Apesar de grande parte das iniciativas de financiamento coletivo serem de produtos culturais, como filmes, shows musicais e projetos artísticos (VALIATI, 2013), o jornalismo tem se apropriado da prática dando espaço para seções voltadas a ele na maior parte dos sites. Uma das plataformas que ficou mais conhecida dedicada ao financiamento coletivo do jornalismo foi o Spot.Us, primeiro serviço do gênero nos Estados Unidos53. A plataforma iniciou em 2008, fundada por David Cohn, contando com apoio de fundos do Knight Foundation News Challenge. No site, os financiamentos ocorriam diretamente para as reportagens por leitores, que também
53 Disponível em: <http://mediashift.org/2015/03/why-crowdfunded-journalism-pioneer-spot-us-died>. Acesso em: 21 jun. 2017
podiam fazer sugestões de temas a serem investigados. Os jornalistas, por sua vez, podiam sugerir histórias ou trabalhar em cima das já sugeridas. Em uma página específica, o jornalista defendia sua proposta, apresentava seu trabalho e fazia arrecadação.
Em uma análise de conteúdo e comparação com dados da cobertura noticiosa dos Estados Unidos, Träsel e Fontoura (2012) chegaram à conclusão de que as reportagens mais financiadas no Spot.Us eram as que falavam das temáticas de sustentabilidade/meio ambiente e questões sociais, em contraposição direta ao tipo de conteúdo publicado na imprensa americana, mais atento a esportes, política, guerra e governo. De acordo com os autores, isso acontecia por causa das diferenças de objetivos entre a plataforma e os jornais generalistas. O público do site entenderia o Spot.Us como uma alternativa de informação às coberturas da mídia tradicional. Os jornais também teriam dificuldade em lidar com uma rotina de sugestão constante de pautas pelo público nos modelos convencionais de reportagem 24h dos meios de comunicação. Ao mesmo tempo, não faria sentido para o público financiar conteúdos que já poderiam ser consumidos em outros lugares. Desse modo, o microfinanciamento colaboraria para a pluralização de discursos e se mostraria “importante na construção de um noticiário multiperspectivo” (TRÄSEL; FONTOURA, 2012, p. 52). Esse, na nossa opinião, é um ponto importante para se levar em debate: a potencialidade do financiamento coletivo dar atenção a pautas que não seriam cobertas pela mídia tradicional.
Em geral, os recursos angariados nas campanhas são revertidos para o próprio jornalista para pagamento de custos como sua remuneração, viagens e material de trabalho. Em situações especiais, o jornalista pode optar por utilizar o dinheiro para pagar profissionais de apoio, como tradutores e ilustradores, como foi o caso do trabalho publicado em julho de 2015 pela repórter Carla Ruas, que descreveu a situação do Presídio Central de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, considerado o pior do Brasil. Ela submeteu uma proposta no site Contributoria em maio do mesmo ano, obtendo 18.638 pontos (a moeda de troca do site, que foi convertida em dinheiro) vindos de 368 doadores. A matéria também recebeu edição de uma agência de conteúdo especializada em produção de reportagens. Essa foi a segunda reportagem financiada por ela no Contributoria. A primeira teve como título Atolados em terra de sangue e tratava sobre disputas de terras indígenas no Brasil, utilizando o mesmo
modelo de produção em conjunto com a Agência Fronteira. O caso de Carla será um dos analisados neste trabalho e será mais detalhado posteriormente.
O crowdfunding no jornalismo apresenta algumas particularidades que não necessariamente aparecem no financiamento de produtos culturais (AITAMURTO, 2011). Questões geracionais fazem com que repórteres mais antigos na profissão tenham medo de se expor e pedir ajuda em público. Há também receio de que as informações coletadas em um trabalho difícil de investigação possam ser roubadas por outros veículos, se reveladas com antecedência. Faltam também habilidades para criar e gerenciar uma campanha, entre elas dificuldades com produção de vídeo ou desconforto em investir em recursos financeiros e tempo no processo.
O financiamento coletivo no jornalismo não deve ser considerado algo completamente novo. Diversas empresas, ao longo da história já recorreram ao público para solicitar investimentos. O que muda, nesse momento é a possibilidade de interação direta entre o jornalista e o consumidor sem a intermediação de uma estrutura empresarial de mídia. Essa reflexão sobre as relações do jornalismo independente com o crowdfunding fica mais clara se entendermos as motivações para a prática. Conforme comentei no capítulo anterior, a crise na produção de notícias nos meios tradicionais coloca em cheque tanto o trabalho do jornalista dentro das redações, quanto a percepção do público de que o jornalismo representa a opinião pública. Isso faz com que se pense alternativas para financiar um tipo de jornalismo que não seria o coberto tradicionalmente pela grande mídia. De acordo com Hunter (2015), o crowdfunding no jornalismo coloca o interagente em um lugar de mais poder e isso faz com que se questione os modelos de trabalho dos repórteres. Ela acredita que os jornalistas que financiam seu trabalho coletivamente acreditam fortemente na norma jornalística da autonomia, e ao mesmo tempo se sentem com grande responsabilidade com os doadores. Os jornalistas também estariam propensos a desafiar as normas de objetividade, e vendo no crowdfunding uma oportunidade de fazer "jornalismo com um “ponto de vista”” (HUNTER, 2015, p. 272, tradução nossa).
