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3.1.1 Analyse d'Avrami

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CHAPITRE IV: CRISTALLISATION

IV- 3.1.1 Analyse d'Avrami

Para Tjeder (2002), como foi visto anteriormente, o ideal de sucesso do self-made- man, originado nos EUA e exportado para várias outras culturas, está associado à masculinidade e independência. A seu ver, existe uma relação entre a masculinidade e o sucesso, como sinónimo de riqueza e poder. Tal associação entre o sucesso e a masculinidade ainda continua a existir, nos dias de hoje, e os média exercem um papel relevante nesse reforço. Um bom exemplo dessa supervalorização masculina, associada ao sucesso, encontra-se no vídeo “Invisible Players” da ESPN Brasil (2016), onde os fãs de desportos são desafiados a testar o quanto eles sabem sobre desportos, adivinhando quem seriam os atletas responsáveis por um gol incrível de esquerda, uma cesta perfeita e uma onda fantástica. Os entrevistados eram homens e mulheres e o vídeo mostrava o desempenho dos atletas, como se fosse em desenho, de forma a que as características pessoais de cada atleta não pudessem ser identificadas. No que se refere ao gol 136 pessoas sugeriram que ele deveria ser do Neymar, 102 escolheram Messi e outros 60 votaram no Cristiano Ronaldo, Pelé, Maradona, Ronaldo e Romário. A cesta foi atribuída 164 vezes a Michael Jordan, seguido do Oscar, em 96 vezes, e de outros jogadores do género masculino, em 41 vezes. Na onda, Medina foi o mais citado, 201 vezes, seguido por Mineirinho, 52 vezes, e por K. Slater, 32 vezes, e por outros atletas do género masculino 15 vezes. Nenhuma mulher foi citada, nem mesmo pelas próprias mulheres, o que reforça a ideia de que o sucesso ainda está associado a características atribuídas aos homens, o que é claramente reforçada nos média. Vale lembrar que a própria ênfase televisiva na transmissão dos jogos masculinos se deve, também, a essa relação equivocada, entre o sucesso e a masculinidade, dentro da nossa sociedade. O momento mais emocionante do vídeo se dá quando os entrevistados têm acesso a resposta e descobrem que todos aqueles feitos sensacionais tinham sido executados por Marta Vieira (5 vezes bola de ouro), Maya Moore (3 vezes campeã no WNBA), Maya Gabeira (5 vezes campeã de big waves), todas atletas de alto desempenho do género feminino. Percebe-se, neste momento, um desconforto, principalmente entre as mulheres, por não terem imaginado nenhuma atleta como autora dos feitos. O vídeo termina com a seguinte frase: “se não acertou as respostas, você precisa aprender mais sobre o poder da mulher”. Esse exemplo mostra que a ideia de sucesso, como sinónimo de poder, força e superação de limites, ainda está vinculada ao género masculino. A divulgação do vídeo já indica, no entanto, uma esperança na possibilidade de mudança no paradigma.

44 Sturges (1996) questiona as diferenças no significado dado à carreira de sucesso, para homens e mulheres, e percebe que as mulheres parecem considerar diferentes significados para o sucesso em relação aos que foram considerados pelos homens. Em sua pesquisa, ela menciona Keys e Likewise (1985), que puseram em evidência o facto de que, apesar de as mulheres pesquisadas receberem salários inferiores, elas se consideravam tão bem-sucedidas, quanto os homens, o que sugeriria que essas mulheres teriam, provavelmente, a satisfação pessoal em mais alta conta do que a própria remuneração, em si. Para esses autores, isso poderia significar a existência de uma diferença de atribuição do sucesso individual, quanto ao género.

Powel e Mainiero (1992) reforçam, também, a existência de diferentes percepções do sucesso, de acordo com o género. Para eles, as mulheres apresentam uma tendência maior em medir o sucesso de forma subjetiva e interna. Isso significa que as mulheres têm uma tendência maior para criar as suas próprias medidas individuais de sucesso, rejeitando as medidas objetivas e externas, sob as quais o mundo tradicionalmente as avalia. Para esses autores, essas medidas externas mais “tradicionais” e generalizadas seriam mais “masculinas”, uma vez que foram desenvolvidas e focadas no trabalho do género masculino. Para eles, o sucesso feminino obedece a critérios internos, mais ligados à “satisfação” pessoal com a carreira, até mesmo entre aquelas mulheres que preencheriam os requisitos para o sucesso externo objetivo, com altos salários, promoções e cargos.

