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Comecemos pelos títulos, contextos e também os conteúdos de cada uma das 23 histórias (Quadro 1), que deixam em seu conjunto bem clara a opção da repórter por aquilo que ela considera o ordinário que é extraordinário na vida de todo mundo, de modo ainda ma is forte na vida dos anti-heróis do cotidiano.

“Para Renata, uma pequena prova de que não existem vidas comuns – só olhos domesticados”, escreveu Eliane Brum, em 14 de novembro de 2006, como dedicatória para o exemplar da obra adquirido por esta autora em um de seus lançamentos. O tema da “domesticação do olhar”, que não deixa ver o extraordinário daquilo que Maffesoli, em distintas de suas obras, chama de “vida sem qualidades” ou de “anódino” (MAFFESOLI, 1995; 1998; 2007), será objeto de uma conversa com Eliane Brum mais adiante, quando eu me dedicar aos conteúdos práticos e teóricos de seu ensaio sobre “O olhar insubordinado”.

Por enquanto, vale a anotação de que, em Eliane Brum, como deverá ficar claro, o lado mágico do perfil nasce do confronto visceral da repórter com a tragédia-comédia dos desafortunados, os anônimos, os “zés e marias”, como a eles se refere Marcelo Rech (In: BRUM, 2006, p. 14).

Quadro 1: As vinte e três histórias de A vida que ninguém vê.12

TÍTULO LUGAR ASSUNTO

História de um olhar (p. 20-25)

Vila Kephas, em Novo

Hamburgo/RS.

O enjeitado Israel, filho de pai pedreiro e mãe morta, se encanta pela professora Eliane e começa a estudar, junto com outras 31 crianças. “Imundo, meio abilolado, malcheiroso, Israel vivia atirado num canto ou noutro da vila. Filho de pai pedreiro e de mãe morta, vivendo em uma casa cheia de fome com a madrasta e uma irmã doente. Desregulado das ideias, segundo o senso comum. Nascido prematuro, mas sem dinheiro para diagnóstico. Escorraçado como um cão, torturado pelos garotos maus. Amarrado, quase violado. Israel era cuspido. Era

apedrejado. Israel era a escória da escória” (BRUM, 2006, p. 22).

Adail quer voar (p. 26-33)

Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre/RS.

Adail José da Silva veio de Canela, no interior do estado, para se tornar carregador de bagagem no maior aeroporto do Rio Grande do Sul. Sonha em viajar de avião.

“Desembarcou ali, defronte ao Aeroporto Salgado Filho, 36 anos atrás. E a diferença se deu logo no início, nesse pouso atabalhoado. Porque chegou num ônibus de molas cansadas, emerso da serra gaúcha, onde tinha as mãos manchadas pelo sangue dos pinheirais. Chegou apavorado porque o único avião que vira na vida estava espatifado nas encostas de Canela, pássaro decaído que durante semanas hipnotizou uma legião de colonos que só voavam com os dois pés no chão. Chegou com a mala vermelha, de couro, meia dúzia de tarecos dentro, grudada no corpo. Estaqueou na porta do aeroporto, naquele tempo metade do que é hoje, mas já enorme para ele. E se recusou a entrar” (BRUM, 2006, p. 28). Enterro de pobre (p. 34-39) Campo Santo do Cemitério da Santa Casa, em Porto Alegre/RS.

O abatedor de árvores Antonio Antunes enterra o filho que morreu antes de nascer. “Enterro de pobre é triste menos pela morte e mais pela vida”. “Deixa para trás o filho sem nome, sepultado numa cova rasa, sem padre e sem flor. Porque a cova de pobre tem menos de sete palmos, que é para facilitar o despejo do corpo quando vencer os três anos do prazo. Então é preciso dar lugar a outro pequeno filho de pobre por mais três anos. E assim sucessivamente há 500 anos” (BRUM, 2006, p. 39). Um certo Geppe Coppini (p. 40- 45) Cidade de Anta Gorda, em direção ao Nordeste do RS.

