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Não há como olhar para novas experiências no jornalismo sem fins lucrativos [...] e acreditar que o jornalismo está seguro nas mãos de empresas voltadas ao lucro. E não há como olhar para experiências de financiamento coletivo de jornalismo [...] ou para a cobertura de manifestações de protesto via celular, e acreditar que só profissionais e instituições da imprensa podem tornar a informação pública. (ANDERSON, BELL e SHIRKY, 2013, p.32)

Ao tratar do tema do jornalismo sem fins lucrativos é comum a resistência provocada pela ideia de que seria uma atividade feita apenas pelo amor dos profissionais ao conteúdo produzido e que colocaria o jornalista em uma posição de precariedade pela baixa ou inexistente remuneração. É necessário, porém, ter a consciência de que a prática não é sinônimo de caridade. Se é verdade que em alguns momentos se faz jornalismo sem fins lucrativos como uma atividade paralela (quase como em projetos sociais ou voluntariado), por outro lado iniciativas independentes e

também de grandes veículos de comunicação mostram que a prática profissionalizada tem se consolidado.

2017 foi o ano em que o jornal The Guardian lançou o “theguardian.org" um braço filantrópico com a missão de "avançar e informar o discurso público e a participação cidadã em torno das questões mais urgentes em nosso tempo através do apoio de jornalismo independente e projetos jornalísticos no Guardian (The Guardian, 2017, s.p.)31. Os focos principais de atuação editorial da iniciativa são o jornalismo investigativo, mudanças climáticas e desenvolvimento econômico, valores democráticos e liberdade de expressão, justiça social, direitos das mulheres, desenvolvimento global, direitos humanos, desigualdade e justiça criminal. O theguardian.org entende que para tornar o trabalho mais amplo e representativo precisa realizar parceiras com universidades, ONGs e veículos de mídia alternativos que trabalhem com os temas que estão sendo investigados. Essa característica combina com aquela citada anteriormente, de que os veículos de comunicação estão mais abertos à colaboração e a gestão dela precisa ser uma habilidade de quem trabalha com jornalismo. Percebe-se uma preocupação em manter a transparência sobre quais os conflitos de interesses fazem parte do processo, algo pouco comum nos veículos de comunicação comerciais:

Theguardian.org instituiu uma Política de Conflito de Interesses para fornecer um meio para diretores ou gestores do theguardian.org lidarem com conflitos de interesse reais, potenciais e percebidos de forma a proteger a integridade da organização. Esta política destina-se a complementar, mas não a substituir, quaisquer leis estaduais e federais aplicáveis que regem conflitos de interesse aplicáveis a organizações sem fins lucrativos e de caridade. Uma cópia desta política é dada anualmente a todos os diretores e gestores titulares e recém chegados ao theguardian.org, e cada diretor e gestor fornece uma cópia assinada para acusar o recebimento, a compreensão e o cumprimento da política, bem como a divulgação de eventuais conflitos.32

(The Guardian, 2017, s.p.)

31 "To advance and inform public discourse and citizen participation around the most pressing issues of

our time through the support of independent journalism and journalistic projects at the Guardian". Tradução livre. Disponível em: <https://theguardian.org/>

32 "Theguardian.org has instituted a Conflict of Interest Policy to provide a means for directors or officers

of theguardian.org to address actual, potential, and perceived conflicts of interest in a manner that protects the integrity of the organization. This policy is intended to supplement, but not replace, any applicable state and federal laws governing conflicts of interest applicable to nonprofit and charitable organizations. A copy of this policy is given annually to all incumbent and incoming directors and officers of theguardian.org, and each director and officer provides a signed copy to acknowledge receipt, understanding, and compliance with the policy as well as disclosure of any potential conflicts”. Tradução livre. Disponível em: <https://theguardian.org/>

O New York Times seguiu a mesma ideia e também lançou um braço filantrópico33 para buscar investimentos destinados ao jornalismo sem fins lucrativos. A operação será comandada por Janet Elder, uma das chefes de redação mais conhecidas do periódico. Em um press release lançado em setembro de 2017, o jornal salienta que fundações em várias partes do país estão provendo financiamento para projetos de jornalismo filantrópico, inclusive para ações do próprio jornal e, portanto, faria sentido, mesmo com uma grande redação já estabelecida, criar uma nova divisão que pudesse buscar esse tipo de financiamento, ter parcerias com universidades e criar empreendimentos que possam auxiliar outras iniciativas, não apenas o Times, mas também para ajudar a estancar a crise de cobertura do jornalismo local.

