Part I Algorithmic Issues
2.8 The One Clause At a Time (OCAT) Concept
Discípulo das teorias raciais de Blu- membarch, da estética de Humboldt, da frenologia de Gall, da fisiognomonia de La- vater, o pintor-etnográfico do século XIX é um observador que classifica indivíduos a partir da morfologia do crânio, desenha corpos, sistematiza traços, investiga e cons- trói a representação da identidade através da aparência do corpo humano, buscan- do na sua superfície o sentido da interiori- dade invisível.
Trabalha sob a influência da paixão da anatomia, de uma história natural que ob- serva e detalha os homens em sua morfo- logia e se esforça por decifrar, sob os sig- nos exteriores, as formações psíquicas, as relações entre corpo e alma, definindo al- teridades e imaginando disparidades que lançam um novo olhar e uma nova histo- ricidade sobre o corpo humano, tomando a forma de um distanciamento que desti- na o homem moderno ao paradoxo de "um olhar sobre si, constituído fora de si" (Courtine e Haroche 1988).
O surgimento das "massas" e da de- sordem social fundamenta o antagonismo entre um "físico popular" e um "físico bur- guês" expresso pelo retrato pintado, pela caricatura da imprensa e pela fotografia, que tornam-se as testemunhas da violên-
cia, da feiúra e da periculosidade das clas- ses subalternas, construindo graficamente as ideias concebidas por Lavater e Gall de alcançar o caráter do "homem degenera- do" a partir da fisiologia e da anatomia, cu- jo marco definitivo é dado por Lombroso (idem: 44-45).
A transferência das concepções sobre as classes perigosas para a representação do selvagem americano não constitui mais do que um deslizamento. Esboços, croquis e desenhos se conjugam para compor o mosaico vivo e ilustrado da extinção emi- nente desses seres ora "decadentes" e "gro- tescos", ora "belos" e "inocentes".
As interrogações de Martius são eluci- dativas a esse respeito:
"... muito há que faz supor que a hu- manidade americana não está mais no pri- meiro passo do simples desenvolvimento que eu denominaria o da sua história na- tural... o que são, pois, estes homens ver- melhos que habitam as densas matas bra- sileiras, desde o Amazonas ao Prata, ou que em bandos desordenados vagueiam pelas campinas solitárias do território in- terior? Formam eles um povo, são eles par- tes dispersas de um todo primitivo, são po- vos diversos, vizinhos um do outro, ou são finalmente, tribos fragmentadas, hordas e famílias de vários povos diferenciados pe- los costumes, pela moral e pelas línguas?
(Martius 1982: 11-12).
Martius passou longos anos a sistema- tizar estudos sobre os índios do Brasil e suas
Caçadores. "Botocudo com caça: arara e macaco." Maximilian Wied-Newied. 1816. Aquarela e bico-de- pena. Bib. Brasiliana Robert Bosch. Foto: António Rodrigues.
Os rituais "Dança dos Tapuias". Albert Echout. 1637-1644.
Pintura sobre tela.
Museu Nacional da Dinamarca. Foto: António Rodrigues.
"Festa dos Jurí". Spix e Martius, 1817-1820. "Atlas de viagem." Foto: António Rodrigues.
indagações não diferiam das preocupações dos contemporâneos, empenhados em en- contrar respostas científicas para as espe- culações acerca da diversidade das cultu- ras e elaborar uma imagem do outro onde melhor situassem a imagem de si mesmos. Ciência e arte caminharam juntas pa- ra construir a representação do homem na modernidade, em que pese a "autonomia" do campo das artes no mundo contempo- râneo, no sentido empregado por Bourdieu (1982), de um campo de produção, circu-
lação e consumo que tem sua lógica pró- pria. Nesse processo, tempo e espaço atua- ram na descoberta da multiplicidade e fragmentação da vida social, "quando a his- tória da arte resgata múltiplos mundos so- terrados, quando os viajantes e os etnó- grafos colocam em contato com o Ocidente milhares de culturas e expressões artísticas distintas" (Gomes 1992:45).
Agrupamos o material iconográfico co- letado em quatro temas analíticos:
a) idealizações do bom e do mau selvagem
b) a ordem do mundo natural c) imagens da diversidade
d) corporalidade: arquivos de identida- de?
No primeiro, vamos desfilar, através das imagens, uma galeria de idealizações produzidas desde os primeiros séculos da descoberta do "novo mundo", que tradu- zem o espanto, o encantamento com o es- tado de natureza, visões do paraíso perdi- do, dúvidas sobre a existência da alma, fantasias sobre o canibalismo e a ferocida-
de dos habitantes da terra, cenas grotes- cas de degradação e estupidez. Essas são categorias classificatórias, através das quais o pensamento ocidental constrói o mun- do, a noção de tempo, as ideologias de na- turalização, do bem e do mau: imagens do bom e do mau selvagem, ideias de civili- zação e barbárie, que perpassam a repre- sentação do índio até nossos dias.
