Os símbolos constituintes das paisagens as balizam diante da visão dos indivíduos; a sociedade capitalista, por exemplo, valoriza ou desvaloriza as paisagens conforme a perspectiva de consumo possível. Se trata da construção de significados que contribuem com a instituição de determinadas fronteiras políticas, econômicas e culturais. Das fronteiras sociopolíticas existentes, um exemplo significativo são as nacionais. Muitas paisagens foram construídas a fim de se marcar e institucionalizar o que é a fronteira concernente à identidade nacional. Com isso, criam-se paisagens para dar identidade ao espaço, ao mesmo tempo que servem para legitimar territórios culturais, econômicos e, políticos.
É interessante notar que as paisagens são elaboradas em distintos planos, sendo o processo cultural a argamassa. Se pensarmos na paisagem brasileira, certamente, veremos em nossa mente um recorte com o Cristo Redentor de Braços abertos para a Guanabara ou o morro do Pão de Açúcar; ambos, cercados por uma natureza bela e pontos representando as pessoas vivenciando seus entornos. Essa imagem não surge do nada, ela é o resultado de vários discursos; uma fotografia ao representá-la seria, provavelmente, uma panorâmica aérea, um modo de construir paisagem consequente dos avanços técnicos que possibilitaram o alargamento do olhar. Ainda, poderíamos recortar em nossas mentes paisagens nacionais com praias, mulheres de topless (prática proibida no Brasil), festas com palmeiras, sambas, frutas tropicais, macacos e papagaios. Todos esses símbolos estariam ligados à paisagem nacional. Nem sempre reais, esses símbolos incorporam ideologias elaboradas aproximadamente entre os anos de 1880 a 1950, período que compreende a construção de uma identidade do nacional.
Em visita a casa de um norte-americano no Estado de Washington, EUA - no dia da festa do seu aniversário –, que afirma ser o Brasil o país dos seus sonhos, foi possível observar muito do que se caracteriza enquanto essa paisagem que identifica o nacional para o olhar do outro. Ao entrar na casa nos deparamos com pessoas sambando ao som de pandeiros e cavaquinhos ao redor de uma fogueira, era uma noite de três graus Celsius, as roupas tinham as cores verdes e amarelas. Nas paredes predominavam quadros com paisagens do Brasil: carnavais na Marquês de Sapucaí, Rio de Janeiro; mulatas desfilando com os seios a mostra; noites com mulheres e bebidas; vistas do Cristo Redentor e Pão de Açúcar, ainda, alguns espaços da Bahia, suas igrejas e retratos em closet de índios122. Interessante é que o Estado de
122 A alusão é feita a Richard HopKins, norte-americano, atualmente com 65 anos de idade, foi comerciante de pedras preciosas brasileira nos EUA. Com o comércio de pedras conseguiu manter uma vida confortável. Empreendia muitas visitas ao Brasil, seu campo de trabalho era Bahia, Minas Gerais e alguns locais da região norte. Porém, mantinha um apartamento alugado no Rio de Janeiro, capital. Era frequentador das noites cariocas,
Washington tem uma política de valorização ampla da cultura indígena, além das variadas áreas de reservas. Todas as cidades desse Estado têm nomes de origem indígena, nos edifícios residenciais sempre existe algum tipo de arte que valoriza a cultura desse grupo; além de festividades públicas que envolve a cultura indígena e seus representantes, mesmo assim, não havia nenhuma foto dos índios americanos, essas imagens são representações dos índios brasileiros.
Avançando, uma grande tela exibia, sem som, o filme “Black Orpheus” de Marcel Camus (1958), ganhador do festival de Cannes de 1959 e do Oscar de melhor filme estrangeiro em Hollywood 1960. Com esse filme os convidados viam somente imagens de um Brasil que o nosso amigo conseguiu enxergar: das pedras preciosas que o sustentou e das aventuras noturnas relembradas com saudade. Um lugar que a produção cultural nacional ajudou a inventar.
