Optical Sensors and Their Applications
4.4 Novel Applications to Metrological Sensing
4.4.4 Integrated Interferometric Sensors
Segunda razão do Infante
“E a segunda foi porque considerou que, achando-se em aquelas terras alguma povoação de Cristãos, ou alguns taes portos em que sem perigo pudessem navegar, que se poderiam para estes reinos trazer muitas mercadarias, que se haveriam de bom mercado, segundo razão, pois com eles não tratavam outras pessoas destas partes, nem doutras nenhumas que sabidas fossem; e que isso mesmo levariam para lá das que em estes reinos houvesse, cujo tráfego trazeria grande proveito aos naturaes.”84
Efectivamente, os portugueses vieram a desvendar mistérios que existiam desde a Antiguidade Clássica, que os autores greco-latinos tinham difundido com base em ideias fantasiosas sobre o Mar Tenebroso e sobre o litoral do continente africano, sem contudo o terem visto, sem viverem a experiência do contacto com as realidades que descreviam com tanto pormenor. Mas também existiam muitas lendas do conhecimento do povo, e basta observar algumas das mais antigas representações do Mundo, para termos a percepção destas influências até ao século XV:
“Num primeiro grupo, que teve muita aceitação nos meios religiosos, devem ser
reunidos os pequenos diagramas circulares onde é corrente a representação esquemática do mundo conhecido, de acordo com os textos bíblicos. (...)
Num segundo grupo deveremos juntar todos os planisférios e mapas, de nítida filiação nos esquemas anteriores e na geografia erudita do cristianismo, onde se anotam as representações, quase sempre imprecisas e profundamente erradas, de países e acidentes mais conhecidos.
Num último grupo, de origem mais recente, terão de ser reunidos todos os documentos cartográficos subsidiários das cartas náuticas, por terem sido desenhados por cartógrafos que também eram autores destas ou que delas se serviram ao traçar a representação do mundo que então se sabia ser habitado pelo homem.”85
De tal modo, que até à Idade Média, essas lendas intocadas resistiram, convenceram, assustavam e dissuadiam muitos da exploração daqueles espaços. Entre muitos documentos, apresentamos um exemplo, sobre lugares ainda próximos de Portugal, citado pelo mesmo autor, Luís de Albuquerque, na mesma obra:
“Item. Está, pois, a ilha Canária, dita Canária pela grande quantidade de cães que estão nela, muito grandes e fortes. Diz Plínio, mestre de mapas-mundo, que nas ilhas Afortunadas há uma ilha onde crescem todos os bens do mundo, e sem semear e sem plantar crescem todos os frutos. [...] Por este motivo acreditam os pagãos das Índias que, quando morrem, vão as suas almas para aquelas ilhas e vivem por todo o tempo do odor daqueles frutos e eles crêem que é o seu paraíso; mas para dizer a verdade, isto é fábula.”86
Ainda gostaríamos de apresentar outra referência ao texto de um dos autores mais influentes em Portugal e Espanha, à época, Pompónio Mela:
“No seu pequeno tratado de Geografia, Pompónio Mela não se limitou a
localizar as regiões do Mundo e a descrevê-las: acrescentou aos dados estritamente geográficos indicações sobre a fauna, usos e costumes desses países; e é neste aspecto que o livrinho se afasta muito da realidade, pois dá tal crédito a fantasias que o seu autor é muito justamente apontado como um dos pioneiros desta literatura de maravilhas.”87
Refira-se também o mais conhecido texto de John de Mandeville, dentro da literatura deste género:
“O autor, imputando ao seu personagem uma longa viagem que nunca fez, meteu na história dessas fingidas andanças pelo Mundo tudo quanto pôde encontrar de
85 L. ALBUQUERQUE, 2001, pp. 110-111 86 L. ALBUQUERQUE, 2001, pp. 120 87 L. ALBUQUERQUE, 2001, pp. 134
mais extraordinário na então já vasta bibliografia dessa geografia fantástica; e os romances de cavalaria, dando aqui e além umas pinceladas romanescas, ajudaram a compor os ingredientes de que saiu essa obra que é muito justamente considerada como uma das maiores mistificações que a história da geografia regista.
Aparecem neste livro: as montanhas que vão para além das nuvens e dão sombra com oitenta e seis milhas de extensão; a torre de Babilónia, morada de dragões, serpentes e outros animais venenosos que não consentiam a aproximação de visitantes; o “ paraíso terreal”, situado na mais alta montanha da Terra, tão alta que tocava a Lua; e todos os lugares-comuns que os seus antecessores tinham laboriosamente inventado – a Fénix, as trevas perpétuas no Norte da China, as riquezas incríveis na mesma China e do Egipto, etc.
