2. Scientific discussion
2.10. Product information
REALITY SHOW
O imaginário engendrado pela televisão é parte da natureza desse meio massivo. Ainda que a imagem seja ´entregue´ pronta ao telespectador, a ele cabe captar, junto com o visível, uma série de significados que esborram para além do texto escrito, da trilha sonora, da linguagem oral. As falas, os silêncios, as pausas, o aumento do som, a imagem nítida ou desfocada...tudo está implicando uma significação.
Inserido nessa tecnologia do imaginário especializada nas visibilidades, o reality show é um olho focado nas formas (aparências) de realidade, arregalado para denunciar, bisbilhoteiro
para criticar, mas também tem suas lágrimas por onde escorrem acolhida e aceitação. Esta estética multiforme é um sinal claro de mudanças no próprio imaginário televisual.
Recorrendo brevemente às características gerais colocados por Cosette Castro (2010), o
reality show é uma mistura, com diversas variações, de quatro origens: os programas
jornalísticos (em geral, os policiais); a telenovela, os game shows e os documentários.
Resguardando os embates em torno de que gênero é predominante neste formato, aqui interesse situá-lo a partir do recorte dado por três autores com os quais já estamos dialogando nesta tese: Michel Maffesoli, Fernanda Bruno e Ilana Feldman. Começaremos por Feldman (2008), que pensa o reality show não como um programa isolado e sim numa problemática bem específica: como uma disseminada tecnologia de poder e como um hegemônico regime de visibilidade da atualidade.
Diante desse recorte, a autora parte das reflexões foucaultianas para reforçar, conforme dissemos no segundo capítulo desta tese, que as práticas e crenças socioculturais têm deslocado a verdade das grandes narrativas de pensamento para a superfície das imagens, do corpo e da realidade. Diante disso, Feldman explica que o reality show coloca em destaque uma dupla lógica, a saber:
A convergência de “técnicas políticas” que se pretendem objetivas e totalizantes - como a vigilância, o controle, a regulação dos comportamentos e da dimensão libidinal da vida, a punição e a premiação - com técnicas subjetivas de invidualização, ou “tecnologias do eu”, por meio das quais se realizam os processos de subjetivação, de criação identitária, de auto-expressão e de exteriorização de si como personagem público. Sendo ambas as “técnicas” e “tecnologias” matéria-prima das estratégias biopolíticas (FELDMAN, 2008, p.8).
Diante dessa dupla operação, os reality shows estudados nesta tese convocam a uma mudança corporal urgente, que depende tão somente de uma tomada de posição do participante; disponibilizam especialistas que adotam “técnicas políticas”, ou seja, um conjunto de estratégias para “reprogramar” o corpo e torná-lo, no limite de três a seis meses, o mais próximo possível do imaginário de saúde contemporâneo.
Por outro lado, com câmeras ´cuidadosamente´ apontadas para as subjetividades, deixam que as imagens falem pelos personagens, capturando o suor, a lágrima, o sorriso; e, em outros momentos, colocando-os para encenar suas próprias frustrações e conquistas, as “tecnologias do eu” funcionam, ao lado das “técnicas políticas”, como aliadas de uma tecnologia do imaginário especializada na biopolítica das emoções.
Numa lógica que combina informação e entretenimento, o reality show (in)forma para (trans)formar, opera a partir de um jogo de máscaras em que os personagens encenam sua própria “vida real” enquanto seguem um roteiro previamente definido pela televisão. Estas
máscaras são uma forma eficaz para que a informação desse espetáculo da vida real alcance seu “feedback” e a comunicação tenha eficácia. Mas a “realidade” oferecida nesses programas passa, obviamente, por uma série de contradições:
O grau de espontaneidade e imprevisibilidade, típicos da realidade em si, passam por uma transformação, mínima que seja, nos programas. A ilusão da câmera onisciente e invisível, nesse sentido, não pode ser levada longe demais: a captação da realidade, neste caso, pressupõe um amplo trabalho de produção e, portanto, interfere no que está sendo feito e visto (MARTINO, 2014, p.165).
Nesse trabalho de produção, a informação procura direcionar as ações e a captação das cenas, de modo que o público se sinta curioso e ansioso em ver na televisão uma “realidade” que certamente é encontrada em casa ou nas ruas, bem perto dos seus olhos. Diante disso, é inegável o poder de sedução das tecnologias do imaginário e por isso entendemos o reality show como um formato biopolítico por excelência, como diz Feldman, inserido numa tecnologia do imaginário de elevado alcance e massificação como a televisão.
Voltamos ao que nos diz Maffesoli. Resgatando a raiz das palavras, o autor destaca que comunicação e informação atendem aos mesmos propósitos. Comunicação estaria ligada diretamente ao imaginário, porque consiste em pôr em relação. Informar é “dar forma”, enquanto informação é “ser formado por”. Em resumo:
Trata-se da forma que forma, a forma formante. Quer dizer que numa era da informação, talvez a de hoje, não se pensa por si mesmo, mas se é pensado, formado, inserido numa comunidade de destino. Vale repetir: a forma é formante. A informação também liga, une, junta [...]A comunicação põe em relação, primum
relationis, o que remete para essa sociedade da informação, pela qual se é formado
num mundo comum, onde o indivíduo só é o que é na relação com outras pessoas (2003, p.14).
