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Summary and Conclusions

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5.5 Summary and Conclusions

“ Fiquei a saber por eles que em tal cidade [Quioquum] havia abundãncia de ouro e que por ali passavam as caravanas de camelos e dromedários que transportavam as mercadorias de Cartago ou Tunes, Fez, do Cairo e de toda a terra dos sarracenos com carregamento de ouro, porque aí há abundãncia de ouro que é transportado das minas do monte Gelu [Fouta Djalon]. A outra parte desse monte, no lado oposto, chama-se Serra Leoa.”148

Diogo Gomes de Sintra transmite, no seu livro de memórias que temos vindo a referenciar, a ideia da existência de vários reinos dispersos nestes territórios, em meados do século XV. Também Francisco de Lemos Coelho, nos finais do séc. XVII, descreve estes lugares, correspondentes aos do actual Senegal, divididos em vários reinos ao longo da costa, entre o rio Senegal, passando pelos rios Gâmbia e Casamansa, até aos sítios que hoje pertencem à Guiné-Bissau, como veremos:

“Deste Cabo Verde ou rio de Sanagá athe o rio Gambia há de costa trinta e tres

legoas, e nesse destricto todo está a região do Grão Jalofo em o qual há sinco reinos a saber: o do Grão Jalofo, que se estende do dito rio de Sanagá pela terra dentro, e vai confinando com os mais reinos jalofos, os quais antigamente todos erão seus vassallos não havendo nesta nasção mais rei soberano que este do Grão Jalofo; mas todos se lhe

147 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 112-113 148 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp 73 a 75

revelarão e fizerão senhores soberanos e hoje não tem mais poder do que os outros reis desta nasção; e somente o reconhecem e tem como couza sagrada e nenhu lhe intenta guerra, tendo-a continuamente huns com os outros principalmente nas sucessões dos reinos em os quais he tudo comum, assim nos ritos e ceremonias, como no negocio da mercancia e generos para elle.”149

Observamos, desde logo, que vários reinos eram a base da organização destes territórios, provavelmente anteriores à chegada dos portugueses.Vamos agora ter em conta as suas dinâmicas originais, tentando distingui-las da influência europeia.

Precisamente, torna-se interessante compreender esses reinos independentes, como viviam, que tipo de relações estabeleciam entre si, de paz ou de guerra, as causas e os efeitos dos modos de vida que tinham desenvolvido. Tentaremos reencontrar formas específicas da organização destes povos africanos. Para isso, seguiremos o olhar dos informadores portugueses, que escreveram as suas impressões sobre o que viram e descreveram, até certo ponto, o relacionamento entre estes reinos. A partir dessas fontes conhecemos, pelo menos alguns dos reinos africanos, seriam com grande probabilidade os mais proeminentes e os mais conhecidos. É importante conhecer a forma como se orientavam, os seus interesses e maneiras de viver, que durante séculos se mantiveram desligados da presença estrangeira, tendo evoluído de forma autónoma, provavelmente até ao presente. Nos finais do século XVII, as estruturas administrativas e sociais africanas parecem manter traços independentes, funcionando com a lógica que os concebera durante os séculos anteriores:

“Tenho dado notícia de todos os reinos dos Jalofos, que são quatro, a saber, o de Encalhor, o do porto de Aly, cujo Reino se chama Bool, o de Joalla, cujos negros se chamam Brebesis e são os mais valentes de todos, e o de Borçallo, que são mais em terras mas mais cobardes, que assim os dispos o Criador para que deste modo se podessem conservar.”150

Também por esta transparência e por este estado de espírito, descomprometido mas atento, podem aceitar-se com segurança as apreciações que se fazem sobre o carácter destes povos, o que era também um traço distintivo entre eles, como veremos. Quando se diz o que acima acabámos de transcrever, fica claro que os reinos negros se distinguiam pela força, “são os mais valentes”, pelo número e pela extensão de terras

149 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 95-96 150 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 106

que ocupavam,“que são mais em terras”, embora o maior poder seja reconhecido aos que tivessem mais coragem, e não aos que possuíssem mais territórios ou mais súbditos porque estes eram “mais cobardes.” São apreciações de um português que viveu com estes povos, ou seria, talvez também nestes aspectos que se distinguiam os indígenas entre si.

