Para a discussão da AFC, tem-se por base o trabalho de Pommier (2004), que tenta levar o mais longe possível a interpretação dessa operação, considerando que ela realiza uma apresentação espacial do material analisado orientando-se em dois eixos, interpretados, pelo pesquisador, como variáveis tensivas que articulam os valores das classes e das palavras entre dois polos de
tensão, articulados dialeticamente. A perspectiva estruturalista de Pommier (2004) possibilita a compreensão do material em função de suas diferenças e oposições.
Considerando o que foi apresentado, pode-se dizer que o corpus analisado, relativo às entrevistas realizadas com os 18 psicólogos clínicos entrevistados, sofreu três divisões que produziram quatro classes (Figura 3). A primeira divisão realizou, em termos espaciais, um corte vertical que separou dois subconjuntos (A e B) em um eixo horizontal (leste/oeste). Essa divisão promoveu a constituição da classe 1 (Percursos e Escolhas), que era o subconjunto A, e o subconjunto B, que dará origem às classes 2, 3 e 4. Em seguida, realizou-se uma segunda divisão, com um corte horizontal, agora no subconjunto B, dividindo-o em outros dois subconjuntos (C e D) num eixo vertical (norte/sul). A segunda divisão constituiu a classe 3 (Definições e Posicionamentos), que era o subconjunto C, e o subconjunto D, que dará origem às classes 4 e 2. Por fim, ocorreu uma terceira divisão, com um corte diagonal, que dividiu o subconjunto D em um eixo diagonal (norte/sudoeste). Nessa última divisão, constituíram-se as classes 4 (Rotinas e Funcionamento) e 2 (Preocupações e Recomendações) (Figura 3).
O centro de cada classe está no lugar onde está escrito o número da classe (#01, #02, #03, #04). No eixo horizontal, percebe-se que a classe 1 está mais para leste, enquanto as classes 2, 3 e 4 estão mais para oeste. No eixo vertical, a classe 1 está no centro, a classe 3 está no sul e as classes 2 e 4 estão no norte. Por fim, num eixo imaginário diagonal, a classe 4 está mais ao nordeste e a classe 2 mais ao sudoeste.
Pode-se dizer, considerando os dados descritos anteriormente, juntamente com a imagem produzida na AFC (Figura 3), que cada uma das divisões realizadas, as quais dizem respeito à constituição das classes, diferenciou um conjunto de léxicos e variáveis que se associavam em função de sua correlação e frequência.
Projeção das palavras analisadas sobre o plano 1 2 (correlações) Eixo horizontal : 1º fator : V.P. =.2273 (47.29 % de inércia)
Eixo vertical : 2º fator : V.P. =.1381 (28.75 % de inércia)
+---|---|---|---+---|---|---|---+
19 | comec+ | 18 | convers+ lig+ | 17 | | | 16 | vindo+ crianca+ acontec+ dia+tempo+ | 15 | resolv+ . ...man+paiquasedependendo | 14 alta+pergunt+. .. .. mae+. atendi+filho+seman+ | 13 | venh+tipo+ . .horar+sessao+rotina | 12 | cheg+tir+pais+... vempadr+famili+ | 11 | cont+fal+ vez+marc+ prazogeralmentefacilidade | 10 | determin+ comumdarnormal+ | tenh+ | 9 | deix+sessoes | | 8 | demand+ ve cuid+ necessidade+inform+ | 7 | paciente+err+ sab+ limit+nivel os | 6 | quer+ . sei.queix+preconceito+ | 5 | versair+aviao .homossexualcaix+ | 4 | vaicoloc+ sujeito+vivendo | dedic+educacao turm+ 3 | pesso+ peg+ casosano+ disciplin+ 2 | precis+ and+relacion+ | comportament..referenci+ 1 | ach+ | epoca+supervis+. professor+ 0 +---pod+pens+pont+diss+---+---aula+termin+.-.espirito_san 1 | client+ consegu+ | grupo+curs+are+ rio_de_janei 2 | situac+ | evento+clinica+ .estud+ 3 | diz+ | alunoscursos junguiana 4 | | | 5 | as | gestalt+ 6 | | | 7 | | abord+ 8 | | | 9 | relac+ ansiedade+ | | 10 | | psicolog+ 11 | problematica | | 12 | ajud+entend+ | | 13 | vida+ vaosej+melhor+ | | 14 | sofri+ mudanca+ | | 15 | ger+sent+ per+. ..interv+processo_ter | 16 | palavra+ ... poss+estabelec+permit+ | 17 | medidabusc+dir+.. .. ...individu+caracteriz+ | 18 | habilidade+ .. .. . .universodor+ human+ | 19 | desenvolv+. .. .... unic+..estimul+compreend+ | 20 | ric+bel+ dess+ | +---|---|---|---+---|---|---|---+
Percursos e Escolhas “Eu fiz, participei” Rotinas e Funcionamento
“Eu atendo, marco”