Pensando nessas duas palavras, compreendemos o reality show como um formato eficaz para dar forma (informar) enquanto opera uma relação (comunicação). Aqui estudamos o fenômeno de modo estrito, à luz do formismo sociológico, entendendo-o a partir dos polos de projeção-identificação, preenchendo o imaginário social com um holismo que considera os dissabores e as conquistas da parte (dos personagens) enquanto o todo (o público) participa do espetáculo por meio da informação que cada vez mais se torna entretenimento.
Maffesoli considera o fato de que a informação é constituída por uma instrumentalização da técnica. Ora, para que o discurso da medida certa faça sentido, há alguns (celebridades) fora de forma e com ameaças de desenvolver doenças, provocando um efeito imediato de inclusão do todo (a população). O que faz isso funcionar é a técnica, a qual, apoiada no (mau) exemplo dos olimpianos e referendada pelo discurso (programado) dos especialistas em saúde, cristaliza no imaginário social uma informação sobre a saúde.
Mas o essencial dessa técnica, e por isso estamos trabalhando as noções de comunicação e informação à luz da sociologia compreensiva, é o elemento comunicativo que dela brota. A linguagem das tecnologias do imaginário é a sedução, no universo empático da compreensão (SILVA, 2012). Assim, o que querem as pessoas que decidem reprogramar o corpo à vista do público? E o que querem os espectadores, tão acostumados ao consumo estético do belo, diante de imagens grotescas de banhas e celulites? Seguramente, o público assiste a um reality show como Além do Peso e Medida Certa para ver muito mais do que informação sobre o quanto também precisa secar a barriga. A informação é uma isca para as banalidades que predominam: o estilo de vida dos famosos, o cotidiano deles, o que os tira do sério; como é dolorosa a via
crúcis dos obesos; quanta comida e prazer podem compor um prato... a lista é longa e vai ao
encontro, supostamente, do que cada público deseja e do que cada reality produz.
Ou seja, a forma de produzir a informação modifica a imaginação do público, de modo a influenciar diretamente em seu imaginário, conforme as análises mostrarão. Para Silva, a técnica da mídia, centrada no entretenimento, “engoliu” a técnica jornalística, voltada para a informação. No mesmo entendimento, Maffesoli (2003) reforça que há sempre elevado teor de espetáculo na informação e com isso argumenta que a grande função da comunicação na atualidade tem sido o divertimento. O autor afirma que tanto os jornais quanto reality shows como Big Brother remetem ao mesmo tipo de análise. Nesse sentido, seus argumentos elucidam o formato que estamos investigando nesta tese.
De que diversão trata Maffesoli? Primeiro, o autor destaca que há uma herança utilitária em relação à comunicação que corresponde a educar, formar cidadãos. Medida Certa e Além
do Peso têm como meta “reprogramar o corpo”, partindo do pressuposto de que há um conjunto
de informações sobre saúde com as quais a população deve ser instruída, modificando em três meses (o feedback da informação) as formas corporais.
Segundo Maffesoli, com essa moral racional e utilitária, os meios de comunicação em geral e, mais especificamente, fenômenos como reality shows, disfarçam o entretenimento. É só começarmos a suspeitar das boas intenções informativas dos quadros de reprogramação corporal, para vermos o quanto o emagrecimento se transforma em motivo para uma caricatura grotesca da obesidade e uma veneração exagerada da magreza.
Nos tempos das mídias digitais, as campanhas políticas investem fortemente na imagem dos candidatos e em sua (suposta) interação (aberta e virtual) com o público nas redes sociais no lugar da velha fórmula dos debates televisuais (mediados) mais racionais e totalizantes. É a forma ganhando eficácia. De semelhante modo, a forma nos interessa tanto por revelar uma política corporal vigente como sinônimo de saúde. A forma do reality show, ancorada em
conflitos, fofocas, bajulações é, no fundo, uma projeção da comunicação, disfarçada como informação, para revelar um desejo de se contrapor às angústias do vivido.
Assim, tendo em vista que o imaginário é uma resposta humana frente à angústia da morte, o entretenimento, no sentido colocado por Maffesoli, é uma forma de aliviar esta incontestável certeza:
Divertir-se significa pôr a morte de lado. Pascal diz que o divertimento tem também uma função ética. Ao passar ao lado da angústia da morte, que obceca, cria-se comunidade e vida fértil. Essa concepção leva a sair da ideia de história linear da qual cada um seria o condutor e a entrar na noção espiralada de pequenos passos, sujeitos a recuo ou a desvio, dados em conjunto, em associação com outros. A comunicação é divertimento, pois permite constituir as comunidades que fertilizam a vida e fazem esquecer provisoriamente a morte (MAFFESOLI, 2003, p. 18).
