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A Agência Pública é uma instituição voltada ao jornalismo investigativo sem fins lucrativos fundada em 2011 na cidade de São Paulo pelas jornalistas Natália Viana, Marina Amaral e Tatiana Merlino. A missão da iniciativa é produzir grandes reportagens com foco no interesse público, priorizando temas como Direitos Humanos, populações indígenas, reforma agrária, questões ambientais, segurança pública, impactos de megaeventos esportivos, tortura e violência por parte de agentes do Estado. As reportagens da agência são reproduzidas por mais de 70 veículos de comunicação e disponibilizadas gratuitamente sob licença Creative Commons59

59 “O Creative Commons, um projeto criado pelo professor Lawrence Lessig, com sede na Universidade

de Stanford, é coordenado no Brasil pelos professores e pesquisadores Pedro Mizukami e Eduardo Magrani, do Centro de Tecnologia e Sociedade (CTS) da FGV DIREITO RIO, e pelo pesquisador Sérgio Branco, do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio). O Creative Commons tem o objetivo de expandir a quantidade de obras criativas disponíveis ao público e permitir sua reutilização, por meio de licenças jurídicas. A equipe do Creative Commons Brasil trabalhou ativamente na adaptação das licenças CC para o ordenamento jurídico brasileiro”. (CREATIVE COMMONS BRASIL, 2017, s.p.)

(AGÊNCIA PÚBLICA, 2017). De acordo com dados disponibilizados no site da iniciativa, a agência já recebeu mais de 30 prêmios, e ficou como finalista e/ou premiada em competições como o Prêmio Esso, Premio Gabriel García Márquez de Periodismo e o Online Journalism Awards da Online News Association (ONA), premiações clássicas e de renome internacional.

A Pública ficou conhecida nacionalmente pelas campanhas de crowdfunding para financiar o projeto Reportagem Pública nos anos de 2013, 2015 e 2017. Após doações, os colaboradores passam a ganhar status de conselheiros editoriais que possuem influência direta nas decisões sobre quais pautas serão cobertas com os recursos arrecadados.

QUADRO 7 - Campanhas de crowdfunding realizadas pela Agência Pública

Campanha Valor pedido Valor arrecadado Número de apoiadores Prazo Valor médio da doação Reportagem Pública R$47.5 00 R$58.935 793 08/08/2013 a 21/09/2013 R$74,31 Reportagem Pública 2015 R$50.0 00 R$70.200 945 21/01/2015 a 07/03/2015 R$74,28 Reportagem Pública 2017 R$80.0 00 R$ 84.483 1.134 12/09/2017 a 27/10/2017 R$74,50 Fonte: O autor com dados das páginas das campanhas da Pública no Catarse.

Na primeira campanha Reportagem Pública, realizada em 2013, foram solicitados R$47.500 ao público com a garantia de que a Omidyar Network iria doar mais R$1 para cada arrecadado, prática conhecida como matchfunding60. Ao todo,

foram arrecadados R$58.935 de 793 pessoas, ou seja 124% da meta. O mote da campanha era “Está na hora de mudar o jornalismo no Brasil. Venha fazer parte disso!” (CATARSE, 2013, s.p.). O objetivo era distribuir 10 bolsas de R$ 6 mil para que jornalistas realizassem investigações independentes e dava a possibilidade de os doadores escolherem quais reportagens gostariam de ler e acompanhar a rotina de

60 Matchfunding é a prática de uma instituição complementar doações coletadas em crowdfunding com

o mesmo valor ou algo próximo do arrecadado na campanha como forma de estimular os interagentes a doarem mais. A lógica é de que as pessoas ficam estimuladas a doar mais quando sabem que sua doação será dobrada.

produção até o lançamento dela. A proposta inicial de distribuição de gastos era a seguinte:

GRÁFICO 3 - Proposta de distribuição dos valores arrecadados na campanha Reportagem Pública

Fonte: o autor com dados da página da campanha no Catarse

Com o valor arrecadado superando a meta inicial, a Pública aumentou o número de bolsas disponíveis aos jornalistas. As recompensas para essa edição da campanha estão descritas abaixo:

QUADRO 8 - Recompensas oferecidas aos doadores da campanha Reportagem Pública

VALOR RECOMPENSA

R$ 20 ou mais Fazer parte do conselho editorial. R$ 35 ou mais Benefícios anteriores e adesivo.

R$ 50 ou mais Benefícios anteriores e ebook com o conteúdo final do projeto. R$ 80 ou mais Benefícios anteriores e um livro.

R$ 120 ou mais Benefícios anteriores e uma newsletter sobre jornalismo.

R$ 150 ou mais Benefícios anteriores e um workshop sobre jornalismo em rede. R$ 200 Benefícios anteriores e acesso ao streaming do workshop.

