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APPENDIX 2: PICTURE SPECIFICATION TABLES
Pode pelo menos em parte ser injusto afirmar isso, mas tem-se a impressão o tempo todo, nessa discussão formal e metódica sobre o lugar do jornalismo na área mais ampla dos conhecimentos humanos, de se estar tentando entrar pela porta dos fundos do positivismo, depois de se ter saído irritado pela porta da frente para fugir dele – e isso, se verdadeiro, seria muito ruim para a ideia de uma aposta na possibilidade de haver um diálogo, de igual para igual, entre as várias práticas humanas sociais de saber.
Esse, que pode ser de fato um problema, parece frequentar como um fantasma os sonhos diurnos de quem afirma a necessidade de reconhecimento do jornalismo como um modo específico de conhecimento: insiste-se em mirar o tempo todo para o conhecimento científico, mesmo quando – o que Otto Groth não fazia – se defende com brio a ideia de que o jornalismo enquanto prática não é de fato uma ciência. Ou ainda quando se assume com vigor a crítica do absolutismo do saber científico, fundado na ideia de que o método científico é o único a garantir a “verdade” do conhecimento.
Ainda situando-me no campo das especulações, cujos conteúdos reais esta pesquisa não tem como averiguar, a impressão mais uma vez que fica é a de que a preocupação maior seja não tanto a de afirmar as razões humanas, sociais e políticas da existência do jornalismo, e sim a autonomia de um campo (científico), com suas especificidades. Mais do que um erro de cálculo ou de trajetória, o que pode estar se manifestando aqui é um complexo de inferioridade enorme frente ao glamour da ciência triunfante – que se denota, inclusive, no paradigma positivista do próprio jornalismo convencional. Uma certa falta de coragem de trazer para a discussão a próprio força, brilho e prestígio – e isso acaba por reforçar a espiral do silêncio em torno da força, brilho e prestígio próprios das demais formas de narrativas.
Perdem com isso as narrativas míticas e religiosas; as narrativas ficcionais das artes em geral e da literatura em particular; as narrativas do senso comum e das experiências cotidianas de vida – todas essas narrativas que trabalham com os sentidos lógicos e não lógicos do existir humano de que um certo modelo de jornalismo, que se espelha no fundo nas ciências (sobretudo nas ciências naturais), tenta de várias formas se distanciar. Nesse sentido, é bom dizer que o olhar insubordinado que propõe Eliane Brum no exercício do jornalismo pode valer, também e em primeiro lugar, para levantar e buscar respostas para a própria pergunta sobre o estatuto epistemológico do jornalismo e a visão de conhecimento que lhe subjaz.
Mas aqui é preciso prestar atenção: não podemos correr o risco de alimentar a arrogância, fazendo com que impressões e especulações desqualifiquem o trabalho às vezes de uma vida acadêmica inteira, colocando para escanteio intuições e conclusões teóricas de relevância tão grande quanto as do alemão Otto Groth e dos brasileiros Adelmo Genro Filho e Eduardo Meditsch. No caso particular dos dois brasileiros, para além de toda a crítica que fazem aos arroubos teóricos e à impertinência prática do positivismo, é muito justo e necessário reconhecer a importância da ideia de que o jornalismo não é ciência; de que é um gênero próprio e não um grau de conhecimento; de
que não conhece melhor ou pior, mas diferente; de que extrai sua força do fenômeno, do particular, do singular – e este talvez seja, entre todos, o enunciado teórico mais importante para um estudo de como se entende e pratica, ao lado de outros, o gênero do perfil jornalístico.
Mas voltemos a reprisar a ideia de que é preciso enfrentar o positivismo encarando-o de frente Quando pensa em defender a narrativa do ensaio diante da narrativa dura do positivismo na Alemanha de seu tempo – meados do século XX –, Theodor Adorno, ao escrever “O ensaio como forma” (1986), não se deixa levar por um sentimento ou complexo de inferioridade: até parece arrogante, às vezes. Uma crítica mais forte e ácida não poderia existir contra o establishment positivista: “equiparando conhecimento à ciência organizada” (ADORNO, 1986, p. 167); agarrando-se a categorias universais, ao purismo científico, à falsa ideia de profundidade; confundindo a ordem das ideias (das representações) com a ordem das coisas; insistindo no ideal universal da lógica, do rigor e da coerência e na coerção da identidade; propugnando “aquela concepção de verdade como algo ‘pronto’, como um jogo hierárquico de conceitos” (ADORNO, 1986, 182); acreditando ter que “defender o espírito contra toda inconsistência e falta de solidez”, agindo assim, os positivistas se fazem “inimigos” desse mesmo espírito (ADORNO, 1986, p. 184). Perpassa todo o texto de vinte páginas em defesa do modo de expressão do ensaio a ideia crítica de que o arrogante espírito positivista não atraiçoa apenas os ideais da verdade (possível) e da felicidade que os humanos buscamos, mas em primeiro lugar o próprio espírito científico que se pretende com essa postura guerreira defender.
