Biological-Based Optical Sensors and Transducers
6.3 Protein-Based Optical Transducers
6.3.1 Bacteriorhodopsin Films
Por curiosidade, pedimos aos alunos que designassem a sua língua étnica.
Os resultados confirmam o facto de muitas etnias terem línguas próprias, que utilizam. Contudo, não questionámos sobre a língua mais correntemente usada, pois sabe-se que o Wolof se tornou uma língua quase franca, falada, no mínimo, por 3/4 da população senegalesa.
Assim, podemos fazer uma distinção em função da regra da associação etnia / língua:
- Nenhum bainouk, balanta, bambara, crioulo, mancanhe, sarakholé, socé, soninké, toucouleur ou wolof declara qualquer outra língua para além da que tem o nome da sua própria etnia;
- Os lébous e papel, devido, porventura, à sua reduzida presença na amostra, dividem-se: os lébous citam, em igual proporção, o Lébou e o Wolof; e 1/3 dos papel refere o crioulo como língua;
- As demais etnias referem uma língua predominante e, num ou noutro caso, uma segunda ou terceira: para além do mandinga que diz falar Socé (na verdade, são a mesma língua), um manjaco cita como língua o Pulunde e um sérère refere falar Diola.
Nos restantes casos, citem-se apenas dois aspectos:
- Os diolas falam a sua própria língua em 94% dos casos. Dos restantes, 4,3% preferem referir sub-grupos linguísticos (Bayotte, Erame, correspondentes a aldeias) e um aluno cita como língua étnica o crioulo;
- O Pulaar é falado pelos peuls, pulaars e por dois fulas (que referiram, no inquérito, que os fulas são Pulaars).
Assim, constata-se que, não obstante a tendência para generalizar o Wolof, como “língua nativa” (sobretudo dirigida a partir de Dacar e recorrendo aos meios audiovisuais de comunicação social), a par do Francês, língua oficial, as etnias senegalesas resistem à assimilação e salvaguardam a sua identidade, no plano linguístico e não só; de facto, observem-se os quadros seguintes, relativos à miscigenação étnica:
Quadro 14a - Casamentos dos pais – miscigenação étnica - grupo subguineense
Mães Pais diola bai- nouk balan- ta criou- lo man- jaco man- canhe papel man- dinga fula Diola 66 1 1 1 Bainouk 2 4 Balanta 1 11 Crioulo 1 Manjaco 1 1 27 1 Mancanhe 1 27 Papel 2
Quadro 14b - Casamentos dos pais – miscigenação étnica - grupo sahelo-sudanês
Mães
Pais
wolof lébou sérère diola man- dinga bam- bara sara- kholé peul tou- cou- leur Wolof 37 2 1 1 1 1 3 1 Lébou 1 1 Sérère 39 1
Quadro 14c – Casamentos dos pais – miscigenação étnica – grupo mande
Mães Pais man din ga bam ba ra sara kho le dio la bai nou k ba lan ta man jaco wo lof sérè re peul tou cou leur mou ros Mandinga 6 1 1 1 1 1 1 1 1 1 Bambara 3 2 1 Sarakholé 1 1 2 1 Socé 1
Quadro 14d – Casamentos dos pais – miscigenação étnica – grupo halpular
Mães Pais
peul fula toucou- leur
diola criola wolof lébou sérère bam- bara
Peul 12 1 1 2 1 1
Fula 6
Quadro 15a – Casamento de avós – miscigenação étnica – grupo subguineense Avós Avôs diola bai- nouk balan- ta crioula manja- co man- canhe papel outros Diola 129 1 Bainouk 12 Balanta 24 Crioulo 1 1 Manjaco 1 2 42 1 Mancanhe 39 Papel 2 4
Quadro 15b – Casamento de avós – miscigenação étnica – grupo sahelo-sudanês
Avós Avôs
wolof lébou sérère sara- kholé peul tou- couleur outros Wolof 63 4 2 1 1 1 Lébou 4 Sérère 1 72 1
Quadro 15c – Casamento de avós – miscigenação étnica – grupo mande
Avós Avôs man- dinga bam- bara sara- kholé diola ba- lanta
wolof sérère peul ou- tros
Mandinga 17 1 4 2 1
Bambara 8 1 1 1 1
Sarakholé 1 2 3
Socé 1
Quadro 15d – Casamento de avós – miscigenação étnica – grupo halpular
Avós Avôs
peul fula tou- couleur
diola papel wolof sérère man- dinga
Peul 23 1 1
Fula 14
Toucouleur 6 3 3
Através dos quadros anteriores, pretendemos observar até que ponto, nos casamentos, as pessoas de cada etnia procuram manter-se-lhe fiéis à etnia, ou se há uma miscigenação.
