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Fully Distributed Systems

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5.4 Fully Distributed Systems

Quinta Razão do Infante

“A quinta razão foi o grande desejo que havia de acrescentar em a santa fé de

nosso senhor Jesus Cristo, e trazer a ela todalas almas que se quisessem salvar, conhecendo que todo o mistério da encarnação, morte e paixão de nosso senhor Jesus Cristo foi obrado a este fim, silicet, por salvação das almas perdidas, as quaes o dito senhor queria por seus trabalhos e despesas, trazer ao verdadeiro caminho, conhecendo que se não podia ao Senhor fazer maior oferta;”126

Ao longo do século XVI, os africanos continuaram a transaccionar os seus produtos com os europeus em África, alheios às movimentações dos estrangeiros na Europa. E, com a pirataria dos ingleses, dos franceses e dos holandeses, a segunda vaga de europeus, começaram a ameaçar-se os territórios até aí desvendados pelos portugueses, concedidos pela Santa Sé e com direito de padroado nesses lugares. Os africanos estavam muito longe de imaginar que a sua terra já tinha outros donos, outros chefes, outros senhores.

Negociava-se a posse dos territórios ultramarinos e os novos habitantes em África, europeus, estendiam a sua presença com navios, com fortalezas, com exércitos

nos lugares africanos, sem se considerar o passado daqueles lugares ou daqueles povos, entrando sem pedir licença, entrando porque a porta estava aberta. Em meados do século, não consideravam que fosse uma invasão de propriedade privada, isso não era importante nem existia para os corsários cuja profissão era precisamente invadir territórios alheios. Eram acções que se enquadravam na mentalidade de povos conquistadores, cuja cultura assentava na capacidade de alargar as potencialidades das nações. Para eles, a conquista e o domínio de mais espaço eram um sinal de poder que os submetidos seriam necessariamente obrigados a aceitar. De novo, agiam de acordo com a lei do mais forte que ganha independentemente dos meios que se utilizem. Claro que, depois de tomarem indevidamente posse desses territórios, preocuparam-se muito com a defesa destes para que não viessem outros extorquir-lhos também. E, de facto, estes territórios do actual Senegal foram muito disputados.

Portanto, a ocupação dos territórios efectuou-se gradualmente com a construção de fortalezas para a defesa e para o ataque, perante as ameaças com que se deparava naqueles lugares e que se mantiveram durante largos tempos. Os africanos nem sempre se deixaram submeter; vejamos por exemplo este comentário de um observador seiscentista:

“ (…) e aldea que fica a vista do porto chamão aldea dos Hereges. Foi aldea de mais negocio que teve este rio de Gambia, e ainda hoje o Inglez tem húa feitoria nella, e dá muitos couros e muita cera e alguñs negros, e vivem brancos filhos da terra, nella. O gentio he bárbaro, e ordinariamente anda esta terra dividida em dous bandos, e em guerras, que cada um quer ter seu rey, e por isso os caminhos por terra não são muito seguros. Tem, fora a terra dos Banhús de que querem fazer estes dois reinos, muitos falupos sugeitos, os quais são aqui mãos, e salteadores no caminho e grandes ladróes, que não està pessoa algúa segura com elles em todo este caminho.”127

Contudo, os europeus iam tirando os seus proveitos nas novas zonas, e os africanos até ajudaram no rápido desenvolvimento deste comércio em que se integraram com facilidade; mas a relação que ao longo do tempo se estabeleceu favoreceu o domínio de uns sobre os outros.

