CHAPITRE IV: CRISTALLISATION
IV- 2.4 Synthèse de la caractérisation cristalline
O sucesso é provavelmente um dos temas mais abordados, de forma direta ou indireta, nos média nacional e internacional. O conceito de sucesso norte-americano, já internacionalizado, tem sido amplamente reforçado graças à divulgação de filmes que promovem a difusão dos valores da cultura americana, aos quatro cantos do mundo. O desenvolvimento da internet e a rapidez da comunicação, por sua vez, propicia uma adaptação contínua às novas tecnologias e um intercâmbio de ideias compartilhadas, através delas. Ao abrir o jornal, todos os dias nos deparamos com as notícias sobre o sucesso ou fracasso das políticas públicas, da economia, das empresas, da tecnologia, da educação, da saúde, das políticas externas, das artes, dos desportos etc. As reportagens nos informam, sempre, sobre aqueles que mais se destacaram, positivamente, ou fracassaram, independentemente do uso da palavra, em si. Parece haver uma necessidade intensa de comparar, cobrar, exigir alto desempenho, resultados e destaque. Os média têm servido
40 quase como um reforçador de grandes sucessos e grandes fracassos, o que acaba por contribuir para intensificar a ansiedade coletiva fundamentada no medo do fracasso.
No Brasil, os atletas sofrem, diariamente, uma grande pressão midiática, pelo seu desempenho. Um bom exemplo disso se deu com Ronaldo Nazário, três vezes eleito o melhor jogador do mundo, pela revista Soccer (1996, 1997, 2002). A atuação de Ronaldo sempre foi alvo dos meios de comunicação brasileiros e o seu bom desempenho era questão de orgulho nacional. No entanto, na Copa do Mundo de 1998, quando toda a expectativa de sucesso recaía sobre ele, principalmente no último jogo, a sua má atuação em campo, nesse último momento da seleção, foi explicada por uma convulsão, por ele sentida, antes do jogo, que, talvez, possa ter sido motivada pelo estresse midiático. Imediatamente após esse incidente, os meios de comunicação já começaram a criar explicações hipotéticas do fracasso desse “herói nacional” e esse noticiário durou semanas. Serra (2010), por exemplo, ao se referir a esse dia fatídico e ao mau comportamento dos jogadores do time brasileiro, em campo, explica a importância do psicológico, para a vitória, mas reconhece, também, a relevância da interferência midiática
“sem subestimar o efeito de variáveis interferentes, como a ambição de alguns jogadores, que como notaram vários experts e astros passados de nosso futebol, não jogam para a equipe mas jogam para as câmeras de TV [...] O segredo do desempenho desportivo [...] estaria mais na mente do que no corpo?! A resposta é sim! ”
(Serra, 2010:1) Nas últimas Olimpíadas, no Rio em 2016, o estresse de atletas, provocado pelos excessos de expectativa, promovida pelos média, pode ter influenciado alguns resultados brasileiros de forma positiva e negativa. O hiperfoco, em alguns atletas específicos, pode ter contribuído para o fracasso de alguns deles enquanto, onde menos se esperava, o Brasil foi surpreendido com as várias medalhas, recebidas por outros atletas, que, num segundo momento, se tornaram o alvo predileto.
Diariamente, recebe-se notícias sobre as empresas em alta ou em baixa, na bolsa de valores. Esse bom ou mal desempenho empresarial, na bolsa, é um medidor do sucesso da empresa, naquele momento. Podemos perceber, então, que o sucesso ou fracasso de uma empresa tem relação direta com o valor que o mercado atribui à sua atuação e desempenho. Nesse caso, o sucesso de uma determinada empresa pode ter relação direta com a previsão da capacidade dela de produzir ou gerar riqueza. Essas informações e previsões, divulgadas diariamente, acabam favorecendo ou dificultando o crescimento e desenvolvimento das empresas de modo geral. Os média, também, se tornam fonte de informações, para a bolsa
41 de valores, de forma que certo acontecimento, positivo ou negativo, ao ser divulgado pelos média, promove uma resposta quase que automática do mercado. Recentemente no Brasil, conforme relatado pela BBC Brasil (2017), a JBS, uma empresa envolvida em escândalos de corrupção política, comprou dólares, no dia anterior à sua delação, com o objetivo de vendê-los, no dia seguinte, já prevendo a queda de ações e o aumento do dólar, com as informações que forneceria às investigações e seriam divulgadas pelos média, no dia seguinte.
