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3.5 Impl´ ementation pratique

4.2.1 Structure liaisons fortes

Cearense nascido em 1950 na cidade de Saboeiro, no Sertão dos Inhamuns, o escritor Ronaldo Correia de Brito viveu sua infância na cidade do Crato, na região

chamada de Cariri Cearense, conhecido por muitos como o "Oásis do Sertão". Muito cedo passou a habitar o Recife, e elegeu a capital pernambucana como residência, mas nunca deixou para trás ou se esquecera do sertão onde cresceu.

Em entrevista concedida à Revista Saraiva Conteúdo, quando do lançamento de seu livro mais recente, Retratos imorais (2010), Ronaldo fala sobre a escolha de sair do recanto familiar do sertão para cursar a faculdade na capital, e a relação da profissão de médico com o ser escritor:

Eu saio do Crato para o Recife, que era uma cidade enorme, a terceira maior cidade do Brasil, isso em 1969, para estudar medicina. Por que medicina? Medicina é uma profissão pragmática, da qual eu gosto muito. Uma profissão que me coloca em contato com pessoas e, sem dúvida nenhuma, me coloca todos os dias diante do espetáculo da vida, da cura, da dor, do sofrimento e da morte. A medicina tem esse lado de real, de sólido. A literatura é mais vaga, mais divagante, lida mesmo com mentiras, com ficção, com irrealidades (BRITO, 17/06/2010)43.

Quase todos os contos de Brito têm muito presente o aspecto da morte, do renascimento. Ele, que lida muito com a morte por conta de sua primeira profissão, afirmou ser ela parte sempre presente em sua vida e em sua literatura. “O que mais se faz ou se fazia naquele mundo em que nasci e vivi era morrer. Morrer... Então, a morte está desde sempre na minha vida. Muito antes de nascer eu já vinha com carrego de mortes” (Informação verbal).

Não existe nenhuma fronteira entre vida e morte para um autor que existiu num mundo permeável a essa passagem do tempo, de uma existência para outra. Os personagens do universo ficcional de Brito, João Domísio e Donana, por exemplo, mesmo tendo morrido há trezentos anos – num dos livros anteriores, Faca (2003) –, circulam por Galiléia (2008) como se nunca tivessem saído dali. “É um movimento constante de atribuição de novos significados a um mesmo elemento ou objeto” (SANTINI, 2009, p.267).

E o autor cita um poema do peruano César Vallejo para ilustrar essa sua opção:

“Quando alguém vai embora alguém permanece. (...) Somente está solitário de solidão humana, o lugar por onde ainda nenhum homem passou. (...) Todos de fato deixaram a casa, mas na verdade todos continuam dentro dela”. Assim é Galiléia, e assim era o mundo em que vivi44.

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Tirado de: http://www.saraivaconteudo.com.br/Artigo.aspx?id=330. Acessado em: 31/03/2010.

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Tirado de: http://jivmcavaleirodefogo.blogspot.com/2009/08/entrevista-ronaldo-correia-de-brito.html. Acessado em: 31/03/2010.

Esse mundo em que nasceu e viveu, o mundo arcaico do sertão, é representado e complementado hoje em sua literatura, com personagens vindos de um mundo globalizado, que ele mais tarde conheceu. O mundo modernizado, em desenvolvimento, porém, se mostra tão em ruínas quanto o outro. Correia de Brito conhece bem ambos universos e transpôs as lembranças de sua infância para a crueza de seus contos contemporâneos, onde o contraste está na consciência do progresso e da decadência ao mesmo tempo.

Segundo as observações de Dimas Macedo sobre o trabalho de criação do ficcionista, e da tênue fronteira entre ficção e história, fica assentado que “literatura e historiografia trabalham sobre o mesmo acervo memorialístico: uma atualizando o registro e a cronologia da história; a outra, a literatura, recriando possibilidades de interpretação dos contextos vencidos pelo tempo” (MACEDO, 2001, p.14). O contexto vencido, no caso, configura-se nas práticas obsoletas do sertão agreste e de sua gente.

Vindo de uma realidade na qual o apego à religião e à reza é o derradeiro alento, um suporte que sustenta a vida já desnutrida das pessoas, Brito conheceu o mundo laico, que abriga múltiplas religiões e ateus. Realidade esta que se contrapõe aos fantasmas daquele mundo de quase-mortos, como o patriarca Raimundo Caetano, de Galiléia, um mundo em que as mulheres lutam para deixar a marginalidade na periferia.

Seus personagens, então, personificam esse contraste. A crença é presente, mas já desenraizada da religiosidade dogmática, alça e arcabouço dos temores e das esperanças daquele mundo cercado de morte. E a mudança, as viagens a outros prados aparecem como outras vias possíveis.

Nascido no sertão dos Inhamuns, “quase um deserto bíblico no Crato” (Informação verbal), o escritor, que vive hoje no Recife, nunca teve uma visão romântica do agreste. Ele conta que, quando faltava água, ia com os irmãos lavar os túmulos dos ancestrais na esperança de chover. Por essa visão não romantizada é que a descrição da geografia que escolheu para suas narrativas – a mesma de sua memória de vida – é parte imprescindível na análise dos personagens e suas histórias.

E no mais, fazer conhecer um pouco da história real dos Inhamuns contada por Brito faz-se necessário para uma boa compreensão do que é dito. Isto porque, como bem o diz Dimas Macedo,

literatura não é [somente] abstração, mas realidade, cada obra refletindo um pedaço de mundo que a cada escritor foi permitido conhecer, cada escritor interpretando o mundo a partir das suas circunstâncias e nos limites das suas perspectivas existenciais, incorporando como que ao seu universo verbalizado as suas ideologias e as suas medidas de valor, sendo ao ficcionista, principalmente aos autores da longa ficção, dada a primazia de melhor tipificar, figurativamente, a moldura da sociedade na qual desenvolveram os seus projetos existenciais (MACEDO, 2001, p.62).

E a ficção é mais ou menos isso mesmo: um retrato possivelmente fiel da visão de mundo e dos valores materiais e concretos da sociedade na qual o autor se inseriu e o escritor se mostrou revelando as suas conveniências e inquietudes pessoais.