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Some Background Information

Part I Algorithmic Issues

2.2 Some Background Information

Nas Grandes Viagens de Theodore De Bry serão retomadas as contribuições

de Staden e Léry, aproximando-se as ilus- trações dos dois autores, sob uma ótica uni- tária. Sendo editadas na terceira parte da coleção, em 1592, são antecedidas de re- lato sobre a expedição inglesa na Vírginia dirigida por Grenville, que ocorreria em 1585. publicado em 1590, ilustrado por De Bry a partir dos desenhos originais de John White. São também precedidas de relato sobre a expedição huguenote na Flórida coordenada pelo Capitão Laudonnière, em

1565, publicada em 1591, ilustrada por De Bry a partir de desenhos originais de Jac- ques la Moyne de Morgues. Ambas men- ções são obrigatórias pois dão conta de modelos de sintaxe visual e de observações etnográficas que iriam marcar o projeto de De Bry e incidir sobre as ilustrações da America-Terceira Parte, que agora es- tudamos.

Na obra de De Bry, a fantasia dos re- latos de memória pós-viagem, a livre ma- nipulação das informações visuais de vá- rios autores, o recorte e a montagem de

A aldeia de Ubatuba. onde Hans Staden está no meio da dança das mulheres. "Viagens ao Brasil". Hans Staden, 1557.

"Grandes Viagens", Theodore de Bry, 1592.

índios Tupinambá choram seus mortos. "A história de uma viagem", Jean de Léry, 1580.

material de várias proveniências irão se or- ganizar dentro de um quadro geral. Assiste- se à passagem das imagens à forma coesa instaurada pela unidade espacial.

As transposições realizadas por De Bry a partir dos registros de Staden mostram primeiramente o abandono da linearida- de esquemática do desenho gravado em madeira e da orientação posicionai das fi- guras humanas em movimento. Não só a xilogravura é substituída pelas possibilida- des do talho doce, da gravura em metal. A nova concepção espacial de De Bry te- ce a geometria que inter-relaciona os cor- pos desenhados em traçado ordenado e regular. Na gravura de cobre, elabora-se o valor de claro-escuro, os valores interme- diários. Por meio dos volumes modelados, as coisas se tornam tangíveis, as zonas de penumbra projetadas em espaço vazio par- ticipam como eco da presença dos corpos.

Podem-se observar versões das cenas no interior da aldeia em Ubatuba. Staden é conduzido pelas mulheres ao poracé (dança e divertimento), arrastado por uma

corda, quando desejam lhe tirar a barba e as sobrancelhas. A dança e o tratamento dado ao prisioneiro reforçam a interpreta- ção da existência de canibalismo ritual entre os tupinambás, afastando a suposição de antropofagia alimentar. Tanto em Staden como em De Bry aparecem relações ma- temáticas expressas pela divisão do todo ou pela multiplicação das partes, como ve- remos. Na visão mais detalhada de De Bry, a aldeia de cinco cabanas define um pen- tágono, no qual se inscreve um círculo de mulheres em dança. No centro da roda es- tá Staden. A regularidade da disposição das quatorze mulheres não deixará dúvi- das quanto aos preceitos adotados para a organização do conjunto. A versão grava- da no livro de Staden não excluem com- pletamente componentes clássicos, certa

métrica aritmética.

Há entretanto grande diferença no tra- tamento dado à nudez em cada caso. No livro de Staden, o prisioneiro e algumas fi-

A preparação do prisioneiro. "Grandes Viagens". Theodore de Bry, 1592. As mulheres pintando o ibirapema e o rosto do prisioneiro. "Viagens ao Brasil", Hans Staden, 1557.

guras aparecem cobertos pelo pudor. Tu- do indica a condenação do estado natu- ral. O nu é censurado conforme a teolo- gia moral. O código de expressão das figuras também sugere diferenciações: as figuras indígenas animadas pelo movimen- to e a postura do prisioneiro europeu re- catado, em repouso.

As interpretações do nu por Theodo- re De Bry apresentam algumas semelhan- ças com as ilustrações propostas por Jean de Léry, para quem o estado natural é ti- do como verdade essencial, diferente do artificialismo da sociedade europeia, apre- ciando a simplicidade do nu como virtu- de. Nos dois autores, o corpo atlético, he- róico, guerreiro, apresenta traços anatómicos. O corpo orgânico em movi- mento é definido por sua estrutura inter-

na. A proporcionalidade das partes e pos- tura das figuras permite associá-las aos motivos artísticos antigos. Predomina a fi- gura humana em movimento de expres- são da vontade e da emoção, ou seja, a figuração de sentimentos universais atra- vés da representação humana.