Os resultados não deixam dúvidas e reflectam um traço colectivo da sociedade senegalesa, a da preferência à própria etnia quando se trata de encontrar um cônjuge. Mas há diferenças por etnia e por sexo:
Quadro 16 – Frequência relativa dos casamentos com pessoas da mesma etnia Etnia dos Pais % Etnia das mães % Etnia dos avôs % Etnia das avós %
Crioulo 100,0 Papel 100,0 Bainouk 100,0 Fula 100,0 Fula 100,0 Manjaco 96,4 Balanta 100,0 Lébou 100,0 Papel 100,0 Mancanhe 93,1 Fula 100,0 Mancanhe 100,0 Sérère 97,5 Balanta 91,7 Lébou 100,0 Manjaco 100,0 Mancanhe 96,4 Sérère 90,7 Mancanhe 100,0 Mandinga 94,4 Diola 95,7 Diola 86,8 Diola 99,2 Diola 94,2 Balanta 91,7 Fula 85,7 Sérère 97,3 Balanta 92,3 Manjaco 90,0 Wolof 80,4 Peul 92,0 Serère 91,1 Wolof 78,7 Bainouk 80,0 Manjaco 91,3 Bambara 88,9 Bainouk 66,7 Mandinga 75,0 Wolof 87,5 Wolof 88,7 Peul 66,7 Peul 66,7 Mandinga 68,0 Peul 88,4 Bambara 50,0 Bambara 50,0 Bambara 66,7 Bainouk 85,7 Lébou 50,0 Lébou 50,0 Papel 66,7 Toucouleur 75,0 Mandinga 40,0 Sarakholé 50,0 Crioulo 50,0 Papel 66,7 Toucouleur 33,3 Toucouleur 50,0 Toucouleur 50,0 Crioulo 33,3 Sarakholé 20,0 Crioulo 20,0 Sarakholé 33,3 Sarakholé 33,3 Português 0,0 Mouro 0,0 Socé 0,0
Socé 0,0 Mouro 0,0
Assim, no que respeita aos pais, vejamos aspectos sobre a fidelidade étnica nos casamentos.
Verifica-se uma absoluta fidelidade à etnia dos homens fulas, papel e crioulos, embora o número de ocorrências seja pequeno nas duas últimas, logo estatisticamente pouco relevantes; nos casos femininos, apenas a etnia papel parece ter absoluta uma fiedelidade absoluta. É curiosa a diferença entre a prática dos fulas inquiridos e a dos peuls que, em princípio, são uma só etnia; tal situação poderá explicar-se por desvio estatístico (este universo não é suficientemente grande para garantir conclusões), ou por particularidades sociais locais que indicam que, mesmo no seio de uma família étnica, há diferenças assinaláveis, possivelmente determinadas pelo meio envolvente.
Regista-se uma fidelidade praticamente integral (superior a 90%) nos homens sérères (97,5%), mancanhes (96,4%), diolas (95,7%), balantas (91,7%) e manjacos (90,0%), e, nas mulheres manjacas (96,4%), mancanhes (93,1%), balantas (91,7%) e sérères (90,7).
Constata-se uma fidelidade superior a 50% em quase todas as etnias, excepto, nos homens mandingas, toucouleurs e sarakholés, e nas mulheres crioulas (assinale-se, também neste caso, que o baixo número de crioulas na amostra não permite que se considere representativa da “etnia” ou do grupo).
Quanto aos avós, refira-se:
- a absoluta fidelidade, nos homens bainouks, balantas, fulas, lébous e mancanhes, e nas avós fulas, lébous, mancanhes e manjacas;
- uma grande fidelidade (superior a 90%) nos homens diolas, sérères, peuls e manjacos, e nas mulheres mandingas, diolas, balantas e sérères;
- uma fidelidade superior a 50% em quase todas as etnias, excepto nos avôs sarakholés e nas avós crioulas e sarakholés.