O que singulariza Mandeville é, porém, o poder de convicção com que redige as maiores patranhas, conferindo-lhes um tom de autenticidade que elas não possuíam noutros autores (…).)”88
Há ainda a considerar a grande difusão na Europa do Livro de Marco Polo: “ O Livro de Marco Polo difundiu-se por toda a Europa e é muito de aceitar que
tenha entrado em Portugal na bagagem do infante D. Pedro, quando ele em 1428 regressou da sua jornada pelas “sete partidas”, como nos diz Valentim Fernandes no intróito da edição em língua portuguesa que do texto nos deu. Porém, em relação ao “plano da Índia”, Marco Polo apenas poderia ter sido um dos factores auxiliares que contribuíram para o seu desabrochar; só mais tarde, tal como o foi para Colombo, teria servido de meio de informação, o que, de resto, a edição portuguesa do princípio do século XVI claramente denuncia.”89
Sobre estas maravilhas que se contavam, também se pronuncia Diogo Gomes de Sintra, contrariando Ptolemeu, um dos grandes mestres antigos da Geografia que influenciou a Idade Média e a Renascença. Contudo, há que ter em conta que a obra deste autor só foi traduzida, vertida para Latim no século XV, o que inviabiliza seguramente a sua grande influência nos Descobrimentos portugueses:
“Estas coisas que aqui se escrevem damo-las com a devida vénia do ilustríssimo
Ptolemeu, que muito de bom escreveu acerca da divisão do mundo, mas nesta parte enganou-se. Escreveu, com efeito, que o mundo se dividia em três partes: uma povoada
88 L. ALBUQUERQUE, 2001, pp. 138 89 L. ALBUQUERQUE, 2001, pp. 130
que ficava a meio do mundo; a setentrional, segundo escreveu, não era povoada devido ao frio excessivo; escreveu também que a parte equinocial do meridião era também desabitada por causa do calor excessivo. Descobrimos que tudo era diferente.”90
Na verdade, ao contrário do que sucedera com as descobertas das ilhas da Madeira e dos Açores, que posteriormente vieram a ser povoadas pelo reino de Portugal, havia gente muito diferente e estranha na costa da Guiné, nunca antes visitada:
“Na viagem, passaram além do cabo de Tofia e acharam uma terra despovoada e arenosa, como a anterior, sem vegetação nem àrvores. Indo mais além depararam com uma terra cheia de àrvores, nomeadamente palmeiras, e saíram a terra. A sua gente era toda negra.”91
No primeiro contacto, considerar o impacto da novidade é fundamental para compreender os acontecimentos e, parece-nos, não se pode sequer esquecer ou desvalorizar este aspecto, sob pena de se distorcerem os factos. Ao conhecerem os habitantes destas terras, colocavam-se novas situações à presença dos portugueses nos territórios da costa ocidental africana, onde tem início uma História comum, europeia e africana, incluindo os territórios do actual Senegal que queremos observar.
Como poderíamos caracterizar estes contactos pioneiros? Que importância e que influência têm no futuro destes povos?
O contexto da situação de comunicação era novo para os visitantes e para os nativos. As gentes e os lugares, à primeira vista, apresentavam características distintas. Os estrangeiros surgiram de repente, vindos do mar, navegando, eram brancos e maioritariamente homens (há poucas notícias sobre mulheres que embarcassem nestas primeiras expedições de exploração marítima). Camões, mais de um século depois destes acontecimentos, não deixa de recordar esse contexto da dor dos marinheiros, na hora da partida para aquelas viagens incertas; lembra-nos esses dramas humanos da separação das famílias e dos amigos:
“A gente da cidade, aquele dia, (uns por amigos, outros por parentes, Outros por ver somente) concorria, Saudosos na vista e descontentes. E nós, co a virtuosa companhia De mil religiosos diligentes,
90 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 63 e 65 91 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 63
Em procissão solene, a Deus orando, Pera os batéis viemos caminhando.
Em tão longo caminho e duvidoso Por perdidos as gentes nos julgavam, As mulheres cum choro piadoso,
Os homens com suspiros que arrancavam. Mães, Esposas, Irmãs, que o temeroso Amor mais desconfia, acrecentavam A desesperação e frio medo
De já nos não tornar a ver tão cedo.
(...)
Qual em cabelo: “ Ó doce e amado esposo, Sem quem não quis Amor que viver possa, Porque is aventurar ao mar iroso
Essa vida que é minha e não é vossa? Como, por um caminho duvidoso, Vos esquece a afeição tão doce nossa? Nosso amor, nosso vão contentamento, Quereis que com as velas leve o vento?”
