3. Protocol Overview
3.6. Use of TCP, UDP and Multicast in Service Location
3.6.2. Service-Specific Multicast Address
A necessidade de lidar com conhecimentos múltiplos que não fazem parte necessariamente daqueles imaginados inicialmente como basilares do jornalismo não se manifesta apenas na dicotomia entre o editorial e a administração de uma empresa. A ubiquidade tecnológica faz com que o jornalista precise se encaixar num perfil multimídia que precisa dar conta da produção de conteúdo em diversas plataformas, se transformando em um profissional multitarefa, nem sempre elas originalmente pertencentes a ele, como as de design e marketing (DEUZE; WITSCHGE, 2016).
Nessa reestruturação, todo aspecto organizacional da produção de notícias deverá ser repensado. Será preciso ter mais abertura a parcerias, um maior aproveitamento de dados de caráter público; um maior recurso a indivíduos, multidões e máquinas para a produção de informação em estado bruto; e até um uso maior de máquinas para produzir parte do produto final. (DEUZE; WITSCHGE, 2016, p.38)
É importante salientar, todavia, que o domínio de múltiplas habilidades por si só não é suficiente para garantir que os profissionais se sintam seguros nas suas funções na empresa. Alguns efeitos do capitalismo cognitivo, como a pressão por
qualificação constante do profissional e o receio de ser substituído por alguém mais atualizado, encontram eco na forma como os trabalhadores do jornalismo vão
se relacionar com o pensar o futuro dos seus postos. É possível perceber esse tipo de comportamento ao analisar os dados da pesquisa “The Global Survey On
Journalism’s Futures"26, que mostra que os jornalistas 1) estão profundamente preocupados com a possibilidade de não estarem preparados para lidar com novas tecnologias de informação e comunicação, 2) alimentam dúvidas constantes sobre o sucesso dos modelos de negócios dos veículos de comunicação que fazem parte e 3) apresentam receio sobre uma possível substituição da sua força de trabalho por novas tecnologias. Profissionais em início e meio de carreira apresentaram maior tendência a pensar no futuro a médio e longo prazo da profissão, enquanto os mais experientes, e que em geral são responsáveis pelo planejamento estratégico da empresa, se preocupam com o futuro imediato dos modelos de trabalho. Cerca de 50% dos jornalistas entrevistados afirmaram pensar diariamente sobre o futuro da própria profissão, menos de 5% nunca pensam sobre o assunto e o restante pensam semanalmente ou alguns dias pela semana sobre isso.
A pressão por qualificação constante não é acompanhada necessariamente da atualização da corporação em relação aos temas emergentes ou de uma abertura a repensar os processos com o suporte dos profissionais. O relatório mostra que 78% das pessoas que responderam os questionários afirmaram que nunca participaram de algum processo de planejamento a longo prazo ou mapeamento do cenário do futuro do jornalismo. Já 69% afirmaram que as redações em que trabalham não estão conduzindo análises das tecnologias emergentes para saber como elas impactam o futuro das notícias nos próximos 5 a 10 anos.
Apesar de exigirem um amplo leque de habilidades, nem sempre os veículos de comunicação estão preparados/motivados para absorvê-las ou entendem o papel do jornalismo digital. Os conflitos entre a visão institucional da importância da prática e o acompanhamento das tendências de tecnologia da informação ficam evidentes se utilizarmos como exemplo a evolução do cenário local. A Zero Hora, do Grupo RBS, foi a responsável pela primeira aparição de um jornal web na região em 1995 (PRUDKIN, 2014), o que marca o início desse tipo de organização no Rio Grande do Sul, estado em que se localiza o pesquisador que escreve esta dissertação e a universidade em que se apresenta este estudo. Durante boa parte do tempo, os
26 A pesquisa "The Global Survey On Journalism’s Futures" foi desenvolvida pelo Future Today Institute, um instituto de pesquisa com base nos Estados Unidos dedicado a compreender o cenário atual do trabalho de jornalistas e apresentar estudos a gestores da área e acadêmicos. Profissionais indicados por associações de mídia e recrutados pelas mídias sociais do instituto responderam a uma pesquisa online. Cerca de 350 pessoas fazem parte da amostra e expuseram suas opiniões sobre como vêem o seu trabalho no jornalismo futuro.
orçamentos dos veículos digitais locais eram muito limitados e os veículos eram visto apenas como uma extensão da versão analógica do noticiário.
