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Os cultos e seus rituais eram o meio do indivíduo e sua comunidade acessarem a divindade no antigo Israel. Era nos encontros religiosos regulares que se poderiam expressar as angústias que assolavam os indivíduos e as nações. As festividades e conclamações nacionais também levavam o povo, em conjuntura nacional e corporativa, estarem atentos ao bem estar da nação como um todo.

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Por exemplo: salmos de claro uso litúrgico cujos títulos remetem a procedimentos culticos, salmos de Davi, salmos dos filhos de Coré, salmos de Asafe, salmos atribuídos a outros personagens como Salomão, Moisés e outros, salmos com o nome ―elohim‖ característico, coleções de salmos cuja palavra chave é ―hallels‖, coleção de salmos de peregrinação, salmos de lamentação individual. BRIDGES, Charles A., A Critical and Exegetical Commentary on the Book of Psalms. Edinburg: T. & T. Clark, 1909 (The International Critical Commentary), p.xlviii-lxxxix.

Essa prática regular de realizar rituais sagrados por Israel é tida pelos pesquisadores como influência do sistema cúltico de Canaã, que por sua vez recebeu influencia babilônicas e assírias.

A festa de ano novo celebrada pelos babilônicos pedia que o rei ou outro oficial dramatizasse a morte e o renascimento da criação numa cerimonia de cânticos de lamentação; simbolicamente, tal rei defendia seu povo do mal e assegurava o bem estar geral para o próximo ano. Outro exemplo é o das lamentações pelas cidades destruídas, onde havia um ritual de reassentamento dos grupos fugitivos que traziam consigo suas imagens e artefatos religiosos e representam outro tipo de ritual de procissão na qual a lamentação era praticada. Ainda temos os cultos fúnebres, onde eram entoadas lamentações; tais cultos, supostamente derivados de um culto aos mortos em épocas mais remotas na Mesopotâmia.

As influências de onde Israel incorporou a prática de lamentar e o gênero da lamentação veio principalmente da Babilônia, mediada pela religião canaanita e, certamente, os cultos do antigo Israel absorveram traços da religião ao seu redor. Ainda assim, as experiências que Israel teve ao longo de sua trajetória permitiu uma série de adequações e ressignificações dos estilos e gêneros cultuais, litúrgicos e literários comuns ao lugar onde se fixara como nação.

O culto de Israel era a ocasião apropriada para pedir ajuda a Yhwh. Para os que atrelam a situação vivencial das lamentações e outros salmos ao culto, o culto é ―a visível e audível expressão da relação entre a congregação e sua divindade‖ (MOWINCKEL, 1967, p.15). O culto israelita dramatiza em seus rituais o universo simbólico que dá sentido à religião do antigo Israel. Havia um valor ―sacramental‖ em ver, ouvir e recitar fórmulas no culto.

Devido ao papel central que o culto assumia na religião antiga, os estudiosos se empenharam em compreender o fenômeno cúltico do antigo Israel para correlacionar os salmos e seus gêneros literários a este fenômeno. Bentzen afirma que a ocasião das lamentações nacionais era o culto penitencial, mas admite que pudesse existir um elemento penitencial nas principais festas de Israel (1968, p.163).

Mowinckel é peremptório ao afirmar que todos os salmos tiveram sua origem no culto e que é praticamente impossível qualquer relação com indivíduos e poemas privados; o estudioso sinaliza que o ―eu‖ nos salmos se trata da personificação da assembleia. Mais tarde ele admite que no desenvolvimento da religião de Israel posterior ao pós-exílio os salmos foram destituídos de seu lugar genuíno e utilizado por indivíduos para devoção privada (1967, p.23,30).

As hipóteses representativas para o Sitz im Leben das lamentações no culto do antigo Israel são:

Günkel sinalizou que os salmos de lamentação teriam seu Sitz im Lebem nos cultos de Israel, num momento apropriado para queixar-se e agradecer; ele sugere que os hinos ou salmos de confiança alocados às lamentações poderia ser uma resposta ao oraculo divino feito em resposta às queixas, dentro da liturgia do culto; afirma que o caráter generalista dos salmos de lamentação só se pode explicar devido seu contexto cultual.

Mowinckel ampliou a ideia de Günkel e disse ser a festa dos Tabernáculos a ocasião onde se podiam entoar as lamentações nacionais; essa festa de ―ano novo‖ estaria correlacionada com a festa do ano novo dos babilônicos, onde haveria uma lamentação ritual que chorava a narração javística da Criação e da Queda; os salmos de lamentação individuais estariam vinculados aos rituais de cura e magia dos santuários locais de Israel.

Gerstenberger propôs que os salmos tiveram origem nos grupos primários de Israel e apresenta a ideia de que eles serviram os clãs nos dias de sofrimento, enfermidade e angústias quando estes se voltavam para a liturgia especifica ministrada por um liturgo, por vezes, o liturgo era um sacerdote, levita ou profeta itinerante; porém, sua hipótese é voltada para uma espécie de religião comunitária mais privativa e familiar, pois, até mesmo as lamentações individuais incluíam a participação de familiares.

A festa da Aliança desenvolvida por Weiser não foi amplamente aceita, inclusive, por não conseguir maiores detalhes na reconstrução desta festa, onde sua ideia parece uma leitura hermenêutica dos salmos sob ponto de vista da teologia da Aliança. Outra ideia não difundida foi a de Johnson (1967) e Eaton (1876) que previam um ritual de renovação anual de soberania terrena do rei; tal teoria atribuí a maioria das lamentações ao rei, aviltado por seus inimigos e cujo livramento está nas mãos de Yhwh.

Sellin e Fohrer (2007) têm como garantido o Sitz im Leben dos salmos de lamentação o fenômeno cúltico em Israel; admitem, porém, que não se podem restringir as lamentações a um culto apenas, mas a diversos tipos de celebrações cultuais – que incluí as celebrações mais familiares e individuais.

Os salmos de lamentação, portanto, são cânticos religiosos e cultuais; isto é, conforme Bentzen afirmou são ―poesia indubitavelmente religiosa‖ (BENTZEN, 1968, p.117-271). Mas não necessariamente no culto oficial e centralizado em Jerusalém. As hipóteses de que se realizavam lamentações com uso cultual em santuários locais antes da unificação em Jerusalém são bem plausíveis. A vinculação com o culto nacional de Israel é certa. A

discussão tramita em torno da viabilidade ou não de tais poesias envolverem o indivíduo em suas orações e devoções privadas.

Portanto, para chegar ao Sitz im Leben das lamentações o caminho da origem cúltica dos salmos é um bom começo. A história das tradições auxilia muito a pesquisa do ambiente vivencial, bem como a percepção da distinção entre a origem da lamentação e sua posterior compilação pós-exílica no saltério, respeitando a evolução do pensamento e procedimento religioso do antigo Israel.