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CHAPTER 10: SPECIAL TOPICS

Ao parafrasear Paulinho da Viola em sua canção “Timoneiro” – “Não sou eu que me navega, quem me navega é o mar” – e dizer de si mesmo em primeira pessoa que “não fui eu que me fiz assim, foi a Mooca que se fez em mim” (In: KÜNSCH, 2006, p. 18), o cronista mooquense Magalhães Jr. parece chamar a atenção para uma dimensão fundamental do “olhar insubordinado”, ou “insurgente”, a que se refere Eliane Brum. Trata-se de perceber aquilo para o que chama a atenção Cremilda Medina em Entrevista: o diálogo possível (1990), que é a mudança que costuma ocorrer no jornalista autor e mediador social no exercício de entrevistar as suas fontes, não de forma burocrática, mas amparado no que Medina (2006) também chama de Signo da Relação, que é fundado na linguagem dos afetos. Por linguagem ou linguagens dos afetos, uma expressão que de uma forma ou de outra aparece em profusão nesta tese, entendo um ou muitos tipos de relação que aproximam sujeitos entre si, em uma atitude que admite e comporta o diálogo possível, a compreensão, o abraço do humano ou daquilo de humano que em nós e nos outros habita.

Toda insistência possível nesse ponto não haverá de ser demais nem sobrar. Em resumo: a Mooca perfilada passa a existir como sentidos na alma do repórter, “a história que se conta acaba por contar a própria história do contador”, escreve Künsch (In: KÜNSCH, 2006, p. 8). Em síntese, há na produção da reportagem um processo pedagógico de aprendizagem, principalmente, como ocorre de modo mais intenso, por certo, na produção de perfis, quando uma alma está diante de outra alma.

Carl Gustav Jung, o pai da Psicologia Analítica, chamava a atenção para esse momento transformador, ao convidar o terapeuta – quando num momento desses –, a

pensar que o método, as teorias e as técnicas não são nem de longe mais importante que se pôr em presença (JUNG, 2006). O filósofo e educador Martin Buber, umas das mais fortes referências no campo da educação e da comunicação dialógica, em Eu e Tu (2004), sua obra mais importante, ensina que o diálogo entre sujeitos, entre um Eu e um Tu, pode se dar também entre um Eu e um Isso, o Sujeito e o Objeto, a partir do instante em que, rompida a relação puramente objetiva, um Isso passa a ser transformado em um Tu pelo Eu.

Um aspecto bem interessante dessa discussão é que os autores de Casa de taipa, movendo-se, como foi dito, no universo do jornalismo literário, fizeram desse próprio fato uma ferramenta de natureza metodológica, ao instituir que cada um deles, ao final de uma de suas matérias – mas sempre numa referência ampla ao todo de sua aproximação ao bairro –, escrevesse um making of, com um título igual para todos: “Eu e o bairro da Mooca”.

Antes de dar uma rápida espiada em algumas dessas manifestações e também prestar atenção no que esta autora relatou sobre a relação de amor e encanto para com o bairro paulistano da Mooca, doze anos atrás, podemos adiantar que esse tipo de relação, ou melhor, de vinculação entre repórter e sua(s) fontes, uma verdadeira aprendizagem, é vista como da mais alta relevância no interior do projeto “Jornalistando”, o laboratório de produção de perfis jornalísticos que nos ocupará na quarta etapa desta nossa viagem. Será interessante observar como isso se dá de forma quase natural, realçando os afetos envolvidos numa relação desse tipo. Os autores dos perfis, futuros jornalistas, como se verá, dificilmente conseguem deixar de relatar no produto final de seu trabalho essa relação sujeito-sujeito, que rompe com a ideia positivista de uma relação sempre necessária, de tipo sujeito-objeto, “uma relação feita de distância, estranhamento mútuo e de subordinação total do objeto ao sujeito (um objeto sem criatividade nem responsabilidade), como expressa Boaventura de Sousa Santos (1989, p. 34) em sua crítica contundente ao paradigma do Positivismo.