Geppe Coppini é o único mendigo da cidade de Anta Gorda, no Rio Grande do Sul. “Geppe Coppini é uma incógnita porque nunca pediu nada. Não há ninguém, em toda a Anta Gorda, que possa afirmar que Geppe tenha

12 Preciso fazer uma observação sobre a manutenção desse extenso quadro nesta parte do trabalho, e não nos Apêndices, como se poderia talvez esperar. Essa opção se justifica pela natureza do exame da obra que estou efetuando, tanto fenomenológica (o que ela mostra, indica ou deixa ver, o mais sem nossa interferência possível) quanto de análise de seus conteúdos (o que a obra contém, o que ela nos oferece como produto, seus conteúdos e os procedimentos adotados em sua confecção). O mesmo vale, adiante, para o Quadro 2, que é diferente do Quadro 1 em alguns aspectos, mas ainda mais denso, como se verá, em coisas para mostrar e em coisas para ser analisadas.

pedido alguma coisa. O que seria Geppe então? Dizem que um bambino como todos os outros da Linha Terceira Moresco, nascido Josephino Coppini em 11 de novembro de 1908. Pois até os dez anos, Geppe era apenas um gurizote de calças curtas e pernas finas. Foi quando uma cigana de lábios de cicuta apareceu naquela fatia importada da Itália (...) Pois essa, específica, rogou uma praga para o menino Geppe, depois que seus pais a expulsaram de suas terras: ‘Enquanto viver, esse guri mais terá bem’” (BRUM, 2006, p. 42-43).

O colecionador das almas sobradas (p. 46- 51) Número 81 da rua Bagé, no bairro de Petrópolis, em Porto Alegre/RS.

Oscar Kulemkamp tem a estranha mania de guardar tudo o que as pessoas jogam no lixo, como memórias de um passado esquecido. “Começou resgatando banquinhos amputados e lhes devolvendo as pernas. Acabou tomando para si a missão de juntar os pedaços da cidade. Vai de lixeira em lixeira, até onde alcança, recolhendo nacos de pau e de canos, ventiladores estragados, vasos quebrados, brinquedos abandonados. Tarefa árdua, porque ele é um só combatente contra um exército de 1,3 milhão de pessoas que todos os dias botam fora as sobras de suas vidas. Oscar Kulemkamp apropriou-se dessas vidas jogadas fora. E salvou-as do aterro sanitário do esquecimento” (BRUM, 2006, p. 48). O cativeiro (p. 52-57) Zoológico de Sapucaia do Sul, região metropolitana de Porto Alegre/RS.

Visita ao zoológico para contar as histórias de alguns dos seus animais mais famosos, no confronto entre liberdade e escravidão e no comparativo entre humanos e animais. “Dezenove anos atrás, [Nely, a elefante] matou um visitante. Um mineiro de Criciúma que comemorava a aposentadoria. Recém-liberto da solidão trevosa das minas de carvão, ele montou sobre Nely. Ela o derrubou sobre o chão e esmagou sua cabeça. Tão parecidos em sua tragédia, a elefanta e o homem” (BRUM, 2006, p. 56). O sapo (p. 58-63) Calçadão da Rua da

Praia, região central de Porto Alegre/RS.

Há trinta anos Alverindo, “seu Vico” para os amigos e “Sapo” para o povo da rua, pede esmolas com a barriga contra a calçada, vendo o mundo de baixo para cima. A repórter se agacha, subvertendo as regras do jogo. Quando se despede dele, no final, ele a convida para um churrasco na Páscoa. “Acostumado à tragédia de pagar por tudo que tem, inclusive o afeto, diz que se eu concordar em ir, me paga o táxi. Eu digo que não precisa, que vou por gosto. Apertamos as mãos. Eu volto para o alto” (BRUM, 2006, p. 63). O conde decaído (p. 64-69) Praça Marechal Deodoro, em Porto Alegre/RS.

A história de uma estátua de mármore esquecida em uma praça da região central de Porto Alegre. “Não foram 15 segundos de fama como uns e outros e, mesmo assim, onde acabou? Num insignificante triângulo entre a Duque de Caxias e a Riachuelo, batizado com seu pomposo nome. Sei lá quem é aquele velho, irrita-se o mendigo do lugar. Quem diria. O conde! O conde! Reduzido àquele velho... Ele, que partia para a batalha como se fosse para um salão de baile” (BRUM, 2006, p. 66).

O menino do alto (p. 70-75)

Morro da Polícia, Porto Alegre/RS.

Leandro Siqueira dos Santos, o menino que nasceu duas vezes: a primeira, da mãe. A segunda, aos 12 anos, após ser atropelado e ficar em coma por cinco meses.

