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Passamos a descrever nesta seção realização de um estudo piloto feito neste trabalho para compreender o cenário do crowdfunding do jornalismo brasileiro na principal plataforma de financiamento coletivo do Brasil, o Catarse. A análise foi realizada com base em categorias pré-estabelecidas e foi importante para auxiliar na decisão de quais tipos de projetos analisar.

Aitamurto (2015) desenvolveu um framework para categorizar iniciativas de crowdfunding no jornalismo com o objetivo de colaborar no estudo do papel do fenômeno enquanto uma possibilidade de desenvolvimento de um modelo de negócio para a produção jornalística. No modelo, existem quatro categorias em que a prática pode ser classificada:

1) financiamento para uma única reportagem

2) financiamento para uma cobertura contínua/especializada 3) financiamento para uma nova plataforma/publicação 4) financiamento para um serviço que apoia o jornalismo

(AITAMURTO, 2015, p. 15, tradução nossa).

De acordo com a autora, o financiamento de uma única reportagem é o modelo mais comum, em que um jornalista submete uma ideia de pauta e busca dinheiro para realizá-la. Os financiamentos que acontecem em plataformas específicas para jornalismo, como Contributoria e Spot.Us, se encaixam nesse perfil.

Já no financiamento para uma cobertura contínua/especializada, o apoio é dado para um tipo de trabalho que extrapola o momento e se dedica a análises mais aprofundadas. Neste trabalho, os repórteres precisam acumular conhecimento durante os anos. Para a autora, plataformas como Beacon54 e Patreon55, em que a colaboração acontece mensalmente para a cobertura de tópicos específicos, se encaixariam nesse perfil.

No financiamento de uma nova plataforma/publicação, a doação acaba servindo como um “investimento semente”, fazendo um paralelo com a lógica das startups. O caso do site De Correspondent, citado anteriormente, pode ser considerado um expoente desse tipo de financiamento coletivo.

54 Disponível em: <http://www.beaconreader.com/>. Acesso em: 22 jan. 2018. 55 Disponível em: <https://www.patreon.com/>. Acesso em: 22 jan. 2018.

O financiamento para um serviço que apoia o jornalismo, de acordo com a autora, pode ser encarado como uma forma de desenvolver novos métodos e divulgar o trabalho de publicações. No caso, é citada a iniciativa PedalPowered News, que foi lançada por um jornal e prometia desenvolver um novo método de entrega dos jornais com bicicletas.

Resolvemos aplicar este framework para entender como se encontra o cenário brasileiro. Esta forma de análise também foi útil para guiar as entrevistas em profundidade realizadas neste trabalho com profissionais que tiveram seus projetos realizados. Os dados completos da análise estão tabulados e disponíveis no

Apêndice A desta dissertação.

Para a realização da análise foram selecionados todos os projetos finalizados que foram financiados com sucesso na categoria "Jornalismo" da plataforma Catarse até o dia 22 de janeiro 2018. Ao todo, foram analisados 75 projetos, que tiveram as informações raspadas da página com a extensão Scraper do Google Chrome e organizadas no Google Sheets. Optamos por esta plataforma por ser uma das que mais se destaca no Brasil em número de doações e visibilidade (VALIATI, 2013).

De acordo com dados da pesquisa Retrato do Financiamento Coletivo no Brasil (CATARSE, 2014), a maior parte das doações para o site vem das regiões Sudeste e Sul do país. Jovens entre 25 e 30 anos com ensino superior e renda de R$ 1.500 a R$ 10.000 são os que tem mais sensibilidade a doação, sendo que 74% das pessoas que doam ganham até R$ 6.000 por mês. Destes, 39% trabalham nas áreas de administração, comunicação, tecnologia e artes. Essas pessoas preferem buscar informações em sites de notícias (81%) e em mídias sociais, como Twitter e Facebook (80%). A maior parte delas (54%) já apoiou de 2 a 5 projetos na plataforma. 88% dizem que apoiar a causa é essencial para financiar um projeto, 71% afirmam que precisam confiar no potencial do realizador e 70% que a qualidade da apresentação da iniciativa é um fator que conta na hora de fazer uma doação. Mais da metade dos projetos submetidos ao Catarse pedem valores entre R$ 2.000 e R$ 50.000.