Em mais de um momento, a veemente defesa da “liberdade de espírito” que Adorno advoga para o ensaio – e que nesta pesquisa acreditamos poder ser estendida a todo o campo rico e colorido das narrativas humanas – o faz trabalhar em favor de uma base teórica que limpa o terreno para o reconhecimento do cotidiano, do efêmero, das coisas miúdas, que tão importantes podem ser porque muito podem significar. Para o jornalismo, na linha do que propõe Meditsch ao falar do cotidiano e do singular, e muito particularmente para o perfil jornalístico, essa visão das coisas tem uma importância fundamental, embora essa consideração se possa estender para todo o campo das narrativas das artes, dos mitos e das sabedorias comuns.
Um trecho de Adorno serve como exemplo do que estamos dizendo, com toda a erudição que o teórico da Escola de Frankfurt adiciona aos seus textos. Ele está
escrevendo sobre o ensaio e sobre o dogmatismo e a violência de uma postura filosófico- científica de matriz positivista:28
[O ensaio] se revolta, em primeiro lugar, contra a doutrina, arraigada desde Platão, segundo a qual o mutável, o efêmero, não seria digno da filosofia; revolta-se contra essa antiga injustiça, cometida contra o transitório, pela qual ele é mais uma vez condenado no plano do conceito. Ele retrocede espantado diante da violência do dogma: ao resultado da abstração, que é o conceito invariável no tempo perante o individual a ele subordinado, caberia dignidade ontológica (ADORNO, 1986, p. 174).
Não é difícil perceber como essa ordem dogmática, autoritária e violenta de ideias – na expressão clara de Adorno em muitos trechos que não convém aqui citar para não nos estendermos demais nessa discussão –, com a sua negação do transitório, do efêmero, do acidental e do individual, distancia-se da “liberdade de espírito” que o ensaio, segundo ele, exige e evoca. Como não é difícil também perceber – feitas as necessárias traduções e retraduções – o quanto esse paradigma de pensamento destrói a possibilidade de um investimento sério na narrativa, a partir da valorização do humano e dos retalhos de uma vida, dos símbolos e das metáforas, das linguagens arquetípicas do inconsciente.
Uma última consideração sobre a crítica adorniana ao positivismo – sem complexo de inferioridade, como afirmei – e contra a indistinção que o positivismo pretende operar entre conhecimento e ciência se refere a um exemplo dos mais elucidativos e favorável às ideias que estou defendendo ao longo de todo este trabalho de pesquisa. Adorno busca na literatura – em Marcel Proust (1871-1972) – o argumento de que precisa para derrubar a tese de que só a ciência tem algo a dizer sobre o mundo, como se todas as demais práticas humanas de conhecimento fossem em vão, ou pudessem apenas ser reduzidas ao campo dos interesses pessoais, subjetivos, religiosos, de entretenimento. O autor expõe:
A mais simples reflexão sobre a vida da consciência poderia ilustrar sobre quão pouco se pode captar, com a rede conceitual científica, conhecimentos que não são, em absoluto, meros palpites desconchavados, meras impressões desconexas. A obra de Marcel Proust [...] constitui um enorme esforço para expressar conhecimentos
28 Embora eu não esteja me ocupando, em minha pesquisa, com esse lado violento e perverso dessa postura científica, convém lembrar que Adorno, em diferentes momentos do seu ensaio, critica duramente o dogmatismo científico. Por exemplo, quando afirma que “na alergia contra as formas tomadas como meramente acidentais o espírito científico se aproxima do espírito teimosamente dogmático” (ADORNO, 1986, p. 169). Ou quando afirma que “os ideais de pureza e limpeza, que são comuns a uma filosofia voltada para valores eternos [...] trazem os traços de uma ordem repressiva” (ADORNO, 1986, p. 172).
necessários e concludentes sobre homens e relações sociais (ADORNO, 1986, p. 172).