Longe de atenderem demandas ana- crónicas da antropologia física, que recla- ma a representação de traços indígenas, as figuras impõem uma melhor compreensão da tipificação clássica. De acordo com có- digos estéticos da época, as figuras huma- nas não se distinguem por traços faciais e raciais, mas pela ornamentação e pelas práticas. Também se impõe a noção de be- leza, que se deseja nas proporções harmo- niosas entre as partes e na relação propor- cional de todas as partes entre si. A Empalação do

prisioneiro "Grandes Viagens". Theodore de Bry. 1592.

movimentação dos índios é enfim manifes- tação de subjetividade, manifesta na ex- pressão do corpo e não da face, na postu- ra e no movimento.

Nas cenas do interior da aldeia de Uba- tuba, transpostas por De Bry, as figuras fe- mininas em roda estabelecem relações pro- porcionais simétricas, por meio das quais o aspecto visível de uma figura completa outra figura feminina vista em posição es- pacial invertida, integrando o todo. O prin- cípio da divisão do todo ou da multiplica- ção das partes é constante. A visão de um objeto sob diferentes ângulos leva à com- preensão de sua totalidade. As quatro ou cinco cabanas ordenadas em correspon- dência, ao se espelharem, espelham o to- do e contam a aldeia.

De Bry não descuida da proporciona-

lidade e da posição das figuras, que se mostram estudadas a partir de cânones e motivos clássicos e estão dominadas pelo movimento de expressão, ao qual se sub- mete a medida e a postura. Entretanto. nota-se que a posição de cada uma das fi- guras é coordenada pelo nexo do conjun- to. Colocada em relação de correspondên- cia no conjunto geométrico e subordinada a um eixo de rotação, como parte do to- do. Se a tipificação das figuras tupinambás leva a compará-las a Vénus, estas mostram-se também aspectos inseparáveis de uma configuração global.

É preciso ainda considerar a capacida- de de De Bry de submeter a representa- ção a um ajuste ótico, vindo assim definir a posição do observador. Ele se vale de correções espaciais no cenário, no caso a

A divisão do corpo do prisioneiro. "Grandes Viagens", Theodore de Bry. 1592.

aldeia, mas busca também aplicar a pers- pectiva diretamente à figura humana.

Na opinião de Panofsky, as três quali- dades preparadas pela arte do século XVI - a expressão das figuras representadas; a visão subjetiva do artista, manifesta nos as- pectos da figura; a visão do espectador, que se expressa nos "aspectos" propria- mente perspectivos - são concernentes à vitória do princípio subjetivo.

É provável que o modelo, pelo qual se tenta solucionar ao mesmo tempo a pos- tura e o movimento, o contorno e a pro- porção, teria sido proposto na época por Durer.

Diante da consideração dessa unida-

de ideal das partes e do todo e frente ao sistema de correspondências, que assimi- la o corpo individual no corpo coletivo é conveniente lembrar que, tanto nos rela- tos de Léry, quanto nas ilustrações e nos relatos de Staden, são descritas relações entre partes do corpo e segmentos da so- ciedade tupinambá. Apresentam-se corres- pondências entre as práticas que efetivam o canibalismo e o próprio corpo canibali- zado. Dizem respeito ao abate do prisio- neiro de um só golpe, na cabeça, por bra- vo guerreiro; aos homens responsáveis por cortar as partes do corpo, à sua divisão em partes, às mulheres responsáveis por cozê- las (ou assá-las), por distribuí-las. A desti- Mulheres e crianças

tomando mingau. "Viagens ao Brasil", Hans Staden, 1557.

Assando e comendo pedaços do corpo do prisioneiro. "Grandes Viagens", Theodore de Bry. 1592. nação da parte do corpo-alimento e sua

ingestão em diferentes estados (cru, assa- do e cozido) sugere ainda outra teia de cor- respondências, como indica Bernadette Boucher em seu livro Le sauvage au seins pendants. Os autores viajantes contam que aos homens cabiam as pernas e os braços, que eram assados, o interior do corpo se destinava às mulheres e crianças, que se alimentavam de um mingau de tripas; mãos e cabeças também eram manipula- das pelas crianças.

Há enfim um certo interesse em reco- nhecer possíveis significados que, no sé- culo XVI, aderem ao desmembramento do corpo, ao seu parcelamento e sacrifício, a sua ingestão e digestão. O forte impacto das imagens de canibalismo no inconscien- te europeu e mesmo na nossa contempo-

raneidade deve-se em grande medida à transgressão do tabu de não comer carne humana. As imagens de sacrifício, nos li- vros dos viajantes, deixam-se contaminar por sugestões do martírio, da via crucis de Cristo. O sofrimento do corpo associa-se às imagens do purgatório e à ação demo- níaca, no âmbito do imaginário religioso. O procedimento simbólico de comer o cor- po para adquirir poderes encontra também paralelo na comunhão do corpo de Cris- to, na cerimónia católica.