Bennet, Chin e Jones (2015) citam a necessidade de pesquisas na área procurarem entender o que circunda as relações entre os financiadores e os financiados no crowdfunding. Neste trabalho, procura-se entender o que muda nas formas de produção de conteúdo pelo jornalista e com que tipos de pressões, relações e desejos do público que ele precisa estar disposto a enfrentar. Este trabalho não pretende responder à pergunta "o que é mais importante para uma campanha dar
certo" porque as campanhas não são fórmulas matemáticas que podem ser previstas e replicadas. Entendemos, porém, que ter conhecimento do contexto em que as decisões são tomadas e das formas de produção do jornalismo pode ajudar a criar campanhas com mais chance de atingirem seu objetivo.
Para Scott (2015) os produtos culturais financiados por crowdfunding vendem também um elemento de não-possibilidade de produção. O retorno à comunidade se posiciona como uma última esperança de produção daquilo que não consegue aderência à lógica comercial vigente. Os textos de mídia financiados por fãs têm a potencialidade de atender com mais atenção àquelas narrativas que são marginalizadas, seja por serem prematuras ou por não estarem demograficamente privilegiadas. Ela entende que os fãs pagam não pela execução do produto, mas pelo prazer de desejar colocar em prática um produto alternativo à indústria cultural de massa. Esse processo, ao mesmo tempo, faz com que os produtores de mídia precisem repensar os processos de produção de seus textos para absorver a expectativa de colaboração dos interagentes.
Valiati (2013), ao analisar o papel do financiamento coletivo para produtores audiovisuais no Brasil também identifica tanto a importância das redes primárias offline das pessoas, quanto a necessidade de estabelecer um contato constante por meio da internet e que esse processo gera uma expectativa no fã de poder fazer parte da obra. Ela identifica também a formação de comunidades de interesse em torno dos projetos financiados com sucesso.
No jornalismo, objeto deste trabalho, este elemento aparece claramente no perfil de projetos que são desenhados. Em geral, são projetos com alto cunho emocional e com um perfil ativista. O crowdsourcing por sua vez, como um elemento que faz parte do contexto da inteligência coletiva compartilha, em nossa avaliação, de uma característica que remete ao que Walsh (2003) identifica como "paradigma do expert". De acordo com ele, nossa visão sobre a expertise de uma pessoa sobre um assunto tem se modificado influenciado por um contexto de grande acesso a dados e pela inovação em tecnologia.
A nova tecnologia de comunicação atual - a World Wide Web - também promete fazer mudanças profundas na hegemonia do conhecimento de vários campos. Vou descrever aqui alguns exemplos de três áreas com as quais estou familiarizado um pouco - o jornalismo, o mundo da arte e a propriedade intelectual (WALSH, 2003, n. p.).
Não é que as regras internacionalmente difundidas do jornalismo, como a apuração de qualidade, a checagem de informações e a tentativa de manter um equilíbrio nos relatos não sejam mais importantes. Pelo contrário, Wolton (2010) entende que as funções mediadoras (como jornalistas e professores) são ainda mais importantes em um contexto de excesso de informações disponíveis. Para que esses dados sejam de fato transformados em comunicação, seria necessário contextualizá- los e organizá-los, sendo então esses profissionais fundamentais para a vida nas sociedades democráticas. Mas de fato, exigir dos não-jornalistas o mesmo tipo de comportamento não parece plausível. Existem outras formas de organização dessas comunidades e grupos que também podem gerar comunicação que não são menos nobres. Inclusive não são raros os movimentos de pessoas conectadas em rede para desmentir reportagens jornalísticas com informações inverídicas. O fato é que o jornalista passa a ter que lidar, não só em reportagens financiadas pelo crowdfunding, com um ambiente mais poroso e com mais atores.
O barateamento e popularização de smartphones e computadores portáteis possibilitam que o público deixe de ocupar uma posição passiva em relação aos eventos e passe também a reportá-los. Essas pessoas não podem ser vistas apenas como consumidores que reagem à produção de conteúdo feita por profissionais. Elas próprias são produtoras de conteúdo, são a mídia (GILLMOR, 2006). A comunicação tem cada vez mais deixado de ser um local em que alguns poucos que têm condições de montar uma emissora de televisão falam e o resto da população escuta para se tornar um espaço com vozes mais diversas. A mudança desse cenário exige que diversos setores da indústria cultural se reinventem, em especial os jornalistas profissionais.
A grande mídia, em qualquer caso, tratou a notícia como uma palestra. Nós lhe dissemos o que era a notícia. Você comprou, ou você não comprou. Você pode nos escrever uma carta; podemos imprimi-lo. (Se estivéssemos na televisão e você reclamou, nós o ignoramos completamente, a menos que a reclamação tenha chegado ao cabeçalho do advogado de difamação.) Ou você cancelou sua assinatura ou parou de assistir nossos shows. Foi um mundo que criou complacência e arrogância da nossa parte. Era um trem da alegria enquanto durou, mas era insustentável (GILLMOR, 2006, p. xxiv). E, no contexto de uma reportagem financiada com o dinheiro de centenas de doadores, lidar com a expectativa (ou não) de participação desse público em alguma das fases do processo. Seja na construção da reportagem, na investigação ou ao menos na apreciação do texto com olhos mais atentos.
3.3 CLASSIFICANDO OS PROJETOS DE JORNALISMO FINANCIADOS NO SITE