Para complementar esta análise, vejamos o seguinte quadro:
Quadro 17 – Outras etnias com que se registam casamentos
Etnia Pais Mães Avôs Avós
Bainouk 1 1 0 1 Balanta 1 1 0 1 Bambara 2 3 4 1 Crioulo 0 4 1 1 Diola 3 9 1 3 Fula 0 1 0 0 Lébou 1 1 0 0 Mancanhe 1 2 0 0 Mandinga 9 2 4 1 Manjaco 3 1 3 0 Mouro - 2 2 - Papel 0 0 1 2 Peul 5 4 2 3 Português 1 - - - Sarakholé 3 1 2 3 Sérère 1 3 2 4 Socé 1 - 1 - Toucouleur 3 2 2 2 Wolof 7 5 5 4
Com o quadro 17 pretendemos verificar se, quando não há fidelidade absoluta à própria etnia para casar, há uma dispersão dos restantes matrimónios por muitas ou poucas outras etnias. E os resultados permitem distinguir dois grupos de etnias: as que se “misturam” com poucas etnias e as que, aparentemente, são menos selectivas.
Antes de mais, assinale-se que em nenhuma etnia se registou, no conjunto de todos os estratos familiares, uma incompatibilidade absoluta. Contudo, as etnias bainouk, balanta, fula, lébou, mancanhe e papel (a amostra de socé não é, de facto, representativa e deve ser vista como mandinga) são claramente renitentes em diversificar as suas uniões e não o fazem com etnias com as quais não tenham uma ligação evidente, seja ela de coabitação geográfica, de origem comum ou de parentesco linguístico. Assim, as associações constatadas são as seguintes:
1. Nas avós (não há miscigenação por iniciativa masculina): bainouk – manjaco; balanta – mandinga; papel – crioulo; e papel – português;
2. Nos pais: bainouk – diola; balanta – diola; lébou – peul; e mancanhe – crioulo;
3. Nas mães: bainouk – mandinga; balanta – mandinga; fula – diola; lébou – peul; mancanhe – diola; e mancanhe – manjaco.
Ou seja, as associações constatadas são maioritariamente intra-subguineenses (5), ocorrendo também entre estes e mandes (2), portugueses (1) e halpulars (1); a associação que não envolve subguineenses dá-se entre sahelo-sudaneses e halpulars, o que também não surpreende.
No oposto, os diolas, mandingas, peuls e wolofs mencionam mais de 15 outras etnias com as quais casaram. Contudo, estes casos são bastante diferentes entre si: nos diolas, são as mulheres que aceitam mais facilmente (ou aceitam as suas famílias por elas) casar com outras etnias; nos mandingas são, ao contrário, os homens quem mais contribui para diversificar os casamentos; as únicas etnias que têm um comportamento semelhante em ambos os sexos são os peuls e os wolofs.
Face a quanto precede, podemos concluir que, em geral, as pessoas que desejam contrair matrimónio, fazem-no preferencialmente com alguém da mesma etnia (ainda que, assinale-se, a poligamia seja legalmente permitida no Senegal).
Assim, 6 das 18 etnias analisadas198 têm, no conjunto das duas gerações analisadas, uma média igual ou superior a 90% de casamentos com pessoas da mesma etnia: mancanhes (97,3%), fulas (96,5%), manjacos e sérères (94,3%), balantas e diolas (94%). Todas estas etnias habitam tradicionalmente a Casamansa, à excepção dos sérères. Por outro lado, das etnias com amostras minimamente significativas, a toucouleur é aquela com uma menor percentagem de fidelidade étnica: 52%, ainda assim maioritária.
Mesmo as etnias conhecidas pela sua maior mobilidade, os wolofs e os peuls, apresentam valores relativamente altos de fidelidade étnica: 84% e 78,5%, respectivamente.
198 Consideramos, para este efeito, o crioulo como uma etnia – o que é obviamente discutível – mas não o
Nestes termos, a ideia de que o Senegal é um país de intensa miscigenação étnica199 propagandeada oficialmente, sobretudo por um núcleo wolof mourida muito activo, só pode ser entendida comparativamente com o passado ou com outros Estados africanos.
