Como já mencionado anteriormente, a fotografia surgiu em uma conjuntura de significativas transformações mediadas pelo desenvolvimento técnico, por novos tipos de experiências que envolveram as emergentes metrópoles. Seus impactos culturais, também, são sentidos no Brasil inicialmente na cidade do Rio de Janeiro onde o uso desse recurso imagético esteve ancorado a lógica moderna imersa na cidade, testemunhando-a. Nesse entendimento, as fotografias estiveram presentes nesse momento de ebulição de impressões sobre a cidade, sendo usadas como elementos de promoção e divulgação turística, virando inclusive um mimo, um souvenir, um meio de mostrar partes do Brasil ao mundo, do mundo ao Brasil e do Brasil ao próprio Brasil, alimentando vários imaginários. Elas podiam ser compradas no comércio pelos visitantes figurava entre outros produtos como o artesanato, as frutas, os animais selvagens, as ervas medicinais e temperos.
O Guia Internacional da Europa confirma que quando se refere às lembranças encontradas para vender aos turistas, uma opção era as fotografias de Marc Ferrez, com referência significativa da fotografia paisagística do Brasil. “Como lembrança do Rio de janeiro, encontram-se em casa de Sñr Marc Ferres, á rua de S. José, n. 88 perto do largo da Carioca, uma bonita e variada collecção de vistas photographicas da cidade, da bahia e dos arrabaldes” (GUIA INTERNACIONAL, 1889, p. 265 e 267).
A fotografia se espalhou com as imagens impressas em suas bases difundindo ideias, operando uma das mais significativas revoluções culturais que permearam a sociedade racionalista moderna. Diminuiu as distâncias dando a ver os locais mais longínquos, uma valiosa fonte imagética para a história das cidades, principalmente, quando atrelada ao turismo que as revelava de modo otimista. As fotografias forneciam vários significados visuais com as insígnias e interesses dos discursos próprios dos grupos ou indivíduo ao qual era um instrumento de comunicação. Destacava tanto as cenas modernas, quanto as consideradas exóticas.
Nesse cenário social, político, cultural e ideológico que a câmara fotográfica surgiu, marcando uma nova sensibilidade nos modos de olhar e interpretar as coisas urge a necessidade
de explicações coerentes para as transformações. As mudanças geram a necessidade do entendimento dessa nova sociedade que desponta com suas novidades e contradições. Precisa- se de uma chave para interpretar, discutir e diagnosticar os diversos panoramas sociais existentes e em processo de criação. É o momento em que os conhecimentos sob a denominação de ciência, deixam de ser parte de sistemas filosóficos, a fim de se tornarem disciplinas individuais e específicas, demarcada em suas funções e objetivos próprios. Nesse processo concomitante aos novos modos de produção industriais e o nascimento de classes sociais, constrói-se a sociologia como referência para a compreensão dos modos de organizar, vivenciar e ver a sociedade.
A disciplina sociológica, assim como a imagem fotográfica, surge marcada pela concepção de imobilização do tempo e do espaço. Pretende explicar as questões sociais por meio da fixidez; encarava a ideia de progresso atrelada ao desenvolvimento da ordem nas coisas; da sociedade como coisa; da sociedade como organismo; do mundo material e; dos fenômenos determinados. Nesse período de constituição da disciplina sociológica o que se busca apreender é o confronto social entre o mundo fixo – que se consolida no século XIX, com as classes sociais – como a burguesia e o proletariado –, de um ordenamento bem claro (DURKHEIM, 1982; 1996). Pretende-se desvendar o mundo com as classificações sociológicas bem marcadas; um panorama de muitas projeções; tais como a esperança na potencialidade libertadora que se almejava em torno da ciência contra as limitações humanas.
Por outro lado, isso tudo transparece desaparecer rapidamente com os conflitos que surgiram diante dos problemas que assolaram as cidades desde a redução de fronteiras espaciais até a própria velocidade favorecida pelos meios de transportes que sofisticavam-se, o que provoca uma sensação de ausência de referências. Iniciou-se uma série de bombardeios as noções existentes que as ciências sociais não dão conta de esclarecer. É o ímpeto arrebatado desse cenário absorto, atordoado com os principais traços que caracterizam o modo de vida urbano levada a cabo diante das grandes mudanças estruturais do mundo moderno: que vão desde a racionalização das relações até o ritmo moderno ocidental fragmentário, nervoso, fugidio, efêmero, responsável pela cisão entre as culturas subjetivas e objetivas. É um panorama que requer racionalidade explicativa diante da pluralidade desconcertante dos acontecimentos que emergem (SIMMEL, 1967).
Busca-se abarcar várias novas manifestações sociais, entre elas a metrópole, as viagens, as trocas, as sociabilidades, as relações culturais que se dão diante das novas experiências tecnológicas. As linguagens e categorias convencionais não são mais suficientes para descrever as relações que povoam o mundo. Contraditoriamente, algumas interpretações que tentam dar
conta dessa realidade como as do estudioso Georg Simmel que questiona os modos da vida urbana; a entrada do dinheiro nas relações modernas; as paisagens que surgem com a nova dinâmica e as subjetividades impostas em torna delas são pouco valorizadas só sendo reconhecidas anos depois.
A ortodoxia existente diante das lógicas institucionalizadas dificultava qualquer tipo de rompimento com as naturalizações. A lógica mecânica e funcional era tão forte que a própria explicação científica em torno da anatomia do glóbulo ocular, conceituada após o invento da máquina fotográfica, foi determinada em conexões com o funcionamento do instrumento fotográfico; ou seja, foi explicada a partir da noção do funcionamento do equipamento fotográfico para captação da realidade. Até os dias atuais não tem sido uma tarefa simples desmitificar tais noções; a fotografia, por exemplo, ainda é confundida com a realidade dos fatos, até em âmbito acadêmico.
