Part I Algorithmic Issues
2.4 Definitions and Terminology
Durante todo o século XIX, grande nú- mero de viajantes estrangeiros percorreu o Brasil, produzindo uma variedade de re- latos, que vão de diários impressionistas de viagem a relatórios comerciais e estudos científicos, passando por memórias descri- tivas, tratados filosóficos, informes econó- micos, etc. É uma produção bastante he- terogénea, onde predominam os viajantes ingleses, franceses, americanos e alemães,
Delírios do imaginário. Ulrich Schmidel, "Vera história". Nuremberg, Levinus Hulsius. 1599. Foto: António Rodrigues. entre os quais, além de curiosos diletan-
tes, incluem-se representantes diplomáti- cos, comerciantes, religiosos, artistas e cien- tistas.
Nessa última categoria, destacam-se os estudiosos da história natural, geralmente vinculados a instituições de pesquisa e mu- seus europeus, que vinham para realizar expedições científicas e não apenas viagens de contato e reconhecimento.
A maior parte das missões científicas era financiada por governantes da França, Inglaterra e Alemanha e seus integrantes faziam parte do movimento de expansão das ciências naturais, onde os avanços do conhecimento, tomavam por base do mé- todo a observação. Os viajantes, ansiosos por estudar a natureza e o homem, pro- curavam mover-se pelo território munidos dos mais recentes equipamentos e proce- dimentos de pesquisa, para descobrir e re- gistrar a diversidade e o exotismo do uni- verso tropical e estabelecer futuras comparações, à luz das novas teorias, mo- delos e tipologias.
As exigências do método impunham que a observação fosse cuidadosamente descrita, registrada, documentada e repro- duzida através do desenho ou da pintura, completando-se o trabalho de campo com a coleta dos espécimes, destinados a com- por as imensas coleções armazenadas nos recém-criados museus de história natural. Observar e colecionar era mais que um objetivo científico. Era quase uma missão, especialmente para a etnografia. No largo período que se situa entre a criação da So- ciedade dos Observadores do Homem (1799-1805) e o estabelecimento da antro- pologia moderna, como Tylor, Morgan e Frazer, o evolucionismo social corre para- lelo ao evolucionismo biológico. Domina- -o um desvelo "salvacionista", que torna ur- gente recolher todos os documentos vivos da cultura de povos considerados em via de extinção.
Um "espírito da última hora", para usar uma expressão de Baldus (1954), que olhava para trás e via no indígena ameri- cano o remanescente em decadência da infância da humanidade. "Falso evolucio- nismo" ou "pseudo-evolucionismo" diria Lévi-Strauss, para quem o evolucionismo social, ao contrário do evolucionismo bio-
lógico, teoria científica, não é mais do que "a maquilagem falsamente científica de um velho problema filosófico para o qual não existe qualquer certeza de que a observa- ção e a indução possam um dia fornecer a chave" (1985:56).
A etnografia das primeiras décadas do século XIX não estava interessada em aprofundar o conhecimento de uma deter- minada cultura mas sim em compreender extensivamente as práticas sociais de po- vos distantes no espaço e no tempo, para compará-las e demostrar a universalidade das técnicas, das instituições, dos compor- tamentos e das crenças (Laplantine 1988). Para afinal realizar o paradoxo de "supri- mir a diversidade das culturas, fingindo conhecê-la completamente" (Lévi-Strauss
1985:55).
No contexto do pensamento social em que se movem os cientistas-viajantes, a perspectiva comparativa, classificatória e colecionista é depositária também do ro- mantismo que domina a estética e a lite- ratura da primeira metade do século pas- sado. Mais para o final do século, românticos e folcloristas recorrem à antro- pologia nascente, pelas vias abertas por Tylor, produzindo uma analogia entre a cul- tura do camponês europeu e as culturas ditas primitivas, que aproximam o "selva- gem" do "popular" (Ortiz 1985). Tal ana-
II - A ordem do Mundo Natural
Humanidade com a extensão da natureza. "índios Puri subindo nas árvores". Maximilian Wied-Newied. 1816. Aquarela e bico-de- -pena. Biblioteca Brasiliana Robert Bosch. Foto: António Rodrigues.
logia, como mostram estudos históricos so- bre o folclore no Brasil, repercute e reforça o zelo preservacionista e colecionador, na medida em que a cultura popular aparece também como produto originário de um passado ameaçado de extinção (Cavalcanti
1988).
O propósito de "salvar" as culturas do desaparecimento dá aos museus um lugar particularmente relevante nesse contexto, com repercussões internas que levam as elites intelectuais brasileiras a tentar inserir- -se no espírito cosmopolita e nos padrões de universalidade da ciência, com a cria- ção de três museus: Nacional, Paulista e Paraense Emílio Goeldi (Schwarcz 1988). Mas é nos museus da Europa que se reú- nem as grandes coleções arqueológicas e etnográficas sul-americanas, sendo o mu- seu etnográfico de Berlim o que abriga o mais importante acervo sobre a cultura ma- terial dos povos indígenas do Brasil no sé-
culo XIX, notadamente os do Xingu. Em outro estudo (Porto Alegre 1989) enfocamos as ações nacionalistas dos in- telectuais brasileiros de meados do século XIX, que se voltam para regiões longínquas do país, organizando internamente expe- dições semelhantes às europeias, na pre- tensão de produzir uma "fala" científica na- cional, assumir o lugar do "outro" e romper o auto-silenciamento imposto pelo discurso dominante do "velho" sobre o "novo" mun- do. Como os processos de construção de identidade nunca são desinteressados, esse movimento acaba por assumir uma forte conotação política, onde o interesse pelo conhecimento do índio e do "povo" enco- bre um antigo projeto das classes dominan- tes e do Estado, de controlar a força de tra- balho, projeto esse que se oculta sob o manto da incorporação desses elementos à sociedade nacional.