O filme Black Orpheus – Orfeu Negro foi um grande veículo de divulgação da nacionalidade brasileira, revela para as plateias internacionais uma imagem do Brasil a partir da cultura popular, da música e do carnaval. Tem o foco na população mestiça, sensual e feliz, reverberando o que seria o resultado da composição étnica brasileira. Tem como principal paisagem fragmentos do Rio de Janeiro, composto pela favela e a Baía da Guanabara. A paisagem é formada pelos modelos de convivência da cordialidade inter-racial, em um sistema hierárquico que vigora o homem branco como comerciante, dono do espaço que condiciona as relações correntes na película. Mesmo sem ser o protagonista, o espaço do imigrante europeu é privilegiado, o centro econômico e racional que dá base para o desenvolvimento dos personagens mestiços; esses apresentados pela emotividade e sensualidade aguçadas que encena um estágio de afetividade pueril, a musicalidade corporal do grupo mestiço é dada como intrínseca, o corpo se torna objeto do nacional e as crenças em entidades sobrenaturais são postas em relevo.
Presenciar a noção do amigo norte americano – sobre as paisagens e a vivência no Brasil – foi esclarecedora e fundamental para vivenciar na prática os caminhos que tornam possíveis a construção de um imaginário nacional, interessante ver in loco as expectativas que circundam esse imaginário coletivo no indivíduo. No mais, esse caminho é o da construção da imagem
sócio da boate Hippotamus que teve seu auge entre as décadas de 1970 e 1980, uma boate frequentada por artistas famosos e socialites. Atualmente, reside no estado de Washington, se tornou um amigo próximo, nos diversos diálogos estabelecidos é corrente a alusão e a saudade que sente das noites cariocas, do carnaval, do samba. Em seus discursos o Brasil é principalmente o Rio de Janeiro; local de muitas festas, muito samba, muitos artistas, local de gente boa com muita sensualidade. Os outros brasis, o do comércio das pedras, é o Brasil selvagem, dos índios, com pessoas carentes, mas hospitaleiras, prontas a servir. Ao que parece Richard não consegue se libertar dos mitos. Curioso foi participar de seu aniversário, cujo o tema foi o Brasil, haviam muitas paisagens “do Brasil espalhadas na sala”; o bolo era a bandeira brasileira; acrescido de um grupo de sambistas que animava a festa, esse era o cenário.
nacional como parte de uma produção política e cultural, que teve como um dos seus objetivos construir um vínculo de inúmeras afetividades e pertencimentos entre o cidadão e o recorte territorial. A implementação do território nacional fundou distintos discursos que veicularam as características de um povo ao seu espaço (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2012). Ao se debruçar sobre a ideologia nacionalista, em sua vertente burguesa e popular, Hobsbawn (1991) coloca-a como protagonista central do cenário político, sendo essa uma comunidade imaginária construída por meio de mitos e realidades. Outros autores tratam da construção do nacional123 e deslindam os instrumentos envolvidos nas percepções desses espaços. Todos são pontuais na noção da nacionalidade como uma generalização dos discursos que nega toda a carga complexa humana de símbolos, ideias, valores e construções, na medida em que unifica um tipo de visualidade.
O historiador Albuquerque Júnior (2012, p. 22) em um alerta a negação da pluralidade que as identidades apagam, diz que animosidades como a dos EUA e México ou Brasil e Argentina, entre outras, tiveram no discurso nacionalista uma das suas fontes de alimentação; se o discurso nacionalista afirma como característica inata do brasileiro ser hospitaleiro e alegre, a contramão dessa percepção favorece que essa alegria e a hospitalidade sejam vistas como uma “micagem”, ponto de vista preconceituoso de muitos argentinos que caracterizam os brasileiros como “macaquitos” negros que gostam de imitar os outros; esse é o resultado de dirigir na contramão de uma via única: a colisão.
As restritas e repetidas paisagens que elaboram um imaginário a partir de um conjunto de percepções específicas sobre as partes do mundo e das pessoas que as habitam, em grande medida, formatadas pelo processo de expansão e hegemonia cultural europeia submetem socialmente, politicamente e economicamente outros territórios. Ainda mais, pautam as concepções sobre as imagens das paisagens diante do conceito de civilização europeu. Isso, tanto para definir positivamente, quanto negativamente os espaços e seus habitantes causando uma variada gama de tensões, crises e preconceitos. São características recentes que marcam um conjunto de sentidos, de símbolos, de eventos que envolvem o modo de ser visto e entendido o Brasil.
