Em dias que há um maior número de pessoas, não cabendo na capela, o Espaço de Espera (figura 15), torna-se local para a realização das palestras e orações costumeiramente administradas por Edelarzil ao iniciar seu ritual. Nele, ficam posicionadas duas caixas acústicas pequenas na parede frontal, para esse fim. Somente após esse momento é que os clientes entram na capela para o rito que costuma acontecer por longas horas. Estávamos em um dia atípico, segundo a coordenadora de caravana, com poucas pessoas para serem atendidas – cerca de cinquenta – mesmo assim, do início do rito até finalmente sermos atendidos, levou cerca de duas horas, havendo mais da metade de pessoas para serem atendidas ainda.
Esse local serve também para o descanso de seus clientes, considerando que as pessoas permanecem praticamente o dia todo nas dependências do sítio. O ambiente também propicia que os mesmos possam dialogar e partilhar experiências “familiarmente”. Nas paredes estão distribuídos alguns cartazes com nomes e contatos dos organizadores de caravana. Como mencionamos, um restrito número de pessoas recebeu a autorização de Edelarzil para a promoção de caravanas ao seu centro. Uma forma de controlar o fluxo de pessoas que, teria chegado a várias centenas por dia na década de 1990. Mesmo assim, Edelarzil não nega atendimento àqueles que a procuram por própria conta, além dos ônibus de caravanas, algumas pessoas frequentam em carros pequenos.
Também encontramos colado na janela do escritório, um cartaz (figura 18) com a indicação de um hotel na cidade. Será um possível patrocinador? Não obtivemos essa resposta, no entanto, não seria estranho, considerando a necessidade de manutenção do sítio. Sobre isso falaremos melhor no decorrer do texto.
Alguns quadros contendo mensagens e avisos estão espalhados pelo local como o quadro (apresentado na figura 16) no qual está escrito “Para quem não crê, nenhuma
explicação é possível. Para quem crê, nenhuma explicação é necessária” de autoria atribuída ao Padre Donizete Tavares de Lima, que foi um padre brasileiro, natural de Cássia, MG (1882-1961). Em processo de beatificação desde 1992 no Vaticano, foi declarado venerável em 2017. Assumido na religiosidade popular como grande santo, Padre Donizete é considerado um dos maiores taumaturgos brasileiros e a cidade de Tambaú, no interior do Estado de São Paulo abriga um santuário dedicado a Nossa Senhora Aparecida, que é o maior centro de peregrinação em memória do venerável.
Outro quadro pequeno que nos chamou atenção, mas não fotografamos por estar um pouco acima da parede, num local de baixa visualidade, o que não nos daria uma boa qualidade de imagem, porém, registramos devido à sua importância. Nele havia a inscrição: “Nenhuma contribuição com a casa é obrigatória. Mas precisa ser avisado com antecedência. Obrigada pela compreensão. Edelarzil”, o que nos revela uma preocupação particular da médium quanto ao exercício de sua função. Toda benzedeira, como esclarecemos no primeiro capítulo dessa dissertação, tem como preceito dedicar sua vida gratuitamente e sem negar, podendo, apenas, receber doações. Uma vez que se dedicam integralmente, essas mulheres necessitam de uma renda. Algumas conseguem manter empregos ao mesmo tempo em que dedicam algumas horas ou fins de semana para o atendimento ao público. No entanto, Edelarzil é uma das que se dedicam integralmente. Ou seja, Edelarzil tem um problema. Ela precisa manter o seu centro, mas não pode cobrar pelo ritual. Claro que são perceptíveis outras fontes de renda, como a cartomancia e o jogo de búzios, o restaurante, também as vendas de produtos artesanais (temperos, sabonetes e géis com intenção ritual) e há criação de animais no sítio. Mesmo assim, ela ainda teria problemas financeiros, segundo ela, chegando a ter dificuldades em pagar os impostos à Prefeitura de Votuporanga.
Muitos falam “Bem de vida”, porque não está no lugar. Não sabe as despesas que tem. Que agora... graças a Deus ainda a prefeitura parou de me cobrar, neh! Porque é pra que mais pesava e mandava a promissória e nota pra minha cidade [?]35 cobra 800 e agora aumentava
mais e enfim, fica no vermelho. Mas era até empréstimo pra pagar pra ter... Agora quer dizer que vai fazer quatro meses que ele não vem, é onde tô conseguindo pagar eles mesmo. Porque depois que fiz a dívida, vai ter que pagar, não é? Só que agora eu não pago mais. Só que agora tenho que recuperar aquilo que eu fiquei no prejuízo. É dinheiro pra [?], é dinheiro pra banco. A dívida está lá no banco. Tem gente que diz: “Nossa! Ela cobra! Não, eu não como eu não bebo... quer dizer... “eu
vivo de ar”. Porque todos nós pagamos pra nascer, pra viver e pra morrer (YOUTUBE,08m20s36).
Cobrar pelo algodão talvez tenha sido uma saída encontrada para sua absolvição. Seria como se dissesse “Cobro pelo algodão, não pela “benzeção”, mesmo assim não é obrigatório caso a pessoa peça”. Então “paz de consciência”, é a nossa hipótese. Apesar de não ser o foco entrar nesse mérito, a venda do algodão nos pareceu ser mais uma taxa para a manutenção do que uma cobrança por um lucro abusivo. Podemos estar enganados, porém, necessitaria de um aprofundamento que não vem ao caso.