Preocupações e Recomendações “Eu acho, sabe” “A gente”
Definições e Posicionamentos “a/o permite, se caracteriza”
da Prática Caracterização dos Participantes
Passado Tempo Presente #01 #02 #04 #03 (Pessoal) 1ª Pessoa Singular e Plural Operativo Concreto Sistema Cognitivo Pronome Pessoal (Impessoal) 3ª Pessoa Singular Normativo Abstrato
Figura 3: Projeção das palavras analisadas na Análise Fatorial de Correspondência
Acredita-se que um fator importante para a primeira divisão constituir o eixo horizontal foi o tempo verbal presente/infinitivo e passado do indicativo. A lateral direita (leste) está mais relacionada ao tempo passado, enquanto a lateral esquerda (oeste) está mais relacionada aos tempos presente/infinitivo. Quanto à segunda divisão, acredita-se que um fator importante para a constituição do eixo vertical foi a diferenciação dos pronomes pessoais. A lateral inferior (sul) está mais relacionada aos pronomes da terceira pessoa singular, ao pronome que não é da pessoa, mas da coisa, enquanto a lateral superior (norte) está mais relacionada aos pronomes das primeiras pessoas singular e plural. Por fim, sobre a última divisão, acredita-se que o fator importante tenha sido novamente o tempo verbal, entre presente do indicativo e infinitivo.
É evidente que não são os únicos fatores, pois a análise se faz na articulação das diferenciações e oposições dos léxicos, portanto, praticamente todo o material é fundamentado em tais operações, contudo, a título da compreensão do material, estes parecem ser fatores de importância.
As denominações dadas até então dizem respeito a uma forma lexical e linguística de análise do material. Outra forma, que pode ser realizada sobre a primeira, possibilitando constituir com maior dinamismo o mapa da análise fatorial e auxiliar nos objetivos da pesquisa, é o da divisão segundo os contextos temáticos. A primeira divisão, a que realizou um corte vertical dividindo dois planos horizontais (leste-passado; oeste-presente;infinitivo) também pode ser vista como uma divisão da caracterização dos participantes (leste-passado) e de sua prática profissional (oeste-presente;infinitivo). A segunda divisão, a que realizou um corte horizontal dividindo dois planos verticais (norte-1ª pessoa
singular e plural; sul-3ª pessoa singular) também pode ser vista como uma divisão do tipo de sistema cognitivo articulado, se mais normativo (sul-3ª pessoa singular) ou se mais operacional (norte-1ª pessoa singular e plural). Por fim, a terceira divisão, que realizou um corte diagonal dividindo em dois subplanos diagonais (nordeste-sudoeste), também pode ser vista como o que está na linha da operação (nordeste) e na entrelinha (sudoeste).
As relações interclasses podem ser visualizadas com a imagem da AFC (Figura 3). A classe 1 (Percursos e Escolhas) está toda no plano vertical “passado/participantes” do eixo horizontal (tempo/caracterização) e no centro dos planos horizontais norte-sul/concreto-formal do eixo vertical (pronome pessoal/operação). A classe 3 (Posicionamentos e Definições) está praticamente toda no plano vertical (presente/prática) do eixo horizontal (tempo/caracterização), e toda no plano horizontal sul/formal do eixo vertical (formal/concreto). As classes 4 (Rotinas e Funcionamento) e 2 (Preocupações e Recomendações) estão ambas principalmente no plano vertical (presente/prática) do eixo horizontal (tempo/caracterização) e no plano horizontal norte/concreto do eixo vertical (formal/concreto). A diferença entre ambas é que a 4 se projeta para o Norte/Concreto e para o Leste/Participante, enquanto a 2 se projeta para o Sul/Formal e para o Oeste/Prática.
Os léxicos das classe 4 e 2 são diferentes, entretanto, percebe-se que as UCEs da classe 2, em se tratando de seu conteúdo, estão muito próximas das UCEs da classe 4, como se fosse uma continuação do discurso da classe 4. Entre elas, a relação parece ser de linha (classe 4 – o que eu faço) e entrelinha (classe
2 – minhas preocupações com o que eu faço). O tempo verbal está no presente, porém, com muitas expressões no infinitivo, sem conjugação.
