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6.3 Aimant permanent

Dans le document Etude de la corrosion du papier aluminium (Page 41-0)

133 Guias turístico de promoção do Brasil – EMBRATUR (1983). Foto reproduzida por Kelly Akemi Kajira. 134 O Brasil é divulgado em revistas europeias com apelo a sexualidade nas vésperas da copa do mundo (Março, 2014). Revista do Jornal Inglês The Sun. Fonte: CNEWS.

A paisagem está além de ser um volume, um recorte geográfico, um aglomerado de fixos e fluxos, como ressalta Santos (1998), ela é o reflexo das dinâmicas, das cores, dos sons, dos odores da acumulação de distintas temporalidades que representam diferentes momentos do desenvolvimento da sociedade. É nas palavras de Schama (1996) uma obra dos sentidos que a contempla com a mediação dos elementos naturais e toda a carga cultural que um ser humano coloca sobre ela. A paisagem nacional emerge a partir da criação de sentidos para um conjunto de tensões e elaborações que envolvem o global e o local. É obra de enunciados, ações, aceitações, práticas, valores, interesses, memórias e mitos, que surgem das tensões existentes na dinâmica social resultante dos movimentos “de lá pra cá e daqui pra lá”.

Nesse relacionar entre natureza e cultura surgem as paisagens do Nordeste, construídas em torno da fixação de uma singularidade orientadas por interesses vigentes. As formas do que viria a ser o Nordeste surgiu de um discurso que iniciou seu traçado quando uma parte do norte do Brasil foi assolado pela seca que se deu 1877, considerada uma das maiores do país. Livros, artigos e jornais narraram essa história, construíram uma paisagem com ênfase na experiência da miséria sustentada pelos enunciados, narrativas e imagens vinculadas às fotografias. Um evento natural em conjunção com o descaso social marca a construção de uma geografia associada à fome e a miséria, notadamente com cenas de homens, mulheres e crianças esquálidas e expostas em poses marcantes, o que se tornou recorrente em diversos noticiários. A estiagem já não era novidade nessa parte do país, o ineditismo se deu pelo fenômeno coincidir com a crise econômica que levou grandes proprietários de terra a falência, ademais, foi o período de emergência dos meios de comunicação e a fotografia acoplada a eles promoveu uma repercussão nacional dessa imagética visualidade chocante e nunca antes vista, desperta a atenção em torno do espaço (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2012).

As lutas no interior do país entre polos políticos e econômicos que pretendem acender da esfera local para a nacional singularizam seus signos como possibilidade de identidade nacional. De acordo com a influência dos grupos ou indivíduos que os promovem, esses signos são monumentalizados nos locais. Afinal de contas, como pensar o nacional se não for a partir de um local? Assim, a construção da nação germina enquanto imagem de um conglomerado de fragmentos escolhidos de diversos cantos do país. Sobrevém do discurso e da interpretação de indivíduos locais que procuram impor a sua visualização formatada no seu lugar de fala e direcioná-la como algo central do país: é o embate entre visões regionais que se transportam para o nacional. Surgem assim as paisagens locais com seu tipo de convívio e história vinculada a região em uma imagética extenuada dos seus pontos de ebulição. Em consequência, as produções de elementos regionalistas acabam aparecendo na arte, na cultura, nas obras

intelectuais caracterizando o que seria a visualidade do nacional (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2006).

Os discursos delineados por partículas de espaços são como os raios que ao colidirem viram luz, se cruzam para forjar a nação e a ilumina por intermédio da identidade. Com os novos contornos dados pela dinâmica global, um rosto para distinguir o espaço se faz primordial; com privilégio ao que representaria a cultura geral escolhe-se o rosto popular. Dos discursos responsáveis por formar as expressões do que é o popular o movimento modernista ganha o destaque, ergue com precisão o que será o Brasil brasileiro; constrói suas bases no mito das três raças, o mais agenciado nesse processo. Com a divisão dos eixos territoriais, compreendendo a nação a partir do norte e do sul, esse mito ganha expressão. Os extremos geográficos intensificam a sua identidade fazendo despontar particularidades; ou seja, exaltam- se lendas, costumes e hábitos possíveis de se verificar em manifestações culturais e expressar a originalidade do local, sendo essas tecidas para compor o cenário da cultura popular. A imagética construída esbarra na reavaliação dos elementos verificados em sua zona de gestação, fazendo irromper a necessidade de uma revisão do regional.