Claro que os africanos não terão visto sempre com bons olhos a aproximação destes estrangeiros, não só porque eram invasores, mas também porque eram novos concorrentes às suas actividades económicas e geravam novas forças de poder. Os

estrangeiros vieram alterar para sempre o relacionamento entre os vários reinos africanos estabelecidos, que também já mantinham frequentes conflitos, pelo que indicam fontes escritas:

“Perguntei que senhores reinavam naquelas terras e responderam-me que na parte dos negros havia um senhor de nome Sambegenu e da parte oriental o senhor se chamava Semanagu; que estavam sempre em guerra e que não havia muito tempo tinham travado grande batalha e vencera Semanagu. (…) Depois que voltei a ter com o senhor Infante, ao referir-lhe tudo isto, disse-me ele que um certo mercador de Orão lhe tinha escrito, já tinham decorrido dois meses, falando da guerra ou batalha que houvera entre Semanagu e Sambegenu. E assim daria crédito a tudo.”128

Além dos conflitos que já existiam entre os africanos, a presença estrangeira levou a que se acendessem rivalidades entre os reinos, acrescentaram-se novos interesses com os novos produtos dos estrangeiros e a organização dos indígenas não se manteve, adequou-se às novidades, naturalmente dentro de referências culturais africanas pré-existentes:

“A principal fazenda para estes portos de Jalofos he coral fino comprido e quanto mais grosso milhor, o qual se vende a pedras, e há coral que dão por huã pedra hum couro; e a mim me derão hum hermozo negro por hum ramal de coral.”129

Os nativos de África, concretamente os que se fixaram na região do actual Senegal, quiseram também controlar as suas áreas de influência, junto dos estrangeiros e, por isso, deslocavam-se até onde fosse necessário para ter acesso às novas mercadorias e para trocarem os seus produtos tão desejados pelos novos comerciantes:

“São os portuguezes que aqui morão obrigados, senão são empedidos da doença, a hirem vezitar o rei da terra todos os annos huã ves e levarem-lhe muito bom prezente conforme sua possibilidade, que as vezes custa mais de cem mil reis, isto em muito boas pessas de prata, agoardente em barris ou frasqueiras, coral fino, escarlatas e outras couzas, conforme cada um tem; o rei lho gratefica e lhe dá muitas vezes mais do que val o que lhe leva, conforme o acha e he sua fortuna; o que lhe dá são negros, couros, cavallos, camellos, que aos brancos servem muito para conduzirem couros, que

128 D. G. SINTRA (1484-1496) ; Op. Cit., pp.75 129 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 65

tambem comprão pella terra dentro se tem já muito cabedal: e um camello carrega quarenta e cincoenta couros.”130

Mas o comércio seiscentista que se fazia em África tinha diferenças relativamente ao que se conhecia na Europa, que os negros não conheciam. Os europeus passaram a ter acesso a novos produtos e os seus grandes interesses eram riquezas naturais do continente africano, especialmente o ouro, muito famoso, embora depois se tenham acrescentado outros produtos naturais que existiam em grande abundância naquelas regiões, como o sal, os couros, especiarias e, como vimos, até as pessoas se trocavam como forma de reconhecimento ou de pagamento:

“A aldea do porto de Aly fica em passando o Cabo dos Mastros (…). Os negros são os mesmos e os negócios como no Arrecife; mas aqui com mais abundância, que há dia em que se comprão dous mil couros: o rei vende muitos negros a troco de prata, e custa um negro bom vinte patacas.”131

Doutras vezes, estes mesmos grupos africanos da costa ocidental africana, a sul do deserto do Sara, usavam formas específicas para comerciar, evidenciando simultaneamente o seu poder:

“Entrando pelo rio de Borçallo se vai por elle duas marés antes de chegar ao porto, que fica mais de tres legoas afastado do reino. Ainda em navio se manda recado ao rey com um prezente, o qual diz o mandador o dia que hade vir; e enquanto não vem ninguém compra nada. Vindo o rei vè a fazenda toda que trás o navio, e as vezes sò elle o despacha porque vende muitos negros e fermozos; e hà ocasião em que só em hum dia vende cem negros. O milhor género para o negocio he prata e agoardente; o rei era no fim dos annos que estive naquellas partes bixirim, que he como legislador da ley de Mafoma, com que não comprava tanta agoardente, mas na terra gastavase bem porque não defendia comprar-se.”132

Para estes africanos, os produtos de pouco valor que os europeus traziam eram a grande novidade e parece que não souberam atribuir o valor correcto aos seus próprios produtos, ou não trocariam tanto ouro por uns pedaços de tecido ou por bugigangas; diz Diogo Gomes, a certa altura, “recebi deles 180 pesos de ouro em troca das nossas mercadorias, a saber, panos, manilhas, e outras coisas.”133 Trocavam muito ouro por