Sturges (1996) aprofundou os estudos sobre o significado do sucesso, pesquisando gerentes da BT (British Telecom- Companhia de Telecomunicações Britânica). Essa pesquisadora encontrou, no relato dos gerentes, três diferentes critérios de medida para o sucesso. Além da medida externa e da medida interna, ela observou uma terceira medida, a qual denominou de abstrata ou intangível, em inglês “intangible”. Enquanto a medida

externa avaliaria o sucesso, baseado na concepção mais tradicional do termo, que implicaria

em dinheiro, status e poder, a medida interna valorizou os cinco critérios mais utilizados pelos pesquisados: Prazer, interesse, senso de dever cumprido, senso de realização e, por último, a possibilidade de fazer coisas novas, de forma diferente. A medida abstrata

(intangible), por sua vez, se baseava em “ser reconhecido como um especialista respeitado

e capaz de exercer influência” (Sturges, 1996:101). Essa última medida implicaria em 4 critérios: Ser um especialista, ser respeitado, exercer influência e deixar sua marca pessoal. Fundamentada nesses significados de sucesso, essa autora observou que existia uma

45 tendência maior, entre as mulheres, de avaliar o sucesso de acordo com medidas internas e abstratas, enquanto entre os homens, havia uma tendência a valorizar mais a medida externa. Em outras palavras, mulheres tendem a considerar mais o significado individual do termo, enquanto os homens perseguem o significado mais social do mesmo.

Poderíamos concluir, portanto, que as mulheres seriam mais independentes do que os homens, na sua percepção sobre o sucesso, pois não ficam dependentes da avaliação externa para se sentirem realizadas. A capacidade de flexibilidade, na adaptação do conceito de sucesso, já promove uma maior satisfação das mulheres com o trabalho, uma vez que as metas internas são mais realistas e alcançáveis, do que metas externas altas e pré- estabelecidas. Preencher expectativas internas, accessíveis, torna o sucesso mais palpável e mais fácil e promove uma maior sensação de realização, para uma quantidade maior de pessoas. O grande problema, entretanto, vivenciado pelas mulheres é o de que, mesmo tendo metas mais compatíveis com suas expectativas, elas, ainda assim, estão sujeitas às regras externas, uma vez que a cultura organizacional ainda é, predominantemente, masculina e o significado social de sucesso ainda prevalece, principalmente no meio coorporativo.

Ryan, Watson e Wiliams (1981) estudaram as divergências dos valores entre gerentes homens e mulheres americanos e observaram que os valores femininos, voltados para o bem- estar social, disciplina e estabilidade, eram negativamente associados a ideia de sucesso externo, enquanto os valores masculinos, relacionados a um comportamento mais agressivo e individualista eram positivamente associados. Comportamentos mais egoístas estão associados à masculinidade, enquanto comportamentos relacionais e socais são mais associados às mulheres. Essas observações confirmam a ideia de Tjeder (2002), sobre a associação entre a ideia de self-made man e o sucesso. Essas pesquisas apresentadas acabam por confirmar que a ideia de self-made man ainda prevalece, na sociedade americana, inglesa e talvez em muitas outras, mesmo após mais de 150 anos de existência.

“A masculinidade se tornou vinculada ao sucesso individual no mundo, especialmente no mundo dos negócios. O sucesso mundano, em vez de ser sinal de género de egoísmo e orgulho ilegítimos, tornou-se uma marca positiva de género de masculinidade. ”

(Tjeder, 2002:555)

5 Tradução livre da autora. No original “Mens’s masculinity became tied to their individual successfulness in the world, especially the world of business. Wordly success, instead of being a gendered sign of illegitimate egotism and pride, became a positive, gendered mark of manhood” (Tjeder, 2002:55)

46 Pahl (1997), por sua vez, refere-se às mudanças sociais, principalmente nos papéis de género, e compreende que o estresse, provocado por essas mudanças sociais, contribui para a ansiedade, uma vez que a vida não é mais tão previsível, assim como não o são a delimitação dos papéis de género. Por outro lado, ele acredita que a influência “masculina” no sucesso, através da agressividade e da competitividade, tem sido paulatinamente substituída pela habilidade feminina de “equilíbrio entre agressividade e instrumentalismo”.

As divergências, especificidades e convergências, exemplificadas, anteriormente, estimulam a necessidade de aprofundar as pesquisas sobre o sucesso, associadas ao género e às suas implicações.

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