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CHAPTER 9: PROGRAM MODIFICATION
O trio de conversas anunciadas dialoga a partir daqui com o Posfácio de Ricardo Kotscho (“Humanos anônimos”), para cujo autor Eliane “se especializou em contar a vida de humanos anônimos” (In: BRUM, 2006, p. 177), apaixonada como ela é “pelo ofício de contar histórias” (In: BRUM, 2006, p. 180). Eliane, recorda Kotscho, ele mesmo um repórter e contador de histórias de olhar insubordinado:
[...] procurava fugir da vala comum da pauta, cavando suas próprias histórias em quebradas escondidas da mídia onde descobriria personagens e assuntos que não estão nas agendas das redações – do solitário enterro de pobre à toca do colecionador das sobras da cidade, do carregador de malas no aeroporto que nunca voou ao cantor cego que inferniza a vizinhança anunciando a mega-sena acumulada (In: BRUM, 2006, p. 180).
O comentário de Kotscho sobre algumas das histórias de A vida que ninguém vê, legitimando a tentativa da repórter de “fugir da vala comum da pauta” indo à descoberta de “personagens e assuntos que não estão nas agendas das redações”, lembra um episódio
13 Interessante observar que essa capacidade de o conhecimento que o jornalismo produz transcender o presente imediato, ou a contemporaneidade (Medina), para se fazer História, com “h” maiúsculo, aparece de forma muito dramática em outra obra, Hiroshima, de John Hersey (2002), que será estudada na segunda etapa de nossa viagem, na Estação 7 (“Berço material do perfil jornalístico”), por se tratar de uma das mais famosas produções da revista The New Yorker, que foi pioneira no cultivo desse gênero no Jornalismo. A história contada por Hersey, como iremos ver em detalhes, é toda desenhada a partir de perfis de seis personagens que sobreviveram à “grande explosão”. Voltando ao tema da História com “h” maiúsculo, é paradigmático o título dado por Matinas Suzuki Jr. ao Posfácio da obra: “Jornalismo com H” (In: HERSEY, 2002, p. 161). Está dito.
14 O tributo está sendo dado, entre outros muitos lugares, também aqui, numa tese que não se pretende hermética no sentido negativo que o jornalista associa ao termo em sua manifestação de apreço ao trabalho da repórter e escritora gaúcha e de quase idêntico desprezo pela “academia”, o que não se justifica. Uma rápida passada de olhos em anais de eventos científicos da área de comunicação e jornalismo, em revistas e em bancos de dissertações e teses, revela que uma das mais admiradas e lidas repórteres brasileiras é também uma das que mais são estudadas “cientificamente”, como queria Marcelo Rech, em maio de 2006, quando Eliane Brum começava a pensar em inscrever o seu livro no Prêmio Jabuti do ano seguinte.
na vida do próprio Kotscho que acabou por transformá-lo no “repórter do pipoqueiro” – ele mesmo que, como conta em A aventura da reportagem, escrito junto com o também jornalista Gilberto Dimenstein (1990), gostava de ficar pela plateia, enquanto todos cobriam o palco”, para dar “uma espiada nos bastidores” (DIMENSTEIN; KOTSCHO, 1990, p. 68).
Contada em verso e prosa por estudiosos, amantes e praticantes da boa reportagem, a história do “repórter do pipoqueiro” é lembrada pelo próprio Kotscho no livro dele e de Gilberto Dimenstein que cito. O contexto era o da visita do general e presidente Costa e Silva a São Paulo num final de semana, tendo Kotscho sido enviado pelo jornal onde trabalhava, O Estado de S. Paulo, para cobrir a passagem do “poderoso general-presidente” por São Paulo.15 O olhar não-domesticado de que fala Eliane Brum se faz presente:
Meio por necessidade de fazer algo diferente [O Estadão não saía às
segundas], meio por sacação, já que a imprensa sempre se ocupava dos
mesmos personagens, civis ou militares, oficiais sempre, fui falar com o povo que estava no Horto Florestal. A melhor história era a de um velho pipoqueiro e resolvi centrar a matéria nele. Publicaram, gostaram, e a partir daí virei o “repórter do pipoqueiro”, uma forma sutil de me esculhambar, assim como quem diz: esse é o cara que nós temos para escrever sobre coisas sem importância (DIMENSTEIN; KOTSCHO, 1990, p. 68).
A “fuga da vala comum” ao encontro dos personagens “humanos anônimos”, como os chama Kotscho, é ilustrada por ele com o seguinte episódio da vida de Eliane Brum em sua passagem pelo Zero Hora, onde ela entrou em 1998 e ficou até o ano 2000, saindo de lá para trabalhar na revista Época:
Escalada para cobrir a inauguração do primeiro McDonald’s de Porto Alegre, na praça da Alfândega, já em sua estreia no jornal Eliane encontrou o filão que a diferenciaria dos outros repórteres. Em vez de fazer o registro burocrático habitual, ela puxou conversa com os aposentados que frequentam a praça. Acabou escrevendo um texto sobre o estranhamento entre a recém-chegada modernidade fast-food e os personagens de um tempo passado (In: BRUM, 2006, p. 180).
15 O general Artur da Costa e Silva foi o segundo presidente da Ditadura Militar implantada no Brasil em 1964. Com ele teve início a fase mais brutal do regime militar, tendo sido promulgado em seu governo o Ato Institucional n. 5 (AI-5), em 1968, que lhe dava poderes para fechar o Congresso Nacional, cassar políticos e oficializar a repressão. Governou de 15 de março de 1967 a 31 de agosto de 1969.
Kotscho chama de “crônica” ao jeito de Eliane Brum escrever reportagens ou também, vice-versa, de “reportagem” o jeito de ela escrever crônicas – embora tanto ele quanto Rech e a própria repórter gaúcha não poderiam negar que Eliane o faz, independentemente se reportagem ou crônica, utilizando-se da técnica do perfil. Além disso, Kotscho também traz a informação de que essa série de textos – de reportagens, crônicas ou perfis jornalísticos, eu diria, sem me escandalizar com os modos como os gêneros, no cinema, na literatura ou nas artes e também no Jornalismo, se hibridizam, entrecruzam, fertilizam – ganhou em 1999 o Prêmio Esso Regional, atestando a sua qualidade.
Eliane Brum é um daqueles repórteres, aponta ainda Kotscho, que “têm iniciativa, fogem dos lugares-comuns e escrevem com a alma, o que é cada vez mais raro” (In: BRUM, 2006, p. 181).