Quanto às variáveis, cabe um comentário a respeito de algumas delas:
Projeção das colunas e palavras estreladas sobre o plano 1 2 (correlações) Eixo horizontal : 1º fator : V.P. =.2273 (47.29 % de inércia)
Eixo vertical : 2º fator : V.P. =.1381 (28.75 % de inércia)
+---|---|---|---+---|---|---|---+ 20 | | *rf_d | 19 | | *ie_pub | 18 | | | 17 | | | 16 | | | 15 | *rf_nao*sj_12 *sj_04 | 14 | *sj_03*ab_cog *ab_rei | 13 | #04 | *pg_str *rf_ptd | 12 | *ab_sis | | 11 | *sj_08*dg_00s | *sj_11 | 10 | *at_clo *sx_mas*ab_ges*dg_90s*cl_5e10 | 9 | | *rf_pt | 8 | | *sj_18 | 7 | *cl_2e5 *sj_17 *id_31a45 *sj_02 | 6 | *sj_16 | 5 | #02 *sj_09 *ab_psi | 4 | *rf_t | *at_cld | 3 | *pg_nao*sj_07 | | 2 | | | 1 | *sj_13 | | 0 +---+---*ab_beh---#01 1 | | | 2 | | | 3 | *ab_jun | 4 | | | 5 | | | 6 | | *id_aci45 *pg_amb | 7 | | *cl_m10 | 8 | | | 9 | *at_cl | *sj_05 | 10 | *sx_fem | 11 | *id_18a30*rf_p *ab_ecl | 12 | *pg_lat *sj_10 | 13 | | | 14 | | | 15 | *ab_hum |*rf_pd | 16 | | | 17 | #03 | *sj_01 | 18 | *sj_15*sj_14 *dg_80s | 19 | *ab_gesis*ie_par | *sj_06 *cl_a02 | +---|---|---|---+---|---|---|---+ (Pessoal) 1ª Pessoa Singular e Plural Operativo Concreto Sistema Cognitivo Pronome Pessoal (Impessoal) 3ª Pessoa Singular Normativo Abstrato
da Prática Caracterização dos Participantes
Passado Tempo
Presente
Figura 4: Projeção das Variáveis na Análise Fatorial de Correspondência (AFC).
Variável sexo: sexo feminino (classe 3), masculino (classe 2). Variável década de graduação: 1980s (classe 3), 2000 (classe 2). Variável idade: 31 a 45 anos (classe 4), acima de 45 anos (classe 2). Variável instituição de ensino: pública (classes 1 e 4), particular (classe 3). Variável pós-graduação: ambas
(classe 1), não tem (classe 2), strictu sensu (classe 4). Variável atividades: clínica e docência (classes 1 e 4), clínica (classe 2), clínica e outros (classe 2). Variável tempo na clínica: clínica há mais de 10 anos (classe 1), entre 2 e 5 anos (classe 2).
O mapa da análise fatorial é como um campo magnético, um sistema articulado em torno de um centro que, na maioria das vezes, é vazio de sentido e de léxicos que articulem sentido, cabendo ao pesquisador entender as relações entre os eixos, tomados como variáveis tensíveis, as quais mantem tensões entre as classes, contemplando as diferenciações e oposições que dinamizam o mapa constituído (POMMIER, 2004).
Com essas informações, pode-se seguir para o segundo momento no qual será feita a análise dimensional e dinâmica das representações sociais de prática para os psicólogos clínicos, considerando os quatro aspectos da prática, tomando por base acontecimentos históricos, sociais, políticos e econômicos, dados de pesquisas a respeito da prática profissional e outros.
6 DISCUSSÃO
Quanto à caracterização dos participantes, os resultados permitem constituir uma realidade das representações sociais e dos processos relacionados à prática do psicólogo clínico. Ainda que essa realidade, baseada no percurso dos profissionais entrevistados, não possa ser generalizada para toda a população de psicólogos clínicos, os dados podem ser de interesse para a compreensão do
fenômeno e como apontamentos para outras discussões, principalmente no que dizem respeito à construção da psicologia no estado do Espírito Santo.
