O solo aonde acontece as lamentações proferidas por profetas, como Amós, Isaías e Jeremias é o da apostasia religiosa e o das injustiças sociais. O livro Jó nos leva ao Sitz im
Leben do sofrimento inexplicável pelo indivíduo e sua comunidade. A época de Habacuque e
Jeremias é substancialmente o de sincretismo religioso, abusos sociais, conflitos locais, guerras internacionais; época permeada de violência e sofrimento. Habacuque e Jeremias, praticamente contemporâneos, podem ser localizados em época denominada de ―exílio‖, cujas lamentações assumem diversos papéis na religião e sociedade de Israel.
A expressão ―exílio babilônico‖ se refere à conquista de Judá pelos babilônicos no início do século VI a.C. A data oficial para o início deste evento, segundo Klein, foi o ano 597 quando os babilônicos capturaram o rei Joaquim e fizeram a primeira deportação (1990, p.11). Segundo Schwantes foram deportadas cerca de 10.000 pessoas nesta primeira leva (2007, p.28), sua base está em 2 Reis 24.14-16; mas não sabemos ao certo o número exato, pois as contagens bíblicas são contraditórias e inexatas (por exemplo, não sabemos se neste numero incluem-se crianças e mulheres). A experiência do exílio só acabaria em 539 quando os babilônicos foram dominados pelos persas. Esse tempo denominado entre os estudiosos como o ―exílio‖, a saber, por volta de 586 a 538, é erroneamente entendido como a ênfase do que houve no cativeiro babilônico.
Muito da literatura produzida entre os remanescentes (os que ficaram em Judá) receberam influencia dos que retornaram do cativeiro e reclamavam a si a exclusividade da eleição divina. Portanto, é importante deixar claro que para os que permaneceram na terra não havia um ―exílio‖, mas uma existência e subsistência colonial, cheia de dificuldades.
O período de 597 a 586, que se dá desde a primeira deportação passando pelo sítio de Jerusalém até sua queda, foi marcada pela expansão da população de Judá ao redor da periferia da cidade e de outras regiões próximas a Judá como Amon, Moab e Edom, partes do atual território da Jordânia.
Em contraste, para os que foram levados para Babilônia a vida não foi tão severa173. Ainda que eles tivessem sido deportados de sua terra e perdido vários direitos que tinham como elite e liderança em sua nação, eles desfrutaram de certa liberdade em território estrangeiro. Acroyd é quem desenvolveu um estudo aprofundado e de referencia sobre o
173
Sobre as condições do povo ―exilado‖, a partir de informações dos profetas Jeremias e Ezequiel, consulte: GABEL, John; WHEELER, Charles. A Bíblia Como Literatura. 2ª.ed. São Paulo: Loyola, 2003, p.136.
período174. Segundo ele, a categoria ―exílio‖ aplica-se àqueles que foram deportados e, quanto aos judaítas que ficaram em Judá, certamente, suas condições de sobrevivência foram se tornando piores; para os que iam se assentando em terras estrangeiras, ou seja, para os deportados, a vida aos poucos melhorava à medida em que se adequavam às novas demandas culturais e adaptações religiosas175.
O lamento foi amplamente praticado na época do exílio. O livro de Habacuque se encontra no início do cenário do exílio, mais precisamente no final do que convencionalmente chamamos de pré-exílio. A perícope de Habacuque 1.1-4 lança mão do lamento para fazer a análise da realidade marcada por violências e crimes de toda ordem no período. O caos parece ter tomado conta da sociedade. Não há onde buscar socorro. Não há a quem se dirigir na expectativa de justiça. Os que exercem poder e teriam a autoridade para exercer o direito estavam corrompidos. Portanto, Habacuque lamenta que o injusto estivesse sendo entregue nas mãos do perverso (Hc 1.1-4)176.
Em Habacuque não há qualquer outro recurso disponível para proteger o justo, o pobre, e aquele que se tornava vítima dos abusos internos da nação e oprimidos pela conjuntura de crises internacionais: o lamento era a possibilidade de dar voz ao sofrimento. Diante da ameaça da fé, lança-se mão do lamento para alterar a situação calamitosa ao seu redor.
O livro de Jeremias em seu estado atual é uma reação ao exílio, uma releitura religiosa dos fatos, uma ressignificação dos símbolos da religião de Israel e uma resposta teológica a partir do profeta que ganhara legitimidade profética após os desastres. A diversidade de gêneros no uso da profecia jeremiânica são exemplos da riqueza literária que os judaítas dispuseram para interpretar a situação de calamidade, violência e desespero (NICHOLSON, 1970).
