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A expressão ―exílio babilônico‖ se refere à conquista de Judá pelos babilônicos no início do século VI a.C. A data oficial para o início deste evento foi o ano 597. quando os babilônicos capturaram o rei Joaquim e fizeram a primeira deportação207. Segundo Schwantes foram deportadas cerca de 10.000 pessoas nesta primeira leva208, sua base está em 2 Reis 24.14-16; mas não sabemos ao certo, pois as contagens bíblicas são contraditórias e inexatas – por exemplo, não sabemos se neste numero incluem-se crianças e mulheres. A experiência do exílio só acabaria em 539. quando os babilônicos foram dominados pelos persas.

Mas importa alguns esclarecimentos quando à nomenclatura do período. Esse tempo entendido entre os estudiosos como o ―exílio‖, a saber, por volta de 586 a 538, é erroneamente entendido como a ênfase do que houve no cativeiro babilônico. Muito da literatura produzida entre os remanescentes receberam influencia dos que retornaram do cativeiro e reclamavam a

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Para maiores detalhes consulte: CARSON, Donald A. et al. Comentário Bíblico Vida Nova. São Paulo: Vida Nova, 2009, p.1014-1019.

206

HARRISON, Robert K. Jeremias e Lamentações: Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova, 1980, p.11,12. 207 KLEIN, Ralph W. Israel no Exílio: Uma Interpretação Teológica. São Paulo: Paulinas, 1990, p.11.

208

SCHWANTES, Milton. Sofrimento e Esperança no Exílio: História e Teologia do Povo de Deus no Século VI a.C. São Paulo : Paulinas, 2007, p.28.

si a exclusividade da eleição divina. Portanto, é importante deixar claro que para os que permaneceram na terra, a quem chamamos de remanescentes, não havia um ―exílio‖, mas uma existência e subsistência colonial, cheia de dificuldades. O período de 597 a 586, que se dá desde a primeira deportação passando pelo sítio de Jerusalém até sua queda, foi marcada pela expansão da população de Judá ao redor da periferia da cidade e de outras regiões próximas a Judá como Amon, Moab e Edom.

Em contraste, na Babilônia, a vida não foi tão severa209. Ainda que os exilados tivessem sido deportados de sua terra e perdido vários direitos que tinham como elite e liderança de sua cidade, eles desfrutaram de certa liberdade. Acroyd é quem desenvolveu um estudo aprofundado de referencia sobre o período210: a categoria ―exílio‖ aplica-se àqueles que foram deportados; quanto aos judaítas que ficaram em Judá, certamente, suas condições de sobrevivência foram se tornando piores para os que iam se assentando em terras estrangeiras e adequando suas vidas à nova cultura211.

Aproximando-nos do nosso profeta, percebemos que os anos que compreendem a atuação de Jeremias em Jerusalém foram seguidos de desastres porque se encontram dentro do período denominado ―exílio‖212

. Vemos sua atuação entre aqueles que ficaram em Judá, isto é, os remanescentes. A conquista babilônica afetou negativamente toda a população, mas especialmente os moradores de Judá. A esta parcela histórica e vivencial que nos ateremos mais enfaticamente na presente dissertação, nos direcionamos para a perspectiva destes que permaneceram no território palestinense porque dela se origina a profecia de Jeremias e as interpretações e redações posteriores à obra jeremiana.

Conquanto, após a conquista de Jerusalém e a desurbanização de Judá a população era predominantemente campesina. Os líderes e pessoas mais abastadas do povo tinham sido

209

Sobre as condições do povo ―exilado‖, a partir de informações dos profetas Jeremias e Ezequiel, consulte: GABEL, John; WHEELER, Charles. A Bíblia Como Literatura. 2ª.ed. São Paulo: Loyola, 2003, p.136.

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O estudo histórico do exílio foi tratado com profundidade por: ACKROYD, Peter. Exile and Restoration: A Study of

Hebrew Thought of the Sixth Century. London: SCM, 1968 (Old Testament Library); BRIGHT, John. História de Israel. São

Paulo: Paulinas, 1978; DONNER, Herbert. História de Israel e dos Povos Vizinhos: da Época da Divisão do Reino até

Alexandre Magno. V.2. São Leopoldo: Sinodal, 1997. Para revisar as justificativas, consequências e perspectivas do exílio na

ótica jeremiana vale consultar o trabalho de: TRIGO, Alecssandra C. O Exílio na Babilônia: Um Novo Olhar Sobre Antigas

Tradições. 2007. 139fl. Dissertação (Mestrado em Letras). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da