Como informação, a comunicação tem se voltado ao dia a dia com uma força incrível neste século. No jornalismo, os “bastidores da notícia”, a exibição de vídeos caseiros como suporte das reportagens, a ênfase no “ao vivo” em coberturas de grande repercussão mostram um jornalismo mais próximo das pessoas, disposto a formar (informar) o cotidiano do público, como se estivesse sempre ao derredor (e até dentro) dos acontecimentos. Como divertimento, esta mesma visão da realidade recebe ares de espetáculo ampliado porque as diversas câmeras (do reality show) são cuidadosamente instaladas e editorialmente apontadas não para o geral dos fatos, mas para o particular do banal: a (des)afinação vocal, o talento culinário, a reforma doméstica, a mudança no visual e, o que nos provoca nesta tese, a saúde das pessoas atrelada a interesses estéticos, nos sentidos que temos atribuído a esta palavra.
Fernanda Bruno reforça, como Maffesoli, que o ordinário ocupa lugar de destaque pondo em cena a constituição do eu como imagem. Ao analisar as práticas atuais de exposição de si em blogs, sites de relacionamento e também nos reality shows, a autora afirma que elas indicam um “sentido de autenticidade” que comprova a passagem de uma interioridade moderna para uma subjetividade exteriorizada.
Se a modernidade produziu uma topologia da subjetividade e do cotidiano que circunscrevia o espaço privado e seus diversos níveis de vida interior – casa, família, intimidade, psiquismo –, a atualidade inverte esta topologia e volta a subjetividade para o espaço aberto dos meios de comunicação e seus diversos níveis de vida exterior – tela, imagem, interface, interatividade (BRUNO, 2013, p. 81).
Para a autora, a relação entre subjetividade, visibilidade e autenticidade pode ser compreendida através de dois exemplos: a crescente presença da noção de autoestima nas práticas de cuidado de si e do outro, e a repercussão dos chamados reality shows de intervenção na televisão da primeira década do século XXI. De fato, a explosão de reality shows e a expansão das redes sociais demonstram o quanto os mais diversos dramas e limites da vida comum tem se tornado objeto de produção midiática.
A presença dos meios de comunicação na vida cotidiana é tão intensa que as pessoas trocam suas antigas referências de intimidade e sociabilidade pelas práticas mediadas pela tecnologia. Assim, investe-se cada vez mais na produção das aparências. No entanto, por trás desse aparecer há um desejo de pertencer, de se tornar parte de algo mais completo, que é o todo social.
Aqui retomamos a concepção de Maffesoli, ao constatar que o indivíduo e o individualismo saem de cena e o perder-se no outro assume o palco. Em acordo com este modo de ver, faz todo sentido a exposição da intimidade e o vasculhar da vida doméstica na mídia e por meio dela.
Estamos diante de uma nova epistéme que não mais repousa no indivíduo racional e sim na subjetividade de massa, que corresponde a um “processo de ação/retroação no qual se elabora por toques sucessivos uma verdadeira interpenetração entre um sujeito jamais concluído e uma massa que lhe permite expressar todas as suas potencialidades” (MAFFESOLI, 2007b, p.134).
Na medida em que a virtualidade diz respeito ao corpo do possível e não ao atual (sendo este o corpo que informa o indivíduo sobre os indicativos de uma doença, ou seja, o corpo da factualidade), temos que o imaginário midiático sobre a saúde alimenta essa virtualidade. É em torno deste imaginário que se voltam a atenção e os cuidados sobre o que cada um pode vir a ser no esforço de entrar na “medida certa” e obter uma vida saudável.
O imaginário midiático está, por sua vez, ancorado num desejo intenso de materializar ou objetificar a saúde (informar) em termos de felicidade e bem-estar e, por outro lado, é perpassado pelo imaginário da vida cotidiana, um penetrando o outro, incessantemente.
No que toca ao imaginário, nossa hipótese é de que toda forma de subjetivação sobre esse corpo da virtualidade tem a via imaginal como fundamento, ou seja, é sobre o imaginário que repousa toda a discursividade sobre o que é ter uma vida saudável nos dias atuais.
No entanto, como objetivar tudo isso em termos de um imaginário de saúde? Por meio dos discursos da mídia, que são articulados à tecnologia biomédica, temos um dispositivo eficaz para subjetivar a objetividade médico-científica, por um lado, e investir o indivíduo de autonomia e responsabilização, por outro lado, dando-lhe espaço para subjetivar-se.
Para melhor visualizarmos esses aspectos, convém caracterizar as formas que estruturam os reality shows estudados nesta pesquisa e o faremos a partir da demonstração de qual estética sobressai em cada um deles.
4.3 AMEAÇAS DA FITA MÉTRICA: A VENERAÇÃO À MAGREZA EM MEDIDA