Owen (2017) lembra que nos últimos 15 anos diversos veículos de comunicação sem fins lucrativos foram lançados nos Estados Unidos, como Texas Tribune34, ProPublica35, MinnPost36 e The Marshall Project37. Outros, passaram a trabalhar de forma não comercial, como o Honolulu Civil Beat38 e o Tulsa Frontier39. No Brasil, também é possível encontrar esse tipo de empreendimento. Os mais simbólicos são os casos da Agência Pública40 (que será analisado neste trabalho), Jornalistas Livres41, O Eco42 e Repórter Brasil43, sendo que vários deles (como a Agência Pública, O Eco e Repórter Brasil) já foram premiados ou finalistas de importantes prêmios de jornalismo, como o Prêmio de Jornalismo Gabriel García Márquez. Na Hungria, se destaca o Direkt3644, nas Filipinas, o Philippine Center for Investigative Journalism (PCIJ)45 e no Reino Unido o The Bureau of Investigative Journalism46, só para citar alguns exemplos.

Benson (2017), explica que o jornalismo sem fins lucrativos começou a se popularizar principalmente nos anos 2000 nos Estados Unidos, fortemente baseado nas doações de instituições como a Ford Foundation, Bill & Melinda Gates Foundation,

33 https://www.nytco.com/a-new-role-for-janet-elder/ 34 https://www.texastribune.org/ 35 https://www.propublica.org/ 36 https://www.minnpost.com/ 37 https://www.themarshallproject.org/ 38 http://www.civilbeat.org/ 39 https://www.readfrontier.org/ 40 https://apublica.org/ 41https://jornalistaslivres.org/ 42 http://www.oeco.org.br/ 43 http://reporterbrasil.org.br/ 44 https://www.direkt36.hu/ 45 http://pcij.org/ 46 https://www.thebureauinvestigates.com/

Open Society e Knight e que se propõem a ser uma maneira de ir além dos compromissos dos veículos com o mercado e focar na prestação de serviço público.

As principais formas de financiamento das iniciativas sem fins lucrativos no Brasil são A) Financiamento de fundações filantrópicas, entidades privadas ou ONGs, como a Fundação Ford e a Omidyar Network; B) Editais de órgãos do governo, agências de fomento ou organizações sem fins lucrativos; C) Premiações, principalmente aquelas que premiam ideias de pautas sobre um tema específico; D) Financiamento coletivo, seja ele pontual ou recorrente por meio de doações mensais; E) Patrocínios corporativos principalmente por conteúdo patrocinado; G) Eventos; H) Publicidade de instituições que concordam com a linha editorial do veículo ou de sistemas automatizados como Google Adsense47; I) Venda de conteúdo para outras organizações jornalísticas; J) Assinatura; K) Prestação de serviços, como cursos de formação e L) Investimento próprio para os veículos que não se sustentam financeiramente (ALVES e BITAR, 2017).

Benson (2017) salienta que é necessário pensar com cuidado sobre quais são as motivações para as organizações filantrópicas depositarem dinheiro nessas iniciativas e quanto de independência elas dão ao jornalismo produzido. Ele se baseia no fato de que em geral os recursos vindos dessas fundações são frutos de isenções fiscais que os governos ao redor do mundo dão para empresas se elas empregam em caridade, mas que apesar disso não há algum tipo de regulação de como esses recursos são empregados. Ao mesmo tempo, os assuntos que vão ser tratados pelos jornais são financiados de acordo com aquilo que a fundação acha que são importantes e os conflitos de interesse nem sempre ficam transparentes. Há uma crítica também de como os veículos financiados por estas organizações produzem conteúdos voltados a grupos elitizados socialmente que já possuem acesso a conhecimento, muitas vezes não preocupados em os popularizar simplificando a linguagem ou levando em consideração as formas de consumo, de produção de sentido e problemas sociais de classes menos abastadas economicamente.

47 O Google AdSense é um serviço automatizado de publicidade de propriedade do Google. O sistema

utiliza uma série de dados coletados dos interagentes, como localização, interesses, buscas anteriores e rede de contatos para mostrar anúncios que se aproximem com o que o público tem interesse em comprar. Os donos dos websites se inscrevem no programa oferecendo espaços nas páginas em que serão exibidos os anúncios. Eles podem ser exibidos em texto, imagem e vídeo. Fonte: https://www.google.com/adsense/

Paulino e Xavier (2015) afirmam que apesar de o setor de jornalismo sem fins lucrativos ter progredido e colaborar para descentralizar a produção de notícias, ainda carece de profissionalização em áreas como marketing, captação de recursos e métricas que impactam diretamente na capacidade de sustentação financeira das iniciativas. Para eles, a construção de uma base de sustento mais diversa e menos dependente de fundações filantrópicas está diretamente ligada à possibilidade de maior independência no conteúdo editorial produzido.