No entanto, fica claro, na amostra, que há sempre excepções, em todas as etnias minimamente representadas, e que a miscigenação ocorre com diversas outras etnias. Analisando os dados do quadro 17 e fazendo a média das quatro categorias (pais, mães, avôs e avós) no que respeita ao número de outras etnias com as quais se registaram casamentos, os valores obtidos variam entre o mínimo dos Fula (0,25) e o máximo dos Wolof (5,25%). Já vimos que o comportamento dos géneros, dentro de cada etnia, pode variar; mas assinale-se que este indicador atinge os seus três valores mais altos em etnias com percentagens de fidelidade bastante diferentes: 5,25 nos Wolof (84% de fidelidade), 4 nos Diola (94%) e nos Mandinga (69,3%). E sabe-se que, quando a pessoa decide não casar no interior da etnia, vários factores entram em jogo na escolha, dos quais a coabitação local, a afinidade cultural / linguística, e a segregação por castas.
Um dado interessante pode ainda ser extraído das análises precedentes. Das etnias com uma representatividade na amostra igual ou superior ao dobro da sua representatividade na população senegalesa, todas têm uma fidelidade à etnia, na escolha da pessoa a desposar, muito elevada (83,3% dos bainouks, 83,5% dos papéis, 94% dos balantas e dos diolas, 94,3% dos manjacos, 96,5% dos fulas e 97,3% dos mancanhes). E fica por saber se, caso as amostras das etnias bainouk e papel fossem maiores, se os valores então apurados não tenderiam a alinhar-se com os outros, acima dos 90%.
Os dados até agora apurados suscitam uma questão: por que motivo(s) os povos da Casamansa – ou do grupo subguineense, mais propriamente – apresentam, em vários aspectos, comportamentos muito distintos dos demais grupos senegaleses?
Detenhamo-nos, por momentos, sobre o conceito de “parenté à plaisanterie”, acima referido e que é alvo de estudos e de algum debate no Senegal.200
Há vários tipos de parentescos, e já nos referimos aos parentescos entre patrónimos.
199 M. DIOUF, Op. Cit., pp. 95
200Seguimos, para este tópico, DIALLO, Youssouf, “Identités et relations de plaisanterie chez les Peuls de l’ouest du Burkina Faso”, in Cahiers d’études africaines, parentés, plaisanteries et politique, 184, 2006, pp 709 e ss. Traduziremos parenté à plaisanterie, literalmente, “parentesco para gracejo”, por “parentesco.”
Um outro parentesco clássico é o que une os peuls e os ferreiros, resultante de uma suposta aliança sagrada. As regras da aliança entre ambos prescrevem a entreajuda recíproca, evitar conflitos entre membros dos dois grupos e a interdição da aliança matrimonial. Ora, quanto mais sagrada é considerada a aliança, mais pesadas são as obrigações e acutilantes os “gracejos” entre aliados. No caso da aliança peuls / ferreiros, por exemplo, são interditos casamentos entre os verdadeiros parceiros rituais e a transgressão das regras e tabus sexuais pode ter grave consequências, através de sanções ocultas que trazem a morte ou o azar para o parceiro faltoso. Por isso, uma transgressão das regras exige sempre uma reparação, pecuniária ou meio de um sacrifício expiatório.
Outro exemplo será a relação entre bambaras e peuls, que obriga os segundos a servir um dos primeiros, tratando-lhe do gado, sem o que será tratado de fútil. Não se trata, aqui, de uma relação resultante de uma aliança celebrada no passado, mas antes ilustrando as relações de força do passado.
Uma das consequências dos “parentescos” é a adopção pelos cativos ou dominados, voluntária ou por imposição, dos patrónimos dos dominantes. Esta é uma das razões pelas quais alguns patrónimos bem marcados de uma etnia se disseminaram por outras. Em Ségou (Mali), por exemplo, o clã real atribuía o epíteto de “Fula” (ou peul) a todos os indivíduos, livres ou servos, e grupos de indivíduos que tinham como actividade principal a vigilância dos rebanhos bovinos. Assim, um parentesco inicial entre dois patrónimos originariamente ligados, intrinsecamente, a duas etnias específicas, pode actualmente ser invocado por pessoas com esse nome mas de outras etnias e/ou funções sociais. Youssouf Diallo dá o exemplo dos Ouattara, inicialmente Dogossié-fing, um grupo de caçadores itinerantes da actual Costa do Marfim que se tornaram vassais de Bamba, influente chefe de guerra do Kong e foram, por isso, chamados de bamba-jon (escravos ou sujeitos de Bamba). Ora, séculos depois, na África ocidental, é tradição que, quando um Ouattara encontra um Kulubali (Koulibaly), Koné, Bamba, Câmara, Diarra ou Sidibé, irão trocar gracejos.