(...)
Nós outros, sem a vista alevantarmos Nem a Mãe, nem a Esposa, neste estado, Por nos não magoarmos, ou mudarmos Do propósito firme começado,
Determinei de assi nos embarcarmos, Sem o despedimento costumado, Que, posto que é de amor usança boa, A quem se aparta, ou fica, mais magoa.”92
Naturalmente, estas experiências vividas pelos portugueses nestas viagens estavam fora do alcance dos africanos a Sul do Sara. Os autóctones daqueles sítios longínquos, integrados numa paisagem específica, apresentavam aspectos humanos, alguns semelhantes e outros diferentes; tinham a pele negra, eram homens, mulheres e crianças. Também as indumentárias terão impressionado uns e outros, dentro das suas referências culturais, e terão ultrapassado o horizonte de expectativa de ambos os lados, com certeza. As modas eram outras. As experiências sobre o mundo também divergiam, só de ver e de olhar:
“As caravelas, indo além de Cabo Verde, ou seja, em direcção ao polo antárctico, descobriram uma terra desabitada. Avançando mais além descobriram uma grande praia e chegaram a ela com os seus batéis. E logo saiu das árvores gente em número de cor negra.”93
Para os exploradores portugueses, o calor, a flora e a fauna causariam sensações novas e estranhas aos sentidos, não só pelo que havia de diferente mas também pelas semelhanças que encontravam na terra e nos seres. O mundo estendia-se aos seus olhos com aspectos novos que apreenderam dentro das suas referências culturais e que, quase inadvertidamente, foram transplantadas por eles próprios para estes sítios e em contacto com estas gentes distintas.
Afinal, não se cruzaram com monstros marinhos nem o mar entrou em ebulição, nem sabiam desta gente negra. Facilmente concluíram que o senhor Infante tinha razão para querer que atravessassem aquele mar “Oceano”, para ir “mais além”; estava portanto bem informado e muito melhor do que quaisquer outros príncipes da Europa. Tinham diante dos olhos a prova de todas as expectativas do Infante e logo isso lhes servia de novo estímulo psicológico para continuar a participar nesta grande e corajosa empresa dos Descobrimentos, um projecto que só traria prestígio a estes aventureiros, ao Infante e à Coroa portuguesa. Renovava-se o estímulo com a descoberta seguinte e entusiasmavam-se com a possibilidade de trazer as novidades a Portugal, juntamente com as provas que pudessem encontrar, tudo o que estivesse ao seu alcance. Renovava- se a confiança no futuro.
Houve entendimento entre os portugueses e os nativos daquelas terras? Como estabeleceram o contacto? Como comunicaram?
Diogo Gomes de Sintra conta vários episódios cujas consequências dependiam ou da capacidade de comunicar dos estrangeiros ou da receptividade dos indígenas:
“ Os cristãos faziam-lhes sinais de paz, mas eles não entenderam. Mandaram- lhes os cristãos mercadorias que tinham trazido com eles a terra, mas eles receberam- nas sem se disporem a falar. Os cristãos bem teriam podido apanhar alguns, mas não ousavam fazê-lo pois o senhor Infante tinha-lhes mandado que não lhes fizessem nada de mal e assim eles lhes fizeram.”94
93 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 67 94 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 63
Em primeiro lugar, os navegadores ao serviço do Infante não ousariam quebrar as suas orientações e as instruções que recebiam seriam de um rigor extremo, sendo inquestionável a admiração pelo príncipe. Mas a adaptação dos navegadores não foi fácil, com certza, e nem todos teriam saúde que resistisse àquelas mudanças climáticas fortes e repentinas.
Perante aqueles homens novos, era necessário comunicar. As mercadorias, objectivas e concretas, apresentadas directamente, seriam um sinal dos interesses dos estrangeiros em trocar os seus produtos, levaria à acção idêntica da parte dos que ali viviam, mas a comunicação verbal seria impossível por desconhecerem a língua uns dos outros. Portanto, uma característica comum aos visitantes e aos autóctones seria a própria capacidade, desejo e necessidade de comunicar95; além da prática da utilização de um turgimão / língua, teriam de recorrer a formas não verbais de comunicação e os conteúdos das mensagens seriam de uma enorme simplicidade, seriam sinais humanos gestuais, universais, muito óbvios, concretos, para se entenderem; esses aspectos humanos universais devem ter sido a base da comunicação entre os indígenas e os visitantes portugueses. Diríamos que esses conteúdos universais deveriam abranger tudo aquilo de que um ser humano precisa para viver em contacto com uma determinada comunidade e com a natureza.