As análises do nacional a partir do campo regional são circunscritas pelo projeto naturalista realista que desembocou primordialmente na ideia do Brasil Tropical. Sistema de ideias que apresenta o privilégio ao meio ambiente e a raça como estâncias definidoras de caráter, possibilidades, capacidades e desenvolvimento135. O olhar que sai do regional tem a expectativa, basicamente, de responder as questões da origem do caráter nacional e da formação das tradições em sua influência com o meio combinado às características racial, o que justificaria os porquês do comportamento do brasileiro. À exemplo o negro do litoral compreendido como malevolente, o sertanejo como sisudo e ríspido, o mulato como sensual, entre outros tipos unificados e degenerados no discurso da identidade brasileira. Dessa concepção de degeneração se eleva a ideia do paulista; na contramão do sertanejo; do litoral versus o interior. Nela, o interior do país, no espaço do sertão, seria composto pela ânima que deu o suporte para o espírito da população nacional a representação primária, mais pura. No sertão as relações se dariam em estágios iniciais, livre da falsidade, da arrogância e da superficialidade, da cópia do estrangeiro. Nesse ambiente os homens estariam em harmonia com a sua própria natureza, seriam, no entanto rústicos e sem o polimento dos cosmopolitas. A

135 Renato Ortiz em seu estudo sobre a cultura brasileira e a identidade nacional explica como se desenvolveram as teorias que desembocaram no processo de construção da identidade nacional correlacionadas a raça e ao meio geográfico. Ver: Ortiz (1995).

dicotomia definidora dos discursos sobre as regiões brasileiras ao assumir essa simplificação identitária de dois brasis, em lados opostos, tutela uma armadilha.

Isso porque as ideias que surgem minam a pluralidade e abrem as janelas para a entrada de uma única visão estereotipada em acordo com os modos de ver do regionalismo naturalista, predominantemente, após o grande conflito mundial. Momento em que a técnica passa a identificar os espaços por meio de sua inserção e uso; quanto mais conectado as novas transformações, mais próximo se estaria de algo positivo. No restante, os espaços vistos como mais atrasados em relação aos polos técnicos e econômicos eram interpretados como distantes longínquos e tradicionais; até mesmo como espaços subjugados às relações retrógradas, amarrados na contra mão do progresso. O modernismo com a crítica ao olhar regional acabou caindo na mesma armadilha e convencionou a ideia do paulista que emerge a partir da resistência à permanência do Rio de Janeiro enquanto centro cultural. Isso porque São Paulo já era o polo econômico, moderno e político do país, um status para São Paulo a partir de um olhar que sai, também, do local (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2012).

Esse olhar assenta a parte sul do país como menos influenciada pelas agruras do clima quente e pelos mestiços, salienta o paulista como a representação principal dos brancos celebrados por sua altivez e pela disposição ao trabalho. Esses aspectos do regional ratificam que o norte do Brasil por seu calor favorece os tipos indolentes, o que unido à concentração dos mestiços ampliaria a apatia como característica pessoal, desqualificando o espaço e apontando- o como fadado ao fracasso. No ponto central da busca dessa identidade se define a diferença, ou o diferente. Alteridade marcada pela homogeneização de tipos e espaços compreendidos na contramão do progresso.

Com a revisão do regional, na primeira metade do século XX, vai se definindo discursivamente e imageticamente a região Nordeste do Brasil. Em âmbito político- administrativo passou a existir em 1938, como parte do Anuário Estatístico do Brasil do IBGE, sendo institucionalizada em 1942. A proposta original dividiria o país em cinco principais regiões: Norte, Nordeste, Leste, Sul e Centro Oeste. Da região Norte fazia parte o Maranhão e Piauí, junto com o território do Acre e os estados do Amazonas e do Pará. No Nordeste estava o Ceará, o Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas. Não existia a região Sudeste, porém a região Este, com os estados de Sergipe, Bahia e Espírito Santo. No Sul, estavam o Rio de Janeiro e São Paulo. Como parte do Sul os estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Por fim, a região chamada Centro, onde estavam localizados os estados do Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais (ABRANTES, 2007; ALMEIDA, 2003).

Logo, fazendo parte de ordenações que refletem o predomínio da concepção naturalista do espaço geográfico que tem em conta as paisagens como aspectos naturais da geografia e não como simbologia humana é oficializada a divisão que compõe a região Nordeste do Brasil, o corre após a estruturação do IBGE. Como a ideia de nação aparece muito mais enquanto um objetivo a ser alcançado em acordo com a modernização e o progresso, os fatores interpostos enquanto barreiras para o alcance dessa meta foram associados às características do povo e do espaço geográfico. O caminho priorizado, identificado nas reflexões de Albuquerque Júnior (2006), foi o de inventar uma oposição regional capaz de marcar a distinção entre um Brasil que se aspira: ideal moderno, rico, industrial, formado por uma grande parcela de imigrantes europeus e; um Brasil que se abjeta: atrasado, pobre, rural, escurecido por uma população mestiça de índios e negros.