Universidade de São Paulo (FFLCH/USP). São Paulo, 2007, p.87-107. 211

O ―exílio‖, ao contrário do que se pensa, acarretou em uma série de oportunidades tanto para os exilados quanto para os remanescentes, os que ficaram em Judá. Donner afirma que ―o exílio babilônico foi uma época de miséria e opressão, mas também de mudança e reflexão‖ DONNER, Herbert. História de Israel e dos Povos Vizinhos: da Época da Divisão do Reino

até Alexandre Magno. V.2. São Leopoldo: Sinodal, 1997, p.442. Na opinião de Schwantes, ―o sofrimento [do povo] foi

transformado em êxito‖ SCHWANTES, Milton. Sofrimento e Esperança no Exílio: História e Teologia do Povo de Deus no

Século VI a.C. São Paulo : Paulinas, 2007, p.17,18.

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A atuação histórica de Jeremias na época do reinado de Jeoiaquim foi abordada de forma concentrada em: BORTOLLETO FILHO, Fernando. Sofrimento e Luta Social em Jeremias 7-23. 1994. 206fl. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião). Instituto Metodista de Ensino Superior, São Bernardo do Campo, 1994, p.31-71; 108-139. O quadro da destruição de Jerusalém é bem explicado no artigo de WANDERMUREN, Marli. ―A Destruição de Jerusalém e o Destino de Sua População: Uma Leitura de Jeremias 38,28b-39,14‖. Disponível em: « http://www.fbb.br/downloads/marli_artigo2.pdf ». Acesso em: 5 abr, 2010.

deportados. A maioria do povo ficou em Judá, cerca de 100.000 pessoas. Para estes, na conjuntura em que se encontrava, a religião foi se enfraquecendo. Bright diz que a teologia nacional entrou em crise: a população começou a duvidar da soberania e justiça de Yhwh213. Em outras palavras, a teologia nacional entrou em crise. A religião ―javista‖ se enfraqueceu.

Estas crises teológicas da população ao longo de todo o período desde a violência e repressão de Jeoiaquim, passando pelo domínio neobabilônico até o domínio persa e retorno dos exilados proporcionou uma nova reflexão no âmbito religioso. Era necessário que houvesse respostas para os dilemas enfrentados. Por que Yhwh permitiu tal catástrofe? Onde ele estava quando mais precisaram? Agora, sem templo, onde estaria Yhwh? Sem os principais líderes da nação e oficiais da religião, quem poderia dar as respostas? Como seria a vida em meio à extrema pobreza? ―O exílio trouxe inúmeros problemas físicos e socioeconômicos‖214

. Os remanescentes procuraram a resignificar um novo momento de fé e teologia. Primeiro, em relação à teologia do templo, isto é, do lugar de atuação de Yhwh. Em segundo lugar, em relação ao fim da dinastia davídica. Em terceiro lugar, podemos compreender que os sistemas de símbolos precisaram de novas utilidades e reinterpretações. A partir destas indagações e novo momento derivam-se as produções literárias e releituras importantes para a história da religião do antigo Israel.

Neste caso, o livro de Jeremias em seu estado atual é uma reação ao exílio, uma releitura religiosa dos fatos, uma ressignificação dos símbolos da religião de Israel e uma resposta teológica a partir do profeta que ganhara legitimidade profética após os desastres.

Os idos do exílio e pós-exílio foram épocas de intensa atividade literária entre os palestinenses. Marca a literatura deste tempo: a obra deuteronomística e o livro de Jeremias: literatura sob o ponto de vista campesino; a produção de vários salmos e do uso das lamentações: liturgias e cânticos de sofrimento e esperança por indivíduos e pela comunidade em culto215. Para a compreensão mais ampla do livro de Jeremias, importa relacioná-lo com a produção literária de âmbito palestinense.

O livro de Jeremias nos mostra que é em meio a estes acontecimentos que encontramos o profeta e sua influência216. Vemo-lo como um dos pobres em Jerusalém217.

213

BRIGHT, John. História de Israel. São Paulo: Paulinas, 1978, p.447-450. 214

KLEIN, Ralph W. Israel no Exílio: Uma Interpretação Teológica. São Paulo: Paulinas, 1990, p.13. 215

SCHWANTES, Milton. Sofrimento e Esperança no Exílio: História e Teologia do Povo de Deus no Século VI a.C. São Paulo : Paulinas, 2007, p.68; Cf. também KLEIN, Ralph W. Israel no Exílio: Uma Interpretação Teológica. São Paulo: Paulinas, 1990, p.19-82.