A presença de um quadro contendo a lei 208 (figura 17) para se proteger de possíveis ataques ao seu recinto, por suas práticas religiosas, foi algo que notamos. Aqui vale a lembrança de que Edelarzil não aceitou mais ser entrevistada por quaisquer meios televisivos, após uma tensa visita do parapsicólogo Padre Quevedo num episódio do programa Fantástico da Rede Globo de televisão, onde o padre alegou que se tratava de uma farsa. Como se trata de um diálogo importante para a compreensão da rejeição de Edelarzil em relação a pesquisadores, colocamos abaixo uma parte da reportagem onde há um conflito entre a médium e o padre especialista em parapsicologia:
PE. QUEVEDO: Eu repito, que o que ela afirma, que com regularidade, vários aportes continuamente...certamente truque.
Dona Edelarzil, realiza o trabalho sob os olhos atentos do padre, mas não consegue nenhuma materialização. Ela interrompe a sessão para rezar novamente por quase duas horas invocando a presença dos espíritos. Ao não conseguir realizar a materialização, entra em desespero, recorrendo a Deus e em seguida pede para que o padre reze de mãos dadas com ela.
REPÓRTER: Agora dona Edelarzil, vai tentar o trabalho de materialização, pela segunda vez. Ela disse que não conseguiu da primeira vez, porque estava muito nervosa, magoada e até mesmo ressentida com algumas críticas que o padre Quevedo tinha feito em relação ao trabalho dela no programa anterior. Ela explicou que aqui na sala haviam muitas influências negativas, que cortavam a corrente e impediam a concentração dela.
Retorna a sessão sob o olhar do padre, e acontecem a primeira materialização, uma rosa de plástico vermelha que surge cheia de barro, no meio do algodão e uma vela. Padre Quevedo observa ser um objeto muito pequeno. Ela explica que não pode determinar o tamanho dos objetos, não depende dela. Logo em seguida, materializa um pedaço de osso, maior que a rosa e mais um pedaço de vela. Ele fica convencido de que se trata de um truque.
REPÓRTER: Em que momento o senhor acha que ocorreu esse truque, se o tempo todo a equipe ficou dentro da sala, junto com o senhor?
36 Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=MbqIs70DB3k&t=1002s> acesso em: 12 dez.2018
PE: O truque aconteceu no momento em que (não dá para entender) e ela ficou aqui de joelhos (atrás do tanque) tampada pelo algodão. Primeiro levantou as duas mãos, o que se chama mágica de mis direcion depois só a mão direita e a esquerda estava oculta, poderia tirar qualquer coisa dentre as pernas, do ânus e de qualquer lugar e um movimento mínimo, é só colocar, depois fingiu “Senhor Jesus, tem que tirar alguma coisa e bateu nos algodões e daí poderia ter colocado e revirou para lá. Eu disse, vulgarmente, um truque pequeníssimo.
EDELARZIL (para o repórter): Eu costumo usar, saia e blusa. Hoje eu pus calça comprida, para a pessoa ver que estava de calça comprida, que se pões saia diz que esconde por debaixo da saia. Então eu fiz tudo...aquele diz que você veio eu estava de saia calça. Hoje pus calça apertada, porque se tiver alguma coisa...
REPORTER: Você está satisfeita com o resultado das sessões de hoje? E: Eu não fiquei satisfeita, porque não realizou o que está acostumado. PE: A ciência não é a favor e nem contra. Neste caso, o que vi, foi um truque vulgaríssimo (TRV 4).
No livro escrito por Adriano B. Santos (1997), ele acentua o seguinte:
Com relação ao Padre Quevedo, o famoso “pega-falsários”, já causou várias polêmicas com Dona Edelarzil, sem conseguir chegar a uma explicação lógica.
Numa de suas visitas ao Centro Nossa Senhora do Rosário, tentou de todas as formas tirar a concentração de Dona Edelarzil, mas não conseguiu provar que suas materializações são falsas ou preparadas (p. 12).
Outro padre especialista em fenômenos paranormais, Juarez Farias visitou Edelarzil em 31 de abril de 2002 e segundo ele “Pode ser que no passado tenha manifestado alguns fenômenos. Atualmente, essa hipótese é descartada” (SILVA, 2002)37. Segundo o mesmo, os fenômenos paranormais não podem ser controlados desta
forma.
Sobre o pequeno acervo de livros disposto na estante do Espaço de Espera (figura 19), queremos fazer dois apontamentos, a predominância de livros com conteúdo espírita e a ausência de livros com conteúdo católico. Ao todo são 13 livros, dos quais 8 são de origens espíritas contando com o Romance de Zíbia Gasparetto, e 3 de procedência esotérica. Havia algumas revistas populares na prateleira de baixo, mas de fato, os livros podem ter algo mais a revelar sobre a formação de Edelarzil enquanto “agente religiosa”.
Próximo da porta da Capela ritual, destacamos um relógio (figura 20), decorado manualmente com uma foto de Edelarzil e uma frase de “Boas Vindas”, foi o primeiro indício que encontramos de uma representação da imagem de Edelarzil, dentro outras representações mais importantes.
37 Jornal da Região. Disponível em: < https://www.diariodaregiao.com.br/_conteudo/cidades/padre-diz-