Apesar das diferenças humanas encontradas (no início, a cor da pele, a indumentária, a expressão verbal), houve um reconhecimento mútuo e imediato de seres humanos, homens e mulheres. Mas a curiosidade e a criatividade humanas, de ambos os lados, não pararam na observação do que lhes era estranho. Desde os primeiros encontros, esta identificação psicológica existiria, o que de certa forma contribuiria para aproximar estes grupos humanos de origens e culturas distintas. Sem falarem a mesma língua, os primeiros contactos entre os portugueses e os guinéus, basear-se-iam num conhecimento intrínseco dos aspectos humanos universais, o que nem sempre foi pacífico. Eram contactos que ofereciam dificuldade, à partida, e portanto desenvolviam- se resistências de ambas as partes; seriam lentos e complicados, cansativos e a precisar de uma enorme paciência e dedicação. Teriam de criar as condições para uma atmosfera de confiança entre os interlocutores, sob pena de não se entenderem e de não conseguirem os objectivos a que se propunham. Seria contudo raro este tipo de relação
95 CARVALHO, José G. Herculano de, Teoria da Linguagem, Natureza do Fenómeno Linguístico e a
calma e pacífica. Muitas vezes, os indígenas atacaram imediatamente, com as suas setas envenenadas, aqueles que consideravam como invasores ou inimigos. Por outro lado, os visitantes tinham de aceitar os termos do negócio impostos por aquelas gentes.
Além de ficarem impressionados com a nova paisagem, os navegadores portugueses foram surpreendidos por estas habilidades dos negros que apareciam e desapareciam repentinamente debaixo do seu olhar e não esperavam, com certeza, a recepção daquela gente do reino de Beseguiche:
“ (...) Avançando mais além, descobriram uma grande praia e chegaram a ela
com os seus batéis. E logo saiu das árvores gente em número de cor negra.
O senhor daquela gente, de nome Beseguiche, era homem malvado e traiçoeiro e todos os seus vizinhos o odiavam pela sua extrema malvadez; atirou ele setas envenenadas aos cristãos e ficaram alguns cristãso feridos e imediatamente morreram do veneno (...) Não tendo entrado em terra, regressaram eles ao rio Cenega, onde encontraram as outras caravelas suas e assim todos regressaram a Portugal.”96
Estas “notícias horrendas” chegavam ao senhor Infante que mudava de estratégia consoante os acontecimentos relatados pelos navegadores, que experimentavam situações novas como esta e se sujeitavam a perder a vida nestas aventuras junto de povos e de culturas desconhecidos.
Não perdendo o entusiasmo, o Infante de novo mandou uma caravela armada de paz e de guerra, indo nela por capitão Nuno Tristão que havia estado nas terras dos Cenegas com outros nobres:
“De Portugal navegaram directamente até Cabo Verde avançando para além,
até uma terra de homens malvados a que dão o nome de Sereres. Encontraram muitos deles na praia do mar com arcos e setas envenenadas e não quiseram eles falar com os cristãos.”97
Não parece ter sido fácil desembarcar nestas terras dos Cenegas, muito menos comunicar com eles, pois em cada etapa que os portugueses venciam, acontecia uma surpresa indesejável, no mar ou em terra:
“Avançando para além, navegaram para terra de Barbacins e descobriram um
pequeno rio que agora tem o nome de rio Nuno Tristão. Indo além depararam com muitos negros dessa terra em almadias dentro do rio e fora dele no mar. Com setas
96 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 67 97 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 67
envenenadas mataram eles todos estes cristãos, tomaram a caravela, puxaram-na para dentro do rio e fizeram-na em pedaços. Eu, Diogo Gomes, muito tempo depois, tive uma âncora do rei dos negros que me fez presente dela.”98
Encontraram muita resistência dos indígenas ao longo da costa africana que descobriram. Estes primeiros passos dos portugueses em terras de Cenega não foram fáceis, foi necessário negociar, fazer contratos de paz e colocaram-se outras questões como a necessidade de comunicar de forma eficaz. Apesar de levarem os “língua” como intérpretes para falar com as gentes negras, estas revelaram-se agressivas e mantinham a distância contra os invasores dos seus territórios, atacavam frequentemente as embarcações portuguesas, demonstrando assim que estavam habituados a contextos de guerra, com técnicas específicas para afugentar os inimigos. E os navegadores tiveram de se proteger destes ataques, tendo sido obrigados várias vezes a regressar a Portugal.