“Espantando a fome que assombrava a família com aquela inocência que protege a infância. Suspirando por um videogame que jamais chegaria no Natal, mas mesmo assim sonhando como só os meninos são capazes. Numa das incursões à planície, aconteceu. Nem viu o carro, não viu mais nada. Despertou cinco meses depois. Acordou para o horror. Tinha as pernas retorcidas, as mãos em garras. O menino renasceu. Como prisioneiro” (BRUM, 2006, p. 72). O chorador (p. 76-81) Cidade de Quaraí/RS, na fronteira com a Argentina.

Tierri é um chorador de velórios da cidade, mas não cobra por seus trabalhos. “Chora os mortos de Quaraí. Todos eles. Os ricos, os pobres, os remediados. Os que

sucumbem de paixão, os que tombam de doença, os que caem de cansaço. E também os que arriam por desistência. Até mesmo os que morrem porque esqueceram de viver. Tierri chora os mortos não porque alguém tenha pedido nem porque algum parente tenha pago. Não por contrato, mas por gosto. Tierri o faz porque não chorar os mortos é ofender os vivos. Porque chorar a morte é sua missão na vida” (BRUM, 2006, p. 78).

O encantador de cavalos (p. 82- 87)

Porto Alegre/RS. Menino de dez anos que é louco por cavalos tem a cabeça colocada a prêmio pelas ruas da capital gaúcha. “Cinquenta reais é a cotação da cabeça do menino. O valor é baixo porque quem o quer morto tem pouco mais do que ele. Pouco, não. Para o menino, muito. Tem um cavalo velho. Daqueles nascidos para sofrer, em que as costelas causam dor furando o couro. O crime do menino foi montar no cavalo do carroceiro e galopar com ele pelas avenidas da cidade” (BRUM, 2006, p. 84).

Frida... (p. 88-95) Câmara dos Vereadores de Porto Alegre/RS.

“Frida tornou-se Frida na Câmara de Vereadores. Antes, chamava-se Nilsa Lydia Hartmann. Filha de agricultores do município de Harmonia. Costureira de mão cheia, um dedo mágico também para plantas e flores. Mãe de seis filhos. Casada com um marceneiro e depois separada. Perseguida por um diagnóstico médico: esquizofrenia. Poderia ter sido confinada em um manicômio. Ou ficar esperando a vida acabar em uma clínica. Preferiu inventar a Frida. E, de algum modo, a família compreendeu. Num mundo que se especializou em esmagar, eliminar e encarcerar a diferença, o melhor para Nilsa era ser Frida. E a deixaram à vontade” (BRUM, 2006, p. 90-91). Eva contra as almas deformadas (p. 96-103) Restinga Seca, na região central do Rio Grande do Sul.

Eva Rodrigues é uma mulher negra, pobre e sofre de paralisia cerebral, mas que se recusa a ser tratada como vítima. “Decidiu que não seria coitada. Que o mundo se virasse comisso. Que o mundo achasse outras vítimas para preencher seu horror. Este foi o crime de Eva. Pelo qual jamais a perdoaram. Como não puderam lhe imprimir na testa o rótulo de coitada, a marcaram com outro. Como ela, a deformada, como ela, a deficiente, como ela, a

defeituosa, ousava renegar a mão da caridade, irmã da pena, prima da hipocrisia? Como ousava ela, a anormal, encarar de igual para igual os normais? Parecia até que a exibição do corpo torto de Eva revelava a alma torta do outro. Parecia até que a falha exposta de Eva devassava a falha oculta do outro” (BRUM, 2006, p. 98).

O gaúcho do cavalo-de-pau (p. 104-111) Expointer, realizada na cidade de Esteio/RS.

Vanderlei Ferreira, o “louco de Uruguaiana”, vai todo ano à famosa feira agropecuária montado em um cavalo-de- pau. “Dizem que ele é louco. É possível. Da última à primeira cocheira da Expointer, dizem que ele é louco. Os patrões e também os peões dizem que ele é louco. Até as vacas premiadas e também as chibungas dizem que ele é Louco. Será? Talvez seja ele quem ria. Talvez seja uma grande ironia. Ou talvez ainda ele seja um Dom Quixote de bombacha e cavalo de pau em busca de coxilhas de vento de um tempo que, como ele, seja também uma quimera. Talvez” (BRUM, 2006, p. 106).

O exílio (p. 112- 117)

Ala geriátrica de um hospital.