Já no iníco do século XVI, também Duarte Pacheco Pereira se referia aos mesmos lugares onde se situavam estes reinos, mas o desconhecimento sobre os reinos era maior, como é natural, se compararmos com o documento acima transcrito, sem deixar de haver uma clara complementaridade:

“ (…) E em língua dos Negros se chama este rio Encalhor e a terra dali, Çanaga, e o reino, Jalofo. E em nossos dias se resgatavam aqui escravos negros, dez e doze por um cavalo posto que bom não fosse (e pola má governança que se nisto teve, até seis não podem haver); e assim resgatavam aqui algum pouco ouro por lenço e por pano vermelho e por outras coisas. E este rio mandou descobrir o virtuoso infante D. Anrique por Dinis Dias, cavaleiro e Infante del-rei D. João, seu padre, e por Lançarote de Freitas, seus cavaleiros e capitães. E quando este rio de Çanaga foi descoberto e novamente sabido, disse o Infante que este era o braço do Nilo que corre pela Etiópia contra oucidente, e disse verdade. E quando aqui havia bom resgate, se tiravam deste rio, em cada ano, quatrocentos escravos e outras vezes menos a metade, havidos pelos ditos cavalos e outras mercadorias.”151

E aquele português, Francisco de Lemos Coelho, tendo vivido mais de vinte anos na vizinhança destes reinos, não pode deixar de intervir na sua descrição com alguma subjectividade, expressando juízos de valor sobre a conduta destes povos que conheceu bem de perto. Assim, vai dizendo o que pensa acerca deles, com generalizações por vezes, com dados muito específicos doutras. Fá-lo da forma como qualquer um de nós faria, nos nossos dias, ao contar impressões pessoais da viagem que realizou, mas também com as marcas da cultura em que se inseria:

“O porto he boníssimo e a terra he muito sadia e muito lavada dos ventos, muito abundante de tudo, assim de carnes como pescado, que he o milhor e mais que em toda a costa da Guiné; e entre outros peixes que há são huns que chamão enxovas, que tem

esta costa, muita sardinha e tam barata que eu comprava huma barca chéa por meya pataca, que he o menos dinheiro que corre ali.”152

No caso desta testemunha portuguesa, devemos valorizar a experiência adquirida, ao longo de décadas, em contacto com povos culturalmente muito diferentes. De facto, este documento torna-se mais valioso pela proximidade e pela experiência pessoal que apresenta, garantindo um conhecimento muito profundo das realidades em causa. Aliás, ele próprio explica por que motivo faz este relato e não se mostra preocupado com o facto de o “Leytor, amigo,” eventualmente não gostar ou não acreditar nas coisas que ele conta, o que revela do autor uma atitude interessante e até bastante moderna, pela comunicação com os seus leitores eventuais, pela espontaneidade e pela segurança que manifesta; parece duvidar de uma recepção positiva da sua mensagem; contudo, está consciente das novidades que conta e confiante na utilidade da sua experiência para os vindouros:

“Enquanto gostares lê, sequer por cousa nova; em te enfadando disso dize o que quizeres, advertindo que não he minha tenção fazello para ti, pois não gostas delle; mas sabe que o que aqui escrevo são verdades, e que faço isto com testemunha de vista e como quem nesta costa gastou vinte e três annos vivendo em várias partes, como no discurço da obra verão; e nas mais commerciei em seus portos em os meus navios com que navegava.