Em linhas gerais, é importante expor que os projetos de jornalismo analisados neste momento arrecadaram juntos o valor total de R$ 1.491.619,00, sendo o com maior arrecadação o "Jornalistas Livres", com R$ 132.755,00, seguido por "Reportagem Pública 2017" com R$ 84.483,00 e "Reportagem Pública 2015’” com R$ 70.225,00. Em média, os projetos arrecadaram 156% da meta estabelecida.

A maior parte dos projetos financiados se encaixam na categoria de financiamento para uma única reportagem, com 37,3% das ocorrências. Em seguida, está o financiamento coberturas contínuas/especializadas, com 29,3%. Nova plataforma/publicação acumula 28% e doações para serviços que apoiam o jornalismo ficaram com 5,3% das aplicações.

GRÁFICO 1 – Categorização dos projetos financiados no Catarse

Fonte: o autor

O processo de categorização de acordo com o framework exigiu um nível de interpretação dos projetos que foi além das suas descrições iniciais. Foi mais fácil interpretar reportagens únicas quando elas estavam atreladas a um tema específico ou a um tipo de produto jornalístico (como webdocumentário). A linha da classificação fica mais tênue quando, por exemplo, o pedido de doação é para a escrita e edição de um livro. A princípio, a ação poderia se encaixar tanto em "reportagem única" quanto em "nova plataforma/publicação". Nesse sentido, optou-se por entender o contexto. No projeto "Mochila Social - publicação do livro!", por exemplo, que reunia relatos já publicados em um site sobre uma viagem para o leste da África, ficou claro que o conteúdo era resultado de uma investigação já realizada, que seria editada e publicada em um único produto. Portanto, ações nesse perfil, por não almejarem uma publicação contínua, não foram entendidos como uma nova plataforma/publicação.

Optamos por entender o item “financiamento para um serviço que apoia o jornalismo” englobando também iniciativas que possibilitam um estímulo à reportagem. Não consideramos apenas ferramentas, como obviamente se encaixa o projeto “Ajude um Repórter”, que cria um banco de dados de fontes para jornalistas. Com essa percepção, foram inseridas nessas categorias os projetos "Reportagem Pública" e "Reportagem Pública 2015", da Agência Pública, que objetivou gerar bolsas para a cobertura de temas envolvendo Direitos Humanos e política.

Entretanto, identificamos dois fenômenos no caso analisado que nos fazem propor duas novas categorias para o framework. É bastante frequente a criação de campanhas para projetos pontuais que não se encaixam necessariamente em uma cobertura contínua, já que tem prazo certo para encerramento e metas pontuais de publicação. É o caso do projeto "Pessoa-coisa, cidade-torre", que propôs a realização de uma grande reportagem, um minidocumentário e uma intervenção urbana sobre pessoas que trabalham segurando placas de publicidade de novos empreendimentos imobiliários em São Paulo. É, de certa forma, uma cobertura especializada, mas pontual. Na descrição de Aitamurto (2015), fica implícito que a categoria pretende representar iniciativas de financiamento que sejam parecidas com uma assinatura de jornal ou de um serviço online, como Netflix. O público faria uma doação mensal em um valor estabelecido por ele para garantir que o profissional mantenha a cobertura de temas que o interessa. A própria citação por parte da autora das plataformas Beacon e Patreon, que trabalham nesse modelo, ajudam a entender os limites da definição. Por isso, entendemos que seria adequada a criação de uma categoria chamada "projetos jornalísticos", que pudesse englobar essas iniciativas.

