A respeito da noção de prática como cálculo é preciso que já se inicie com uma ressalva: o radical “avali+” está presente nas U.C.E.s das classes 2, 3 e 4 e nas U.C.E.’s que não foram classificadas pelo programa, no entanto, faz parte apenas do contexto (x² significativo) característico da classe 4; nesse caso, em tese, o contexto da classe 4 é o mais significativo para tratar da avaliação, do cálculo. Será possível ver que algumas “falhas” discursivas surgem quanto a essa noção da prática, o que será discutido em sequência.
Na prática do psicólogo clínico, o cálculo ou a avaliação aparece de duas maneiras, uma primeira relacionada ao encerramento do trabalho, como se fosse uma avaliação interna, buscando saber se as demandas e queixas dos pacientes/clientes foram resolvidas, se eles já estão em condições de receberem alta da psicoterapia, e uma segunda, que seria algo externo aos atendimentos, como uma avaliação do trabalho como um todo, no que diz respeito à busca pelo psicólogo ao longo do ano e ao que foi realizado. A avaliação interna ao/no trabalho aparece muito mais vezes. Há ainda situações, apresentadas no item anterior, em que a avaliação aparece como o psicodiagnóstico, mesmo não sendo nomeada dessa maneira, a avaliação da demanda que está sendo trazida e das características do paciente/cliente para que o atendimento possa dar prosseguimento no formato de psicoterapia (Classe 4 – “A avaliação do/no trabalho” – U.C.E.s 848, 1225 e 1562).
u.c.e. : 848 Classe : 4 Khi2 : 14 ja tem meios de #refletir sobre o #problema e usar essa reflexao pra #lidar com #problemas #futuros ou #os #problemas iguais que possam #surgir futuramente. #avalio, pelo #resultado que eu tenho #dos #pacientes, pela melhora, #dos #procedimentos que sao, que esta se #refletindo no #resultado deles.
u.c.e. : 1225 Classe : 4 Khi2 : 15 e nao so de cada trabalho individualmente, #faco um olhar #maior, ao #longo de um ano como e que foi, qual foi a, #quase um #quadro estatistico, que #tipo de #clientela veio ate mim, que #tipo de pessoas, que #tipo de #dificuldades #chegaram ate-a mim,
u.c.e. : 1562 Classe : 4 Khi2 : 17 #uma #avaliacao e mais nao #informal e em varios #momentos da terapia, vai #depender um pouco da caracteristica do #cliente, qual vai ser esse #momento, eu #pergunto #pro #cliente, olha, voce ja esta #vindo aqui a dois #meses, a gente ja fez oito #sessoes,
Assim, tem-se que os psicólogos clínicos entrevistados avaliam os efeitos de suas intervenções, principalmente em se tratado da avaliação da resolução das queixas e demandas dos pacientes/clientes no sentido do encerramento da psicoterapia. Esse tipo de avaliação está presente no contexto da classe 4. No entanto, fica bastante evidente o fato de que se fala da avaliação, mas não é explicitada a maneira como ela ocorre, sua forma de acontecimento. Uma psicóloga comentou que realiza uma avaliação mais global ao longo do ano para saber aspectos do trabalho, outra disse fazer uso de um questionário para que o paciente/cliente avalie o processo. Ambas são situações bastante particulares em comparação às demais, nas quais é citada a avaliação como algo importante ao/no trabalho, mas não é explicitado de que maneira isso acontece. Dessa forma, aparece o comentário de que avaliações são feitas, mas não como são feitas.
É evidente que a questão não se reduz a essa constatação, pois muitos dos entrevistados são pós-graduados, participam de eventos, congressos, cursos, fazem supervisão/orientação, tem certo percurso na prática clínica etc. – aspectos inseridos na classe 1, que aglutina conteúdos dos participantes e não de sua prática –, com o foco de sua avaliação, prioritariamente, na avaliação da resolução das queixas e demandas com fins ao encerramento da psicoterapia. No entanto, não houve muita informação de como ela é realizada.
Dessa forma, sobre a situação do cálculo e da avaliação do trabalho e de suas consequências, vê-se diante da seguinte situação: a forma como o cálculo e a avaliação são relatados pelos entrevistados não constitui repetição e consenso na constituição das classes lexicais, sendo indicativo de uma prática não consensual e/ou de uma prática com discurso não consensual. Nesse caso, não há lugares comuns quanto à forma de avaliação, tornando o termo “avaliação” uma palavra importante e compartilhada, mas o relato de sua prática bastante subjetivo e singularizado, dado que parece colocar a avaliação com um aspecto também subjetivo da prática.
Essa situação se torna passível de verificação na medida em que se encontram unidades de contexto com o radical “avali+” nas classes 2, 3 e 4, assim como no material não classificado. A avaliação em cada classe aparece relacionada ao contexto da própria classe, ou seja: a) Classe 2: Avaliação relacionada às preocupações e recomendações; b) Classe 3: Avaliação relacionada às definições e aos posicionamentos; c) Classe 4: Avaliação relacionada às rotinas e ao funcionamento.
Vê-se, portanto, que a avaliação é bastante relatada pelos profissionais, estando ligada aos diversos contextos. Apesar disso, em nenhum dos três contextos a avaliação é descrita ou apresentada. Investigando essa questão com mais afinco, identificou-se o radical “avali+” nas unidades de contexto não classificadas pelo programa, ou seja, as U.C.E.s que não tiveram léxicos que se repetiram e se articularam em classes. São nessas unidades de contexto, e não nas relacionadas às classes, que foi possível identificar como o psicólogo clínico avalia sua prática, quer dizer, exatamente no contexto não consensual, no
discurso não recorrente (ver o item “U.C.E.’s Não Classificadas”, ao final do Anexo B).
Uma pergunta importante quanto a isso é: Por quais razões a forma como a avaliação acontece não foi atualizada como discurso significativo dos psicólogos clínicos? É com essa questão que se retoma a conclusão construída para essa noção: o radical “avali+” faz parte do contexto da classe 4, entretanto, nesta classe, que faz parte de um sistema extremamente operacional, “avali+” aparece como uma menção, ou seja, avalia-se no trabalho, é importante avaliar. Da mesma forma, o termo aparece, sem significância, nas classes 2 e 3. Contudo, é apenas no espaço não classificado, não repetido ou consensualizado, que a prática da avaliação se evidencia, quer dizer: é apenas no discurso individual e singular de cada psicólogo clínico que a prática enquanto avaliação se realizou. Fora desse âmbito, ela é apenas uma palavra objetivada e ancorada em outro contexto, não faz parte do lugar-comum.