Trata-se de conhecimentos, diz Adorno, que não deixam de apresentar um estatuto objetivo, ainda que não fundado nas prerrogativas do método consagrado da ciência:
Esses conhecimentos não podem, sem mais nem menos, ser assumidos e ultrapassados pela ciência; apesar disso, a pretensão desses conhecimentos à objetividade não fica diminuída nem reduzida a uma vaga plausibilidade. A medida de tal objetividade não é a comprovação de teses já firmadas através de repetidas provas, mas a experiência humana individual mantida por esperança e desilusão (ADORNO, 1986, p. 172).
Insistindo sobre o capital cognitivo da arte em geral e da experiência do artista em particular, Adorno fecha com o que me parece uma chave de ouro a discussão sobre a narrativa literária como conhecimento, ao dizer que “a ninguém, no entanto, ocorreria considerar irrelevante e rechaçar como acidentais e irracionais as informações e reflexões de um homem experiente só porque são as experiências dele e não podem ser cientificamente generalizadas” (ADORNO, 1986, p. 173).
De fato, porém, Adorno está sendo generoso para com os seus adversários nesta parte de seu discurso. Concretamente, o conjunto da obra aponta no sentido de que, sim: o racionalismo positivista (que é algo diferente da razão não arrogante e dialógica da Ciência com letra maiúscula) rejeita, como um conhecimento válido, próprio, digno e não melhor ou pior que o conhecimento da ciência, não apenas a obra de Proust como toda a literatura, as artes, o cinema, as narrativas míticas, a ficção científica etc. Não é claro no sentido de dizer que essas narrativas não tenham valor, mas sim de negar o seu caráter epistêmico frente à verdade acachapante da ciência.
Ao ressaltar junto e simultaneamente com o valor de vinculação humana o que chamo de capital cognitivo das narrativas em geral e jornalísticas em particular, o tema desta pesquisa se defronta, ou se choca, como afirmo muitas vezes, com a ideia reducionista de um conhecimento absoluto e universal, o conhecimento científico. A pretensão antiga, no mundo da ciência triunfante, é de fato que o discurso deve ser rigoroso, “antiliterário, sem imagens nem metáforas, analogias ou outras figuras de retórica”, como afirma Santos ao enumerar as principais características do “modelo de racionalidade que subjaz ao paradigma da ciência moderna”. Santos aponta para o sério risco que corre esse modelo triunfante de ciência, de que seu discurso perca por isso
mesmo todo encanto, se torne triste e sem imaginação, “incomensurável com os discursos normais que circulam na sociedade” (1989, p. 34-35).
Como insistir em rigor, por exemplo, no território indomável das artes? Como renunciar às linguagens dos símbolos, das metáforas, das figuras literárias nas narrativas do cotidiano? Como ignorar no trato com as questões do inconsciente coletivo o peso das imagens arquetípicas, as emoções humanas, o sonho e a esperança, nossos deuses e deusas tanto quanto nossos demônios?
Combina bem isso que o sociólogo português diz, com um modelo de conhecimento científico que, ainda segundo as suas palavras, institui-se “contra o senso comum” e que, como já apontei em outro trecho, transforma “a relação eu/tu em relação sujeito/objeto, uma relação feita de distância, estranhamento mútuo e de subordinação total do objeto ao sujeito (um objeto sem criatividade nem responsabilidade)”. Um modelo, em suma, que procura “a verdade nas costas dos objetos, assim perdendo de vista a expressividade do face a face das pessoas e das coisas” (SANTOS, 1989, p. 34). Um modelo que, diríamos eu, aplicado ao Jornalismo, acabaria por privilegiar um discurso frio, distante, desumano, sem cheiro, sem cor, distante do calor do “olhar insubordinado” e acostumado à frieza de seu oposto, o “olhar domesticado”, de que trata Eliane Brum em A vida que ninguém vê (2006).