Creyo, Amigo Leytor, de tua benevolência me perdoarás os erros e não censures a fazer tantas digressões entrometendo histórias que não competem a discripção da costa; mas como ella he de si tam seca e intratável, que de si não dá nada, o fis de prepozito para se saborear o gosto.”153

Faz-se então a apresentação dos lugares e dos reinos respectivos, acima enunciados, começando de Norte para Sul. De acordo com este relato português, os reinos que dividiam aquelas terras e gentes eram inicialmente os reinos submetidos ao do Grande Jalofo. Com o tempo foram-se compartimentando e disseminaram-se vários reinos, cada vez mais divididos.

O caso de Encalhor, primeiro reino que o autor assinala, teria uma forte ligação a Portugal, conta-se até um episódio antigo significativo sobre as relações que Portugal estabelecera, muito cedo, com estes povos, ao ponto de estes pedirem auxílio ao rei de

152 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 99 153 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 93

Portugal para apoiar a reconstrução deste reino ameaçado. Pode-se depreender que nos finais do século XV, as relações com Portugal não se tinham deteriorado, pelo contrário, existia uma enorme esperança e interesse no apoio vindo do Estado Português:

“O primeiro reino que desta nasção conhecemos pello comercio he o de

Encalhor o qual se estende do rio do Senegá athe húa casta de negros desta nação que chamão Xercos, e he a terra donde he senhor o Príncipe Bumugelém que em tempo de El-Rei Dom João o segundo foi a Portugal pedir socorro ao Senhor Rey dito para restaurar o seu reino que se lhe tinha revelado. (…)”154

Independentemente do desfecho insólito desta situação, a verdade é que o apoio de Portugal era visto como uma grande força para resolver os próprios conflitos dos reinos africanos. Este episódio reflecte expectativas positivas que se criaram junto de alguns povos africanos que não considerariam a presença portuguesa como invasora ou inimiga.

O segundo reino seria o reino de Bool, onde viveriam muitos “brancos” ou europeus, ou seja, onde a influência destes terá sido mais profunda, não só pelo comércio mas também pela vizinhança e convívio directo que desde cedo se instalou naquela área, onde hoje encontramos marcas linguísticas dos portugueses, por exemplo nos topónimos como Portudal (porto de Aly) - se a origem não é portuguesa, pelo menos tem uma evolução e uma estrutura muito próxima da Língua Portuguesa, sendo este um exemplo, entre outras muitas palavras portuguesas de uso comum, no Senegal, nos nossos dias:

“Tres legoas abaixo deste porto do Arrecife comessa o reino de Bool que tem por costa nove legoas; nelle esta a aldeã do porto de Aly que he aonde vivem os brancos; no mejo deste caminho está hua casta de negros (…) Chamão-se Xercos. (…) Os negros são os mesmos e os negocios como no Arrecife ; mas aqui com mais abundancia, que hé dia em que se comprão dous mil couros; o rei vende muitos negros a troco de prata, custava um negro bom vinte patacas.”155

Não há uma descrição tão pormenorizada como a que responde mais directamente ao objectivo das viagens naqueles lugares, nomeadamente a indicação dos sítios e do percurso que se deve escolher, por mar e por terra, do comércio, dos produtos, das formas como se transaccionavam as mercadorias e até alguns valores

154 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 97 155 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 102

atribuídos aos bens. Por esse motivo, torna-se difícil aprofundar o conhecimento das características destes reinos designados, que estão inseridos principalmente no contexto das transacções comerciais que se efectuavam entre os europeus e os africanos. Parece- nos ainda assim que estes povos indígenas mantiveram alguma reserva sobre os seus modos de vida; ou então, esses eram aspectos que os estrangeiros não quiseram explorar, por falta de interesse ou de tempo, por se dedicarem prioritariamente ao comércio; ou seria porque os aldeamentos se encontravam resguardados, sendo de difícil acessibilidade. Seja qual for a razão, na verdade, não encontramos uma caracterização profunda, bem localizada e distinta, sobre a constituição de todos os reinos africanos enunciados neste documento. Contudo, esta repartição e a designação destes deixam clara a divisão dos territórios por vários reis, que escolhiam preferencialmente uma localização junto dos rios, cuja função, entre outras, seria a de divisória, para separar as terras e as gentes.