Nesse entendimento, constrói-se a ênfase na diferença entre as regiões do Brasil a partir da dicotomia Nordeste e Sudeste. O Nordeste seria o outro atrasado e não integrado às novas demandas, isso nos “aparece como um desfilar dos elementos culturais raros, pinçados como relíquias em via de extinção diante do progresso” (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2006, p. 52). São apanhados alicerçados em uma tradição memorialística e em seus elementos folclóricos, rurais, populares, analisados como fragmentos de um mundo à parte. Peculiaridades que vieram à tona e passam a representar por meio da unidade a diversidade Nordestina.

A visão que se coloca nesses elementos enquanto estruturas ameaçadas e frágeis diante da dinâmica do progresso localizam o espaço como um lugar onde predomina uma cultura “de museu” em que se expõe como “os estrangeiros” os da própria terra. Signos submetidos a um discurso político-ideológico que se pretende transformador acabam sendo conservador por se atrelar a discursos já canonizados sobre a região (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2006, p. 242- 249). Os vários tipos criados como nordestino; o retirante, o flagelado, o beato, o romeiro, o cangaceiro, o jagunço, o sertanejo, o brejeiro, se aproximam da imagem do matuto e do caipira, afastando-se dos tipos considerados citadinos.

Grande parte da produção cultural que vai ser nomeada nordestina é apoiada por imagens do sertão; da preservação da tradição; da saudade da casa grande e da senzala; da família patriarcal; da capela; e, da reação conservadora à sociedade capitalista. Concepções marcadas por uma indisfarçável nostalgia em torno da sociedade escravista, do império e da vida rural com seus rituais e festividades católicas (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2012). É “a invenção do Nordeste e outras artes” como parte da produção dos grandes intelectuais, dos latifundiários, dos descendentes dos donos de engenhos de açúcar e dos artistas que cantam, romanceiam, narram, pintam e fotografavam locais consolidando a identidade do local.

Já na história do Rio Grande do Norte, espaço nordestino-potiguar, temáticas comuns ao cenário construído para o Nordeste são presentes, como a seca, banditismo social, o êxodo, a religiosidade, a cultura popular, o folclore, etc. Essas deram o enredo para estudos de Lyra (1921); Cascudo (1955); Mariz e Suassuna (2002) que não deixam de narrar em seus estudos sobre as famílias inteiras que abandonavam o alto sertão e iam em direção às cidades como Natal, Mossoró e Ceará-mirim em busca de sobrevivência. Além disso, o intelectual Manoel Dantas publicou vários trabalhos publicados, os quais objetivavam destacar a seca. Em seu livro intitulado “Homens de Outrora” (1941) são incluídos cinco ensaios, entre eles o texto “O Problema da Seca” vinculado no jornal “A República” da cidade de Natal no período de julho a outubro de 1901. Em todos os autores a relação da seca com o Rio Grande do Norte é marcada pelo tom de calamidade. “O povo pobre pôs os cacarecos à cabeça e tratou de emigrar, ao azar de sua desgraça, em busca dos brejos e portos, morrendo de fome e doenças ao longo das estradas” (DANTAS, 2001, p.119).

Macêdo (2005, p. 26) relata em seus estudos que o sertão norte-rio-grandense acometido pela seca no final do século XIX, apareceu como um espaço da provação divina com o intuito de evidenciar a fé humana. O fenômeno marcou a “estratégia divina” que pretendeu colocar os indivíduos em harmonia com seu espaço natural. Já o litoral, natureza sobre o qual está assentada a capital do Estado, também, nesse período era hostil. Os estudiosos da região chamaram a atenção para o isolamento de Natal, causado por uma cadeia de dunas, tabuleiros de areia e rios. Segundo os jovens bacharéis do local, seriam esses elementos naturais responsáveis pela paisagem monótona de Natal submetendo-a a apatia, a preguiça e ao ócio. O progresso desejado pela elite era barrado pela força imperiosa da natureza que circundava a cidade, processo estudado pelo historiador Arrais (2006), no qual afirma que para esses indivíduos havia a necessidade de vencer o isolamento imposto pelas barreiras naturais para colocar Natal no caminho do progresso.