10 bolsas de R$6 mil para reportagens

Remuneração total do chefe de reportagem e editor Remuneração total do checador de reportagens (fact- checker)

R$ 2.000 ou mais

Benefícios anteriores e nome com destaque no site da Pública.

Fonte: o autor com informações da página da campanha no Catarse

Na campanha Reportagem Pública 2015, segunda edição do projeto, foram solicitados R$ 50 mil e arrecadados R$ 70.200 de 945 doadores. O mote foi “Ocupe a Pública”, por mudar a lógica de concessão de bolsas e começar a possibilidade de o público escolher diretamente quais as pautas seriam realizadas pelos repórteres da própria agência. Enquetes eram enviadas por e-mail e a votação acontecia em um sistema online criado pela própria agência. A ONG propôs gastar o dinheiro da seguinte forma:

GRÁFICO 4 - Proposta de distribuição dos valores arrecadados na campanha Reportagem Pública 2015

Fonte: Agência Pública, 2015

As recompensas para essa edição da campanha estão resumidas no seguinte quadro:

QUADRO 9 - Recompensas oferecidas aos doadores da campanha Reportagem Pública 2015

Valor da doação Recompensas

R$ 20 ou mais Fazer parte do Conselho Editorial, receber atualizações das reportagens durante a investigação, participar de um grupo secreto com os jornalistas no Facebook e ter o nome colocado no site da iniciativa.

R$ 35 ou mais Todos os benefícios anteriores e participação em videoconferências com os repórteres no dia da publicação das matérias, um adesivo feito por um ilustrador.

R$ 50 ou mais Todos os benefícios anteriores, além de um ebook com todas as reportagens produzidas pela agência em 2014 e 2015. R$ 80 ou mais Todos os benefícios anteriores, mais uma foto feita por

fotojornalistas da Agência Pública ampliada em formato A4. R$ 100 ou mais Todos os benefícios e um livro da Plantados no Chão de Natália

Viana.

R$ 130 ou mais Todos os benefícios e um dia de visita à redação e participação no workshop sobre como planejar e executar uma pauta investigativa.

R$ 2.500 ou mais Todas as recompensas anteriores, mais o título de padrinho/madrinha da Pública, todas as reportagens e comunicações por e-mail e nome com destaque na seção de financiadores no site.

Fonte: o autor com dados da página da Agência Pública no Catarse.

Além disso, foram oferecidas recompensas-extra ao longo da campanha. Quem doasse R$ 25 ou mais ganhava um ingresso para a festa “Investiga que eu gosto”, um baile pré-carnaval organizado pelo grupo, três edições do livro “A Revoada das Galinhas Verdes” de Fúlvio Abramo para quem doasse R$ 40 ou mais, quatro edições do livro Cypherpunks de Julian Assange, Jacob Appelbaum, Andy Müller- Maguhn e Jérémie Zimmermann para quem doasse 45 ou mais

Na campanha Reportagem Pública 2017 foram solicitados R$ 80.000 ao público e arrecadados R$ 84.483, ou seja, 105% da meta, doados por 1.134 pessoas. A proposta era gastar R$ 58 mil em reportagens, R$10,4 mil com a taxa cobrada pelo

Catarse, R$8mil na produção e entrega de recompensas e R$ 3,6 mil com o pagamento de impostos.

QUADRO 10 - Gastos propostos pela Agência Pública no projeto Reportagem Pública 2017

Fonte: Agência Pública, 2017

O mote da campanha foi afirmar a Pública como um contraponto ao mar de informações sem contexto na internet.

A internet está cheia de notícias, comentários e opiniões. Tem muitos sites por aí. Mas o que ainda faz falta é jornalismo investigativo - aquele que cava documentos, denúncias e crimes escondidos. No meio de tanta informação, você só consegue chegar à verdade se você investiga. É o que nós da Agência Pública fazemos.

Apoiando a Reportagem Pública, é você quem decide o que a nossa equipe deve investigar todo mês. Venha fazer parte disso!

Várias pessoas já apoiam, apoie você também! (CATARSE, 2017, s.p.)

QUADRO 11 - Recompensas oferecidas aos doadores da campanha Reportagem Pública 2017

Valor da doação Recompensas

R$30 Fazer parte do conselho editorial

R$40 Benefícios anteriores e um adesivo da campanha.

R$60 Benefícios anteriores e selos da iniciativa Truco (projeto de checagem de dados da Pública).

R$120 Adesivo, participação no conselho editorial e uma foto jornalística produzida pela agência pública dos fotojornalistas Marcelo Prest e José Cícero da Silva.

R$150 Adesivo, participação no conselho editorial e participação no workshop “não compartilhe fake news”.

R$200 Adesivo, participação no conselho editorial e uma edição impressa da história em quadrinhos jornalística Meninas em Jogo produzida pela Pública.