O tema do "outro", presente na ques- tão da identidade nacional é também o nú- cleo da visão do colonizador, nas viagens exploratórias. Tao antigo quanto a desco- berta da América, a descoberta do "outro" chega até nós, inicialmente, pela voz dos cronistas dos séculos XVI e XVII, espan- tados diante da natureza e dos habitantes da terra. No século XVIII são engenheiros, cartógrafos e os primeiros naturalistas que surgem, nas trilhas do iluminismo, escre- vendo memórias onde procuram inven- tariar as riquezas económicas do país. Mas é com a passagem da corte portuguesa pa- ra o Rio de Janeiro, no começo do século XIX, que o movimento de viajantes estran- geiros torna-se mais intenso e as expedi- ções se multiplicam, cruzando o país de ponta a ponta, pelo litoral e pelos sertões, acolhidas e estimuladas pelo primeiro e se- gundo impérios.
Enquanto processo discursivo, esse desfile de relatos se apresenta como um "lugar de significação, de confrontos de sentidos, de estabelecimento de identida- des, de argumentação, etc" (Orlandi 1990), onde podemos perceber a prática de uma violência simbólica, no confronto de rela- ções de força que acompanham o que se conta e o que não se conta, ao longo da história com a qual nos identificamos en- quanto brasileiros. Como bem coloca Eni Orlandi, trazendo mais uma reflexão ao re-
corrente tema das "descobertas", procura- mos nos conhecer fazendo falar as outras vozes que nos dão uma identidade, que nos definem, a brasilidade produzida pela fala do europeu, instaurando um espaço de diferença, de separação, um lugar va- zio de onde tentamos construir nosso lu- gar mais "próprio" (idem: 20).
As representações vão se forjando e penetrando a cultura brasileira, num pro- cesso de tensão entre o universal e o par- ticular. As missões científicas estrangeiras deixaram sua marca também entre os con- temporâneos literatos locais. O diálogo do romance brasileiro dos anos 30 e 40 do sé- culo XIX com a forma literária pictórica do relato de viagem, seus desenhos e pran- chas, mostra a obsessão pela origem, a busca interminável de raízes, a tentativa de produzir obras "brasileiras" e "originais". O romance nutre-se abundantemente das descrições dos viajantes, dos desenhos às vezes paradisíacos e que, no entanto se chocam com a dura realidade do Brasil co- tidiano, parecendo dar aos personagens e seus narradores uma "sensação de não es- tar de todo presente" (Sussekind 1990). Relato e desenho se combinam nessas experiências para reivindicar a fórmula que a antropologia viria a transformar no fun- damento da autoridade etnográfica: eu es- tive lá, observei e registrei e portanto eu posso ser um intérprete legítimo do outro. A credibilidade do relato é reforçada pelo trabalho do desenhista, que tudo re- gistra pormenorizadamente. O naturalista é um colecionador, ao contrário do român- tico, um contemplativo. Observação, clas- sificação, coleta. O homem selvagem co- mo prolongamento da natureza. Uma imagem do índio criada através da fusão de elementos contraditórios. De um lado o misterioso, o irracional, o mítico, como dimensão projetada de uma outra tempo- ralidade, ancestral. De outro, uma nova realidade, a do tempo presente, progres- so e racionalidade. A projeção do mundo interior no exterior, onde as imagens são como reflexos de um espelho. A importân- cia da linguagem pictórica nesse processo, criando padrões profundos e impondo-se ao conhecimento do outro e ao auto- -conhecimento.
O longo percurso temporal e espacial
realizado pelos viajantes do século XIX produziu novas representações sobre o Brasil, descrevendo a natureza, os tipos hu- manos, costumes, ritos, festas, a vida co- tidiana, cenas de família, e tantos outros aspectos da cultura. Essa produção tem si- do usada como documento por historia- dores e cientistas sociais, muitas vezes sem o devido questionamento de sua credibili- dade e fidedignidade, não obstante a vi- são distorcida de alguns textos, seja pelas ideologias dominantes, pela observação pouco criteriosa ou mesmo pelo fato de al- guns autores terem sido tolhidos de uma forma ou de outra no seu trabalho (Quei- roz 1988).
Os desenhos que ilustram os livros de viagem também são reproduzidos exaus- tivamente, nos livros didáticos, na impren- sa, nos trabalhos científicos, igualmente sem questionamentos. A fascinação do "re- gistro natural", o caráter testemunhal da ilustração opera, nesse caso, na constru-
Paraíso Natural. inocência, prazer idílico.
"Caçada das araras no Rio Grande de Belmonte". "Banho dos Botocudos no Rio Grande de Belmonte". Maximilian Wied- Newied. 1816. Aquarela e bico-de- pena. Bib. Brasiliana Robert. Bosch, Stuttgart. Foto: António Rodrigues.
Ill • Imagens da diversidade
Guerreiros. "Dois botocudos com arco e flecha". Maximilian Wied-Neuwid. 1816. Aquarela e bico-de- pena. Bibl. Brasiliana Robert Bosch, Stuttgart. Foto: António Rodrigues.
ção da autoridade da mensagem discursi- va, conferindo legitimidade ao texto. O de- senho como denotação do real aproxima-se da fotografia e antecipa-se a ela no relato etnográfico, submetendo o texto ao olhar de quem "esteve lá" e re- constituiu através da imagem a cultura dis- tanciada.