2. Scientific discussion
2.7. Risk Management Plan
Defendemos neste trabalho que as tecnologias do imaginário formam um conhecimento específico sobre saúde na vida cotidiana. Até então, uma constatação já resolvida em muitas áreas de pesquisa. Mas no que tange aos objetos de estudo que dão vida à esta tese e aos vínculos entre formas corporais, aparência e risco esboçados até aqui, ainda fervilha a inquietação: que tipo de noção de saúde o imaginário midiático forma? Em que fôrma os meios de comunicação inserem os diferentes corpos? Quais os elementos empregados nesta formação? Como ajustar os disformes a imagens (formatos) de vida saudável e beleza?
Diante de tudo o que já foi dito acerca da viabilidade das teorias do imaginário e das imbricações entre saúde e corpo, resta-nos colocar essas questões diante de uma metodologia que utiliza a noção de “forma” no sentido de todas as derivações acima e ainda outras. Há uma essência, uma lição e um jogo em operação na ideia de forma. Quem enxerga isto é Michel Maffesoli. Para o autor,
A essência da forma é que cada fragmento é em si significante e contém o mundo na sua totalidade. É esta a lição essencial da forma. É isto que faz da frívola aparência um elemento de escolha para compreender um conjunto social. Pois suas diversas modulações, por aglomeração, por sedimentação, vão, num certo momento, determinar o ambiente da época. Insistindo nessa expressão, trata-se de ressaltar que ela é também feita de sensações, sentimentos, emoções coletivas que constituem a carga imaginária (MAFFESOLI, 2010, p.123).
Sempre imaginando os objetos de estudo, temos uma questão recorrente: o que faz com que a televisão organize num só discurso (o de reprogramação corporal) a ênfase em combater a gordura como risco/doença e enaltecer a magreza como aparência/saúde? O que faz com que estas diferentes dimensões do imaginário social coexistam? Estes problemas encontram o formismo sociológico como um método oportuno.
Entendendo a comunicação como “cimento social” ou nova “cola do mundo”, Maffesoli (2003) argumenta que nas mais diversas formas de comunicação há a atualização de uma comunhão arquetípica em torno de um totem. Tomando esta metáfora para o corpus desta tese,
Mostrando as lutas de famosos e pessoas comuns para emagrecer, o público-alvo, sobretudo aqueles que também estiverem acima do peso ou que tiverem qualquer tipo de situação a superar, encontrarão, por meio do reality show, um ponto de encontro e identificação para suas angústias.
Os diferentes reality shows, com base em seus diversos públicos, (trans)formam-se em totens ao redor dos quais os participantes encontram um vínculo que canaliza as projeções- identificações (MORIN, 2002) em torno daquela que é uma das maiores preocupações humanas: a saúde. A saúde da qual falam os reality shows parece a mesma que ocupa as academias de ginástica, percorre as prateleiras do setor light dos supermercados, encontra o apetite moderado dos adeptos da lipoaspiração e desfila nas ruas uma versão diet da vida pós- moderna.
Esta também é a saúde que almeja o glutão sentado no sofá, que não tem mobilidade para calçar os próprios sapatos, o que dirá caminhar autossuficiente até a farmácia da esquina em busca de um remédio para inibir o impulso grotesco de comer mais um pouco e, assim, esquecer a dor de não conseguir se socializar como uma ´pessoa normal´.
De fato, quantas aparências estão em jogo na formação de um imaginário de saúde a partir dos reality shows de reprogramação corporal? Maffesoli encontra na noção de forma a matriz que preside ao nascimento, ao desenvolvimento e à morte dos vários elementos que configuram uma sociedade. O autor “aproveita a interpretação que Simmel dá no sentido de defender uma sociologia não do conteúdo, em seu sentido clássico, mas das formas sociais, de tomar as significações simbólicas, psicológicas dos agrupamentos e associações recíprocas de indivíduos que, somados, formam o social” (TEDESCO, 2003, p. 127).
Maffesoli argumenta que “a forma é formadora”, uma vez que torna estreita a relação entre conteúdo e continente, entre a forma exterior e a força interior, de modo que há uma permanente inter-relação e interdependência entre esses elementos. Nessa perspectiva, propõe o neologismo “formismo”, e o coloca como instrumento de pesquisa, pois “o formismo mostra que o jogo da aparência é, ao mesmo tempo, parte integrante de um exemplo dado e meio de compreender esse conjunto” (2010, p. 111). Sendo assim, a forma põe em cena um certo holismo, pois sua lição essencial é que cada fragmento é em si significante e, em sua totalidade, abarca o mundo.
É por causa dessa noção que a aparência ganha o estatuto de formadora do ambiente, da cultura, do espírito de uma determinada época e coloca as formas em jogo, em relação, com a compreensão de que, num todo ordenado, cada coisa tem seu lugar e de algum modo entra em
acordo e em conexão com os outros elementos do conjunto, “o todo e as partes ajuntam-se nessa harmonia mais ou menos conflitual que se chama sociedade” (MAFFESOLI, 2010, p.126).