A goiana Jaqueline Lemos, que deixou o Planalto Central e mudou para São Paulo em 1990, assim fala dessa relação: “Foi um aprendizado e uma delícia. Ouvi tantas histórias, algumas que provocaram nó na garganta e lágrimas (não é, Sônia?; não é, seu Eduardo?)”. Ela diz, no final de seu depoimento: “Agora a Mooca que eu conheço tem outro cheiro, outra cara. Fico pensando se todo bairro de São Paulo esconde histórias assim. Pode ser, mas agora a Mooca é meu encantamento. Fui seduzida. Estou apaixonada por essa gente híbrida de mil histórias” (In: KÜNSCH, 2006, p. 163).

“Aqui na Mooca aprendi a enxergar uma outra São Paulo, tão parecida com a minha terra natal, Araçatuba”, escreve Denise Casatti. “Na Mooca, recuperei um pouco de minha identidade e de minha espiritualidade” (In: KÜNSCH, 2006, p. 163).

“Com o projeto do livro, surgiu enfim a chance de responder a essa questão intrigante: o que é, afinal de contas a Mooca?”, perguntava-se esta autora, então. “Nem adianta o leitor ficar curioso”, explicava. “Depois de meses de apuração, cheguei à conclusão de que não se responde a uma pergunta dessas com palavras e argumentos. Porque a Mooca é também, e principalmente, sentimento”. E continuava:

E também não existe uma apenas. Tem a Mooca das mulheres, personagens fortes como Ana Pantaleão, Anna Cortazzio, dona Zina, Rosana, donas de um pedaço da história do bairro. A Mooca de Juscelino Gadelha, um menino que cresceu mas continua a brincar naquelas ruas, nem que seja na imaginação A Mooca do Francisco, um nordestino que alimenta a alma de filósofo fazendo macarrão... São todas essas Moocas que compartilho um pouco com vocês. Certa de que, agora, existe também uma Mooca minha, só minha. Guardada no meu coração (In: KÜNSCH, 2006, p. 243).

Ainda que acatando com prazer e esperança o ensinamento de Buber sobre a possibilidade de o sujeito transformar uma relação Eu-Isso numa relação Eu-Tu – esta última, a única que nos constitui e institui como humanos (BUBER, 1982; 2004) –, o que fica patente no intercâmbio entre jornalista e fonte – diremos que sobretudo no caso do perfil, por razões que irão se fazendo claras ao longo de todo este trabalho – é que a transformação que resulta de um olhar insubordinado ou insurgente se dá com enorme vantagem em situações em que se dá esse encontro entre almas, de que falávamos – uma relação compreensiva. Ou, em outros termos, lá onde um sujeito está diante de outro sujeito, de preferência tendo gasto ou sujado os sapatos, como propõe Ricardo Kotscho. Ou, sem demonizar as maravilhosas tecnologias digitais, mas mantendo bem firme a consciência de que “não há tecnologia capaz de tornar obsoleto o encontro entre um repórter e seu personagem” (BRUM, 2006, p. 191).

2.3 Aprendizagens

As 9 matérias principais, 9 retrancas, 12 quadros e 4 crônicas (há uma crônica, a primeira, pensada a modo de apresentação da obra) que compõem o Quadro 2 indicam um capital cognitivo mais amplo e profundo do que esse de que estávamos tratando no ponto anterior, que é o da aprendizagem-transformação do eu do repórter – como indicamos, é como se, como resultado de um olhar insurgente e afetuoso (Medina), ao ir ao encontro do Outro o repórter acabasse por encontrar, como num espelho, a Si Mesmo. Mas há mais, muito mais, na miríade de representações, memórias, símbolos, imagens e informações que o trabalho jornalístico desperta e evoca. Isso tem a ver, como dizíamos, com o tema do Jornalismo como forma de conhecimento/saber, um assunto levantado no início desta primeira etapa de nossa viagem (“Roteiro de viagem - parte 1”) e que será estudado com a profundidade possível adiante, na Estação 3.

São temas como o do imaginário do futebol, na reportagem de Bernardete Toneto sobre o Moleque Travesso, o time do Juventus, do qual os mais antigos falam com prazer. Quantos viram o gol mais lindo de toda a carreira de Pelé, na avaliação do próprio jogador, marcado por ele no dia 2 de agosto de 1959? O estádio, lotado, não tinha mais que 4 mil torcedores. Mas somam milhares “as pessoas que juram ter visto a façanha, o que, se fosse verdade, daria para lotar um Maracanã. Ou mais” (In: KÜNSCH, 2006, p. 163). O que importa? Não há imagens físicas, só imagens endógenas: as da imaginação (CONTRERA, 2016). Essas também valem, não?