Vany e Cecília vivem exiladas do mundo lá fora, enquanto convivem com doenças debilitantes. “Elas vivem uma ao lado da outra. Uma em cada cama. Duas ilhas que não se tocam. Há algum tempo Vany nem mesmo enxerga Celina. A artrite que lhe devora as articulações não permite que mova o pescoço para a esquerda. Celina vislumbra o perfil de Vany, mas tem o olhar eclipsado pela janela da rua”. Mas “aos 65 anos, Vany decidiu lutar contra a cena emoldurada pela porta da sala (...). Aterrorizada, Vany pediu a uma amiga, uma artista plástica chamada Dilva Lima, que lhe ensinasse a terapia da arte. Foi quando começou. Carregadas pela voz da professora, Vany e Celina trilharam florestas e mergulharam as pernas mortas em rios imaginários. Sentiram a textura de folhas e flores. Atravessaram tempestades e assistiram a um pôr-do-sol” (BRUM, 2006, p. 64-65).

A voz (p. 118- 123)

Rua da Praia, Porto Alegre/RS.

Clodair Cauby, como é conhecido na Rua da Praia, é um cego canta músicas de Cauby Peixoto e faz anúncios na voz do cantor. “Tem sido uma guerra. Cega, é verdade, mas jamais surda ou muda. E está num momento periclitante. Clodair Cauby se posta perpendicularmente ao curso supletivo e pré-vestibular Monteiro Lobato. E eleva seu canhão de cordas aos céus. No segundo andar, o diretor da escola, Bruno Eizerik, fala por telefone com a agência de publicidade de São Paulo: ‘O que está acontecendo aí em Porto Alegre? Que manifestação é essa?’ – pergunta o paulista incauto. ‘É aquele cego!!!’– murmura Bruno – Aquele cego!!!’” (BRUM, 2006, p. 120).

Sinal fechado para Camila (p. 124-129)

Algum cruzamento de Porto Alegre/RS.

Camila Velasquez Xavier nasceu na Fátima, uma vila da grande Bom Jesus/RS, num barraco de uma peça. “Aos seis anos Camila foi enviada aos sinais para ganhar a vida da família. Logo descobriu que a concorrência era enorme. Que as janelas dos carros eram a versão moderna das muralhas medievais. Camila começou a embelezar sua tragédia. Inventou versinhos que venciam fossos e

arriavam pontes levadiças, arrancando um sorriso perplexo dos motoristas. Eu não posso ficar sem você, meu

trocadinho. Essa tia, esse tio queridinho vai me dar um trocadinho. Camila conquistou a sua diferença nos cruzamentos da cidade. Seus hinos se espalharam pelas sinaleiras e, mesmo depois de sua morte, seguem ecoando pela boca de outras Camila” (BRUM, 2006, p. 127).

Dona Maria tem olhos brilhantes (p. 130-137) Cidade de Viamão, na região metropolitana de Porto Alegre/RS.

Analfabeta, a doméstica e babá trabalhou dobrado para poder dar estudo para os filhos. “Dona Maria tem olhos brilhantes. Maria Alícia Freitas, 55 anos, dez filhos, onze netos e um bisneto, tem olhos brilhantes. Sabe por quê? Porque dona Maria tem um sonho. Descobriu que tinha aos nove anos e conseguiu realizá-lo aos 55. Sim, porque sonhos não se encontram nas prateleiras, não basta atirar o cartão de crédito no balcão e sair com um debaixo do braço. Sonhos são touros xucros. Tem de pegar à unha. É isso ou ficar pelos cantos exercitando a autocomiseração, chapinhando na apatia. Dona Maria tem olhos brilhantes porque corre atrás do seu. E desde então, deu para ficar com os olhos em facho por aí, alumiando o caminho” (BRUM, 2006, p. 132).

O doce velhinho dos comerciais (p. 138-147)

Porto Alegre/RS. David Dubin é um ator, com cara de velhinho simpático, mas que foi torturado durante o Holocausto. “Que David Dubin seja ao mesmo tempo aparência e sentença. Que seja ao mesmo tempo o doce velhinho dos comerciais e uma vítima destroçada do holocausto. Que seja o desejo do futuro e o espectro do passado. Que seja um passado que não viveu no mundo da imagem e um pretérito que não consegue esquecer no mundo real. Esse é o paradoxo de David Dubin. E o paradoxo de David Dubin é, com seu avesso de morte, a possibilidade da vida. Porque a vida só é possível quando cada um consegue, apesar de seu holocausto pessoal, ser também o doce velhinho dos comerciais. É isso. Ou um tiro na cabeça” (BRUM, 2006, p. 140). O homem que come vidro (p. 148-151) Mercado Público de Porto Alegre/RS.