O outro elemento que é peculiar às categorias propostas pela autora é a criação de projetos na plataforma para financiamento de iniciativas que já existem e buscam apenas por continuidade. São os casos da "Revista Bastião", "Jornalismo B" e "Folha Nativa", que almejam o lançamento de edições específicas, mas amplas e sem um tema central. As publicações buscam formas alternativas de angariar recursos para manter as redações já estabelecidas. Esse ponto é importante, pois na categorização realizada alguns desses projetos foram tratados como "nova plataforma/publicação" por se aproximar mais das definições da categoria. Entretanto, a descrição feita por Aitamurto (2015) considera essa categoria como "investimento semente" e traz a noção de que é uma oportunidade para colocar em prática ideias que são inovadoras e ainda não foram testadas, o que não é o caso dessas publicações. Por isso, sugere-

se a criação da classificação "apoio a publicações já existentes". O autor deste trabalho, portanto, propõe a seguinte configuração, acrescentando dois elementos ao framework de Aitamurto (2015):

QUADRO 3 - Categorias propostas pelo autor para análise de projetos de crowdfunding no jornalismo

1) financiamento para uma única reportagem

2) financiamento para uma cobertura contínua/especializada 3) financiamento para uma nova plataforma/publicação 4) financiamento para um serviço que apoia o jornalismo

5) financiamento para uma publicação já iniciada 6) financiamento para um projeto jornalístico

Fonte: o autor

Restabelecendo a análise levando em consideração as duas novas categorias propostas nesse trabalho, "projetos jornalísticos" e "apoio a publicações já existentes", temos o seguinte cenário: se mantém a "reportagem única" como principal categoria, com 33,3% dos financiamentos, inclusive abrindo mais distância para a segunda colocada, que passa a ser "apoio a publicação já iniciada", com 21,3%, "projeto jornalístico" fica com 18,7%. Em seguida, aparece, "nova plataforma/publicação" com 14,7%, "cobertura contínua/especializada" com 6,7% e "serviço que apoia o jornalismo" com 5,3%.

A reflexão sobre os tipos de financiamento coletivo que mais são comuns no jornalismo é uma forma de entender, em um cenário local, como os profissionais da área têm se organizado para manter a produção de um conteúdo de qualidade e conectado aos anseios do público. Nesse sentido, perceber que atualmente gera mais efetividade montar uma campanha para pagar a realização de uma reportagem única é uma descoberta importante para guiar os interessados no tema.

O financiamento coletivo do jornalismo, principalmente no modelo de doação para uma única reportagem, estabelece outra relação entre a audiência, o jornalista e a matéria publicada. O contato começa antes mesmo da história existir enquanto conteúdo pronto, algo pouco habitual nos modelos tradicionais de produção das notícias, em que a convivência com o leitor começa apenas no momento de publicação. Essa relação, de acordo com Aitamurto (2015), é o começo do trabalho

de formação da “marca” do jornalista e, entendemos aqui, da consolidação de uma comunidade em torno da ideia, que cada vez mais tem se mostrado um elemento importante no financiamento das campanhas. Para o jornalista deste momento histórico, não basta pautar, reportar, escrever e apresentar o conteúdo: é necessário dar retorno, pedir ajuda e receber feedback do público de uma forma sincera.

GRÁFICO 2 – Categorização dos projetos financiados no Catarse após reconsideração com novas categorias

Fonte: o autor

Em relação ao framework, entendemos que Tanja Aitamurto (2015) colabora com o pioneirismo em estabelecer um modelo de análise e uma categorização das formas de crowdfunding do jornalismo. Por isso, e pela crença de que as técnicas precisam ser aprimoradas de acordo com o contexto em que são aplicadas, fazemos sugestões de novas categorias. Fica como constatação também que é preciso estabelecer de forma mais clara a definição de que tipos de experiência se encaixam nas descrições da tipologia.

Porém, mais que isso, entendemos o surgimento dessas categorias como um reflexo claro do campo da comunicação no Brasil. Notamos uma leve preferência por parte dos proponentes em projetos jornalísticos pontuais, com o foco em resolver um

problema específico ou misturados com intervenções artísticas e eventos temáticos. Isso é algo que se conecta muito com a cultura do freelancer, do movimento social organizado e com uma certa linha tênue entre os limites da profissão de jornalista no Brasil que, pela formação histórica do mercado, acaba misturando habilidades da publicidade e relações públicas. Uma potencialidade latente para próximos estudos é aprofundar a compreensão do que é jornalismo para os proponentes dos projetos inseridos nessa categoria no Catarse. Com exceção do "Jornalistas Livres", não há outras propostas de produção de breaking news. Quais seriam os motivos disso? E uma iniciativa que propõe uma intervenção urbana com base na reportagem, por exemplo, pode ser considerada apenas um projeto jornalístico ou faria parte de um movimento artístico?