Foi legitimada como um objeto da análise sociológica e antropológica a partir da ótica da revelação do real, contudo, as armadilhas que entremeiam esse discurso ficam mais claras recentemente. A aparição constante da fotografia como prova de uma pesquisa, como balizamento do que foi escrito em um artigo ou do que está sendo dito construiu as próprias bases para o questionamento sobre os tipos de realidade que a fotografia revelou enquanto realidade.
Ampliou-se, portanto, a possibilidade de se pensar que o que está sendo produzido ou revelado com o apoio da fotografia recorta interesses imersos no próprio processo do resultado do que está sendo criado. Convém observar que esse é, do mesmo modo, o destaque dado por Georges Didi-Huberman (2003), diante do acervo iconográfico do manicômio parisiense de Salpetrièrê, onde o uso da fotografia gozou de grande prestígio. A fotografia era o instrumento de revelação do invisível ao olhar do psiquiatra, na medida em que se acreditava que captava a realidade dos sintomas e dos estigmas dos pacientes. Interpretada como uma prova objetiva capaz de encerrar qualquer outra especulação ou descrição, confirmava o discurso médico da patologia que se queria destacar. Semelhante o caso da definição da anatomia ocular, vejamos:
A ciência materialista transformando o olho ou o globo ocular da tradição num objeto de estudo e aplicando os princípios da física e da química a esse mesmo órgão sensorial logo a seguir, ou seja, na segunda metade do século XIX descobriu, coincidentemente, que o olho funcionava quase da mesma maneira como uma câmara fotográfica antiga fazia. Os pretensos estímulos luminosos emanados por uma não menos pretensa forma externa penetravam pela pupila, pelo cristalino, pelo corpo vítreo e aqui a imagem do objeto externo ficava de perna para o ar ou a imagem ficava invertida como acontece numa câmara fotográfica por causa das lentes. Ao invés de incidir numa placa sensível ou num filme, com nitrato de prata e tudo o mais, a imagem invertida ocular incidia numa pequena zona especial do fundo do olho
chamada retina, fóvea centralis, as quais e por ironia, ou coincidentemente equivaliam à placa sensível ou ao filme da máquina fotográfica (BONO, 2010, p 147).
O autor questiona a objetividade dada aos mecanismos modernos e aos conhecimentos institucionalizados, a partir da relação dos discursos e dos paradigmas que marcam uma época interligando-se e atuando na própria elaboração desses discursos. Ambos os exemplos dialogam com a concepção de que o pesquisador no processo de construção do conhecimento, independente do campo em que atua, quando utiliza suas imagens fotográficas não possui um olhar totalmente neutro ou imparcial diante do ponto de vista de suas redes de relações sociais. O olhar de quem pesquisa é muito mais interessado do que o olhar de um simples indivíduo que convive em um grupo e reproduz aleatoriamente julgamentos que fazem parte do senso comum. Ao contrário, um pesquisador é alguém com ponto de vista pré-elaborado por intermédio de um escopo de leitura e conhecimento que antecede as imagens fotográficas usadas em seus estudos, sejam essas da sua própria câmara ou das imagens que seleciona de um fotógrafo para a construção da sua pesquisa. As fotografias indiciam o pertencimento ao campo escolhido e aos objetivos que os correspondem.
Se levarmos em conta a concepção da imagem fotográfica como uma prova do real, como portadora de um fato em si mesmo, como a retina do cientista e a prova de um registro não abrimos a perspectiva para uma análise crítica de um dado contexto. Nesse aspecto, não há como se pensar na crítica sociológica. As interpretações que direcionam a fotografia à descrição dos fatos e outras noções que entendem a imagem somente como ilustrações distanciam-se das perspectivas contemporâneas da sociologia, posto que esse saber não se situa em nenhum desses dois polos:
O fato em si mesmo
Fotografia: Não há a reflexão sociológica aqui.
Ilustração do fato
As análises da sociologia não estão ancoradas na realidade dos fatos em si, mas na interpretação das concepções desses fatos em acordo com os envolvidos cotidianamente; está ainda pautada na interpretação que organiza e torna inteligíveis as relações sociais nos processos interativos que se realizam no confronto entre referências culturais, históricas e as próprias condições estruturais; questões essas que escapam a compreensão cotidiana.
No campo sociológico, justamente no uso frequente das fotografias como um documento de registro objetivo, foram analisadas as limitações desse recurso imagético; uma vez que as fotografias demarcam apenas um aspecto do que é visível, mantendo a invisibilidade de várias dimensões que constroem as relações sociais. Nesse conjunto, a fotografia teria dois usos específicos: primeiro, poderia ser usada pelo sociólogo de forma invasiva infiltrando-se no espaço com sua presença e ideias a fim de flagrar seus sujeitos desprevenidos; aqui se constrói a ideia da fotografia documental. Segundo; poderiam ser utilizadas as fotografias já existentes, nelas o principal objetivo seria a captação do social, constituído em prol dessa prática a partir das questões que envolvem uma sociedade imersa na cultura popular da imagem; aqui buscam-se os códigos que imprimem esse tipo de visualidade, como documento de diversas sociabilidades (MARTINS, 2009). Nessa segunda opção emerge um terreno profícuo para o uso da fotografia como um fenômeno social. Áreas como a arte, filosofia, semiótica, história, sociologia, antropologia, etc., abrem-se como itinerários que visam permear os múltiplos enunciados e a abrangência imagética dos elementos existentes na imagem, enveredam por um caminho que objetiva ir além da ilustração. No entanto, seu uso serviu e, ainda serve como recurso de legitimação dos fatos pesquisados.