130 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 101 131 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 102 132 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 106 133 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp 71

outros produtos menos valiosos, o que foi representando cada vez maiores lucros para os estrangeiros:

“Este reino de Manjagar he sogeito ao rei de Borçallo como o da Barra e o do Badibó. Aqui costuma o rei vir commerciar com os navios quando não vão a sua terra, e vende muitos negros. Hà nesta terra muitos couros e os milhores de todo o rio, tem muitos arros limpo e negros. Em a mesma terra (…) Os moradores dela são mercadores bixirins. He de muito tracto, comprasse muita roupa, ouro e muitos boñs couros como os de Manjagar. Vendesse muito bem collas, de que estes mandingas são muito amigos.”134

Portanto, os europeus conheciam os dois continentes, estavam mais bem informados sobre os vários tipos de mercado. Conheciam o valor comercial dos produtos e as possibilidades de escoamento de tudo quanto compravam, alargaram enormemente as suas áreas de negócios. Quanto aos nativos destas mesmas regiões do ocidente africano, alargaram o mercado com os novos produtos exportados pelos estrangeiros, só conheceram o contexto comercial nas suas terras, não atribuíam tão alto valor aos seus produtos como os estrangeiros, embora as ocasiões de negócio fossem sempre momentos a que davam grande ênfase. Quanto aos escravos, eram vendidos pelos africanos indiscriminadamente aos estangeiros, com certas distinções no preço atribuído:

“São os Jalofos todos mahometanos e por isso ruins para se reduzirem. As suas guerras são a cavallo, e há muitos na terra; e o rei e fidalgos tem muito (sic) mouriscos que lhe trazem os mouros com quem confinão pelo rio de Sanagâ, e são boníssimos, e há cavallos que custa (sic) vinte e sinco e trinta negros.”135

“(…) Alguns donos de navios costumão hir (…) em alguns destes portos (…) e comprão nelle marfim, roupa, couros e muitos negros, e he bom levar bebida, que ainda que os negros são mahometanos bebem muito vinho e agoardente e dão hum negro bom por sete ou oito botijas de agoardente, (…)”136

Depois, os estrangeiros, donos dessas pessoas transaccionadas como bens, transportavam-nas como faziam com as restantes mercadorias, para diversos lugares do mundo, e vendiam-nas de novo. Estes, desenraizados das suas terras, para onde não regressavam, ou morriam nas viagens ou passavam a viver em lugares que lhes eram

134 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 120 135 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 101 136 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 126

completamente estranhos e sem liberdade, embora esta última condição lhes fosse talvez a menos estranha porque nas terras africanas era comum haver escravos, estar ao serviço e sob o domínio absoluto de alguém.

Também os europeus já tinham aquelas terras sob o seu domínio, o comércio compensava largamente e instalaram-se sem grandes contrariedades. No que diz respeito ao caso dos portugueses, os primeiros a chegar, sabemos de duas feitorias, as mais conhecidas naquelas regiões e de que ainda existem vestígios. Estruturaram o comércio com aqueles povos e, desde muito cedo, orientaram os interesses dos indígenas para os seus próprios produtos:

“Pôs o senhor Rei duas casas naquela terra de Cenégios para trocar as suas mercadorias por ouro; são elas a de Arguim e a de S. João, que fica próximo de Tofia e Anterote.”137

Apesar dos esforços da diplomacia portuguesa na Europa e de algumas resistências dos africanos nas suas terras, os europeus ficaram definitivamente sediados naqueles territórios africanos, com os seus fortes e os seus exércitos para protegerem as suas actividades comerciais.