A emergência da categoria "apoio a publicações já iniciadas", acreditamos, é um retrato da situação da mídia independente no Brasil. Não é segredo a dificuldade de veículos comunitários em prover o seu sustento. Por isso, chama a atenção o valor total coletado no Catarse até agora para apoio ao jornalismo, de R$1.219.996,00. Para efeito de comparação, é uma quantia bastante próxima da média de investimento por ano que o Governo Federal fez em publicidade no portal UOL, um dos maiores do país, nos dois governos de Lula e no primeiro de Dilma, que foi de R$ 1,2 milhões. Em um momento em que uma das principais pautas dos movimentos sociais é a democratização dos meios de comunicação, entendemos que é impossível não ver alguma esperança nesse modelo de financiamento para colaborar na criação de um novo cenário midiático.

Não se prega aqui que simplesmente se substitua as diversas formas de subsistência das empresas jornalistas pelo financiamento coletivo. Este, aliás, é um erro bastante comum ao pensar no tema: pregar que pode ser um salvador dos modelos tradicionais de mídia. O que se expõe aqui é a possibilidade de financiamento de projetos pontuais (como documentários, mobilizações, investigações específicas), o surgimento de novos veículos (como “capital semente”, dando possibilidades de criar uma estrutura, montar uma redação ou até mesmo imprimir a primeira edição do veículo), o pagamento dos custos de um repórter em trabalho contínuo (com pequenos pagamentos de um grande número de pessoas) ou alternativas não previstas até então.

4 QUADRO METODOLÓGICO

Neste capítulo passamos a apresentar as opções metodológicas realizadas na condução do trabalho. A pesquisa possui perfil qualitativo de cunho exploratório, levando em consideração que se trata de um tema que provoca conexões com questões econômicas, sociais, políticas e de atuação profissional. Utilizamos como método o estudo de casos múltiplos (YIN, 2001) juntamente com entrevistas semiestruturadas e revisão bibliográfica.

A revisão bibliográfica foi realizada para levantar ferramentas que colaboraram no aporte teórico do trabalho e está consolidada principalmente nos capítulos 1, 2 e 3. Procuramos dar atenção especial à temática que engloba conceitos como capitalismo cognitivo, cultura da convergência, cultura participativa, economia da atenção, colaboração na internet, crowdfunding e crowdsourcing conectando com a modificação na realidade de trabalho dos jornalistas e com as potencialidades e problemas que as formas atuais de financiamento disponíveis geram.

O estudo de casos múltiplos foi realizado para descrever, analisar e compreender as experiências de seis jornalistas que participaram de projetos de financiamento coletivo de ações jornalísticas em uma plataforma de crowdfunding na internet. Com isso, procuramos buscar informações sobre a rotina de produção jornalística, da formação de comunidades, motivações, estratégias de comunicação e expor peculiaridades dos projetos que possam identificar suas particularidades.

Para compreender as diferentes manifestações possíveis de projetos de financiamento coletivo do jornalismo na internet recorremos às classificações propostas por Aitamurto (2015), que identificou os modelos mais comuns de crowdfunding. Para compreender se as classificações elaboradas pela autora fariam sentido no cenário local, fizemos um levantamento manual de todos os projetos que constaram no site Catarse, o mais conhecido do ramo, como financiados com sucesso. Após análise do conteúdo das campanhas, classificamos todos de acordo com os rótulos da autora e percebemos a necessidade de gerar mais duas classificações para representar com mais fidedignidade as formas de trabalho no Brasil, conforme explicado no capítulo 3. Com isso, foram geradas seis categorias de projetos de crowdfunding do jornalismo. A partir disso, selecionamos um projeto para representar cada uma das categorias com o objetivo de analisar iniciativas que representem um retrato mais completo das práticas. Em um cenário com mais de 100

projetos financiados em apenas um site, ter categorias bastante claras foi útil para poder fazer uma seleção dos casos relevantes para análise. Os casos também foram selecionados de acordo com a possibilidade de acesso do pesquisador.