R$800 Adesivo, participação no conselho editorial e uma ilustração do artista Caerano Patta.

R$1000 ou mais Adesivo, participação no conselho editorial e uma fotografia de Ana Carolina Fernandes ou de João Roberto Ripper.

Fonte: o autor com dados da página da Agência Pública no Catarse

Além das recompensas expostas no quadro, ao longo da campanha a equipe lançava outras possibilidades de apoio com brindes limitados. Por exemplo, foram distribuídas duas edições do livro “O Estado de Narciso” de Eugênio Bucci para doações de R$ 60 ou mais, duas edições do livro “O Nascimento de Joyce” de Fabiana Moraes para doações de R$ 50 ou mais, cinco do “Com o Mar Por Meio - Cartas de José Saramago e Jorge Amado" para R$ 60 ou mais e 30 edições de “Plantados no Chão” de Natália Viana.

Atualmente, a Agência Pública conta com financiamento da Fundação Ford61 por meio do programa de Direito e Acesso à Mídia (que também é uma das mantenedoras da Casa Pública), Instituto Betty e Jacob Lafer, Aliança pelo Clima e Uso da Terra e Oak Foundation62 (financiadora institucional e da Casa Pública).

Como trabalhos mais relevantes, a iniciativa destaca três reportagens. A primeira é a investigação sobre a mineradora Vale em Moçambique e sobre a construtora Odebrecht em Angola63 realizada em 2015, que foi finalista do prêmio

61 Disponível em: <http://www.fordfoundation.org/regions/brazil>. Acesso em: 22 jan. 2018. 62 Disponível em: <http://oakfnd.org/>. Acesso em: 22 jan. 2018.

Sociedad Interamericana de Prensa. A segunda foi executada em 2016 no sul do Pará, relatando conflitos de terra entre agricultores e fazendeiros no Complexo do Divino Pai Eterno e fazendo com que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) obtesse uma ordem de reintegração de posse destinando as terras para reforma agrária. O terceiro, também em 2016, foi um levantamento de como federações industriais se articularam pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff64.

No dia 3 de março de 2016 a agência lançou a Casa Pública65, um centro Cultural de jornalismo no Rio de Janeiro dedicado a produzir, apoiar e discutir o jornalismo no Brasil. O espaço se propõem a funcionar de quartas a sábado das 10h às 21h e se localiza na rua Dona Mariana, 81, no bairro Botafogo. O objetivo é fornecer espaço para a realização de eventos como exposições, mostras de filmes, criar workshops, laboratórios e incubar iniciativas de jornalismo independente. Além disso, tornou público o resultado de uma pesquisa intitulada “Mapa do Jornalismo Independente”66, que coletou dados sobre 70 iniciativas de mídia independente que não estão ligados a veículos de comunicação tradicionais, políticos, organizações ou outros tipos de empresas. O objetivo foi compreender como se sustentam e funcionam os empreendimentos jornalísticos. O grupo é responsável também pelo projeto “Truco” que faz checagem de informações divulgadas na imprensa principalmente por políticos.

Atualmente, a Agência Pública tem como diretoras as jornalistas Marina Amaral e Natalia Viana, além de contar com uma equipe de outras 16 pessoas, entre editores, repórteres, repórteres especiais, estagiários, fotógrafos, videomaker e profissionais executando funções administrativas. Entre eles, está a jornalista Marina Dias, Coordenadora de Comunicação, que foi entrevistada por este estudo. O grupo também conta com um conselho consultivo voluntário que se reúne duas vezes por ano para aconselhar a direção da entidade sobre os rumos que devem ser seguidos. Atualmente ele é formado pelos jornalistas Carlos Azevedo, Eliane Brum, Ricardo Kotscho, Jan Rocha, Eugênio Bucci, Dorrit Harazim, Ana Toni e Rosental Calmon Alves.

64 Disponível em: <https://apublica.org/2016/08/como-as-federacoes-empresariais-se-articularam-pelo-

impeachment/>. Acesso em: 22 jan. 2018.

65 Mais informações sobre as atividades da Casa Pública podem ser encontradas em:

<https://apublica.org/casapublica/>. Acesso em: 22 jan. 2018.

A informante deste estudo pela Pública, Marina Dias, é jornalista, vive em São Paulo e tem 26 anos. Ela é graduada em Jornalismo pela Universidade Federal de Londrina. Atua como Coordenadora de Comunicação da agência desde 2014, cuidando da comunicação institucional, divulgação de projetos e realização de parcerias com outros veículos de comunicação para distribuição do conteúdo produzido. Marina nunca trabalhou em veículos de comunicação tradicionais e teve carreira focada em assessoria de imprensa em uma agência de Relações Públicas atendendo uma empresa multinacional.

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