Nesse esquema nasce à ideia de nação brasileira, delimitando o que é ser brasileiro em prol de um projeto político que se traça para o país baseado em algo que se acredita ser o melhor de acordo com o parâmetro europeu. Para tal, um conjunto arquitetônico permeado de valores
123 Ver: Comunidades Imaginadas de Benedict Anderson; A invenção das tradições, também de Eric Hobsbawm, junto com Terence Ranger; Estado, nação e violência de Anthony Giddens, entre outros. Esses livros, entre outros títulos estão relacionados na obra de Albuquerque Júnior (2012).
e condutas é implantado na capital do Estado em moldes europeus com o objetivo de mostrar para o mundo um Brasil que emerge civilizado e direcionado ao “progresso” - por meio da materialização das cidades. A natureza ganha à cena uma vez que a sua exuberância destaca, também, o potencial do trabalho agrícola. “Pensado ora como paraíso edênico, ora como inferno verde, o Brasil teria na natureza um dos traços fundamentais a lhe diferenciar dos demais países”. O que desemboca na construção do mito do “gigante pela própria natureza”, como parte dessa natureza cria-se a caracterização do índio, seguida pela do sertanejo, ambas carregadas de romantismo (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2012, p. 53-54).
No entanto, a representação sobre o Brasil no exterior se dava nos moldes do “exótico”. Afinal de contas, o pensamento era definido por meio de parâmetros estabelecidos pelo que se via e se vivia na Europa, também pelo que era legitimado cientificamente; como as teorias raciais do fim do século XIX, no qual o branco era entendido como uma raça superior e as outras raças incapazes de atingir valores mais elevados, sua manutenção dependia da submissão ao branco. Elementos distintos dos das paisagens ditas civilizadas eram considerados exóticos. A própria literatura dos viajantes destacava o comércio brasileiro escravo em plena praça pública na contramão da civilização; a forte presença de negros nas ruas com suas manifestações culturais e religiosas; pessoas vestidas em trajes pobres e de pés descalços seriam signos das relações marcadas pela mestiçagem e sua degenerescência racial. Esse é um conjunto de visualidades que coloca o Brasil como digno de curiosidade, mas não como exemplo. Logo, a par dessa realidade as instituições públicas objetivavam “desvanecer no espírito das populações europeias os preconceitos que nos amesquinha[vam] a seus olhos” (DIÁRIO DO RIO DE JANEIRO, 1861).
As fotografias quando começam a circular se tornam parceiras e coadjuvantes da propaganda do que se queria mostrar como sendo o moderno Brasil. As imagens fotográficas que revelassem cenas com índios e negros, vestimentas consideradas impróprias, edifícios fora dos padrões da arquitetura moderna, paisagens pitorescas e bucólicas eram rejeitadas. A prioridade era dada às paisagens das cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Recife, Belém e Ouro Preto. As cidades de dimensões mais modestas também eram fotografadas em seu ponto mais atrativo seguindo o modelo hegemônico. Os aspectos positivos que encenam o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, grosso modo, são caracterizadas por fotografias que privilegiam paisagens constituídas pela expansão urbana, o aumento da população na cidade, a valorização da racionalidade técnica, a higienização, a intensificação das relações sociais e a incorporação ao mundo capitalista.
Com a crise do conceito de civilização europeu após a Primeira Guerra, acrescido da emergência econômica dos Estados Unidos e Canadá, o continente americano passa a representar um novo papel político, econômico e cultural traduz-se na grande fonte inspiração. Como consequência as nações americanas empenham-se em fortalecer e repensar os seus discursos sobre a nacionalidade. Essa virada é sublunar para a redução do complexo de inferioridade que o Brasil nutria em relação à Europa, também, para se pensar a questão do Velho e do Novo Mundo de modo invertido. O velho agora significa o decadente, o que está distante dos fluxos econômicos e sociais almejados, visto que está arraigado nos costumes arcaicos. O novo estaria aberto às oportunidades, a aventura do tempo presente e ao enfrentamento dos riscos futuros. Esse discurso dá as bases para a construção do mito dos Estados Unidos como a terra das oportunidades e realizações. O Sonho Americano passa inclusive a ser uma metáfora para o sucesso econômico em território Norte Americano. Isso estimula a se pensar uma identidade forte para o Brasil que o torne independente dos padrões europeus e destaque a sua força como nação próspera para os empreendimentos futuros.