Prudkin (2014) ao entrevistar gestores de veículos de comunicação do RS percebeu que a principal motivação da criação destas instâncias era aproveitar as
vantagens que a internet poderia trazer, aumentar os espaços de publicidade
disponíveis, divulgar o material impresso, dar mais visibilidade à marca e aumentar a renda. Em certos momentos, as empresas chegaram a perceber que o jornal digital não trazia lucro, mas que era necessário seguir a tendência mundial de ter
conteúdo disponível online. Não é à toa que há conflito entre a atuação profissional
atualmente realizada e o imaginário social construído em torno da profissão. Casos como o do Rio Grande do Sul mostram como a reportagem para a web foi vista em um primeiro momento como algo secundário, sem necessidade de investimento e pouco digna de credibilidade. De fato, o autor mostra que as redações foram construídas com o objetivo de ser um apoio ao veículo analógico e que os profissionais trabalhassem em sintonia.
Na prática, durante muito tempo os jornalistas digitais precisavam se limitar a adaptar (ou simplesmente transpor sem grandes adaptações) os conteúdos veiculados em jornais, TVs e rádios para a web. Podemos citar como exemplo a redação local em Porto Alegre do G1 – Portal de Notícias da Rede Globo, maior empresa de radiodifusão do país e administrado localmente também pelo Grupo RBS27. Os poucos jornalistas que ficam alocados nas redações gastam grande parte do tempo adaptando conteúdos produzidos pelos repórteres de televisão, publicando os vídeos no site e confirmando informações entregues à redação por meio de releases de órgãos governamentais ou dados de crimes fornecidos pela polícia. A produção de reportagens originais fica em segundo plano, fazendo com que os profissionais saiam pouco das redações para entrevistas ou acompanhamento de eventos públicos. O quadro local apresentado deixa evidente como se reconhecem as tendências internacionais de jornalismo digital, que a regra é segui-las, mas que nem sempre isso vai se encaixar na teia de fatores que precisam ser equilibrados na administração de empreendimentos jornalísticos.
27 O autor deste trabalho trabalhou no veículo citado em 2014 como freelancer para a cobertura da
Já a pesquisa “The State of Technology in Global Newsrooms” do International Center for Journalists (ICFJ)28 foca no indivíduo e mostra que os jornalistas não estão acompanhando as evoluções tecnológicas em nível mundial. Apenas cerca de 5% das equipes que trabalham nas redações possuem alguma formação em áreas envolvendo tecnologia, 2% empregam especialistas em tecnologia e 1% possuem editores que sabem lidar com ferramentas de análise de dados da audiência (analytics editors). A maior parte dos empregos nas redações são para funções tradicionais, como reportagem, produção e edição (82%) e há pouco espaço para cargos ligados especificamente ao jornalismo digital, como editor de redes sociais ou editor de analytics. As habilidades mais utilizadas pelos repórteres e editores são consideradas primárias, como comentar e postar em redes sociais (72%), tirar fotos (61%), engajar a audiência nas mídias sociais (58%) e distribuir conteúdo em múltiplas plataformas (56%) (INTERNATIONAL CENTER FOR JOURNALISTS, 2017).
Mesmo assim, ainda segundo o relatório, as redações que são apenas digitais (digital-only) e híbridas são mais frequentes do que as produzem conteúdo apenas para meios analógicos na maior parte do mundo, o que parece deixar claro que o caminho é sem volta. O jornalismo também tem se firmado como uma profissão de pessoas jovens, independentemente do formato da redação, com profissionais de 30 a 35 anos sendo os mais frequentes.
Sobre as habilidades técnicas, o estudo mostra que apesar de grande parte dos jornalistas obterem informações por redes sociais, cerca de 10% apenas utilizam ferramentas de verificação dos dados coletados e a preocupação com segurança digital das informações não é frequente nas redações. Facebook, Twitter e Youtube são as mídias sociais mais adotadas pelas empresas para disseminar o conteúdo produzido nas redações. Os veículos tradicionais estão gastando mais tempo para construir uma identidade online do que os mais novos. E também os jornalistas acabam tendo que cuidar mais da sua imagem online, com receio de serem constantemente questionados sobre as opiniões que tomam por parte do público.
28 A pesquisa “The State of Technology in Global Newsrooms” foi executada pelo International Center
for Journalists, com sede em Washington D.C., nos Estados Unidos, em cooperação com a Storyful (uma empresa de pesquisa de tendências em tecnologia), Google News Lab, SurveyMonkey e a Universidade de Georgetown. A investigação é descrita pelo ICFJ como a primeira pesquisa sobre a adoação de tecnologias digitais em meios jornalísticos globalmente realizada. Foram ouvidos 2700 gerentes de redações de 130 países, que responderam questionários divulgados em 12 idiomas.