Afinal, o imaginário da época não po- de ser excluído dos sentidos que aderem às imagens de Staden, Léry ou De Bry. Léry e Staden enfatizam a bravura da prática guerreira, estando de acordo em termos gerais e possibilitando a De Bry a combinatória de suas ilustrações. Particu-

larmente, no Relatório Verídico de Sta- den estão os desenhos arranjados em uni- dade de ação (unidade de espaço e tempo), apresentados em série sequencial, que irão marcar a maior parte das ilustra- ções que serão feitas sobre o tema, inclu- sive por Léry e De Bry.

Do outro lado da forma controlada de De Bry, irá se revelar o teor dramático da

narrativa visual sobre o canibalismo, sen- do acentuado o caráter demoníaco da mu- tilação, carregados os aspectos aterrorizan- tes. No desenrolar das práticas canibais, as figuras ideais dos índios tupinambás sofrem transformações biológicas, assinalando-se uma degeneração de seus corpos. A con- denação e a punição manifestadas por De Bry também se apresentam como expres- são do corpo.

Bibliografia

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Caminha relata em sua carta ao rei Dom Manuel o momento em que dois índios são levados ao encontro do Capitão: ". .um deles viu o colar do Capitão e começou a acenar com a mão para terra e depois para o colar, como a dizer-nos

d,ue havia ouro em terra". "Na Capitânia de Cabral ou índios à bordo da Capitânia", óleo s/tela. Museu Paulista/USP. Foto Aparecida Gomes da Silva.

Martim Afonso de Souza, a serviço do rei Dom João III fundou em 22 de janeiro de 1532 a primeira vila do Brasil: São Vicente. Ali foram plantados os primeiros canaviais e iniciada a criação de gado. "Fundação de São Vicente",

Atualmente existem apenas 6 exemplares destes mantos, todos conservados em museus europeus. Manto do Museu Nacional de Copenhague (Dinamarca) e do Museu do Homem de Paris (França). O índios Tupinambá habitavam toda a costa brasileira na época da conquista. Estavam todos extintos no século XVII. Seus mantos

de penas são célebres: vestiam os homens do mais alto grau na hierarquia social Tupinambá e eram utilizados por ocasião dos grandes

rituais de passagem masculinos.

Hercules Florence integrou como segundo desenhista a expedição organizada por Gregory lvanovitch Langsdorf. Partindo do Rio de Janeiro, passa por São Paulo chegando à Amazónia, por via fluvial.

Era hábito no reinado de Dom João VI, intensificado no período de governo de Dom Pedro I. comemorar fatos historicamente significativos, através de pinturas e leques geralmente fabricados na China. No leque.

Dom Pedro recebe de um índio a coroa imperial, comemorando a independência do Brasil. "Leque em marfim e papel", século XIX,

provavelmente chinês. Museu Histórico Nacional.

António Carlos Gomes recebeu uma bolsa do Imperador Dom Pedro II para estudar na Itália. Estreou em março de 1870, no Teatro Scala de Milão, sua obra de maior sucesso: II Guarany. Esta foi encenada em vários

países, atingindo grande sucesso na cidade do Rio de Janeiro. Folha de rosto da partitura da ópera "II Guarany". Museu Histórico Nacional. Fotos

Os intelectuais do século XIX. preocupados em forjar uma identidade para o império brasileiro, buscaram imagens originárias do próprio país. Encontraram os índios, primeiros brasileiros, testemunhas da grandeza do

passado e os rios. atestando a exuberância da nossa natureza. Nesta escultura, idealizada por João Maximiano Mafra e executada em Paris por Louís Rochet. o rio Madeira é representado por um índio. "Rio Madeira", Louis Rochet. gesso, século XIX. Museu Histórico Nacional. Foto Rómulo Fialdini/Banco SAFRA.

Mais de 3.000 artefatos dos fndios

Bororó (Mato Grosso) encontram- -se depositados em museus brasileiros. Os Bororó constituem um dos grupos indígenas das baixas terras sul-

-americanas mais estudados pela etnologia. Adornos

de cabeça, goivos, colar de unhas de tatu canastra. Museu

de Arqueologia e Etnografia/USP. Fotos Nelson Kon.

Grandes momentos da vida política e histórica do Brasil têm servido de tema para artistas e escritores. O descobrimento do Brasil, consagrado nos pincéis de Oscar Pereira da Silva, tem inspirado também artistas contemporâneos.

Imagem e representação do índio