174 O estudo histórico do exílio foi tratado com profundidade por: ACKROYD, Peter. Exile and Restoration: A Study of
Hebrew Thought of the Sixth Century. London: SCM, 1968 (Old Testament Library); BRIGHT, John. História de Israel. São
Paulo: Paulinas, 1978; DONNER, Herbert. História de Israel e dos Povos Vizinhos: da Época da Divisão do Reino até
Alexandre Magno. V.2. São Leopoldo: Sinodal, 1997. Para revisar as justificativas, consequências e perspectivas do exílio na
ótica jeremiana vale consultar o trabalho de: TRIGO, Alecssandra C. O Exílio na Babilônia: Um Novo Olhar Sobre Antigas
Tradições. 2007. 139fl. Dissertação (Mestrado em Letras). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da
Universidade de São Paulo (FFLCH/USP). São Paulo, 2007, p.87-107. 175
O ―exílio‖, ao contrário do que se pensa, acarretou em uma série de oportunidades tanto para os exilados quanto para os remanescentes, os que ficaram em Judá. Donner afirma que ―o exílio babilônico foi uma época de miséria e opressão, mas também de mudança e reflexão‖ DONNER, Herbert. História de Israel e dos Povos Vizinhos: da Época da Divisão do Reino
até Alexandre Magno. V.2. São Leopoldo: Sinodal, 1997, p.442. Na opinião de Schwantes, ―o sofrimento [do povo] foi
transformado em êxito‖ SCHWANTES, Milton. Sofrimento e Esperança no Exílio: História e Teologia do Povo de Deus no
Século VI a.C. São Paulo : Paulinas, 2007, p.17,18.
176 Consultar: PORATH, Renatus. ―A Fé e o Cotidiano de Violência: Caminhos de Inspiração Cúltico-Profética no Livro de Habacuque‖. In: ZWETSCH, Roberto E.; BOBSIN, Oneide (Org.). Prática Cristã: Novos Rumos. São Leopoldo: Sinodal/IEPG, 1999, p.159-169.
Os idos do exílio e pós-exílio foram épocas de intensa atividade literária entre os palestinenses. Marca a literatura deste tempo: a obra deuteronomística e o livro de Jeremias: literatura sob o ponto de vista campesino; a produção de vários salmos e do uso das lamentações: liturgias e cânticos de sofrimento e esperança por indivíduos e pela comunidade em culto (SCHWANTES, 2007, p.68). Para a compreensão mais ampla do livro de Jeremias, importa relacioná-lo com a produção literária de âmbito palestinense e o exame das suas ―confissões‖. Para Von Rad, os lamentos dispostos no livro de Jeremias são a chave hermenêutica de todo o livro, ele as caracteriza como a ―parte central de qualquer interpretação‖ (2006, p.627).
A linguagem de lamentação no livro de Jeremias, por sua vez, envolve as funções proféticas relativas ao profeta Jeremias e as características de critica social e teológica da escola posterior que reconheceu Jeremias como profeta autêntico. Esta escola foi a que provavelmente trabalhou a edição final do livro após o profeta ser levado à força para o Egito ou ter morrido. Alguns estudiosos a reconhecem como deuteronomística, outros ainda afirmam que o livro de Jeremias passou por mãos de agentes redacionais antes da influência deuteronomística. Por certo, o livro de Jeremias apresenta uma série de complexidades redacionais e de compilação que problematizam a questão177.
As funções destas lamentações espalhadas no livro de Jeremias podem ser multifacetadas. Primeiramente, elas possuem uma tonalidade de acusação da injustiça que o povo de Deus acreditava ter sofrido com tamanha catástrofe. Em segundo lugar, por se tratar de lamentações proféticas, anunciam uma mensagem vinculada ao sofrimento do profeta que reclamava a si legitimidade de porta voz de Yhwh no cenário religioso da época. Segundo a
177
O tema das chamadas ―confissões‖ de Jeremias é peculiar ao livro de Jeremias. Elas aparecem na estrutura do livro entre os capítulos 11 e 20. HOLLADAY, William L. The Architecture of Jeremiah 1-20. Lewisburg: Bucknell University Press: 1976, 125-163. Alguns estudiosos apontam que já existem confissões desde o primeiro capítulo, onde a partir desta teoria elas apareceriam já no capítulo 1. É curioso estas confissões estarem espalhadas por este bloco. De qualquer forma, dentro da estrutura redacional do livro de Jeremias, o bloco 1 a 25, em especial, 11 a 20 formam o contexto literário maior no qual estas confissões estão inseridas. O número de confissões encontradas no primeiro bloco do livro de Jeremias também é discutido pelos estudiosos. Uns vêem mais, outros menos parágrafos de confissões. BENTZEN, Aage. Introdução ao Antigo
Testamento. São Paulo: Aste, vol. 2, 1959, p.130-136. A maioria concorda que tais poemas se encontram entre os capítulos
11 a 20. Discordam apenas nas divisões e subdivisões das perícopes. SMITH, Mark. S. The Laments of Jeremiah and Their
Contexts: A Literary and Redactional Study of Jeremiah 11-20. Atlanta: Scholars Press, 1990 (Society of Biblical Literature
Monograph Series, no. 42). O gênero literário no qual elas são escritas é o de poesia, mais precisamente o de lamentação individual. BAUMGARTNER, Walter. Jeremiah's Poems of Lament: Historic Texts in Biblical Scholarship. Sheffield: Almond, 1988, p.59-62; 76-78. Ainda que possamos discutir a respeito da delimitação do que é um lamento individual para o lamento nacional. THIELE, David Herbert.. The Identity of the 'I' in the 'Confessions' of Jeremiah. Cooranbong: Avondale College, 1998. Para alguns exegetas, como John Skinner, esses lamentos revelam a vida íntima do profeta. SKINNER, John.