O homem franzino, que come vidro em troca de esmolas em frente ao Mercado, “passou a deglutir garrafas de cerveja, de conhaque, até champanha. Transformou-se, como diz seu desajeitado cartaz de papelão, no Homem de Aço. E assim, ruminando um litro de uísque, on the rocks, Jorge Luiz me fez a pergunta de sua encruzilhada. Tudo porque Jorge Luiz estava deprimido. Lágrimas boiavam nos olhos do homem que engolia cacos. Jorge Luiz Não tinha público, a tragédia inescapável de um artista” (BRUM, 2006, p. 150).

O álbum (p. 152- 161)

Cidade Baixa, bairro de Porto Alegre/RS.

Álbum de capa verde e preta jogado na calçada, provavelmente deixado para trás por algum gari que recusou-se a carregá-lo, vai passando de mão em mão até chegar às de Eliane Brum, na redação do jornal. Então, vira personagem. “É um álbum desordenado todo ele. Como são as vidas. Essa é, em parte, a diferença entre a vida e a literatura, onde os personagens, por mais irreverentes,

têm todas saídas e as entradas em cena calculadas, fazem todos um sentido na trama. Na vida, não. Rostos somem e outros aparecem, e outros que sumiram reaparecem mais tarde, e outros nunca mais” (BRUM, 2006, p. 158). Depois da filha,

Antonio sepultou a mulher (p. 164- 169)

Porto Alegre/RS. Antonio, o mesmo personagem que enterrou a filha recém-nascida no início do livro, sepulta agora a esposa, por complicações devido a falta de atendimento médico. “Lizete foi enterrada em Butiá na manhã de segunda-feira. Na terça, Antonio preparava um arroz com linguiça para os dois filhos sadios no casebre alugado e agora vazio. No armário meio capenga, duas contas de luz atrasadas e um aviso de corte. Puxando um carrinho de plástico, Bruno, de três anos, pedia pela mãe. Fernando, de oito, ajudava o pai em silêncio. No Hospital de Butiá, Fernanda tinha alta, mas não se sabia para onde levá-la. A conselheira tutelar tentava evitar que fosse enviada para a unidade especial da Febem. Em Porto Alegre, no Hospital Santo Antônio, Luiz Oscar respirava com a ajuda de um tubo de oxigênio. Na próxima segunda-feira, Antonio voltará a descascar eucaliptos para viver. Antes de perder a consciência, Lizete agarrou a sua mão e fez com que prometesse que manteria os filhos unidos” (BRUM, 2006, p. 169).

O dia em que Adail voou (p. 170-175) Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre/RS.

Adail José da Silva, carregador de malas no Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, já conhecido pelos leitores, voou finalmente até São Paulo, a convite de uma

companhia aérea. “Adail queria voar até Aparecida do Norte (SP), onde devia uma promessa à santa. Quinze anos atrás, Nossa Senhora tinha curado sua perna doente. Em troca, Adail lhe devia um carpim. Mas o tempo passava, a dívida ia pesando, porque não há credor mais rigoroso que santo, e nada de Adail arranjar um jeito de acertar o débito. O pessoal da TAM leu a história do homem que queria voar e decidiu patrocinar o sonho de Adail. Foi assim que o carregador, depois de uma vida inteira sem sair do chão, voou. Na última quarta-feira, dia 14 de julho, data que, se não ficar na história da aviação, na de Adail com certeza está lá, marcada como o dia em que ele chegou ao céu” (BRU M, 2006, p. 171).

Fonte: Elaborado por Renata Carraro.

A observação e análise ainda que ligeira dos textos de A vida que ninguém vê e de seus conteúdos, os seus personagens e os lugares físicos e sociais por onde circulam, seus falares, os modos de se vestir e se comportar, tudo isso constitui um inventário de significados que contribuem para um melhor entendimento do mundo do perfil e de suas potencialidades. Esses significados, no caso específico desta obra, devem se tornar mais explícitos depois da conversa com a autora, para ouvir dela o que em sua atividade jornalística assume maior ou menor importância no processo de concepção, apuração e

edição do perfil. Essa conversa, como já disse, será feita mais adiante, no subtítulo “1.4 O olhar como espaço de resistência jornalística”, ainda que um ou outro de seus elementos apareçam antes, por conveniência, como se verá.