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Para a presente dissertação, não obstante, precisamos destas informações para situar nossa perícope na história. É no período que vai da subida de Jeoiaquim ao trono de Judá sob domínio egípcio (c.608 a.C.), passando pela deportação de Joaquim, desmilitarização de Judá (c. 597 a.C.) e pela nomeação de Zedequias como governador pela Babilônia (c. 597 a 587 a.C.), culminando na destruição do templo de Jerusalém e na desurbanização de Judá (587 a.C.) e na morte de Godolias (c. a.C., cf. Jr 26.24; 2Rs 22.3), que vemos a atuação do profeta Jeremias entre os judaítas.

Primeiramente ele rompe com a elite josiânica quando percebe as limitações da reforma218. Torna-se um crítico ferrenho do governo de Jeoiaquim, sendo perseguido e maltratado (época em que vários exegetas sugerem que se encontra as suas ―confissões‖ – ainda vamos discutir melhor esta hipótese)219. Enfrentou embates com círculos proféticos de oposição a sua mensagem e que o ridicularizavam220. Tornou-se um dos ícones dentre os portadores oficias da mensagem de Yhwh ao povo necessitado.

Bright o chamou de ―demolidor da falsa esperança‖ por causa de sua mensagem221. Gottwald sugere que o tema central da mensagem de Jeremias confronta a política interna de Judá porque ―era tão corrupta que seria destruída totalmente pela neobabilônia‖222

. Schwantes o aproxima do camponês judaíta quando fala da possibilidade de relação com as ideologias do campo: ―na oposição a Sião, na expectativa messiânico-davídica e na certeza de que o [verdadeiro] povo de Deus são os remanescentes na terra de Javé‖223

, isto é, ao contrário dos exilados que reclamavam a si a legitimidade da eleição divina para liderar Israel.

Com essas considerações podemos nos aproximar da perícope da pesquisa (no próximo capítulo da dissertação) com alguns dados que perfazem o pano de fundo da vida e obra de Jeremias e as dimensões da história de Israel que envolvem a produção literária relativa ao livro em questão. Esses dados (panorâmicos), juntamente com a perspectiva histórica-teológica da linguagem de lamentação na época do exílio podem auxiliar a compreensão de que a prática de lamentação de Jeremias, certamente, foi um meio de reagir às situações do período e, em termos literários, não foram deixados de lado na construção e elaboração do complexo livro que temos acesso.

217

Cf. SCHWANTES, Milton. Breve História de Israel. 2a. edição ampliada. São Leopoldo: Oikos Editora, 2008, p.49-58. 218 Cf. SCHWANTES, Milton. Sofrimento e Esperança no Exílio: História e Teologia do Povo de Deus no Século VI a.C. São Paulo : Paulinas, 2007, p.60.

219

Bright diz que o profeta ―foi odiado, escarnecido, relegado ao ostracismo‖ e ―continuamente atormentado e, mais de uma vez, quase morto‖, Cf. BRIGHT, John. História de Israel. São Paulo: Paulinas, 1978, p.452,453.

220

A este debate verificamos os seguintes trabalhos: TORRES, Otávio J. Verdadeira e Falsa Profecias: Uma Nova Leitura

da Controvérsia entre Jeremias e os Profetas da Paz – Jeremias 23,9-14. 1999. 188fl. Dissertação (Mestrado em Ciências da

Religião). Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 1999. CAMPUSANO, Maria V. Opressão e

Resistência Revelados Pelos Corpos Peregrinos: Um Estudo de Gênero, Classe e Etnia a partir dos Salmos de Subida (Salmos 120-134). 2003. 309fl. Tese (Doutorado em Ciências da Religião). Universidade Metodista de São Paulo, São

Bernardo do Campo, 2003; SILVA, Fernando C. Conflitos Proféticos: A Posição da Profecia no Campo Religioso Judaíta do

Século VIII a.C. 2006. 142fl. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Estadual Paulista, Assis, 2006, p.14-25. Cf.

também o excelente artigo de: LONG, Burke O. ―Social Dimensions of Prophetic Conflit ‖. Semeia, n.21, 1981, p.31-53. 221

BRIGHT, John. História de Israel. São Paulo: Paulinas, 1978, p.458.

222 GOTTWALD, Norman. Introdução Socioliterária à Bíblia Hebraica. São Paulo: Paulus, 1988, p.374. 223

SCHWANTES, Milton. Sofrimento e Esperança no Exílio: História e Teologia do Povo de Deus no Século VI a.C. São Paulo : Paulinas, 2007, p.61.