O mandamento da linguagem “rigorosa“, técnica, objetiva – uma tradição da qual o Jornalismo, renunciando ao melhor de si e de sua função social, bebeu a valer – se vê historicamente ameaçado, ou assombrado, pela linguagem dita “literária”, metafórica, simbólica do “gesto da arte” (Medina) de que as formas consagradas do jornalismo narrativo ou do jornalismo literário se aproximam. Rigor, no caso da ciência moderna, é o que se expressa matematicamente, sendo consideradas indignas outras linguagens, como a literária e a humanística; incompatíveis, dentro dessa visão, com os princípios sagrados da imparcialidade e da objetividade. A opção da “ciência dogmática” pelo discurso triste e sem imaginação tem um lado engraçado, constata Santos, espiando o que acontece para além das boas intenções dos cientistas ditos sérios:
Se analisarmos a carreira científica de alguns cientistas sociais preocupados com o rigor da linguagem (Lazarsfeld, Merton, Parson, Bourdieu, Touraine, Boulding, Bell, Galbraith, Hirschman, etc., etc.), verificamos que à medida que os anos passam e eles avançam na sua investigação, os seus textos tornam-se mais literários, metafóricos, imagéticos e analógicos (SANTOS, 1989, p. 113).
A desdogmatização da ciência se abre, desse modo, às promessas de uma narrativa que dialoga com o senso comum e com os saberes plurais: a ciência e a filosofia, o mito e a arte, a religião e os saberes práticos, cotidianos. A vida, que não é dogmática, deve se sentir muito melhor assim. Um diálogo com os sentidos múltiplos do presente imediato, eu diria, no campo do Jornalismo.
A crítica ao modelo dominante/dogmático de ciência, feita por Santos e aqui entendida como base para a proposição de um pensamento dialógico, aberto às virtualidades cognitivas das narrativas humanas e ao seu potencial vinculador, deixa-se entender também como um ponto de vista crítico à mentalidade iluminista, naquilo que essa mentalidade – tal como o positivismo em sua relação nociva com a ciência – tem de reducionista, não complexo, simplificador. A razão apta e disposta a dialogar com a pluralidade de narrativas humanas29 não é a do Iluminismo, mas a “razão luminosa”, como a ela se refere em vários momentos de sua obra Medina, trazendo a conversa para os domínios da grande narrativa da contemporaneidade pela via do Jornalismo.
Técnico-burocrática e, no caso da informação de atualidade, movida “pelas gramáticas estratificadas” (MEDINA, 2003, p. 49), a razão, nisso que Morin chama de “o grande paradigma do Ocidente”, segundo ainda Medina, “não se alimenta da intuição criativa”, contentando-se “com a rotina” (MEDINA, 2003, p. 34). A crítica é contundente:
Perdem-se ou se atrofiam as grandes narrativas e se valorizam os projetos técnico-formais, como, por exemplo, os recursos de computação gráfica, a fórmula da notícia curta, descarnada, os gráficos da quantificação sobre os comportamentos humanos. Histórias de vida, que dão sentido aos contextos sociais, ficam à deriva perante a pirotecnia visual e gráfica (MEDINA, 2003, p. 32).
“Falta à narrativa regida por fórmulas o toque mágico da comunicação humana”, sublinha Medina (2003, p. 85), para quem, “a arte de tecer o presente” exige:
(...) abandonar o conforto das fórmulas engessadas nos manuais jornalísticos e ir ao mundo para viver o presente, as situações sociais e o protagonismo humano. Inverter a relação sujeito-objeto do técnico em informação de atualidade para a relação sujeito-sujeito do mediador social, para além de ser um problema epistemológico, é uma fogueira
29 É interessante, nesse contexto de dialogia de saberes, o que diz Morin sobre a narrativa do romance como mediadora de conhecimento: “Sinto, cada vez mais, que só um grande romance consegue exprimir as múltiplas dimensões da experiência humana, as vidas subjetivas interiores, os comportamentos numa sociedade, numa história, num mundo, pondo ao mesmo tempo os problemas do destino humano, quer pela força das personagens, quer pela pena do autor, quer ainda implicitamente” (1995, p.21).
em que se queimam as certezas, as rotinas profissionais, o ritmo mecânico do exercício jornalístico (MEDINA, 2003, p. 40).
Polissêmica e polifônica, a grande narrativa da contemporaneidade “se tece no grito de muitos galos” (MEDINA, 2003, p. 133). Nela, na essência, “trata-se de humanizar as fórmulas que constituem as técnicas da inércia profissional na vitalidade do cotidiano anônimo” (MEDINA, 2003, p. 35). Com marca de autor, a narrativa da razão luminosa “conta sua história ou a história coletiva de forma sutil e complexa, afetuosamente comunicativa e iluminando no caos alguma esperança do ato emancipatório” (MEDINA, 2003, p. 49).