A década dos 1930 é singular para a organização da identidade nacional. Em 1931 foi inaugurada no Rio de Janeiro a estátua do Cristo Redentor, paisagem central de promoção turística e identitária do país. A cidade já fazia parte do grupo de locais mais visitados no mundo, sendo sua paisagem uma das mais representativas para o turismo. No mesmo ano foi publicado o romance de Jorge Amado O país do carnaval, em sequência os blocos carnavalescos são oficializados transformando-se em escolas de samba e Lamartine Babo lança a canção intitulada “O teu cabelo não nega”. É do ano de 1934, a marchinha carnavalesca de André Filho, Cidade Maravilhosa. Em 1935 foi estabelecido um acordo comercial com os EUA, no mesmo ano Carmem Miranda estreia o filme Alô-alô, Brasil, sendo considerada um símbolo nacional e sensual com os seus trajes alegóricos, carregando na cabeça a flora e a fauna tropical.
Com a criação da política oficial de cultura e apoio aos intelectuais e artistas do modernismo no Estado Novo surge a oportunidade do redirecionamento da imagem da natureza, do índio, do sertanejo e do sertão, que eram descritos, anteriormente, pelos românticos a partir de uma perspectiva bucólica e colonial. Esses novos agentes pontuam as amarras provocadas pela colonização, situam a cidade de São Paulo como a locomotiva central do país, interpretam a mestiçagem como uma particularidade da nação, tirando o foco do aspecto biológico, mas não anulando-o, porém entendendo-o como traço cultural – momento em que o mulato emerge como tipo sensual e, às vezes, malandro. Esse é o palco da construção da cultura popular com seu ápice no carnaval carioca (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2012).
As expressões culturais que antes eram margeadas, perseguidas e colocadas na categoria de inferior passaram a ocupar uma posição de destaque diante das referências nacionais com a concepção do popular. Imaginários que antes eram negados viram referência do Brasil no exterior como os que aparecem nos desenhos produzidos pela Walt Disney. São produções que emergem com o acordo da política de boa vizinhança entre o Brasil e os EUA. São exemplos marcantes: o desenho animado Alô amigos (de 1942) que retrata a primeira aparição do personagem José Carioca: um tipo dançante com jeito de malandro. O desenho é paisagístico e inicia mostrando o Rio de Janeiro como uma floresta com aves e frutas tropicais. A capital é apresentada pelo Zé Carioca ao pato Donald em um passeio ao som do samba. Donald que tenta resistir ao samba, após tomar a cachaça cai no embalo; finaliza com a paisagem da cidade iluminada, um contexto mais urbanizado. Também o desenho “Você já foi à Bahia?” (de 1944) é o reencontro do Pato Donald e do José Carioca que dessa vez se dirigem até a Bahia, um desenho também recortado por paisagens bucólicas que lembram trechos do anterior, a ideia da natureza é constante.
Os contornos decisivos para a reelaboração da imagética nacional foram dados no governo de Juscelino Kubitschek com marcas até os dias atuais. Alguns estudos foram essenciais na delimitação do que deveria ou não fazer parte da cultura popular brasileira, entre eles estão os textos do folclorista Câmara Cascudo que valorizava a tradição e questionava o progresso como um processo de desconsagração da sabedoria popular. O autor desenhava a sua obra como um meio de salvação dos rituais, festas e lendas que estariam prestes a desaparecer onde “o sujeito dessa história seria o Povo, uma espécie de entidade abstrata, que reúne a todos, sem distinções de classe, de etnia, de gênero, de faixa etária” (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2013, p. 156)124.