Sobre a pertinência do método para este estudo, salientamos que Yin (2001) define o estudo de caso como uma técnica apropriada em pesquisas que 1) estão preocupadas com o “como” e o “por que” de os fatos ocorrerem; 2) não pretendem realizar um controle sobre eventos comportamentais; e 3) mantêm como foco eventos contemporâneos. Gil (2010) sugere um roteiro que foi seguido para a realização do estudo de caso: iniciar na delimitação do mesmo, prosseguir com a coleta de dados, realizar a análise e a redação de um relatório.

QUADRO 4 - Passos metodológicos para estudos de casos múltiplos e apresentação na dissertação

Etapa Onde está apresentada

Delimitação do caso Introdução e Quadro Metodológico na delimitação direta dos casos e capítulos 1, 2 e 3 para as delimitações da base teórica.

Coleta de dados (entrevistas e descrição dos casos estudados)

Quadro Metodológico e Apêndices B, C D, E, F, G e H.

Realização da análise e escrita do relatório

Análise dos Resultados e Considerações finais

Fonte: o autor

Entendendo o estudo de casos múltiplos como um método comparativo, Lakatos e Marconi (2003) o definem como uma análise da concretude dos dados, que, buscando elementos generalistas, constantes e abstratos, consegue estabelecer vínculos de causa e efeito entre as dinâmicas e fatores que envolvem o caso. Os estudos de casos múltiplos não são voltados para a demonstração de amostragens no sentido de representação com objetivo de generalizar um resultado para uma comunidade ou grupo, mas procuram retratar e explicar fenômenos criando uma base teórica que torne possível a análise.

Schneider e Schmidt (1998) definem o estudo comparativo como uma técnica que possibilita uma análise mais aprofundada, por considerar "um espectro mais amplo de combinações de variáveis explicativas" e levar em conta as interações entre o viés teórico escolhido e as realidades apresentadas. Há também a compreensão de

que os estudos comparativos pretendem identificar padrões e iluminar as generalidades ou diversidades nas dinâmicas dos casos. Eles também sugerem um roteiro para o desenvolvimento de análises comparativas. O estudo, nessa concepção, deve começar com a seleção de fenômenos efetivamente comparáveis, a definição de elementos que serão alvos da comparação, a realização do contraste entre os casos e a busca por elementos de generalização buscando encontrar padrões repetíveis e das particularidades de cada um para identificar elementos que não o são. Estes procedimentos foram levados em consideração na seleção dos objetos e guiaram a análise dos casos no capítulo 5.

Flick (2009) compreende que nos estudos comparativos a triangulação com outros métodos qualitativos, que tragam uma visão mais ampla e geral dos processos ou objetos analisados, é importante para garantir a qualidade da pesquisa. Ancorado nessa perspectiva, realizamos uma triangulação com a técnica de entrevista semiestruturada para compreender a relação estabelecida entre os proponentes dos projetos e os interagentes dos sites, e também para identificar as percepções do jornalista em relação à realização das campanhas, investigando dificuldades e a visão do trabalhador sobre sua profissão. De acordo com Lodi (1998), a entrevista traz elementos de caráter subjetivo que não são encontráveis apenas em um processo de observação, como opiniões e percepções, que é o que se pretende obter nesse processo.

Entre os principais temas avaliados nas entrevistas, procuramos saber como os jornalistas entraram em contato com a ideia do financiamento coletivo, como funcionou o processo de planejamento e desenvolvimento da campanha, o nível de conforto com a ideia de gestão de uma campanha, o quanto se sentiriam confortáveis para investir dinheiro próprio para iniciar o projeto e aspectos do gerenciamento do projeto em si. Aspectos do histórico de atuação dos jornalistas também foram abordados para que se possa compreender se o cenário de precariedade das redações e das contratações de profissionais tem alguma relação com o fato de eles buscarem financiar projetos coletivamente pela internet. Além disso, procuramos identificar se os jornalistas possuem algum temor em pedir dinheiro online e como acontece a relação de confiança e hierarquia com o público.

Do ponto de vista da materialidade, entende-se que os suportes influenciam diretamente o resultado dos conteúdos finais das publicações (MCLUHAN, 1964). Por

exemplo, ao considerar a extinta plataforma Contributoria56, que previa no seu método

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