O saltério é resultado de um processo longo na história da religião de Israel e se baseia em tradições e coleções anteriores a ele (RENDTORF, 1988, p.33). Em outras palavras, o saltério possuí materiais muito antigos e outros mais modernos, todos arranjados num mesmo corpo. Bridges apoia a ideia de longa formação dos salmos, desde o período de Davi até os macabeus e localiza o final da compilação do saltério por volta do século II já no período helenístico (1909, p.xlviii-lxxxix). Portanto, é muito difícil fixar uma data segura para a origem de cada um dos salmos. Determinar o contexto social e histórico de um salmo não é tarefa fácil e seu resultado, por vezes, será incerto (ANDERSON, In: CLEMENTS, 1981, p.275).
O leitor dos salmos é aparentemente bem informado quanto aos seus autores. Os salmos são atribuídos a Davi, a Salomão, a Moisés, a Asaph, aos filhos de Coré, a Hemã e
Etã. Weiser fala da presença destes nomes no início dos salmos como epígrafes (1994, p.63). No entanto, um exame mais minucioso concluirá que esses salmos não foram compostos por Davi e nem outro personagem a quais são atribuídos. É de supor que essas epígrafes não descrevam autores, afinal, a preposição l (le) no início dos nomes pode ter outras interpretações, como ―para Davi‖ ou ―à moda de Davi‖. Porém, tal preposição não é tão obvia do ponto de vista litúrgico dos salmos. Weiser ainda supõe que a preposição l (le) designe Davi como ―o ancestral portador das promessas de salvação‖ ou ainda que tal salmo ―foi destinado para a recitação conforme...‖151.
Neste ponto é preciso ter em mente que saltério é fruto de uma evolução histórica. Ele não é fruto de um único ato de coleção nem de composição152. Briggs acentua que na formação do saltério temos em média dez séculos de crescimento que vai desde a época de Davi até o período dos Macabeus, passando pelo período dos Persas e Gregos até seu arranjo e edição final na metade do segundo século153.
O saltério é um fenômeno de escribas, ou seja, um produto da atividade erudita (minuciosa), em vez de popular e das classes menos favorecidas. É fruto de intensa reflexão teológica. Corresponde a literatura de Israel, por certo, mais prodigiosa. Tal literatura incorpora diversas tradições antigas e recentes amalgamadas entre si para formar um corpo literário coeso. Contudo, tais unidades literárias possuem uma heterogeneidade que lhe confere autenticidade e dinamizava a experiência religiosa de Israel.
Portanto, é árdua tarefa para o pesquisador identificar a autoria de um salmo154. Podemos falar em salmos anônimos e salmos com pseudônimos, frequentemente identificados com ícones da tradição e da religião como Davi, Moisés, Jeremias, etc155. O fenômeno da
151
Weiser está baseando-se nas descobertas e evidencias dos escritos de Ras-Shamra. Elas mostram que muito da fraseologia do saltério é corrente na Palestina ao longo de vários anos e posterior aos profetas. Mesmo assim, os critérios a serem observados no exame literário são delicados. Consulte: DAHOOD, anchor bible, p.xviii-xliii.
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Consultar: DAHOOD, Mitchell. Psalms I: 1-50. Garden City: Doubleday, 1965 (The Anchor Bible, v.16); BRIGGS, Charles A. A Critical and Exegetical Commentary on the Book of Psalms. v.2. New York: Charles Scribner's Sons, 1907 (The International Critical Commentary); ACKROYD, Peter. Doors of Perception: A guide to leading the Psalms. London: SCM Press, 1978; BRUEGGEMAN, Walter. The Message of Psalms. Minneapolis: Fortres Press, 1985; GERSTENBERGER, Erhard. Psalms: Part 1: With An Introduction to Cultic Poetry. Michigan: Eardmans Publishing, 1991 (The Forms of the Old Testament Literature, v.14); KIRKPATRICK, A.F. The book of Psalms. 1ªed. Cambridge: Cambridge University Press, 1957; TERRIEN, Samuel. The Psalms: Strophic Structure and Theological Commentary. Michigan: Eardmans Publishing, 2003. 153
Os períodos indicados por Briggs (1907) para origem dos salmos são: antiga monarquia, média monarquia, monarquia tardia, exílio, período Persa intermediário, período Persa tardio, período Grego intermediário e tardio, período dos macabeus, final da coleção e divisão em cinco livros. O quadro demonstrativo das páginas xc-xci relacionam os salmos com os períodos e é útil para análises, consultas e posteriores pesquisas, apesar de ser um material bastante antigo na história da pesquisa. 154
Consultar: MILLARD, Alan. ―Authors, Books, and Readers in the Ancient World‖. In: ROGERSON, John William & LIEU, Judith M. The Oxford Handbook of Biblical Studies. New York: Oxford University Press, 2006, p.544-564.