No Senegal, os “parentes” tratam-se frequentemente por primos. Na “vox populi”, os parentescos são inúmeros: os sérères seriam cativos dos toucouleurs, os sérères seriam primos dos peuls, os sérères seriam primos dos diolas, etc. Contudo, alguns parentescos não são tão antigos como parece e o conceito presta-se a manipulações de propaganda por parte de qualquer Estado desejoso de consolidar a unidade nacional feita, como sabemos, a partir das fronteiras imprudentemente desenhadas pelo colonizador.
Etienne Smith201 tenta evidenciar que, “no contexto senegalês, a récita dos parentescos é uma tentativa de reorganização dos contos plurais e divergentes nascidos da crise do regime de verdade histórico do nacionalismo senegalês. Apresenta-se como uma pedagogia da convergência que insiste sobre as similitudes e as ligações horizontais “pelo lado” entre comunidades, a fim de, por um lado, tirar legitimidade às imaginações separatistas e, por outro, de fazer circular uma representação pluralista da nação, não limitada ao seu centro “islamo-wolof” (Diouf 2001). Este discurso é feito por certas franjas do aparelho cultural do estado senegalês, cuja capacidade de produção de elites neo-tradicionais e de uma ideologia culturalista não carece de mais demonstrações (Diagne 1992, 1996). É fruto da formulação de etno-histórias por amadores, da multiplicação de jornadas culturais organizadas por associações locais, mas também da participação de agentes culturais estatais familiarizados com o discurso sobre a «cultura» e cujas profissões são assim valorizadas (professores, bibliotecários, eruditos, tradicionalistas, linguistas militantes das línguas nacionais, inspectores de academia, escritores, «peritos culturais», responsáveis de rádios comunitárias, militantes de associações de desenvolvimento, etc)”. Ora, se o parentesco entre sérères e toucouleurs parece ser geralmente considerado pelos senegaleses, bem como os peuls - Didhiou, peuls - mandingas no antigo Gabú, peuls - balantas e peuls - soninkés, já o mesmo não se passa entre lébous e sérères ou toucouleurs, nem entre estes e diolas, nem entre diolas e sérères, como afirma o autor.
Por vezes essas dúvidas advêm de uma questão de precedência, sendo incómodo admitir, a esta ou aquela etnia, que se foi, no passado, vassalo, escravo ou vencido de outra. De resto, a aliança firma muitas vezes a vontade de omitir no futuro, deliberadamente, a memória de um conflito ou de uma humilhação. Unidos pelo pacto de silêncio, os parentes afastam definitivamente pretextos de conflitos, omitindo a autoria do golpe inicial e apagando as hierarquias, mas guardam, nas piadas, a possibilidade de desafiar o outro, sem consequências. Um exemplo é o parentesco peul - mandinga, resultado da batalha de Kansala.
Atendamos, em particular, e acompanhando Étienne Smith, a questão do parentesco entre sérères e diolas, por envolver as duas etnias mais presentes no universo dos alunos de Estudos Portugueses da Universidade Cheikh Anta Diop.
