O desenvolvimento da lamentação envolve a súplica como um todo. Podemos chamar de o lamento em si. Kraus prefere identificar como cânticos de oração, ao invés de lamentação. Esta é a sessão principal da lamentação e incluí vários elementos em conjunto e por vezes justapostos. Nem sempre há a presença de todos. Mas, certamente, um ou outro elemento se apresenta na lamentação. Segundo Wolff, podem ser orações longas, onde se descreve o sofrimento quase que em termos narrativos (2003, p.127).
O estilo em que esta parte central da lamentação é desenvolvida é hiperbólico. Ou seja, é escrito de forma exagerada e dramática. Nem sempre corresponde a um fato em si ou alguma narrativa. Daí a dificuldade de determinar o Sitz im Leben das lamentações. Von Rad é por genérico quando afirma que o Sitz im Leben dos salmos, especialmente os de lamentação, é o coração humano. Certamente, cada salmo de lamentação foi construído para e a partir de uma realidade, porém, é descrito de forma abrangente, simbólica e em imagens comuns aos lamentadores.
A hipérbole foi o estilo em que os escritores puderam melhor adequar esses textos. É provável que assim o fizeram para dar aos cânticos um caráter atemporal, não localizado a uma situação especifica, mas incluí-lo nas várias e repetidas situações que exigiam a linguagem de lamentação na vida dos israelitas.
A lamentação pode atestar a presença entre a introdução/invocação e o lamento em si de uma transição. Para Westermann, essa transição é fundamental na classificação de um lamento. Ela tem o objetivo de demonstrar que o lamento se trata de uma oração a Deus. Por isso, o salmo de lamentação encerra-se normalmente com o voto de louvor, que abrange outra transição importante na estrutura. A transição da introdução para o lamento e do lamento para o louvor marca o gênero literário da lamentação nos salmos (1965, p.267). É na transição que o salmista ou cantor oficial declaram que vão ―derramar‖ sua alma a Deus. Em outras palavras, a transição é que dá ligação entre a invocação, o lamento em si e o agradecimento ou voto de louvor durante todo o salmo.
É comum as lamentações apresentarem as narrativas dos infortúnios. Dentre elas alternam-se diversos motivos que levaram o aflito a queixar-se a Yhwh. O sofredor narra o as suas desgraças da forma mais ―negra‖ que puder (BENTZEN, 1968, p.174). As petições dos salmistas são ―apaixonadas‖, isto é, acaloradas, passionais e por vezes cheia de ira e vingança. Segundo Kraus, este é o momento principal do centro da lamentação: o retrato da situação desgraçada que o salmista experimenta. Pode ser uma doença, um problema jurídico, uma acusação falsa, perseguição de inimigos reais ou imaginários, o sentimento de abandono da parte de Deus e dos amigos, sentimento de culpa pelo pecado cometido (KRAUS, 1993, p.72). Em outras palavras, é o perigo de morte que leva o salmista à súplica (SABOURIN, 1970, p.216).
Entremeios a desgraça narrada ou inferida, o salmista decididamente suplica. A súplica dirigida a Yhwh tem a finalidade de encontrar sua clemencia e misericórdia. A lamentação é o último recurso que o israelita possuía diante das dores e malefícios da vida. A súplica é permeada de queixas. As perguntas retóricas podem encontrar espaço neste
momento também. A súplica, de modo geral, é um apelo ao Senhor realizado por alguém que se sente no submundo ou à beira da morte (BENTZEN, 1968, p.174).
O lamentador lança impropérios aos seus inimigos neste ponto, pois se sente injustiçado. O sentimento de injustiça é tema central nos salmos de lamentação. Na concepção do salmista os injustos não podem prevalecer. Esses impropérios podem se tornar na linguagem de lamentação em maldições ou imprecações contra os inimigos. O salmista deixa claro neste elemento o desejo que Yhwh se vingue dos seus inimigos, que haja uma retribuição do mal que lhes fizeram. É comum o lamentador fazer um protesto a sua inocência.
As lamentações apresentam os motivos pelos quais Yhwh deve socorrer o aflito. Yhwh deve socorrer alguém porque é soberano e o sofredor depende inteiramente dele (BENTZEN; 1968, p.174); porque Yhwh deve preservar sua honra, ou seja, quando alguém calunia ou prevalece contra o povo de Deus, o nome de Yhwh é envergonhado (1968, p.174); é Yhwh que examina a consciência de quem ora e dos inimigos (WEISER, 1994, p.51); Yhwh é lembrado do Êxodo do Egito como padrão de sua libertação; porque não será possível o sofredor louvar a Deus e testemunhar seus grandes feitos na assembleia dos justos se estiver no sepulcro.
Sellin e Fohrer resumem o que podemos encontrar no lamento em si, dentro da estrutura de um salmo de lamentação:
[...] a narrativa do infortúnio, em forma de queixa (enfermidade, acusação em juízo, abandono por parte de Deus etc.) e entremeada de perguntas a respeito do por que e do por quanto tempo, e de acusações contra os inimigos reais ou supostos; os pedidos dirigidos a Deus para que se volte, propício, e preste socorro, talvez ligados a desejos ou a maldições; a indicação dos motivos que devem levar Javé a intervir (recordação de ajudas antigas: apelo à honra de Javé, perigo de perder um adorador por morte deste), e também protestos de inocência e o tema da confiança; a promessa de um sacrifício ou de um cântico de ação de graças, que aparece às vezes inclusive no fim da lamentação (2007, p.368).
Contudo, Westermann ressalta que a petição não é o centro da lamentação. Para ele, a lamentação não tem sentido em si mesma. Portanto, ela não deve ser retirada de seu contexto teológico e analisada simplesmente em termos de gênero. Pois, a lamentação dirige a atenção de quem ora a Deus na expectativa da salvação ou livramento. O essencial da lamentação, geralmente representada no corpo da lamentação ou no desenvolvimento do lamento em si, é alcançar a compaixão de Deus através destes recursos retóricos, psicológicos, litúrgicos e teológicos que o salmista recorre (1965, p.265,266).
O lamento em si é quando o salmista implora com todas as suas possibilidades que