O material analisado permite a inferência de certas questões: Observando o conjunto de participantes, as formações acadêmicas foram realizadas em instituições públicas e particulares em todos os períodos considerados, no entanto, os profissionais formados em instituições particulares nos anos 1980 vieram de fora do estado, enquanto os profissionais formados em instituições particulares na década de 2000 foram todos formados no estado do Espírito Santo. Destaca-se também que a Universidade Federal do Espírito Santo foi a única instituição pública citada. Esse dado parece tornar visível o grande crescimento de cursos de psicologia no Brasil, acontecendo, segundo Lisboa e Barbosa (2009), em 1972, em 1997 e em 2006. Esse boom de cursos se deu por fatores como a Reforma Universitária em 1968 e a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases (LDB) em 1996. Para os pesquisadores, apoiados em outros estudos, a promulgação da LDB expressava certa sintonia com os movimentos neoliberais, com foco mais quantitativo e mercadológico que qualitativo e pedagógico.
Bastos e Gomide (2010) apontam esse aumento de cursos já nos anos 1980, identificando que, à época, 70% dos cursos de psicologia já aconteciam em instituições privadas. Quanto aos anos 2000, Bastos, Gondim e Borges-Andrade (2010) relatam que o aumento de cursos de psicologia continuou acontecendo, ainda mais vigorosamente, contudo, a expansão aconteceu menos nas capitais e mais nas cidades do interior, aspecto que vem constituindo um novo cenário de inserção da psicologia no Brasil. Segundo os autores, considerando as
informações da década de 1980 e da de 2000, esse cenário, da inserção profissional do psicólogo, tem sido constituído, principalmente, pelo resultado da formação que ocorre nas instituições privadas no país, não sendo mais algo relacionado ao ensino público estadual e/ou federal.
Ainda, dois dados importantes a serem destacados são o fato de boa parte dos entrevistados já terem algum tipo de pós-graduação e de realizarem, concomitantemente à clínica, o trabalho como docentes – dois aspectos que não estão dissociados do cenário apresentado nos parágrafos anteriores. É evidente que se deve lembrar que o número de entrevistados é irrisório frente à quantidade de psicólogos clínicos na Grande Vitória, cerca de 3800 profissionais ativos no Conselho Regional de Psicologia, 16ª Região, no entanto, esses são dados significativos e dizem respeito à constituição do campo da representação social da psicologia clínica no país e no estado. Nos dados apresentados por Bastos e Gomide (2010), a docência já aparecia nos anos 1980 como a segunda atividade dos psicólogos clínicos, indicando maior possibilidade de transmissão do conhecimento da psicologia clínica em relação a outras áreas da psicologia. Os dados já apontavam que a docência paulatinamente ia se constituindo como uma área de atuação importante para a psicologia, fato que vem a ser confirmado por Bastos, Gondim e Borges-Andrade (2010) quando se deparam com os dados dos anos 2000. Segundo eles, a docência deixou de ser complementar a uma primeira atividade e se tornou uma área de atuação para muitos psicólogos. A clínica permanece como a área mais visada, mas vem se associando cada vez mais à área da Saúde, o que, para os autores, é uma possibilidade de aumento do escopo de ação do psicólogo.
Nos dois relatos de pesquisa é apontada a busca permanente de aperfeiçoamento por parte dos psicólogos, o que cria e mantém um mercado paralelo de formação (BASTOS; GOMIDI, 2010; BASTOS; GONDIM; BORGES- ANDRADE, 2010). Para Bastos e Gomidi (2010), essa realidade parece se constituir por ser um aspecto bastante apresentado aos alunos que ingressam na formação em psicologia no sentido de buscarem formações complementares àquela, muitas das quais se tornam espaços de acolhimento e de vivência em grupos relacionados às abordagens teóricas, por exemplo. Bastos, Gondim e Borges-Andrade (2010) relacionam esse aperfeiçoamento e o mercado paralelo à difusão da docência como uma área de atuação do psicólogo, tendo em vista que nessas formações é necessária a presença de psicólogos que tenham conhecimentos e habilidades na área. Por outro lado, existe a ideia, por parte dos psicólogos em geral, de que a formação em psicologia não é suficiente para prepará-los para atuar com a multiplicidade de questões que aparece no exercício profissional, fator que agrega uma nova variável ao que foi identificado nos estudos dos anos 1980.
Com os dados citados, já é possível ter uma noção do contexto sócio- histórico e político no qual a psicologia, enquanto formação e prática, vem se constituindo principalmente nos últimos trinta anos. Considerando essas informações, é possível seguir com a discussão a respeito da representação social da prática profissional dos psicólogos clínicos entrevistados.
6.1 ANÁLISE DIMENSIONAL DA REPRESENTAÇÃO SOCIAL DE PRÁTICA