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Os ritos precisam ser observados por diversos ângulos, segundo o estudioso da

performance Richard Schechner (2012): o espaço escolhido para o rito, quais as funções

dos participantes e em que cultura, o dinamismo e as mudanças ocorridas pelo mesmo, a experiência do indivíduo dentro do rito. No Brasil, segundo Maria Agela Vilhena (2005), para estudar e buscar compreender as diversidades rituais existentes, primeiramente deve- se estar consciente dos fatores geográficos e históricos, pois, trata-se de uma nação proveniente de muitas nações, com um legado cultural importante, tendo como base as culturas indígenas, africanas e ibéricas, que geram uma diversidade de compreensões acerca do sagrado e econômica, uma sociedade marcada pela desigualdade social. Mas é oportuno ainda ressaltar que, fora essas matrizes que foram bases para nossa formação, o Brasil é um país que agregou muitas outras culturas, principalmente a partir do século XIX.

Os rituais são eficazes na medida em que trazem um sentimento de estabilidade, mesmo que sejam novos, eles ordenam e trazem essa sensação e é uma via de acesso às realidades invisíveis, na qual se expressa e visibiliza o imaginário religioso, sendo impossível separar imaginário e ritual, visto que um depende do outro.

A vida individual, qualquer que seja o tipo de sociedade, consiste em passar sucessivamente de uma idade a outra e de uma ocupação a outra. Nos lugares em que as idades são separadas, e também as ocupações, esta passagem é acompanhada por atos especiais, […]. Toda alteração na situação de um indivíduo implica aí ações e reações entre o profano e o sagrado [...], de tal modo que a vida individual consiste em uma sucessão de etapas, tendo por término e começo conjuntos da mesma natureza, a saber, nascimento, puberdade social, casamento, paternidade, progressão de classe, especialização de ocupação, morte (GENNEP, 1977, p. 26-27).

Arnold Van Gennep não resumiu todos os ritos em Ritos de Passagem, porém, identificou que todos os ritos possuem “uma finalidade especial e atual, justapõe-se aos ritos de passagem ou se combinam com estes” (GENNEP, 1978. p.32). Seguindo por essa linha de pensamento, ele propôs a classificação dos ritos de passagem em: separação, margem e agregação. Conceitos que serviram de base para muitos estudiosos acerca dos ritos, como Victor Turner (2013) que os aprofundou classificando-os como ritos preliminares, liminares e pós liminares. Os ritos de separação são característicos dos ritos

funerários, os ritos de margem (limen ou liminar) são ritos intermediários que demarcam mudanças na vida do indivíduo, que pode ser uma transformação de seu estado ou agregando-o a uma nova realidade como por exemplo o casamento, onde duas pessoas passam a pertencer à família um do outro ao mesmo tempo em que abandona o estado de solteiro para ser casado ou o batismo cristão, onde a pessoa passa a fazer parte da comunidade cristã e também torna-se um cristão.

Para Gennep (1978), o valor do sagrado não é algo fixo, mudando conforme a posição ocupada pelas pessoas dentro das “sociedades especiais”, podendo uma situação do profano passar ao sagrado, do sagrado ao profano, direcionando alguns ritos à amenização dos efeitos nocivos dessas mudanças, o que ele denomina de rotação da

noção do sagrado da sociedade mágico-religiosa. Sendo assim, o rito é uma ação

simbólica, linguagem simbólica, podendo todo e qualquer rito ser vivido como mágico, porque mesmo sem reconhecer, toda religião possui componentes mágicos. Mesmo que o termo “mágico” não seja muito bem aceito, sendo frequentemente associado a práticas do mal ou a irracionalidade, nas palavras de Vilhena, essa “velha senhora” – a magia – “Está viva e muito atuante, mesmo em sociedades modernas, racionais e secularizadas, sendo vivida diariamente em inúmeros rituais” (VILHENA, 2005. p. 62). Potencializando a experiência religiosa com manifestações sentimentais. Para Turner, o mágico não desmerece a cultura, o que parece estranho no ritual do outro trata-se apenas de formações diferentes da qual o indivíduo está acostumado, sendo que, mesmo a estrutura religiosa de povos com tecnologias mais simples, são tão complexas e ricas quanto em todas as culturas. Para ele, nenhum fenômeno religioso pode ser invalidado, deve ser considerado “a extrema importância das crenças e práticas religiosas para a manutenção e a transformação radical das estruturas humanas, tanto sociais quanto psíquicas” (TURNER, 2013, 20-21). Turner propõe para estudo seu conceito de liminaridade elaborado a partir de suas reflexões sobre ritos de passagem em estudos de Arnold Van Gennep, a liminaridade proporciona ao ser humano a experiência do distanciamento do cotidiano, dentro desse processo ele desenvolveu seus conceitos de communitas e antiestrutura. A liminaridade é um estado em que o ser humano experimenta consciente ou inconscientemente que está em dois níveis existenciais.