Por exemplo, é interessante a história da ilha de Goreia, onde os portugueses elevaram uma capela, o primeiro edifício ali construído:

“Le poste de police (ancien dispensaire) s’élève peut-être à l’emplacement òu les maçons portugais, allant construire le fort d’El Mina sur la Cote de l’Or (actuel Ghana), édifièrent en 1481 la première chapelle de l’île. Dans le recueil de textes portugais rassemblés par Valentim Fernandes (1506-1507), on peut relever: …une église de pierre

couverte de paille qui a été faite par les gens qui accompagnaient Diogo de Azambuja quand ils allèrent construire le château de Saint Georges de la Mine. Dans cette église sont enterrés beaucoup de chrétiens qui se trouvaient pour (ou qui moururent pendant) la traite sur cette côte et venaient se faire enterrer dans cette île pour l’amour de cette église… Ce poste de police est sans doute la construction la plus ancienne de Gorée: il

figure déjà sur les plans du XVIIe siècle comme magasin et sur ceux du XVIIIe siècle comme forge.”138

A ilha de Goreia foi, muitíssimo disputada entre os estrangeiros, funcionando como escala para os navios vindos do Sul do Continente africano, mas também para os

137 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 65

138 CAMARA, Abdoulaye e BENOIST, Joseph Roger, Gorée – Guide de l’Île et du Musée Historique,

que vinham das Américas ou da Europa, onde se intensificava de formas nefastas o mercado de escravos. Vejamos o caso da presença holandesa, que deu o nome actual à ilha:

“Em passando Cabo Verde esta a ilha de Bersiginche, desviada da terra firme também uma legoa, a qual os olandezes, que erão em meu tempo senhores della, chamavão a ilha de Gure; e em ella tinhão duas fortalezas, a mayor defronte da terra firme, ao longo da agua, aonde estava a feitoria e casa do general e mais soldados; e a outra defronte dessa ao mar, distancia de um tiro de mosquete, em a qual entravão todos os dias huma parte da esquadra da gente que entrava de guarda na fortaleza de baixo; tendo em ambas para esse effeito oitenta the cem homens da guerra, fora a gente que era necessária para o negócio.”139

De acordo ainda com as notícias deste capitão português, que nos deixa aqueles e estes testemunhos escritos, também os ingleses se iam instalando em África, disputando com os holandeses estes territórios ultramarinos na costa ocidental africana, incluindo esta pequena ilha:

“Também aqui [Cabo Verde, Gure] vinhão os navios de Cacheo (...) e aqui

vinham todos os anos de Olanda, duas e tres naos grandes a carregar dos ditos generos [cera e marfim] que levavão para a cidade de Amsterdam donde tinham o assento da Companhia de Africa que asim lhe chamavão; e tiravão tanto interesse desta ilheta que tomando-lha o inglês em meu tempo, no anno de 1663, não repararão em andarem as guerras muy acesas entre essas duas nações para que logo no anno seguinte não mandassem o seu general Rut com uma esquadra de quatorze náos de guerra a restauralla; assim que por aqui se verá os lucros que tirarão dos negócios que aqui farião”140.

A ilha foi passando de mão em mão e, pouco tempo depois, chegou a vez dos franceses que se apoderaram definitivamente de Goreia, tão cobiçada pelos estrangeiros que por ela iam passando:

“Hoje [1684] lha tem tomado o francês, e se tem feito senhor de todo negocio

desta costa de Jalofo”141.

Diz ainda Francisco de Lemos Coelho, o redactor desta notícia do séc. XVII, sobre aqueles lugares de Cabo Verde e a ilha de Goreia, o seguinte:

139 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 96-97 140 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 97 141 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 98

“Defronte desta ilha, na terra firme, está um cabozinho que chamão o Cabo

Gaspar, detraz do qual há húa insiada muito boa e grande, que entra pella terra dentro que parece cá de fora rio. (…) era no meu tempo boníssima escalla esta para os navios que vinhão de Cacheo com negros para esta ilha, porque aqui refrescavão a sua armação, fazião aguada fresca, compravão muito mantimento se necessitavão delle e os regallos que querião na ilha, sendo do flamengo benignamente agazalhados”142.