Segundo aquele autor202, “a emergência da récita dos parentescos é inseparável do surgimento da crise casamansence como teste à integração nacional no Senegal. Isto é particularmente claro no que concerne o activismo do Governador Diola Saliou Sambou, na origem do primeiro Festival das origens no país sérère (Janeiro de 1994) e, mais tarde, da criação da Associação Cultural Aguène e Diambogne (ACAD) em 1994 que reagrupa os quadros sérère e diola dedicados à promoção do parentesco. (…) A récita dos parentescos, que se inscreve na história mais vasta das convergências (De Jong, 2005), faz parte da contra-ofensiva cultural do Estado senegalês, para disputar ao MFDC o monopólio da produção de discursos sobre a etno-história diola. (…) Assim, a promoção do parentesco operada pela ACAD deu lugar a três festivais das origens alternando entre países sérère e diola: o objectivo era o de arrimar os diola à nação senegalesa por intermédio desta relação privilegiada de parentesco com os sérère, emblematizando o coração da senegalidade”. Em conclusão, nota o autor, apesar de sectores diolas rejeitarem qualquer ligação aos sérères, é forçoso reconhecer a qualidade do trabalho da ACAD: Enquanto que, em 1967, menos de 27% dos diolas afirmavam conhecer o mito de Ageen (que, teria sido separada da sua irmã Jamboñ ao largo de Sangomar por uma tempestade que quebrou a sua embarcação, dando origem aos diolas e aos sérères), em 2003 eram cerca de 60%. O abade Diamacoune Senghor, líder histórico do MFDC, admitia a ligação diola - sérère, mas dava a primazia aos primeiros.
Esta visão é naturalmente polémica e, ainda que assim fosse, jamais seria assumida pelo Estado senegalês. Para nós, a capacidade de utilização de propaganda ao serviço dos estados africanos é um dado adquirido, por vezes, com assinalável eficácia; e o Senegal, país de exímios oradores e com elites cosmopolitas, tem naturalmente quadros bem capazes de executar uma tal política. Contudo, também sentimos, na nossa passagem pelo Senegal, que a ideia de uma relação especial entre diolas e sérères é comum, não tendo nós ferramentas para aferir até que ponto aquele autor está, ou não, próximo da verdade. A própria crise militar na Casamansa é complexa, tendo o MFDC diversas facções que produzem, não raras vezes, argumentos contraditórios para justificar a sua acção.
Neste contexto, para Etienne Smith o Wolof surge como algo à parte. Não é, neste contexto da promoção dos parentescos, apresentado como uma identidade própria, mas antes como uma língua e, sobretudo, um produto final da História senegalesa. Em
abono da sua tese sobre um estereótipo do wolof mourida em oposição às tradicionais qualidades distintivas de cada etnia, E. Smith refere diversos estudos sobre estereótipos (Diarra e Fougeyrollas, 1969; Fougeyrollas, 1970; Mk. Diouf, 1998; E. Smith, 2003) e sobre representações linguísticas (Julliard, 1991; Moreau, 1994, 1996; Thiam, 1996; Swigart, 1996; Rasoloniaina, 2000).
Etienne Smith conclui afirmando que o quadro de promoção dos parentescos dá ao grupo sérère, o mais “wolofizado” de todos os pontos de vista, um papel central, o de núcleo da constelação, tendo este grupo laços históricos e afinidades com todos os outros.
Em conclusão, o factor étnico parece ter importância na escolha dos cursos de Português na Universidade Cheikh Anta Diop. As etnias mais representadas pelos alunos revelam, em geral, uma forte identidade étnica, com evidente procura de cônjuges que perpetuem a linhagem. Este comportamento é baseado em tradições culturais e em pressões familiares, mas permite, também, a perenidade da memória antiga, na qual se podem incluir, nas etnias do Sul do Senegal, a memória da presença portuguesa, a Língua Portuguesa. No caso das populações do Sul, a vizinhança com a Guiné-Bissau lusófona (quer em termos oficiais quer na utilização do crioulo do Português), conjugada com a presença de familiares e, mesmo, de terras, do outro lado da fronteira traçada pelos colonizadores, é obviamente um importante factor adicional para a motivação dos jovens para aprenderem o Português.
A presença portuguesa fez-se também sentir em território costeiro sérère, cujo número de alunos de Português é elevado, mas inferior à proporção daquela etnia na população senegalesa. Logo, não justifica tudo, de per se.
De facto, os wolofs não têm uma memória forte da passagem portuguesa, embora esta tenha sido efectiva; contudo, a extensão do domínio Jalofo incluía vastas terras do interior e, de qualquer modo, após a presença portuguesa registou-se a holandesa, a inglesa e, sobretudo, a francesa, mais recente, bem mais intensa e marcante.
Assim, para além do factor étnico, a vivência urbana (que contribui para a erosão