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Supportive clinical safety data of vaccine using the Ad26 Vector

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2. Scientific discussion

2.6. Clinical safety

2.6.12. Supportive clinical safety data of vaccine using the Ad26 Vector

Chegamos ao terceiro fator que, segundo Vaz, permite o equilíbrio entre as possibilidades tecnológicas e a padronização de comportamentos requerida pelo capitalismo. Trata-se da passagem da norma para o risco, como efeito do deslocamento da disciplina

31 O site da Revista Veja foi um dos que repercutiram a “remodelagem” de Preta Gil na campanha da loja C&A.

VEJA. Campanha da C&A é criticada por ‘remodelar’ Preta Gil. Veja.com, 14 ago. 2013. Disponível em: <http://veja.abril.com.br/noticia/entretenimento/campanha-da-ca-e-criticada-por-remodelar-preta-gil/>. Acesso em: 10 ago. 2015.

(sociedade moderna) para o controle (sociedade contemporânea). Vaz destaca que a Modernidade distinguia doenças do corpo e doenças da alma, mas, na Atualidade, estas distinções caem por terra em função de novos paradigmas que envolvem a saúde e a doença, configurando o deslocamento de um poder que estava nas mãos dos médicos (modernidade) a uma responsabilização dos indivíduos (atualidade):

Enquanto não havia experiência da dor, o indivíduo não se preocupava muito com sua saúde; no máximo, observada as regras médicas de higiene. A partir da percepção do sofrimento, ele ia ao médico para que este diagnosticasse, isto é, transformasse sua experiência subjetiva em uma lesão observável no espaço do corpo. Desde então, o indivíduo aceitava limitações em sua prática diária, podendo até ser internado em um hospital. A preocupação com a saúde e a ascese – em termos práticos, restrita à obediência ao médico – ocorriam a partir da experiência de sofrimento. Se o indivíduo se recuperasse do episódio de doença, retornava ao horizonte de despreocupação próprio do estado de normalidade [...]A medicina contemporânea é aquela que tem que lidar com as doenças crônico-degenerativas (cânceres, doenças cardiovasculares, osteoporose, mal de Alzheimer, etc.) A noção de causa a elas associada é a de fator de risco (VAZ, 2006a, p.91).

Com esta contextualização, chegamos a uma das compreensões implicadas nesta tese: as relações entre saúde e aparência promovidas pelo imaginário midiático estão na base de um novo momento em que cada indivíduo é interpelado a se responsabilizar pelo controle de suas formas corporais, sendo os meios de comunicação o novo lugar de (re)programação da vida.

Ser gordo ou magro passa mais pela escolha do que pelas condições orgânicas e até mesmo sociais. Comer exagerada ou moderadamente assume uma importância capital, assim como se exercitar ou dar vazão ao ócio. Cada um se torna uma espécie de gestor da própria vida. Sem a tutela das normas, instituições e poder disciplinares, o indivíduo está liberado para viver seus prazeres, desde que estes não afetem o futuro. Segundo Vaz, administrar o risco e o prazer é uma decisão requerida continuamente de cada indivíduo.

O conceito de risco32 focaliza o indivíduo em suas diversas relações, partindo de um

cuidado de si a um cuidado com o outro e com o mundo. Diante desse novo momento, mudam o indivíduo, a sociedade, os valores, as relações de poder:

Os valores maiores de nossa sociedade parecem ser, na relação consigo, o bem-estar, a juventude prolongada, o autocontrole e a eficiência; na relação com os outros, a tolerância, a segurança e a solidariedade; na relação com o mundo, a preservação ecológica. Estes valores implicam o cuidado a partir do risco como fundo de negatividade a ser evitado. Tudo o que nos proporciona prazer, e que é nosso dever conquistar, pode implicar dependência e risco de morte prematura; o outro só não é tolerado em seus hábitos de prazer quando nos põe em risco e, inversamente, somos convidados a ajudar todos aqueles que estão em risco (VAZ, 2002, p. 11).

