o controle do sistema cardiovascular e de parâmetros do ritmo circadiano e motor de ratos podem envolver diversas estruturas, as quais apresentam vulnerabilidade seletiva a hipóxia cerebral.
ZHURAVIN et al., 2003, também observaram atraso no desenvolvimento motor e diminuição da habilidade de aprender determinados movimentos, durante o 1o. mês de vida, em filhos de ratas submetidas a hipóxia, com 13 ½ semanas de gestação.
PERRIN et al., 2004, estudando a influencia da hipóxia pré-natal sobre a prole de ratas submetidas a baixas concentrações de O2, do 5o. ao 20o. dia de gestação, observaram, além de reduzida atividade da tirosina hidroxilase, ao nível das terminações adrenérgicas, significativa hiperatividade dos animais no período diurno, com hipoatividade acentuada no período noturno, do 21o. ao 68o. dia de vida.
GOLAN et al., 2004, comprovaram que a injúria hipoxico- isquêmica pode causar déficit neurológico permanente em camundongos RN, com exposição da mãe a concentrações baixas de O2 no 17o. dia de gestação. Os autores verificaram que camundongos hipóxicos apresentaram desenvolvimento morfogenético, até comparativamente mais rápido que animais controle, como abertura dos olhos, crescimento de pêlos e erupção dentária. Todavia, observaram que a hipóxia comprometeu acentuadamente o desenvolvimento dos reflexos motores destes animais; alterações estas que podem ser compensadas com a administração de sulfato de magnésio às matrizes.
STRATA et al., 2004, também mostraram que ratos submetidos à AP apresentaram leve aumento do tônus muscular, acompanhado de pequenas diferenças no padrão da marcha, quando comparados a ratos controles. Porém, quando ratos hipóxicos foram submetidos à restrição de movimentos, no início da vida, as alterações foram mais evidentes ainda,
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sendo representadas por redução do crescimento corporal, acentuado aumento do tônus muscular, presença de flexão ou hiperextensão ativa das articulações e padrão profundamente distorcido da marcha. Os autores concluíram que a AP, per si, pode representar um substrato para as alterações iniciais dos distúrbios motores, graças a sua capacidade de alterar primariamente a organização do córtex cerebral. Todavia, acreditam que o início precoce dos movimentos corporais tem papel fundamental na aquisição das habilidades motoras por parte do animal RN.
Finalmente, FAN et al., 2005, em estudo recente realizado em ratos submetidos à oclusão bilateral das artérias carótidas, associada a baixas concentrações de O2, durante períodos de 10 e 15 minutos, observaram que a hipóxia afetou significativamente o ganho de peso dos animais, a abertura dos olhos e a performance para diversas habilidades, como: a marcha, a condução guiada por cabo e a escalada de obstáculos, do 3º ao 21º dia de vida. Os autores também observaram que a performance motora foi pior nos animais expostos a um período maior de hipóxia.
Face aos achados aqui expostos, nossos resultados comprovam a validade de se utilizar o monitoramento dos movimentos corporais do sono, como um método com potencialidades para detectar precocemente possíveis alterações clínicas decorrentes da asfixia.