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2-1- Structure atomique

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Os estudos que se debruçam sobre o discurso nas ciências sociais oscilam basicamente em dois objetivos: analisar funcionamentos e exercer um poder crítico. Para se pensar em crítica seria necessário buscar desvendar interesses que de algum modo o discurso dissimula, essa perspectiva eclode em 1960. O caráter dessas análises se manifesta por intermédio de uma força crítica que encadeia os seus textos ao funcionamento das instituições que os produzem e os gerem. Nelas o discurso aparece como um conjunto de enunciados que praticados ao longo do tempo dão ênfase a uma dada formação discursiva construída através de um sistema regular existente na dispersão do conjunto de enunciados estudados. A regularidade, em seu turno, é constituída por regras de formação, ou melhor, por orientações em que os enunciados são enquadrados a fim de pertencer a uma dada formação discursiva (FOUCAULT, 1969; 2007).

Embora não seja o único, Michel Foucault é um dos pensadores mais fecundos a fim de se considerar a questão do discurso, para ele se trata de elementos ou enunciados dispersos que mesmo não sendo arbitrários não estão ligados a uma unidade comum, conservando-se na invisibilidade. Para dar coerência à dispersão do discurso Foucault (2007) coloca que se deve construir um sistema de relações entre objetos, enunciados, estratégias e termos capazes de dar uma lógica a dispersão existente.

Assim, os elementos constitutivos de um dado discurso aparecerão regularizados por suas matrizes denominadas por formação discursiva. Podemos afirmar que o autor busca na pluralidade, nos espaços alternativos e fora das fronteiras à racionalidade capaz de explicar as práticas constituintes do discurso. Pensar nessa direção é se entrelaçar na dispersão dos acontecimentos que constituem as produções humanas materializadas nos enunciados e na formação discursiva.

Não se trata de interpretar o discurso para fazer através dele uma história do referente; [...] Sem dúvida, semelhante história do referente é possível; não se exclui, de imediato, o esforço para desenterrar e libertar do texto essas experiências ‘pré- discursivas’. Mas não se trata, aqui, de neutralizar o discurso, transformá-lo em signo de outra coisa e atravessar-lhe a espessura para encontrar o que permanece silenciosamente aquém dele, e sim, pelo contrário, mantê-lo em sua consistência, fazê- lo surgir na complexidade que lhe é própria. Em uma palavra, quer-se, na verdade, renunciar às ‘coisas’, ‘despresentificá-las’; conjurar sua rica, relevante e imediata plenitude, que costumamos considerar como a lei primitiva de um discurso que dela só se afastaria pelo erro, esquecimento, ilusão, ignorância ou inércia das crenças e das tradições ou, ainda, desejo, inconsciente talvez, de não ver e de não dizer; substituir o tesouro enigmático das ‘coisas’ anteriores ao discurso pela formação regular dos objetos que só nele se delineiam; definir esses objetos sem referência ao fundo das coisas, mas relacionando-os ao conjunto de regras que permitem formá-los como objetos de um discurso e que constituem, assim, suas condições de aparecimento histórico; [...] trata-se de identificar os relacionamentos que caracterizam uma prática discursiva (FOUCAULT, 2008, p. 53-54.).

A percepção presente na obra de Foucault (2008) é derivada do paradigma marxista de formação social e ideológica. Contudo, a partir desse norte, essa concepção extrapola o movimento dialético em prol do pensamento da coexistência. Princípio que parte do olhar das condições históricas, sociais e das suas variáveis mais abrangentes e pertinentes aos seus intuitos investigativos: em vez de limitar-se ao sistema da estrutura e a ideologias contextualizadas foca-se nos acontecimentos que reproduzem as estruturas; nos discursos e nas suas cadeias, na emergência e nas redes do enunciado. Tal, um enunciado que é unidade elementar do discurso não se fecha sobre si mesmo, longe disso, conecta-se com outros enunciados. O “enunciado é uma verdadeira coisa situada num entremeio, com a língua como sistema de regras de um lado e, do outro, o corpus como o discurso efetivamente pronunciado”

(DOSSE, 2007, p. 301). Para Foucault (2008), o enunciado, menor unidade do discurso, perpassa os blocos discursivos de um texto promovendo os conteúdos no tempo e no espaço.

Não acredito que a condição necessária e suficiente para que haja enunciado seja a presença de uma estrutura proposicional definida, e que se possa falar de enunciado todas as vezes que houver proposição e apenas neste caso. Pode-se, na verdade, ter dois enunciados perfeitamente distintos que se referem a grupamentos discursivos bem diferentes, a elaboração de um discurso que, como qualquer outro, não está permanentemente submetido ao poder, nem oposto a ele. ‘É preciso admitir um jogo complexo e instável em que o discurso (historiográfico) pode ser ao mesmo tempo, instrumento e feito do poder, e também obstáculo, escora, ponto de resistência e ponto de partida de uma estratégia oposta’ (FOUCAULT, 1977, p.96).

O enunciado elabora os signos que dão lógica ao discurso e define a produção dos sentidos. Qualquer série de signos, de figuras, de grafismos ou de traços - não importa qual seja sua organização ou probabilidade - constrói um enunciado. Enquanto a gramática determina se é ou não uma frase; à lógica define se comporta ou não uma forma; e à análise precisa a linguagem que a transpõe. Neste caso, existe o enunciado desde que existam vários signos justapostos. O limiar do enunciado seria o limiar da existência dos signos (FOUCAULT, 2008, p. 95) sendo elaborado por “um sujeito, em um lugar institucional, determinado por regras socio-históricas que definem e possibilitam que ele seja enunciado” (GREGOLIN, 2003, p. 2). As regras devem ser realçadas por intermédio da análise da formação dos objetos discursivos, das suas operações, conceituações e opções teóricas, para que pululem os sistemas e as redes de relações que se estabelecem nos discursos.

Como coloca Foucault (1984a, p.17) é a multiplicidade que cria o sentido, direciona aos inúmeros afrontamentos entre forças e saberes, aflorados pela dispersão de acontecimentos consequente de embates que emergem em meio a forças litigantes. Por isso a história praticada como genealogia “restabelece os diversos sistemas de submissão: não a potência antecipadora de um sentido, mas o jogo casual das dominações”. Em nosso direcionamento, os sentidos sedimentaram os estereótipos e estigmas genéricos sobre os estados nordestinos, reduzidos, comumente a duas acepções anteriormente: a da seca; e, a do turismo. A segunda apreende a região, os costumes, as festas, a religião e aspectos culturais como exóticos.

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