32Vaz (2006) destaca que a noção de risco foi utilizada pela primeira vez no final dos anos 40, numa associação

entre fumo e câncer de pulmão. Czeresnia (2013) completa que a gestão dos riscos é um dos eixos que norteiam o discurso da promoção da saúde, relacionado diretamente aos hábitos e estilo de vida das pessoas.

O conceito do risco em Vaz (2002) é muito oportuno para o nosso estudo que focaliza o imaginário midiático em seus trajetos com a vida cotidiana. Para o autor, à medida em que propõe o compromisso, a antecipação de agir no presente eterniza o círculo de valores do cotidiano. E nisto reside o lugar central ocupado pelo conceito de risco na atualidade. Esta compreensão tem plena aderência à perspectiva de imaginário e vida cotidiana adotada nesta tese, porque é nos entremeios do discurso do risco e da responsabilização individual pela saúde que se desenvolve todo um conjunto de imagens sobre o nexo entre formas corporais e vida saudável. O discurso incorporado pela mídia se faz notar em outras áreas do conhecimento.

Segundo Pich; Gomes e Vaz (2007), no campo da Educação Física, está em vigor a afirmação de que a atividade física constitui um fator de saúde e prevenção de doenças para pessoas previamente saudáveis e normalmente ativas e, em contrapartida, estigmatiza-se o sedentarismo como fator de risco33. Este entendimento se desenvolve com força a partir da década de 80 e está alicerçado numa visão de saúde vinculada ao conceito de bem-estar da OMS.

Já nos anos 90 (no Brasil), as academias começam a ser os espaços de produção dos corpos “sarados” e, posteriormente, surge a figura do treinador personalizado ou personal

trainner, um profissional que “emergiu como um treinador físico individualizado, pautado pelo

discurso da atividade física para a saúde”34.

Encarnando o discurso do risco e da promoção da saúde e tendo a atividade física como fonte para seus discursos, os meios de comunicação utilizam a informação para recomendar determinados hábitos e condenar outros, tornando-se os vigilante pós-modernos dos delinquentes do peso. Vemos isto com claridade na chamada de estreia do primeiro reality show que despontou no Brasil, no ano de 2005, voltado ao emagrecimento não cirúrgico:

Na Casa dos Artistas35, 12 participantes com algo em comum: eles são gordos. Todos

vão fazer dieta e exercício físico com a ajuda de dois treinadores e terão uma meta: perder peso ou serão eliminados. Eles serão testados física e emocionalmente e o vencedor terá que perder muitas calorias para ganhar 300 mil reais. No final, o grande perdedor, será o grande ganhador. Em abril, aqui no SBT (YOUTUBE, 200536).

33 Segundo Mira, a maioria dos estudos sobre tal associação situam-se no modelo de risco da epidemiologia,

baseados em critérios de valor mas não em fatos científicos. (Fonte: Exercício físico e saúde: da crítica prudente. In: BAGRICHEVSKY, Marcos; PALMA, Alexandre; ESTEVÃO, Adriana (Org.) A saúde em debate na

Educação Física. Blumenau: Edibes, 2003).

34 BOSSLE, C. B.; FRAGA, A. B. O personal trainer na perspectiva do marketing. Revista Brasileira de Ciências

do Esporte, Florianópolis, v. 33, n. 1, p. 149-162, jan/mar, 2011.

35 Casa dos Artistas foi um reality show brasileiro exibida pelo SBT entre 2001 e 2004, composto por um grupo

de famosos disputando o prêmio principal.

36 YOUTUBE. O Grande Perdedor - Chamada de Estreia (SBT, 2005). Youtube, 2005. Disponível em:

Em momento algum a palavra saúde aparece no texto da chamada, no entanto, há um conjunto de termos que remetem ao controle do corpo, como: peso; dieta; exercício físico; calorias. A relação perda (de peso) e ganho (de dinheiro, beleza, saúde) é o mote desse reality, que foi chamado no Brasil de “O Grande Perdedor” (SBT) 37, sendo uma tradução de “The

biggest loser”, criado em 2004 pela TV norte-americana NBC.