O relatório mostra também que habilidades como pesquisa, boa escrita e competências de reportagem continuam sendo valorizadas nas redações. Se por um lado há demanda por uma qualificação constante, menos de 30% dos jornalistas afirmaram utilizar habilidades digitais mais avançadas. As habilidades mais relatadas são 1) a publicação de conteúdo em diferentes plataformas, 2) usar tecnologias móveis, 3) produção de áudio e vídeo, 4) utilizar sistemas de gerenciamento de conteúdo (content management system), 5) análise de dados de analytics e 6) criar visualização de dados (como infográficos, por exemplo). Essa dinâmica de atuação acaba impactando também nas formas de obtenção de receitas das empresas jornalísticas. As principais formas de arrecadação de recursos são a publicidade (70%) e conteúdos patrocinados (40%). Nos países da América Latina e África, identifica-se urgência em encontrar novas formas de receita.
QUADRO 1 - Habilidades em mídias digitais usadas regularmente nas redações
HABILIDADES DE PRIMEIRA LINHA – usadas por no mínimo metade das
redações mundialmente
• Publicação de conteúdos e comentários nas mídias sociais (72%). • Fotografia digital (61%).
• Engajamento de audiências nas mídias sociais (58%).
• Produção e distribuição de conteúdos em múltiplas plataformas (56%).
• Uso de analytics e estatísticas da web para medir audiência e engajamento (50%).
HABILIDADES DE SEGUNDA LINHA – usadas por no mínimo um terço das
redações mundialmente
• Reportagem multimídia e edição (49%). • Produção e edição de vídeos (47%).
• Design, desenvolvimento e gerenciamento de websites (47%).
• Uso de ferramentas digitais para verificar e validar informações (47%). • Trabalho com gráficos (44%).
• Produção e edição de áudio (42%).
• Administração de sistemas de gerenciamento de conteúdo e programação (35%). • Uso de dispositivos móveis e reportagem fora da redação (34%).
• Visualização de dados e produção de infográficos (33%).
HABILIDADES DE TERCEIRA LINHA – usadas por menos de um terço das
redações mundialmente
• Jornalismo de dados (32%). • Trabalho com vídeo ao vivo (32%).
• Segurança na rede (29%). • Blogging (26%).
• Construir ou adaptar ferramentas digitais e apps para o uso em redações (26%). • Produção de podcasts (21%).
• Trabalho com realidade virtual ou conteúdo em 360º (21%).
Fonte: INTERNATIONAL CENTER FOR JOURNALISTS, 2017, p.2729
Deposita-se na educação e treinamento do jornalista a esperança de que ele seja blindado dos erros que comumente se vê gerados pela necessidade de correr atrás do tempo (Boyer, 2014). Neste trabalho, identificamos principalmente a necessidade de o profissional do jornalismo ser treinado para administrar processos de crowdsourcing. De acordo com o estudo do International Center for Journalists (ICFJ), essa não é uma demanda de qualificação que os jornalistas procuram nas redações e nem é o foco das empresas jornalísticas nos seus processos de treinamento, conforme mostra o quadro abaixo:
QUADRO 2 - Demandas de treinamento por jornalistas e disponibilidade nas redações
ALTA DEMANDA DOS JORNALISTAS, ALTA DISPONIBILIDADE NAS REDAÇÕES
• Produção de notícias para o jornalismo digital. • Fotojornalismo.
• Reportagem multimídia e edição.
• Uso de ferramentas digitais para validar e verificar informações.
JORNALISTAS DEMANDAM MAIS DO QUE O DISPONÍVEL NAS REDAÇÕES
• Jornalismo guiado por dados.
29"DIGITAL MEDIA SKILLS USED REGULARLY IN THE NEWSROOM - FIRST-TIER SKILLS - used by at least half of newsrooms worldwide: Posting stories and comments on social media (72%), Digital photography (61%), Engaging audiences on social media (58%), Producing and distributing stories across multiple platforms (56%), Using analytics and web statistics to measure audience engagement (50%). SECOND-TIER SKILLS – used by at least one-third of newsrooms worldwide: Multimedia reporting and editing (49%), Video production and editing (47%), Website design, development, and management (47%), Using digital tools to validate and verify information (47%), Working with graphics (44%), Audio production and editing (42%), CMS management and coding (35%), Mobile and backpack reporting (34%), Data visualization/production of infographics (33%). THIRD-TIER SKILLS – used by less than one-third of newsrooms worldwide: Data journalism (32%), Working with live video (32%), Using analytics and web statistics to drive the news agenda (31%), Cybersecurity (29%), Blogging (26%), Building or adapting digital tools/apps for newsroom use (26%), Podcast production (21%), Working with VR/360 (21%)". Tradução livre.