Assim, os europeus faziam os seus negócios na ilha com os navios vindos do Norte ou do Sul, por mar e em terra. Na opinião deste observador português, seria aprazível visitar aquelas aldeias que existiam na orla costeira e mais para o interior:

“Desta enseada do cabo de Gaspar se vai por terra em muito bons cavallos ao

porto de Arrecife, que são três legoas, e he caminho muito alegre, porque há nelle muitas aldeas e muito frequentadas de gente, e muito vinho de palma de que muitos brancos gostão”143.

Por ali se misturavam os estrangeiros com os indígenas africanos, no território do actual Senegal, instalando-se por lá definitivamente não só muitos portugueses, flamengos, ingleses e franceses mas também judeus fugindo às perseguições da Inquisição na Europa, desde finais do séc. XV:

“Em o porto de Arrecife ou Recife he que está junto da agoa a aldea principal, e

nella vivem os portugueses e os brancos filhos da terra, e viverão já muitos judeos com cazas muito grossas, nascidos em Portugal, que aqui se vinhão declarar porque os defendião os reis da terra e não podião ser castigados por isso. Aqui tem o flamengo huma feitoria com mercador aparte, e o francês tem outra”144.

Parece, pela descrição que nos é apresentada, que nestes lugares havia já desde há muito tempo um negócio estável e frutuoso também para os franceses, que posteriormente acabaram por dominar a região:

“ (…) porque a este porto [Arrecife ou Recife] vem todos os annos húa náo francesa grande e poderoza, a qual vinha ordinariamente em Novembro, que he o fim das agoas ou Inverno desta costa, e estava athe o São João que he o principio do Inverno; e aqui carregava de courama de vaca e levava ordinariamente trinta e cinco ou quarenta mil couros. (…)”145

142 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 98 143 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 99 144 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 99 145 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 99

Os ingleses acabaram por se instalar mais a Sul, junto ao rio Gâmbia, por volta de meados do século XVII, onde os seus produtos seriam muito apreciados.

“Sahindo do porto de Borçallo se vai ao rio de Gambia, o qual não tem entrada,

ainda que tem baixos de banda do Norte e de banda do Sul (…) Assim que havendo inglez no rio melhor genero hé couros, cera e marfim; para que vendido com o estrangeiro se sortée dos géneros do rio, que são ferro, agoardente, contaria miuda preta e branca, panno vermelho, cristal numero vinte e doiz, papel miudo, que em hum dia gastaria vinte resmas. (…)

Em este porto de Barra não há negocio nem ninguém surge nele senão para aguardar maré para hirem para o porto de Julufré, que he do mesmo reino e fica defronte da fortaleza do Inglez.146

Este capitão português descreve os espaços ocupados pelos estrangeiros, distinguindo-os com clareza, com muito pormenor, sabendo de todos os seus interesses e relações. Apresenta o poderio europeu ali instalado, com uma enumeração dos produtos com que carregavam os seus navios para comerciar e dos lugares onde era costume haver mercado. Mas estes carregamentos, pelo que nos é dado perceber, não se destinavam aos africanos, e todos os anos renovavam estas actividades que dariam muito lucro noutros lugares, venderiam a outras gentes e noutros contextos económicos mais lucrativos, onde esses produtos eram escassos e pagos a melhores preços, em que se incluía o tráfico de pessoas:

“Defronte deste porto de Julufré, a meyo rio, que terá aqui mais de húa legoa de largo, está húa ilheta que o Ingles tem bem fortificada; sendo que he couza piquena, mas está muito deffensavel com húa fortaleza de pedra e cal, e cazas dentro para o General, e almazens para as fazendas, com mais de vinte pessas de artelharia; e a roda da ilheta, entre as pontas que faz, tem feito ao lume da agoa três plataformas com quatro pessas de artelharia cada húa; tam rasas com a agoa que quando ha mareta, lhes lava as bocas. Aqui lhes vem as naos de Inglaterra deitar o ferro e fazendas de que está ordinariamente bem provida, e carregão de couros de vaca e de bicho, feitos no rio, os quais constão de antas sinsins, tancões e gimguisangas e são melhores e mais estimados esses que os de vaca, marfim e cera; e levão hum anno por outro, comprados no rio, sincoenta mil couros e mil e quinhentos quintaes de cera e marfim. Também

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