O povo está presente na mistura das raças pronunciada no livro intitulado “Casa Grande e Senzala” com largo alcance no exterior. Nesse livro Gilberto Freyre (2003) interpreta o Brasil com a construção da cultura nacional sendo estabelecida pela mestiçagem, a grandeza do português é ressaltada pela sua facilidade de adaptação e interação com o que é estranho. Nessa adaptação portuguesa aos outros residiria à explicação para a sua potência colonizadora, principalmente, pelas práticas sexuais entre as raças. Freyre (2003) afirma a influência dos índios na formação brasileira dada em muitos aspectos por intermédio da índia, cuja sexualidade exaltada combinou com a do português, ainda em uma memória social existiria entre os
124 Para a compreensão da construção dos conceitos que envolvem os saberes sobre o folclore e a cultura popular, as relações que permitem suas emergências, ver: Albuquerque Júnior (2013).
brasileiros os resquícios do animismo indígena aproximando-o da vida selvagem e da crença no sobrenatural.
Com grande destaque e responsável pela incidência de imagens sobre o nacional devido ao seu teor analítico sobre a identidade brasileira está também à obra de Sérgio Buarque de Holanda (1936) intitulada “Raízes do Brasil”. O autor lança mão da tese que o brasileiro é indolente, instável, imprudente e pouco interessado no trabalho, raízes herdadas do colonizador. Quanto ao mais, à emotividade comporia o caráter nacional. Esse caráter se definiria pela generosidade e a busca de intimidade rápida, superficialidade, informalidade e um tipo específico de hospitalidade. Tais condutas se contraporiam a formalidade, racionalidade, equilíbrio e a comportamentos mais distantes, considerados civilizados. Outras obras também marcam esse momento de definição da identidade nacional, entre elas estão Evolução Política do Brasil do Caio Prado Júnior e História Econômica do Brasil de Roberto Simonsen.
Outro elemento presente na nacionalidade brasileira é a relação com a religião católica. A igreja, edifício de materialização da instituição católica seria mais um corpo de firmação identitária, de base colonial. Ela se viu ameaçada pelas mudanças ocorridas nas raias da república, dentre elas: a perda de espaço e a redução de prestígio incitada pela liberdade de culto; a reconstrução concernente ao processo de estadualização que passa a requerer novas adaptações econômicas e administrativas, e; as novas propostas para a educação que solaparam a hegemonia em relação ao processo educacional no país que a igreja mantinha desde o período colonial.
Estrategicamente a igreja sob a liderança do arcebispo-coadjutor do Rio de Janeiro D. Sebastião Leme, busca negar as relações com a monarquia e prima pelo estabelecimento de uma república católica. Nessa conjuntura a estátua do Cristo Redentor aparece como instrumento de firmação do poder da instituição marcada no espaço nacional, o que a torna o maior símbolo de identidade relacionado à fé. Outros empreendimentos, com apoio do D. Leme, buscam promover a manutenção do poder católico no Estado laico, são ações que vinham de cima para baixo com o apoio da elite católica (FONSECA, 2011).
As paisagens ditas exóticas, sensuais, mestiças e tropicais com que o Brasil passa a ser conhecido são reforçadas e trazem em sua esteira novos símbolos a partir da segunda metade do século XX. Paisagens do Pão de Açúcar, do Cristo redentor, das mulatas na praia, do carnaval e seus desfiles, do avião aterrissando nas proximidades da praia de Copacabana com foragidos de outros países são ingredientes que atraem produtores de filmes e de séries que explodem com o meio de comunicação de massas. Nas palavras do historiador Albuquerque Júnior (2012, p. 83 -84):
Se continuamos em muitos filmes estrangeiros sendo vistos como o endereço preferencial para onde fogem os grandes gangsteres internacionais, afinal demos guarida ao chefe da quadrilha que realizou o maior assalto feito até aquele momento no mundo, o assalto ao trem pagador na Inglaterra, se transformamos Ronald Bigs em atração turística, se os escândalos de corrupção não param de explodir na administração pública, esta imagem e este estereótipo com que somos marcados se assentam em muitos eventos concretos, embora, como todo estereótipo, seja generalizante e injusto com uma grande maioria de brasileiros que não se dedicam a