• Segurança na rede
• Programação para a web, design e desenvolvimento de softwares
JORNALISTAS DEMANDAM MENOS DO QUE O DISPONÍVEL NAS REDAÇÕES
• Pesquisa em redes sociais e verificação de informações. • Publicação de conteúdos e comentários nas mídias sociais. • Produção e distribuição de conteúdo em múltiplas plataformas. • Reportagem em tempo real, publicação ao vivo no Twitter e blogging. • Uso de dispositivos móveis e reportagem fora da redação.
• Colaboração entre departamentos diferentes da redação.
BAIXA DEMANDA DE JORNALISTAS, BAIXA DISPONIBILIDADE NAS REDAÇÕES
• Construir ou adaptar ferramentas digitais para e aplicativos para o uso em redação. • Otimização para motores de busca.
• Crowdsourcing. • Gráficos.
• Produção de podcasts. • Blogging.
• Entender e utilizar os recursos de analytics das redações.
Fonte: INTERNATIONAL CENTER FOR JOURNALISTS, 2017, p.32, grifo nosso30
Filloux (2017) pensa que as escolas de jornalismo deveriam, além de trabalhar os elementos básicos de apuração, entrevista, produção, edição, e questões éticas e legal, também dar conta de conhecimentos como economia digital, empreendedorismo, busca por financiamento, desenvolvimento da audiência, negociação e gerenciamento de projetos mesmo que isso os faça parecer mais com estudantes de uma escola de negócios. Grande parte do conteúdo, nessa concepção, poderia ser ministrado em aulas especiais que duram metade de um dia ou oficinas com aulas distribuídas durante o semestre dependendo da complexidade do assunto.
30 "JOURNALISTS’ DEMAND FOR TRAINING AND NEWSROOM AVAILABILITY - HIGH
JOURNALIST DEMAND, HIGH NEWSROOM AVAILABILITY: Digital news production, Photojournalism, Multimedia reporting and editing, Using digital tools to validate and verify information. JOURNALIST DEMAND GREATER THAN NEWSROOM AVAILABILITY: Data journalism, Cybersecurity, Web coding, design, and development. JOURNALIST DEMAND LOWER THAN NEWSROOM AVAILABILITY: Social media research and verification, Posting stories and comments on social media, Producing and distributing stories across multiple platforms, Real-time reporting, such as live-tweeting and blogging, Mobile and backpack reporting, Collaborating across newsroom departments. LOW JOURNALIST DEMAND, LOW NEWSROOM AVAILABILITY: Building or adapting digital tools and apps for newsroom use, Search engine optimization, Crowdsourcing, Graphics, Podcast production, Blogging, Understanding and using newsroom analytics." Tradução livre.
Partimos da ideia de que além de conhecimentos focados na gestão em si, disciplinas dos campos das ciências sociais e humanas também deveriam fazer parte desse tipo de programa, mas que antes de tudo seria necessário para a formação dos cursos de jornalismo ter a consciência de que o trabalho em redações jornalísticas de empresas com objetivo de lucro não é a única alternativa.
Fica evidente, portanto, a expectativa criada sobre o jornalista, que adquira e execute uma série de habilidades. Rodrigues (2013), chegou a presenciar em um evento um editor de um importante jornal brasileiro se referir ao “jornalista Xiva” como o ideal a ser alcançado. De acordo com a autora, ele fez alusão à divindade hindu que possui diversos braços para exprimir o desejo por “um jornalista que seja capaz de apurar, escrever, fotografar, filmar, fazer locução, editar etc.” (RODRIGUES, 2013, p.31). O termo utilizado pela autora foi o que inspirou o nome deste capítulo.
Passamos a caracterizar e conceituar o jornalismo sem fins lucrativos por compreender que ele está intimamente ligado aos objetos que serão analisados neste estudo, mas as alternativas possíveis não devem se limitar a ele. Diversas iniciativas jornalísticas têm achado formas de sustento que vão além dos modelos tradicionais: produção de eventos, venda de pesquisas especializadas, captação de dados, propaganda nativa e iniciativas de jornalistas que individualmente mantém seu trabalho com o apoio de editais ou de publicidade em mídias sociais.