Os média, também, divulgam reportagens mais específicas, voltadas para o público dos negócios, em que se questiona o significado e os efeitos do sucesso, fornecendo orientações de atitudes e posicionamentos considerados necessários para atingir o sucesso. O tema, nessas publicações, apresenta-se bastante controverso, uma vez que muitas publicações utilizam o termo, num sentido positivo, enquanto outras apontam o sucesso como gerador de mal-estar e infelicidade. Ituassu e Tonelli (2012) mencionam algumas dessas reportagens, estampadas nas capas das revistas brasileiras, que envolvem a ideia de sucesso. Elas observam que essas reportagens associam o sucesso à carreira, ao trabalho, ao salário e ao prestígio. Entre elas, pode-se citar: “Sucesso e fracasso” (revista Superinteressante, julho 2010), “Sucesso: 39 ideias indispensáveis para você ser bem- sucedido na carreira” (Você S/A, nov. 2008), “8 atitudes decisivas para fazer sucesso” (Você S/A nov. 2010), “Sucesso na profissão” (Veja, junho 2003), “Seja ambicioso” (IstoÉ, fev. 2010), “Seja um profissional vitorioso” (Isto É, maio 2005).
Pode-se constatar, assim, que tais publicações reforçam e incentivam as pessoas a perseguirem o sucesso, como se o sucesso, por si só, já representasse uma fonte de prazer, satisfação e felicidade. Parece existir uma propaganda subliminar para o sucesso que associa o enriquecimento, os altos cargos, o prestígio e o poder à felicidade. É como se os média gritassem diariamente: Quer ser feliz? Então lute por altos cargos, dinheiro e poder.
Essa dicotomia do sucesso e as possíveis incoerências de significado do termo foram levantadas por Ituassu (2012), quando pesquisou 35 reportagens da revista Exame, de diferentes datas, que abordavam o tema do sucesso, e descobriu que, em 30 dessas reportagens, o perfil psicológico dos bem-sucedidos era descrito com características positivas como: “empreendedor, ambicioso, dedicado, ousado, ativo, otimista, persistente, realizador”. Nessa visão o bem-sucedido seria alguém independente e autossuficiente. Nas outras cinco publicações, o bem-sucedido é descrito de forma negativa “como alguém
42 frustrado, desajustado, mal resolvido, desequilibrado e com problemas psicológicos” Ituassu (2012). Em uma delas, Tanure, Carvalho, Neto e Andrade (Tanure, Carvalho, Neto e Andrade, 2007 apud Ituassu e Tonelli, 2012:10) revelam a descoberta, feita por eles, de que muitos dos indivíduos bem-sucedidos viviam infelizes e insatisfeitos e atribuíam esse desprazer à falta de equilíbrio na distribuição do tempo, em consequência de uma necessidade de reconhecimento social, que gerava um excesso de trabalho.
É provável que essa dicotomia, entre vida profissional e pessoal, vivenciada pelas pessoas consideradas bem-sucedidas, tenha estimulado uma necessidade de ressignificação do conceito. Atualmente, o tema tem surgido em muitas reportagens de revistas, voltadas para o público executivo, e a palavra sucesso tem sido frequentemente associada à qualidade de vida, como nas reportagens de Evans (1996), Decol (2007) e Rezende (2010). Em uma delas, publicada em 22 de novembro de 2007, Decol (2007), repórter da revista Época Negócios, inicia sua reportagem com a seguinte chamada: “Já não basta ostentar bens- materiais: tempo-livre para si e para a família, com autonomia profissional, são os novos símbolos de sucesso” (Decol, 2007). Nessa chamada, podemos perceber claramente que o fator dinheiro ainda é valorizado, mas não é mais considerado a única condição para se obter uma vida bem-sucedida. Essa mesma publicação apresenta o resultado de uma enquete, feita com seus leitores, sobre os sinais de uma vida de sucesso. Curiosamente, a ordem de prioridade apresenta o dinheiro em quinto lugar com a seguinte frase: “aposentar-se com dinheiro aos 50 anos - 8,82%”. Os quatro primeiros lugares da pesquisa foram: 1. “Ser feliz no amor- 14,21%”, 2. “Ter autonomia e poder de decisão- 12,34%”, 3. “Ser uma pessoa espiritualizada- 11,31%”, 4. “Ficar quanto tempo quiser com os filhos- 10,27%”. Essa pesquisa mostra claramente, que existe uma diferença entre o que se difunde e se propaga como sucesso, e o que as pessoas consideram como sucesso. A própria publicação coloca o dinheiro em primeiro lugar, na sua chamada, mas dizendo que ele, somente, já não é o suficiente. As pessoas, contudo, parecem demostrar outra realidade, uma vez que, nos quatro primeiros lugares, encontramos, dois itens, que se referem a relacionamentos, um item, que se refere à espiritualidade, e outro, que se refere à liberdade de escolha/autonomia. Essa classificação demonstra, claramente, que existe uma pluralidade de significados e, talvez, ainda exista uma resistência, por parte do mundo dos negócios e dos média, à apresentação dessa “nova” noção, que nos reporta à qualidade de vida, bem-estar e relacionamentos.
43