A interferência do regionalismo pernambucano de Gilberto Freyre marcou os escritores potiguares que escreviam estimulando o leitor a criar cenários paisagísticos que são verdadeiros guias em direção ao que vale a pena ser visto e lembrado. Esses autores evocam a sociedade colonial, a casa grande e a senzala. O intelectual Nilo Pereira é um dos vários exemplos que podem ser apontados; quando escreve sobre o engenho “Guaporé”, antigo solar patriarcal que pertenceu a sua família, coloca: “Há poucos dias tive a emoção de rever o Ceará-Mirim. [...[naquela terra que é uma das mais aristocráticas do Estado é onde vivi toda a minha meninice” (PEREIRA, 1969, p.13). Em uma escrita saudosa desdobram-se construções sobre a paisagem nordestino-potiguar consoantes a estética regional.

Ao longo das décadas o discurso nordestino-potiguar se conforma em dependência as imagens unificadas pela ideia de região. A imagética produzida a fotografia é uma das mais expressivas para a fixação da dimensão paisagística. Nela os mitos persistem e desenham a crítica quando aparecem enquanto um sintoma aurático. Essa resistência pode ser observada na fotografia de 2016, captada pelo repórter fotográfico Canindé Soares. O registro é do interior do Estado do Rio Grande do Norte. A paisagem nordestino-potiguar avança em nossa direção representada por um jumento. Ora, as figuras remetem à marcha lenta e a resignação do animal diante do progresso, na sina de carregar os símbolos que o forjam amarrado em um espaço como se lhe fosse algo próprio. Se antes, o jumento era desprezado, depois das drásticas secas se tornou parte do sertanejo. O potiguar Manoel Dantas enfatiza que, só após 1877, o jumento (animal resistente) ganhou lugar de destaque.

O sertanejo que possuía um burro, a não ser por espírito de curiosidade, tornava-se objeto de chacota. Em 1877, foi que se verificou a força de resistência de que o burro era dotado. O burro tornou-se uma verdadeira providencia para o transporte de cereaes aos pontos mais distantes flagelados pela seca (DANTAS, 2001, p.120).

Observamos no discurso desse autor como o animal que antes era desprezado passa a ser valorizado, contudo, para um cenário, que é o cenário da seca. Isso o relaciona de modo determinante a uma realidade específica, a um povo e a uma geografia. Assim, resiste na fotografia o jumento carregando em seu dorso o velho sertanejo, homem simples, prevenido com os mantimentos em seus caçuas, quadriculado pelo sol que calcina, com o abdômen comprimido. Esse é um apelo visual que ressalta a forma curvada do indivíduo regional submetido às agruras do sertão, com os seus olhos baixos direcionados ao chão e disfarçados pelo chapéu de palha.

As cores saturadas por Canindé atribuem vivacidade a cena e destaque a natureza, coloca em contraste o tom vermelho e o verde em fortes nuances. A terra aparece encarnada em seu solo batido, a intervenção humana que abriu o caminho entre a vegetação é apagada para dar o teor de uma cena atemporal. O choque entre o vermelho e o verde explode na união central de todas as cores e estoura em luz criando o plano de fundo para apoiar o homem e o jumento que cercados de simbologia relutam em seguir. Como coloca Didi-Huberman (2012, p. 31), em uma das suas análises de imagens, “a cor não é uma veste; a cor nunca deveria vir sobre os corpos, como um recobrimento. Quando ela o faz, é apenas um sudário ou, então, um fardo”. E, como seria a cor em seu subtom? Considerada neutra, o marrom seria o fardo ou sudário? O marrom é a nuance correspondente aos dois seres, os estreitam e os confundem no ambiente, forjando a prevalência do meio e a pequenez do indivíduo. Homem e animal, nenhum, nem outro,

indeterminados cobertos pelo verde da vegetação e vermelho da terra. Essa é mais uma das criações da paisagem Nordestina, uma imagem que se institui mais do que se vê.

É uma amostra do Nordeste que reaparece como um sintoma, uma sombra sobre forma de conteúdo responsável pela ordenação da atual representação, o sertanejo é delineado como parte da geografia e relacionado aos elementos percebidos como característicos do espaço, caso do jegue: tem-se nesses elementos então o componente do contato que é o fenômeno aurático utilizado para colocar os discursos sócios históricos em crise. É a aura em sua dinâmica, não no que singulariza, mas no que sustenta constante ao longo de décadas.

Fotografia 5- Jumento como transporte, RN136

Disponível em: <http://www.csfotojornalismo.net/Diversos/i-MCKRrgT/A>

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