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No segundo capítulo, cuidamos para descrever com o máximo de detalhes possível, toda a cultura visual e material contida na capela ritual de Edelarzil, a mapeamos e dispomos de uma foto geral (figuras 22 e 23), a fim de o leitor pudesse “caminhar” pela mesma.

Acima da porta da capela, um crucifixo (figura 21) indica que daquela porta para dentro não se trata de um lugar comum, mas um espaço sagrado. Pois a porta representa

o lugar paradoxal onde esses dois mundos se comunicam, onde se pode efetuar a passagem do mundo profano para o mundo sagrado. [...] O limiar, a porta, mostra de uma maneira imediata e concreta a solução de continuidade do espaço; daí a sua grande importância religiosa, porque se trata de um símbolo e, ao mesmo tempo, de um veículo de passagem. (ELIADE 1992, P.19)

Nota-se uma variada representação imagética de santos católicos, desde a entrada, onde logo se nota uma pintura de Jesus Cristo, maior que a estatura de uma pessoa média (figura 24). Encontram-se diversas pinturas em paredes ou quadros e estátuas, em um número considerável, comuns a um local de oração de uma benzedeira e a centros espíritas umbandistas e kardecistas. Normalmente os altares de benzedeiras costumam ser representadas desta forma, até porque, há o costume dos “pacientes” agradecidos, presentearem a benzedeira com alguma imagem, adereço ou foto. Vale mencionar que é comum a profusão de imagens em casas de famílias católicas do interior. Ainda mantém- se no meio popular uma alta afeição pelos santos, diversidade de quadros, oratórios com vários santos e bíblia, calendários contendo essas imagens, terços e as famosas fitas coloridas da festa do padroeiro. Essa característica, aliás, é compartilhada com os terreiros de candomblé: profusão de estátuas de santos e santas. Agora faremos uma análise sobre as principais pinturas, quadros ou estátuas que fazem parte do seu universo simbólico e mais nos comunicam a respeito do imaginário de Edelarzil Munhoz Cardoso. Serão fundamentais para situá-la dentro da religiosidade popular brasileira. Começando pela Imagem de Nossa Senhora do Rosário e de Santo Antônio, considerados por ela, seus “espíritos guias”.

No Brasil essa devoção foi propagada por meio das ordens religiosas, sobretudo as ordens dominicanas e assumida principalmente pela comunidade negra, pois muitos dos africanos que vieram para o Brasil já estavam familiarizados com ela. Surgiram muitas Irmandades dedicadas a Nossa Senhora do Rosário de brancos e de pretos, já que os pretos não podiam frequentar a igreja dos brancos. Essas irmandades ao mesmo tempo em que para a Igreja funcionavam como uma forma efetiva de cristianização do povo negro era também uma forma dos mesmos expressarem de forma privilegiada sua identidade de maneira que não podiam expressar publicamente (PACHECO, 2008; SIMÃO, 2010).

A devoção a Nossa Senhora do Rosário (Figura 44), remonta dos primórdios do catolicismo colonial. Com a proximidade do povo português do povo africano – primeiramente por motivos comerciais e depois, mais tarde, por interesses de tráfico humano para a escravidão – houve também o interesse de cristianização, o que ocorreu através das devoções, principalmente a Nossa Senhora do Rosário. Essa devoção teria originado, segundo a tradição católica, no Sul da França por volta do século XII.

Em seu artigo Tommasi, através de uma tradição católica, escreve que nos antigos mosteiros católicos havia o costume de rezar os 150 salmos bíblicos em diferentes horas do dia, porém alguns monges, por serem

Figura 44: Nossa Senhora do Rosário Pintura e estátua – PF

analfabetos, substituíram tais salmos por 150 ave-marias, dividindo-as em três grupos de cinqüenta. Contavam as ave-marias por meio de nós feitos em cordões como uma “coroa de rosas” oferecidas a Nossa Senhora. No século XIII, a Igreja passou por momentos difíceis, especialmente na luta contra as heresias. São Domingos, da ordem dos pregadores, sofreu muito para conciliar o ataque aos heréticos com o cristianismo. Nessa ocasião, Nossa Senhora lhe apareceu na Igreja de Notre Dame de la Dreche, para consolá-lo dessa tristeza, dando-lhe a oração do rosário como antídoto que o povo deveria usar contra a heresia (PACHECO, 2008, p. 3)

A antiga devoção a Nossa Senhora do Rosário ainda permanece viva através de muitas igrejas que levam o seu nome, como a tradicional Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos no Largo do Paissandu, antigo Largo do Rosário, na cidade de São Paulo, reformada em 1909.

Encontramos comemorações de sua festa, no dia 7 de setembro, em sites de umbanda como o Oração Umbandista38, onde se fazia memória da história do rosário e

ensinava como rezar o rosário e a oração a Nossa Senhora do Rosário e o Genuína

Umbanda39, onde encontramos a Oração a Nossa Senhora do Rosário, a mesma utilizada

por Edelarzil em seu ritual.