Assim, temos o terceiro reino referido, o de Joalla, que se prestava a muitos conflitos, pelas condições da paisagem. Mas era aqui que se acomodavam muitos portugueses:

“O porto de Joalla he muito conhecido (…)

Querendo ir por terra do porto de Aly para o porto de Joalla são também nove legoas, e vaisse pella beira da agoa. Em o meyo do caminho está um rio que devide estes dois reinos, que chamão o rio Sereno, e a terra, á terra do Sereno, em elle de huã banda e da outra há aldeas; as do Norte, do rey de Bool, e as do Sul do rey de Joalla; e parece que criou Deos este asillo para muitos portuguezes que vevião nestes dous portos; por que se vevião com temor do rei da terra, em huã noite andavão estas quatro legoas e passavão da outra banda, aonde ficavão seguros, e destes não faltavão brancos nestas aldeas, o rio se vadea de baixamar.”156

Segue-se o quarto reino, o de Borçallo, que tinha uma maior extensão do que os anteriores e, talvez por isso, se subdividia noutros reinos, ou comunidades mais pequenas, submetidos e administrados pelo reino maior:

“Deste porto de Joalla ao rio de Borçallo, que he muito perigozo de entrar… Há

nelle um riacho fundo que chamão o rio de Palmeirinha, e he a demarcação do reino de Joalla com o de Borçallo (…) De todos estes reinos he o mais dilatado em terras, pois comessa do rio de Palmeyrinha e vay athe o rio de Gambia, e sobe por elle asima athe

o rio de Nanhigega, que são perto de secenta legoas, em o qual districto põem muitos reyzinhos que lhe são tributários.”157

Mas os reinos que se espalhassem para o interior do continente não eram tão visitados e o autor assume o seu desconhecimento sobre essas áreas, mais longínquas do mar e dos locais de negócio preferenciais dos portugueses e dos outros europeus:

“ Da terra do Gran Jalofo não he mais que as notícias que dei; que como fica pela terra dentro não temos comunicação com elle.”158

Contudo, depreende-se que a influência cultural de certos grupos africanos abrange grandes extensões, no século XVII:

“Pella terra dentro, confinante com o reino do Gran Jalofo, está o reino do Gran Fulo cuja costa se chama Tugutá ou Tutá, e há neste reino gente sem número, todos dados mais a lavoura e criação de gado, de que tem infinita quantidade, do que a guerra. He este reino dos Fullos tam dillatado que os conhecemos pela terra dentro do rio de Sanagá athe a Serra Leoa, e dizem se estendem athe Angolla.”159

Apesar das limitações da época ao conhecimento do vasto continente africano, conclui-se que os portugueses tiveram o engenho necesário para estabelecer contactos com boas fontes de informação e terão viajado o suficiente para terem uma ideia bastante correcta da dimensão e da complexidade das sociedades e territórios com que contactavam. Neste caso, pensamos que o autor se refere ao reino dos fulas, isto é, o Fouta peul que foi, de facto extenso, teve uma influência marcante, deixando mais raízes que outros reinos anteriores (por causa do grande número de súbditos, que se instalaram em territórios geograficamente muito alargados, e, em parte, porque foram o principal veículo difusor do islamismo na sub-região). Hoje, aqueles lugares correspondem aos territórios de vários países cujas sociedades têm semelhanças, devido à proximidade cultural, histórica e geográfica desses povos. Assim, muitas famílias podem ter-se dispersado, até podem ter perdido o contacto entre si, desenvolvendo-se de forma autónoma, mas com as mesmas marcas e referências culturais.