De acordo com Boyer (2014) a crise do jornalismo tem a ver com o avanço da lógica neoliberal em que todas as coisas são transformadas em produto (e a qual Deleuze (2008) chama de capitalismo rizomático). O problema, segundo ele, é que o jornalismo não deve ser feito apenas com o objetivo de lucrar. Quando entendemos que o que é notícia é aquilo que vende mais, cai-se apenas na ideia de que a quantidade de cliques e as métricas de audiência mais superficiais são um espelho do que os leitores querem consumir. E os dados apresentados anteriormente neste estudo mostram o quanto em diversas redações a principal métrica ainda é a visualização. Conforme comentado, Prudkin (2014) percebeu que a motivação dos jornais gaúchos em ter presença na web era principalmente poder ter mais opções de rentabilidade e espaço de publicidade e Boyer (2014), como resultado do seu trabalho etnográfico, percebe que diversos veículos de comunicação, mesmo os que são públicos guiam seus trabalhos com base naquilo que pode chamar mais atenção na internet. Chegamos a acompanhar casos surpreendentemente contraditórios, em que, no Brasil, o veículo Nexo48 faz questão de afirmar que não dá acesso a dados de audiência aos jornalistas para não influenciar no seu trabalho (AGÊNCIA PÚBLICA, 2017) e a NPR (National Public Radio, entidade pública sem fins lucrativos do Governo dos Estados Unidos) tem colocado como estratégia manter os repórteres constantemente informados sobre analytics com direito a um painel de controle com um ranking de quem está gerando mais visualizações para o site (ver imagem 1).

48 O Nexo é um veículo de comunicação que produz reportagens jornalísticas com foco de

contextualizar questões de interesse público utilizando jornalismo guiado por dados e multimídia. Foi criado em 2015 em São Paulo. Disponível em: <https://www.nexojornal.com.br/>. Acesso em 22 jan. 2018.

Figura 1 - Painel de controle da NPR mostra qual jornalista tem maior audiência em tempo real

Fonte: BRADSHAW, 2015

A discussão sobre se o jornalismo deve ser pautado pelos interesses dos leitores ou pelo interesse público não é necessariamente nova, mas defendemos aqui que se por um lado o valor notícia não pode ser regulado pela visibilidade das pautas, por outro, em um cenário de economia da atenção, a produção desinteressada pelas estratégias de engajamento da audiência é também problemática. Usar a ideia de que nem sempre o público sabe o que é mais importante para poder estabelecer o conteúdo gerado é um perigoso artifício que pode resultar em um jornalismo sem qualidade técnica ou estética, que é também parte da preocupação do profissional. O que fica é que com toda a precarização das relações de trabalho, enxugamento das redações, acúmulo de funções e dezenas de habilidades que precisam ser acumuladas, ainda é necessário montar diariamente o quebra-cabeças de como contar as histórias que são relevantes de forma que produza sentido aos leitores. Daí surge, portanto, a possibilidade de produzir um tipo de jornalismo que não esteja necessariamente interessado em atender ao mercado, mas sim falar diretamente aos públicos que o buscam e sem fins lucrativos.

Isso não significa, entretanto, que os veículos sem fins lucrativos estão isentos das pressões do mercado. Estes, e também as empresas de comunicação públicas, são frequentemente impactados pelos padrões comerciais e costumam acompanhar a concorrência ativamente, mesmo que não tenham as mesmas pressões dos veículos com fins de lucro (BOYER, 2014; BENSON, 2017). Os projetos que serão

apresentados nos próximos capítulos de certa forma flertam com essa lógica de produção ao mesmo tempo em que tentam subvertê-la.

3 CROWDFUNDING, COLABORAÇÃO EM REDE E OS EFEITOS NO JORNALISMO

Neste capítulo, pretende-se traçar um panorama conceitual do crowdsourcing e reafirmá-lo como um pano de fundo da realização do financiamento coletivo pela internet. Passa-se, então, a detalhar os aspectos práticos e teóricos do crowdfunding trazendo tanto um estado da arte dos estudos sobre o assunto, quanto fazendo uma conexão com o objeto dessa análise. Finaliza-se com informações sobre a prática no financiamento coletivo do jornalismo e uma reflexão sobre a necessidade de o jornalista adaptar sua rotina profissional a esse cenário.

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