A vós sois reverenciada por toda a Terra, recebei as minhas humildes homenagens e vinde em nosso auxílio, no meio de vossos dias tão gloriosos no céu.

Não esquecei, ó Virgem Mãe, as tristezas da Terra.

Lançai um olhar de bondade para os que estão no sofrimento e que lutam contra as dificuldades e que não cessam de umedecer os lábios nas amarguras desta vida.

Tenha piedade dos que choram, dos que oram e dos que temem. Dai a todos a esperança e paz.

Assim seja (SANTOS, 1997, p. 37).

Teria sido através da Virgem do Rosário que Edelarzil recebeu o “mandato” do serviço ao próximo, enquanto que de Santo Antônio de Pádua, ela teria recebido o dom de materializar objetos.

38 Disponível em: <http://oracaoumbandista.blogspot.com/2013/10/hoje-e-dia-de-nossa-senhora-do-

rosario.html> Acesso em: 22 dez. 2018.

39 Disponível em:

<http://www.genuinaumbanda.com.br/oracoes/oracao_a_nossa_senhora_do_rosario.htm> Acesso em: 22 dez. 2018.

Santo Antônio de Pádua

Santo Antônio é um dos santos católicos mais populares no mundo, tendo predileção também no Brasil. Apesar de ser padroeiro dos pregadores, ele ficou

popularmente conhecido como santo casamenteiro, embora este papel seja

originalmente “de iuris” destinado a São José. Esse, acabava sendo castigado de várias maneiras a fim de ser obrigado a atender a graça, por vezes lhe tiravam o menino Jesus do colo, que só seria devolvido após a graça ser recebida. Outras vezes era colocado de cabeça para baixo para encontrar objetos perdidos ou escravos fugitivos, no período da escravidão (JURKEVICS, 2004). Aliás, Santo Antônio é famoso na Igreja Católica por manifestações místicas, como dons espirituais: profecia, ciência, cura e milagres, há uma série de relatos de bilocações (transporte e materialização), conta-se que em um de seus momentos de êxtase espiritual, materializou-se em seus braços o menino Jesus, por isso um de seus atributos é ter o menino Jesus no colo. O dom de transporte de materialização de Santo Antônio é apreciado pelos espíritas no Brasil, tendo merecido um estudo de sua vida por parte de Castro (1983) sob o título Antônio de Pádua, sendo a materialização um dos focos principais. Também é venerado no sincretismo religioso, Santo Antônio corresponde ao orixá Ogum na Umbanda da Bahia, que também tem como correspondente São Jorge em outros locais do Brasil.

Figura 45: Santo Antônio de Pádua – Estátua e Pintura (PF)

Santa Joana D’Arc e São Jorge

Sobre Santa Joana D’Arc (representada na Figura 26), ela nasceu em fins do Período Medieval, no ano 1412 em Domremy, França. Camponesa cristã, mística, imbuída de uma fé cristocêntrica e mariana. Nesse período havia um papa e dois antipapas, em meio a essa divisão, os cristãos da Europa guerreavam uns contra os outros “entre as quais a mais dramática foi a interminável “Guerra dos cem anos”, entre França e Inglaterra” (BENTO XVI, 2011). Após uma experiência mística com o Arcanjo Miguel, ela sente o desejo de ser mais cristã e de fazer algo pelo seu povo. Mesmo sem saber ler e nem escrever, Joana liderou as tropas francesas pela libertação de Orléans, vencendo os ingleses. Também conquistou a coroação do Rei Carlos VII em Reims e continuou em meio aos soldados, que a respeitavam e admiravam por sua coragem e destemor. Porém ela acabou sendo presa por inimigos franceses, julgada e condenada aos 19 anos como herege, foi queimada na fogueira em 30 de maio de 1430. Tendo sua sentença por heresia anulada 25 anos mais tarde pelo papa Calisto III, foi declarada santa por Bento XV em 1920 (BENTO XVI, 2011).

São Jorge (Figura 26), conhecido como “grande mártir”, pouco se sabe sobre ele além desse nascido na Capadócia e ter sido oficial do exército de Diocleciano. Por se negar a combater os cristãos junto às tropas do imperador romano e negar a sua fé, foi torturado e morto no ano de 303. Sua história consta na tradição e foi considerada apócrifa por conter conteúdo mítico e a Igreja quase “cassou” o santo do martirológio40. Há muitos

teólogos que defendem a extinção deste santo por não existirem provas históricas de sua vida. Sua festa é comemorada no dia 23 de abril. Quanto a sua iconografia ser representada por um soldado matando um dragão, eis a lenda:

Num lugar existia um dragão que oprimia um povo. Ora eram dados animais a esse dragão, e ora jovens. E a filha do rei foi sorteada. Nessa hora apareceu Jorge, cristão, que se compadeceu e foi enfrentar aquele dragão. Fez o sinal da cruz e ao combater o dragão, venceu-o com uma lança. Recebeu muitos bens como recompensa, o qual distribuiu aos pobres (CANÇÃO NOVA, 2019, online)41.