Ao dizer o que deve ser feito (“todos vão fazer dieta e exercício físico”; “terá que perder calorias”; entre outros exemplos) e, ao mesmo tempo, apresentar os ganhos associados à escolha disponível, o biopoder dos meios de comunicação coloca sob domínio do indivíduo tanto a capacidade de arriscar quanto de se controlar.

A ideia de que o sacrifício vai gerar uma recompensa (300 mil reais) remete ao imaginário de consumo do capitalismo e também ao imaginário esportivo, que vincula o esforço (o perder) à compensação (o ganhar), como vimos em Ehrenberg (2010). Nos reality shows de emagrecimento também cabe à mídia o papel de dosar e frear a relação entre perda e ganho.

No caso de Medida Certa e Além do Peso, os participantes não ficam confinados 24 horas por dia, mas decidem aceitar, deliberadamente, as metas de reprogramação. No primeiro não há eliminação durante o processo, já no segundo, o participante pode sair se, após pesagem, não tiver atingido a meta de emagrecimento. O risco de engordar povoa o imaginário dos participantes, que precisam calcular quando e se haverá algum tropeço, por menor que seja, na dieta alimentar e na atividade física.

A “virtualidade do adoecer” (2006b), nos termos de Paulo Vaz, predispõe o indivíduo a evitar o quanto puder a atualização da doença e isto produz um outro estado, o de “quase- doença”, que é em grande parte alardeado pela mídia, deixando as pessoas em constante alerta, num estado que nunca se acaba o cuidar de si:

Na realidade, no caso da saúde, nos é dito que nunca é cedo demais para começar a cuidar de si e nunca é tarde demais para fazer algo, a não ser quando nos tornamos doentes terminais. A antiga separação entre normal e patológico é substituída, primeiro, por um estranho estado de quase-doença, que convida a um cuidado de si cotidiano que dura enquanto houver a crença de que ainda se pode fazer algo. Esse estranho estado tem como oposto o estado terminal, no qual nada mais pode ser feito para que se evite a morte (VAZ, 2006b, p. 59).

Sendo marcadas por uma ênfase de produzir ou experimentar sensações associadas ao “bem-estar”, as experiências corporais expandem a norma da modernidade e se fixam no imaginário social através das incitações ao prazer, à moderação e à responsabilização irradiadas pelas tecnologias do imaginário. Ao lado da atividade física, a comida tem sido uma das experiências mais comumente ligadas ao prazer.

O comer é um dos alvos das prescrições midiáticas da moral da boa forma por causa de sua relação com a obesidade. A partir do momento em que esta passou a ser definida como doença (VIGARELLO, 2012), seguiu-se um horror generalizado que coloca a gordura em constante interdição, tendo o gordo de ser submetido à disciplina da atividade física e do controle alimentar para pagar a culpa de ter deixado o corpo fora da forma ideal.

De acordo com Le Breton (2009), é no terreno das aparências físicas que os estereótipos são semeados, transformando-as em estigmas, em marcas fatais de imperfeição moral. Ao discutir a noção de estigma, Goffman (1988) destaca que o estigma é um atributo (ou característica) considerada socialmente indesejada, que torna o indivíduo desvalorizado e diferente dos demais, sendo assim, um atributo que estigmatiza um indivíduo pode reforçar a normalidade de outro. Pensando no corpo gordo, vemos o quanto este se transformou numa “marca” depreciativa, desviando-se do padrão tido como normal. Nessa perspectiva, o indivíduo “fora de forma” ou obeso é estigmatizado e tratado com diferença por ter uma aparência física que destoa dos modelos socialmente desejáveis, o que nos mostra a força de uma biopolítica das medidas corporais.

Aqui chegamos a um dos aspectos centrais do nosso entendimento de saúde imaginária, que focaliza como a imaginação humana tem sido afetada por imagens de corpo da cultura da boa forma, utilizando as informações das tecnologias do imaginário, as apropriações da atual fase do capitalismo e o discurso do risco para tratar a saúde numa perspectiva estética de viver e experimentar em comum um certo gosto pelo corpo em forma que repudia toda e qualquer transgressão a este modelo.

Dans le document Assessment report (Page 167-170)