Rituais são mais que estruturas e funções; eles podem também ser experiências poderosas que a vida tem a oferecer. Em um estado liminar, as pessoas estão livres das demandas da vida diária. Elas sentem o outro como um de seus camaradas e toda diferença pessoas e social é apagada. Pessoas são elevadas, arrastadas para fora de si. Turner chamou a liberação das pressões da vida de “antiestrutura” e a

experiência de camaradagem ritual de “communitas” (SCHECHER, 2012, p. 68).

Refletindo acerca do conceito de liminaridade, mas particularmente sobre a “antiestrutura” e “communitas” de Turner, Schechner destaca a existência de dois tipos de communitas, a normativa e a espontânea. A normativa que é imposta por um ritual estabelecido e cria uma “communitas” nem sempre legítima, mas uma união imposta pelo rito e a espontânea ocorre quando a comunidade entra em estado de êxtase o que pode acontecer em meio a um rito religioso ou até mesmo no meio secular durante um jogo importante àquele determinado grupo. Esse tipo de communitas acontece normalmente em um espaço-tempo liminar e sagrado, é um despir-se simbólico diante dos outros. “A

communitas normativa normalmente reina, com momentos ocasionais de communitas

espontânea. Esses, no ritual, são tratados como iguais, reforçando um senso de nós ‘estamos juntos’” (SCHECHNER, 2012, p. 69).

Sobre o rito de materialização de Edelarzil, podemos atestar que esse se trata de

um rito de margem que visa uma transformação na vida das pessoas, porém da categoria liminóide, tanto da parte das pessoas quanto para a médium. As pessoas estão buscando

43 Figura traduzida pela autora.

44 Texto traduzido por N. C. Castro e R. Rosenbusch.

Figura 48: Experiência Liminóide43

Uma “performance transportada” do ponto de vista do performer. O performer deixa o mundo do seu dia a dia e, por meio da preparação e do aquecimento, entra no performar. Quando a performance termina, o performer se “acalma” (esfria) e entra novamente no seu cotidiano. Na maior parte do tempo, o performer é jogado para fora de onde ele entrou. Ele foi “transportado”, levado a algum lugar, não “transformado” ou permanentemente mudado.

limpeza espiritual, querem mudanças em suas vidas, no entanto o ritual de materialização requer retorno, pois sempre haverá algo no que a pessoa necessite de uma “limpeza espiritual”, não é uma transformação permanente. Podemos observar no ambiente da

Estância Casa Caminho e Luz, haviam pessoas das mais diversas classes sociais, pessoas

de status financeiros mais modestos até empresários bem sucedidos. Ou seja, os limites sociais e pessoais são quebrados e todos naquele ambiente se vêm como iguais naquele espaço tempo sagrado. Existe diálogo, trocas de experiências e solidariedade entre os participantes, principalmente no que diz respeito a informações antes do ritual acontecer. Elas sentam-se, conversam e contam os motivos que as levaram até ali, sem quaisquer receios. Uma Mulher que aparentava um pouco mais de 40 anos, culta, empresária e com boa situação financeira, contou-nos ser mulçumana por conversão, antes era católica. Procurou Edelarzil a pedido da filha que estava com problemas, mas impedida pelo trabalho de ir ao Centro. No caso quebram-se as barreiras religiosas. Conversamos com diversas pessoas das mais diferentes categorias sociais, todas “unidas” mesmo que provisoriamente, por um único sentido, receber libertação espiritual, uma cura, uma resposta transcendente, numa communitas espontânea.

Ainda há a distinção entre os ritos liminares e os liminóides (ver figura 26), ambos são ritos intermediários, porém, o primeiro leva o indivíduo a uma transformação permanente, como num ritual de cincuncisão ou batismo, a pessoa nunca mais será vista pela comunidade da mesma forma, ela passa por um rito de transformação. Um ritual de passagem. Já nos rituais liminóides, as pessoas são transportadas por alguns instantes a um estado de transformação temporária, num momento de communitas espontânea, como em um transe ou incorporação ou num ritual de Candomblé, um momento de fervor na igreja, mas após o rito elas voltam ao ritmo normal de seu cotidiano. No caso do ritual de Edelarzil, ela segue o princípio da categoria liminóide, onde existe toda uma performance de preparação espiritual, com procissão de entrada, benzeção, oração, palestra, para então ocorrer as materializações. Acabando este momento, sua vida segue naturalmente. O que Schechner (2012) compara, por alusão e não pejorativamente, ser semelhante ao que acontece com atores quando assumem papéis em um teatro, estão num espaço liminar, condicionados ao retorno.

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