Jeremias: Profecia e Religião. São Paulo: Aste, 1966, p.189-213. Para outros, são apenas acréscimos redacionais da literatura
de lamentação da época do exílio que ganha ênfase quando posta na boca do profeta representante do período. CARROLL, Robert. P. Jeremiah: A Commentary. Philadelphia: The Westminster Press, 1986.
maldição explícita no lamento do capítulo 20 era melhor Israel ou o profeta não terem nascido para sofrer tamanha injustiça e violência178.
É complexo, da mesma forma, identificar as vozes que lamentam no livro de Jeremias. Ottermann (2003) identificou vozes de mulheres oprimidas, vitimadas pela violência do período. Lee percebe que nas chamadas confissões, Jeremias é a personificação do povo, desde a corrupção de Jeoiaquim até o desastre da queda da cidade (2010, p.144,145). Skinner representa a perspectiva de que os lamentos se tratavam da vida íntima do profeta, chegou a escrever um capítulo dedicado a isso, chamado ―a religião íntima do profeta‖ (1966, p.189- 213). Carroll (1986) trabalha tais lamentações como símbolos e arquétipos da luta cósmica entre o bem e o mal, representados no confronto do justo afrontado pelo injusto.
Ora, como o contexto onde as lamentações são escritas é muito importante, precisamente seu ambiente vivencial, faz-se necessário um exame minucioso e exegético das lamentações de Habacuque e Jeremias para sair das generalizações. Portanto, as lamentações realizadas ou utilizadas pelos profetas eram expressões de queixas, de interpretação da sociedade, de ressignificação da teologia e, até mesmo, de mediação entre Deus e o povo. No próximo capítulo da presente dissertação procuramos sair de tais generalizações quanto à linguagem de lamentação, observando cautelosamente o salmo de Jeremias 20.7-18.
O estudo que realizamos até o momento na pesquisa se fez necessário para adentrarmos no estudo exegético da perícope de estudo, tendo por base a perspectiva geral da lamentação em Israel.
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Consultar: LUNDBOM. Jack. Jeremiah 1-20: A New Translation with Introduction and Commentary. Garden City: Yale University Press, 2004. (The Anchor Bible Commentaries).
5 O SALMO DE JEREMIAS 20.7-18: ANÁLISE EXEGÉTICA
Por certo, a perícope de Jeremias 20.7-18 é um salmo de lamentação. Esse é nosso pressuposto básico para a análise exegética do nosso objeto de estudo. O gênero da perícope é marcadamente o de lamentação. Jeremias é o livro profético que atesta peremptoriamente a linguagem de lamentação do antigo Israel.
Como fenômeno universal que é, a lamentação é encontrada quando a violência e o sofrimento se mostram presentes na sociedade. O contexto histórico e social do livro de Jeremias atesta claramente a opressão, o sofrimento, a violência e o caos generalizado. É certo que o livro de Jeremias abrange um período amplo na história de Israel, mas em todo ele o sofrimento encontra eco na voz de Jeremias. O solo cultural e religioso que a profecia jeremiana se encontrava fora influenciado, até certo ponto, com a cultura geral do antigo Oriente Próximo. Em outras palavras, a micro cultura do antigo Israel continha certos pontos de contato com a macro cultura da sociedade a seu entorno, ainda que mantivesse sua própria idiossincrasia. Jeremias se fixa neste ambiente. Seu livro é produção deste micro contexto envolvido num âmbito maior.
A linguagem de lamentação em Israel atinge seu auge na época do exílio. Este é um período privilegiado em termos de produção literária dos profetas e de manifestações religiosas que deram voz ao povo que perguntava, clamava e sofria. É, porém, uma época de transformações a partir de todo sofrimento. Armstrong (2008) afirma que este é um dos períodos ―axiais‖ da história da humanidade, em que a religião promovida em seu contexto em meio a dor e violência gerou transformações significativas nas sociedades que as precederam.
O livro do profeta Jeremias é parte desta linguagem que nasce da dor. Provavelmente, assume como escopo de sua estrutura literária (pelo menos no primeiro bloco do livro) a linguagem de lamentação. A trajetória de Jeremias é tanto histórica quanto simbólica. Historicamente, ele é o profeta que dá voz a seu próprio sofrimento; simbolicamente, ele dá voz e sentido ao sofrimento do povo de Judá e Jerusalém. É provável que a escola jeremiana tenha sido aquela que encontrou na voz de Jeremias a personificação da situação vivencial dos judaítas.
O capítulo 5 de nossa pesquisa pretende, portanto, situar historicamente o livro de Jeremias e o backgroud histórico e sociológico do livro para aproximação da perícope de
estudo. A metodologia de análise do nosso texto de interesse é a da forma, lugar e conteúdos sob perspectiva da linguagem de lamentação. Esta aproximação e verificação de linguagem na perícope de estudo é que proporcionou o tema da presente dissertação.