Naturalmente, os autores portugueses dos séculos XV a XVII não podiam delimitar muito bem os territórios de todos os reinos que referem; no caso em apreço, o capitão português tenta fazer essa delimitação geográfica, mas parece-nos que não seriam do seu conhecimento certos detalhes. De acordo com as suas experiências, estes

157 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 106 158 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 107 159 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 109

reinos parecem distinguir-se também por características específicas dos seus líderes e dos seus súbditos, ou seja, esses agrupamentos viviam separados, até isolados, pelo que tinham experiências históricas e culturais próprias. Com grande probabilidade se identificam com as etnias ou famílias, tal como hoje ainda existem no Senegal. São muito diversificadas e dificilmente se separam, preservando os seus costumes e as suas leis ao longo dos tempos. Haveria, no século XVII, idêntica autonomização de grandes famílias, fechadas a tudo o que pudesse ameaçar as suas estruturas, os seus laços de união ou o seu poder?

Sobre estes assuntos, recordamos um pequeno episódio que presenciámos quando pedimos a identificação a um estudante senegalês. Não foi por acaso que ele se apresentou com o nome da família primeiro, depois com o nome próprio. Quando pedimos também o nome da etnia, ele mostrou-se muito incomodado. Depois explicou- nos que, dessa forma, teríamos acesso pormenorizado às suas origens e às da sua família, ou seja, era como se nós estivéssemos a entrar em domínios privados ou reservados. Obviamente, nós não atribuímos este significado à sua identificação pessoal. Mas, no Senegal, dizer estes dados é expor-se a uma leitura do seu passado. Nós não temos igual informação, do passado, da história, das famílias e das etnias do Senegal. Aquele mundo estava ali mesmo à nossa frente, oculto pela palavra.

De facto, no Senegal, esta imagem das etnias ainda está muito presente no quotidiano, embora desconheçamos muito das suas histórias e tradições. Pode ter sido também um aspecto distintivo dos reinos antigos africanos, de que falávamos. Espalhavam-se e afirmavam-se naqueles extensos territórios que, por isso mesmo, permitiam-lhes viver longe uns dos outros, controlando o seu pedaço de terra, muitas vezes isolados nas suas aldeias, sem outros contactos que não fossem os da sua comunidade, o que proporcionava um certo fechamento ou distanciamento do resto do mundo. De alguma forma, abriram-se mais para o mundo quando os europeus chegaram. Estes reinos passaram a receber visitantes. E os nativos compraram produtos novos, desenvolveram outros interesses e contactaram com outros homens. Mas sem experiência, pouco habilitados para responder às exigências deste novo mundo, como vimos, os interesses variaram ou mudaram, as guerras eram outras, vindas de outros contextos:

“Querendo hir mais por este rio de Bitam asima, que he pernada do rio de Gambia, deste porto de Bintam a seis legoas está outro reino de Banhús, que chamão o

reino de Sangedegú, e aldea que vista a vista do porto chamão a aldea de mais negocio que teve este rio de Gambia, e ainda hoje o Inglez tem húa feitoria nella.”160

Aqui, neste ponto, não podemos distinguir claramente os reinos das aldeias, onde viviam determinadas comunidades, também designadas por outros nomes. Por isso, parece que a certa altura os reinos confundem-se – o reino de Banhús é também o reino Sangedegú - e ficamos com a sensação de que esses reinos também seriam mais diversificados, com várias comunidades de diferentes proveniências e características. E a complexidade acentuou-se mais ainda, a partir de certo momento, com a chegada dos europeus que instalaram as suas feitorias, nessas comunidades ou reinos. Podem ter provocado uma colisão de interesses no mercado comum. Estes agrupamentos africanos trocavam os mesmos produtos, tinham as mesmas necessidades e os mesmos desejos. Criou-se uma concorrência comercial e acenderam-se eventuais rivalidades entre esses grupos e as suas lideranças, o que acontecia, como vimos atrás acerca deste mesmo reino de Sangedegú.

Por causa desta organização diversificada, mesclada de famílias, de proveniências e de costumes, estes pequenos reinos apresentavam fragilidades que podem ter-se arrastado ao longo dos tempos. Por exemplo, Casamansa é hoje um território de conflitos frequentes que podem estar relacionados com a proximidade

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