155
Günkel se pergunta o porquê dos salmos não se referirem de modo pessoal a algum personagem citado por seu nome. Para ele, a ideia dos salmos serem produto da piedade pessoal é tardio à composição dos salmos. Segundo ele, a falta de clareza na autoria dos salmos reforça seu argumento de que eles nasceram em contexto cultual e não privado. GÜNKEL, Hermann. Introducción a los Salmos. Valencia: Edicep, 1993. p.25.
pseudonímia era bastante difundido na época do pós-exílio tardio, principalmente na era helenística, que testemunhou a chegada da literatura apocalíptica (METZGER, 1972, p.3-24). Alguns estudiosos procuram explicar a pseudonímia dos salmos devido ao declínio da literatura profética de Israel (época da oficialização dos livros poéticos ou Escritos)156. Mesmo assim, os salmos procuram reconhecer e venerar os feitos e personagens do passado. Seria este o caso da inclusão de salmos nos livros dos profetas de Israel. Mas, apesar de outros motivos que possam ser apontados para justificar a pseudonímia, o motivo fundamental é a reivindicação de autoridade. Não há duvidas que um pseudônimo como Moisés, Davi ou Jeremias agregaria autoridade, principalmente na época de reformulação da fé israelita posterior ao exílio, em Judá (CHARLES, 1913, p.ix).
Os salmos de lamentação são bastante parecidos entre si em termos em estrutura, imagens, símbolos e conteúdos. É bastante difícil delimitar, pois, uma data fixa para um salmo desse gênero157. As tentativas de localizar seu desenvolvimento na história da religião de Israel é, pois, uma hipótese158. Porém, há hipóteses plausíveis e mais bem argumentadas que outras.
Conquanto, os salmos bíblicos estão atrelados com a história da religião de Israel, Kraus apresenta algumas diretrizes equilibradas para descoberta da data, situação vivencial e provável autoria dos salmos, que bem se aplicam na investigação das lamentações:
Poderíamos nos perguntar acerca da época dos salmos, fixando-nos especialmente em sua linguagem e estilo; certos temas, grupos de conceitos e formas de expressão proporcionam também chaves para datar os salmos [...] Poderíamos tratar de fixar o período a que pertencem os salmos. O culto também tem a sua história. A história do culto permite tirarmos conclusões sobre o período a que se deve ser atribuídas o cântico cúltico de que se trata [...] Muitos salmos fazem referencia a acontecimentos históricos mais antigos. O estudo da história das tradições está encarregado de investigar a natureza destas adaptações, recitações ou mencionar ainda que breve as tradições históricas ou da história da salvação [...] Em casos particulares, a referencia dos salmos a história de Israel é direta. Sobretudo, os ―cânticos de oração da comunidade‖ [chamamos aqui de lamentos nacionais], que aparecem em um tempo determinado de desgraças, se referem diretamente a uma situação histórica (1993, p.95).
156
CHARLES, R.H. The Apocypha and Pseudepigrapha of the Old Testament. v.2. Oxford: Clarendon, 1913, p.ix. 157
Berkhof chega a afirmar que não se pode ter uma interpretação acertada de um texto bíblico sem que tal passagem seja vista em suas próprias circunstâncias históricas passemos a procura destas situações. Porém, no caso dos salmos de lamentação essa tarefa é bastante árdua e nem sempre efetiva. BERKHOF, Louis. Princípios de Interpretação Bíblica. Rio de Janeiro: Juerp, 1981, p.120.
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A sugestão de Eissfeldt nos parece adequada: a interpretação literária à luz dos contextos composicionais maiores dos livros bíblicos, ao invés de prender-nos tão somente na Gattungsforschung. Os livros biblicos não oferem uma disposição cronológica, mas um material consistente estruturado por princípios de composição. O plano que delimitou esses princípios nos é desconhecido. É tarefa do interprete se lançar nestas prováveis reconstruções dos esquemas de composição de um livro bíblico para chegar a compreender melhor seu ambiente vivencial e funções literárias. Consulte: EISSFELDT, Otto. The Old
Os salmos de lamentação possuem situações vivenciais comuns que envolvem o sofrimento dos seus compositores e cantores. Portanto, apesar da distância histórica que separa o texto do intérprete, seja possível, em termos de hipóteses, delimitar um Sitz im Leben mais ou menos acertado para as composições bíblicas. Contudo, sem retirar a minuciosidade e possíveis imprecisões da tarefa.