Vimos que a revolução de hoje é feita em conjunto, operada pela imagem como vínculo social. Nesse sentido, para Maffesoli, a forma é uma matriz que dá origem ao estar-junto, “a forma é menos um continente que um conteúdo (matriz). Ela é corolário de um ambiente estético, o dos afetos comuns, do emocional, no qual a criatividade de cada um depende da comunidade em que se inscreve” (2007b, p. 64).
Tudo isso põe em cena o desejo de cada pessoa de fazer de sua vida uma “obra de arte”. Ou seja, todos são, ao mesmo tempo, atores e diretores no teatro da existência cotidiana. A vida dá forma ao roteiro, o espetáculo é encenado pelas aparências em jogo.
Na pós-modernidade o estilo que prevalece é, portanto, indicado pela aparência. Por causa disso, é um tempo de relativismos e não de dicotomias. A vida social não pode mais ser reduzida aos opostos profundidade/superficialidade, bem/mal, verdadeiro/falso, afinal, tudo acrescenta, tudo integra. Acerca disso, Maffesoli defende que as aparências, as imagens, a teatralidade da vida cotidiana são a parte mais visível para se compreender a profundidade do social. Elas formam o vivido e dão forma à socialidade41.
No caso do objeto de estudo desta tese, convém refletir: o que faz as aparências (de corpo) conviveram juntas num reality show de emagrecimento? O que cada forma corpórea reflete sobre a sociedade onde está situada? Entendemos que, ao se apropriar do real da vida ordinária refinando-o com técnicas da produçãomidiática, o reality show é um formato que atende perfeitamente a este anseio social.
A relação entre informação e entretenimento é seguramente uma estratégia biopolítica desse tipo de reality show que dispõe um tempo (90 dias), um espaço (a televisão) e um modo de apresentar o corpo sem formas (na “medida certa”) e, investindo no real lúdico, torna as formas privadas das celebridades e das pessoas comuns um produto de uso público capitaneado pelas tecnologias do imaginário.
Isso nos faz entender que a aparência é acesso, é molde, é figura, é forma, é portadora de imaginários que emitem mensagens do real. A aparência é lugar de produção de conhecimento. Articulada a uma sociologia que problematiza o imaginário, esta categoria passa
41Maffesoli utiliza o termo socialidade no lugar de sociabilidade para caracterizar os agrupamentos sociais
contemporâneos que privilegiam o estar-junto, arraigado nas banalidades da vida de todos os dias e no desejo intenso de experimentar o cotidiano. Esta ênfase sobre o presente vai além do conjunto de rituais prescritos ou formas institucionalizadas de relações sociais, entendidos como sociabilidade. MAFFESOLI, Michel. O tempo
das tribos: o declínio do individualismo nas sociedades pós-modernas. Rio de Janeiro: Forense Universitária,
a ser vista não apenas como o modo pelo qual o indivíduo se apresenta e sim como campo de pesquisa revelador.
Superando a moral cristã, que, como vimos, impregnou toda uma cultura de descrédito à imagem, a sociedade atual se nutre e é nutrida de aparências, enfatizando as formas: a “forma” de estar na moda, a “forma” de ser bem-sucedido no trabalho, a “forma” de ter longevidade, a “forma” do corpo e da saúde ideal, entre tantas outras formas de conquistar, obter, parecer. Para Maffesoli, as diversas modulações da aparência (moda, espetáculo político, teatralidade, publicidade, televisão) formam um conjunto significativo, um conjunto que, enquanto tal, exprime bem uma dada sociedade. É então que se vê a necessidade de uma reflexão sobre a forma (MAFFESOLI, 2010, p. 110).
A prevalência da aparência indica, portanto, um conjunto de realidades, nas quais a teatralidade (espetacularização) dos corpos é apenas a modulação de uma conduta: “a forma esgota-se no ato, é uma eflorescência, basta-se a si mesma. Inúmeros são os domínios onde isso é observável. Nos que fazem disto profissão, com certeza: da moda à publicidade, passando pelas diversas imagens midiáticas” (MAFFESOLI, 1996, p. 155).
A palavra “mostrar” é carregada de sentido para os esquemas teóricos da sociologia compreensiva. Tendo a mesma raiz latina da palavra “monstro”, que significa mostrare, o termo põe em vista o fio condutor revelado pela sociologia do imaginário, “ao salientar que não há outra vida por trás das aparências” e, assim, lembrar que “o único real é fenomenal” (MAFFESOLI, 2005, p.104). Por meio das imagens midiáticas, com todo seu potencial de “mostração” do real em seus imbricamentos com o imaginário, pretendemos compreender como os jogos de aparência são postos em cena num formato que representa bem as contradições atuais: o reality show.