No mais rebelde dos bairros operários de São Paulo, a polícia andava atenta o tempo todo. “Mais de quatrocentos anarquistas italianos foram deportados entre o começo do século passado e 1992”, escreve Mino Carta em texto reportado por esta autora (In: KÜNSCH, 2006, p. 100). Uma citação mais longa, retirada de “Bombas sobre a Mooca”, de Bernardete Toneto (In: KÜNSCH, 2006, p. 31) pode oferecer talvez um quadro mais denso sobre a dimensão desses conhecimentos que podem ser gerados no comércio do jornalista com as histórias do cotidiano:

Seu Pepe tinha 5 anos quando estourou a Revolução Tenentista de 1924. As razões do movimento ele sabe de ler em livros: oficiais do exército contrários ao governo do presidente Arthur Bernardes (1922-1926) deflagraram uma ação nacional que em São Paulo, resultou na derrubada do então presidente do Estado, Carlos de Campos. O governo federal reagiu e acabou massacrando a população da cidade.

Mas seu Pepe sabe muito mais. Lembra, “como se fosse hoje”, da artilharia pesada que destruiu as torres do Cotonifício Crespi, tomado

pelos revoltosos. Durante 23 dias, a população inicialmente se refugiou em casa. Mas, conforme a ação avançava e os mortos se espalhavam pelas ruas, as famílias começaram a fugir, buscando abrigo em bairros vizinhos.

A revolta durou 23 dias e deixou como saldo 503 mortos e 4.864 feridos, em sua grande maioria civis. Os ataques eram por terra. Aviões despejavam bombas sobre a Mooca, provocando desespero na população (In: KÜNSCH, 2006, p. 31).

Não é possível, nem necessário para os propósitos deste trabalho, inventariar todo um conjunto amplo e complexo de conteúdos humanos, históricos, sociais e políticos, religiosos, gastronômicos etc. que o perfil do bairro da Mooca põe em evidência e desperta. Julgamos que o recado tenha sido dato com suficiência, utilizando-se da força do argumento e da prova. Mas pode ser que alguém entre os leitores se sinta interessado em saber por que o título da obra é Casa de taipa.

Vai mais uma história, uma das muitas possíveis no mundo da produção simbólica, em forma de textão. A ABNT irá me perdoar pela quebra de protocolo.

A dança do Tamanduateí alegrava os primeiros habitantes da Vila de Piratininga, os Tupiniquim, um dos ramos da nação dos Tupi-Guarani. Nas suas águas, homens, mulheres e curumins tomavam banho e brincavam.

Esse contentamento chama a atenção dos primeiros jesuítas que, em 1550, constroem uma capela e uma escolinha no começo da Vila de Piratininga, hoje Páteo do Colégio. Do alto da colina, eles podem ver o rio e as centenas de indígenas da tribo Guaianã, uma palavra singela que significa “amigos mansos”, e que daria nome ao bairro de Guaianases.

Os Guaianã não param quietos. Vão e voltam das matas no que hoje é a cosmopolita Zona Leste de São Paulo. São alegres e riem dos jesuítas, enquanto observam, curiosos, a construção das primeiras casas da metrópole, nos dois lados do rio.

Os jesuítas usavam a técnica da construção em taipa. Começavam com uma armação de madeira. Na beira do rio juntavam montes de argila arenosa, que misturavam com terra e água. Com os pés descalços, faziam um amálgama denso, amarelo, consistente, encaixado entre as madeiras para “taipá-las”. O resto ficava por conta do sol, que endurecia a massa, deixando-a pronta para enfrentar o calor e a chuva.

No início os indígenas olham, sem entender para que servem aqueles troncos revestidos de barro. Pronto entram na dança das pisadas e exclamam: “Moo oca”, “faz casa”.

Os religiosos se entusiasmam com a curiosidade dos Guarani. Enchem as mãos de barro, apontam para a pequena vila no alto da colina e repetem: “Moo oca”, “faz casa”.

O Tamanduateí ouve e segue ligeiro, para contar a novidade por onde passa: “Viva, a Mooca nasceu!” (TONETO, in: KÜNSCH, 2006, p. 22- 23).

Estação 3