Entre os dois santos, São Jorge e Santa Joana D’Arc, São Jorge é o que possui maior popularidade. No Brasil ele é um dos mais conhecidos santos católicos e é muito venerado na Umbanda como orixá.

40 Lista dos mártires.

41 Disponível em: <https://santo.cancaonova.com/santo/sao-jorge-viveu-o-bom-combate-da-fe> Acesso

O que chamou a atenção na capela de Edelarzil é o fato dessas duas imagens, Santa Joana D’Arc e São Jorge estarem lado a lado na mesma parede, ambos santos guerreiros. Ele mais popular no imaginário brasileiro, no entanto, fez-se questão de estarem ali, numa parede de destaque. Ele como representação masculina e ela como representação feminina, ambos imponentes, armados de lança e espada. A presença de Santa Joana D’Arc poderia ser por uma questão de identificação feminina de força, proteção e também por essa ser uma santa mística que foi perseguida devido às suas visões.

Sara Kali e Ogolé

Dentre os quadros que estavam na parede esquerda do corredor (figura 28), destacamos essas duas imagens (figuras 46 e 47). A maioria das imagens que ornamentam a capela trata-se de imagens de santos católicos romanos. O que nos chamou a atenção nessas imagens, é que se trata de ícones ciganos.

Figura 46: Cigana Sara Figura 47: Cigano Ogolé

Fonte: fotografia do arquivo da autora Fonte: fotografia do arquivo da autora

A jovem identificada como “Sara”, nos faz pensar se tratar de uma representação de Santa Sara Kali, padroeira dos ciganos, ou ainda, a “Rainha dos Ciganos”. Porém, uma representação branca de Sara, já que Kali em romeno significa preto, ou seja, trata-se de uma santa negra. Pode ser que se tenha confundido com a figura de alguma outra cigana, apesar de que durante as pesquisas não encontramos nenhuma imagem semelhante. Trata- se de uma pintura. O mais provável é que realmente seja uma representação branca de

Santa Sara Kali, devido à disposição da mesma num local sagrado. O que não seria estranho, devido uma tendência brasileira ao embranquecimento das imagens, sendo possível encontrar até mesmo imagens de Nossa Senhora da Conceição Aparecida branca, também não seria inédito uma imagem branca de Santa Sara Kali.

A devoção a Santa Sara Kali é deveras controversa. Seu culto não é proibido, apesar dela não ser canonizada oficialmente pela Igreja, está entre os santos que “caíram” no gosto popular, principalmente em meio ao povo cigano que a assumiu como padroeira. Porém, trata-se de um culto local da cidade francesa Saintes-Maries-de la Mer, cujo nome remete à lenda das três Marias: Maria Jacobina (irmã de Maria de Nazaré), Maria Salomé (mãe dos apóstolos Tiago e João) e Maria Madalena. A história de Sara Kali é incerta, misturada a muitas lendas, como aconteceu com muitos santos antigos no decorrer do tempo. No entanto, há até a possibilidade da santa ser, na verdade, uma ressignificação cristã para a deusa hindu Kali.

O jovem cigano identificado como “Ogoló” ou “Igolé”, não encontramos fontes. O mais próximo que encontramos dessa representação é a figura do Cigano Igor, que possui várias lendas no meio popular cigano e na Umbanda, assim como Sara Kali.

Já mencionamos a ligação de Edelarzil Munhoz Cardoso a cartomancia, tendo uma casa especialmente construída para os atendimentos (Figura 11). Em seu pequeno acervo de livros expostos (Figura 19), alguns livros de origem espírita outros contendo conhecimentos esotéricos. Destacamos também, uma espécie de tabuleiro (Figura 31), contendo palavras alinhadas e disposta em paralelo como, Presente Atual/Futuro Presente, Inconsciente/Consciente, Espiritual/Material. A informação que obtivemos é que se trata de um presente dado pela mãe da nossa guia turística, Márcia, não se trata de um jogo, apenas um carinho para “ordenar energias”. Não sabemos em qual momento a médium interessou-se pelas práticas do esoterismo, mas de fato, hoje é algo que faz parte de suas práticas espirituais e de atendimento ao público.

Também identificamos muitas imagens em pequenos oratórios em dois pontos da capela (Figuras 32 e 3342), muitas dessas imagens são presentes, assim como os terços.

Porém, destacamos o oratório de madeira (figura 33), onde estão depositadas muitas fotos e cartas de agradecimento, os chamados ex-votos, forma popular de testemunho e agradecimento pelas graças recebidas em um santuário. Em ambos os oratórios, assim como na Ermida, encontram-se caixas específicas para os visitantes colocarem seus pedidos de orações e doações.

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