Compreensiva, erigida sob o signo do diálogo de uma relação, essa narrativa sabe que a produção jornalística que nela se pauta “ganha em sedução quando quem a protagoniza são pessoas comuns que vivem a luta do cotidiano”. É a hora e a vez dos anti- heróis, dos anônimos: “Descobrir essa trama dos que não têm voz, reconstituir o diário de bordo da viagem da esperança, recriar os falares, a oratura dos que passam ao largo dos holofotes da mídia convencional” – eis aí o caos se erguendo em cosmos por intermédio da vida e das histórias que se contam. “Contar uma boa história, afinal, é o segredo da reportagem” (MEDINA, 2003, p. 52-53).
Os pontos de conexão e de convergência entre estas falas de Medina e as de Eliane Brum na Estação arecem claros. A ponto de me permitir repetir, agora neste contexto particular, algo que já reproduzi, lá atrás, sobre o olhar insurgente:
O que esse olhar desvela é que o ordinário da vida é o extraordinário. E o que a rotina faz com a gente é encobrir essa verdade, fazendo com que o milagre do que cada vida é se torne banal. Esse é o encanto de A
vida que ninguém vê: contar os dramas anônimos como os épicos que
são, como se cada Zé fosse um Ulisses, não por favor ou exercício de escrita, mas porque cada Zé é um Ulisses. E cada pequena vida, uma
Odisséia (BRUM, 2006, p. 187).
O signo da explicação, vencida a sedução do racionalismo monossêmico e portanto reducionista, dá espaço dentro da moldura dessa proposta para o signo da compreensão, que é parceiro de um pensamento “mais de buscar que de encontrar respostas”, como afirma Künsch (2004, p. 9): “Um pensamento mais de noção que de conceito, intuitivo-sintético mais que analítico. Um pensamento sério, sim, sem ser raivoso. Um pensamento não violento e não guerreiro. Compreensivo” (KÜNSCH, 2004, p. 9).
O signo da compreensão aspira à superação de uma narrativa jornalística de “muito portanto para pouco talvez” (KÜNSCH, 2004, p. 7). Assume “uma dimensão fundante” do conhecimento, “o que significa dizer que o gesto humano da compreensão resulta em maior compreensão, que a compreensão faz conhecer, que ela assume legitimamente o estatuto de uma verdadeira epistemologia. Melhor conhece quem mais aberto ao gesto humano da compreensão”, aponta Künsch (2004, p. 10). Nessa linha de pensamento, pode-se dizer, a compreensão é um método de produção de conhecimento. O colombiano Luis Carlos Restrepo (1998), insistindo na essencialidade do “direito à ternura”, estende a ideia da “fundação” do conhecimento ao gesto amoroso, encantado e poético. Combate a “lógica arrasadora da guerra” no exercício da ciência e “a intolerância do discurso total, aniquilador da diferença e inimigo do crescimento e da singularidade”. Trata-se de uma “verdadeira falácia epistemológica”, ele diz (1998, p. 13- 14), achar que a “expulsão da ternura é uma condição sine qua non para a geração do conhecimento”.
A nova narrativa que o autor esboça, fundada na ideia do afeto, retoma e reforça aspectos levantados por Medina em relação à prática da mediação social da informação. Restrepo lança o convite à contemplação da “riqueza das tonalidades”, à opção por “formas expressivas distantes da pretensão universal do significado e mais próximas à dinâmica do contexto” (RESTREPO, 1998, p. 16), a escapar da armadilha da “dureza do logos” (RESTREPO, 1998, p. 25), a não circular pelo “território genérico da abstração”, a não se deixar enlevar pelo “delírio do universal” (RESTREPO, 1998, p. 81).
Finalizando, são os seguintes os princípios que regem o jornalismo literário, na expressão de Edvaldo Pereira Lima (2009): (1) arte narrativa da vida real, (2) exatidão e precisão, (3) contar história, (4) humanização, (5), compreensão, (6) humanização temática, (7) estilo próprio e voz autoral, (8) imersão, (9) simbolismo e (10) criatividade. Como se pode observar a partir da enunciação simples desses princípios, trata-se de posturas cognitivas, de procedimentos e técnicas que culminam em geral naquilo que, para simplificar, pode ser chamado simplesmente de “jornalismo de qualidade” –