No segundo, percebemos que no bo- jo dessa construção emergem novas ima- gens, que buscam a ordem do mundo na- tural e entendem a humanidade que vive nas florestas tropicais como extensão da própria natureza, retratada pela estética do romantismo novecentista como pródiga e harmoniosa, plena de vida, cheia de cor e de luz. Através do olhar observador e da pena minuciosa do paisagista renova-se a ideia de um paraíso natural, repleto de ino- cência e prazer.
No terceiro, procuramos captar como, em meio à profusão de imagens, o retrato do homem revela, pela primeira vez, a di- versidade das culturas observadas. Os de- senhos agora fogem aos estereótipos de- formados do "índio genérico". As cenas dramáticas da expedição mostram os cor- pos nus adornados e pintados, as armas e objetos de uso cotidiano, as caçadas e a guerra, a vida em família, a dura sobre- vivência nas selvas, o nomadismo constan- te, os rituais, as máscaras e as festas. A co- leta é sistematizada nos museus e os objetos expostos mostram os traços distin- tivos de vários povos indígenas: Botocu- dos, Pataxó, Borôro, Purí, Mundurukú, Jú- ri, Tukuna, Kamakã, Coeruna, Mawé, Apiaká, entre outros.
Finalmente, no quarto grupo, é a su- perfície do corpo que se revela como ob- jeto central desse olhar, projeção gráfica de
uma realidade de outra ordem, distintivo cultural da identidade indígena retratada. O corpo e seu lugar na construção da pes- soa. O corpo e a arte plumária como ex- pressão estética de rara beleza. O artista ocidental diante do artista nativo, do che- fe, do guerreiro, da mulher, da criança. O artista desejoso de fixar para a história do homem, através de seu talento, esses do- cumentos, arquivos vivos de uma outra identidade. Diferenças Somáticas. "Decas collectionis suae craniorum diversarum gentium illustratas." Johann F. Blumenbach. 1790-1828,. Gottingen. Foto: António Rodrigues. "Adornos plumários Mawé." Spix e Martius. "Atlas de viagem." Foto: António Rodrigues.
"Três mulheres Apiaka". Hércules Florence. 1828. "Revista Globus." Foto: António Rodrigues. IV • Corporalidade: arquivos de identidade? "Guerreiros Apiaka". Hércules Florence. 1828. "Revista Globus." Foto: António Rodrigues.
As imagens do passado c o m o
arquivos de identidade
Não por acaso, o exame da iconogra- fia indígena remete a indagações que im- plicam em deslocar o foco de análise, das questões abrangentes sobre o lugar do ín- dio na sociedade nacional, para a com- preensão das organizações tribais enquanto totalidades.
Nessa perspectiva, e para finalizar, pro- curei verificar como o material seleciona- do permite perceber indícios que apontam para a noção de pessoa, através da cor- poralidade, que constitui um elemento cen- tral da construção da identidade nas socie- dades indígenas brasileiras.
Uma instigante análise sobre a cons- trução da pessoa nas sociedades indígenas brasileiras inicia-se com a observação de que só muito recentemente, após a Segun- da Guerra, o estudo das sociedades tribais deslocou-se de categorias abrangentes, re- feridas à sociedade nacional de um lado e ao índio enquanto categoria genérica de outro, para trabalhos descritivos específicos, "quando o foco não é mais a discussão do lugar do índio (junto com o negro e com o branco, na hierarquia do universo nacio- nal), mas - isso sim - a posição daquela so- ciedade tribal como uma realidade dota- da de unidade " (Seeger, da Matta, Castro 1987).
Salientando as contribuições da etno- logia dos grupos tribais brasileiros para o campo da antropologia como um todo, os autores desenvolvem a tese de que "a ori- ginalidade das sociedades tribais brasilei- ras (de modo mais amplo, sul - america- nas) reside numa elaboração particularmente rica da noção de pessoa, com referência especial à corporalidade en- quanto idioma simbólico focal" (p. 12). As formulações de Seeger, da Matta e Viveiros de Castro são esclarecedoras nesse sentido:
"Ele, o corpo, afirmado ou negado, pintado e perfurado, resguardado ou de- vorado, tende sempre a ocupar uma posi- ção central na visão que as sociedades in- dígenas têm da natureza do ser humano. Perguntar-se, assim, sobre o lugar do cor- po é iniciar uma indgação sobre as formas
de construção da pessoa" (p.13).
Como mostram vários estudos (Vidal e Muller 1987, Seeger 1980, Turner 1980) os significados da pintura corporal são si- multaneamente sociais e simbólicos. Indi- cam padrões específicos de grupos de ida- de e sexo, diferenças de status e de atividades, que permitem comunicar esta- dos de espírito e posições na comunida- de, além de ser um elemento chave para a apreensão do universo, para a comuni- cação entre os aspectos sociais e biológi- cos da personalidade e para a compreen- são dos mitos.
A linguagem simbólica da ornamenta- ção corporal exprime, principalmente, a concepção tribal da pessoa humana, na or- dem social e cósmica (Vidal e Muller
1987:120). A dualidade do corpo e da pin- tura atua, portanto, como mostrou Lévi- -Strauss (1975), para expressar uma reali- dade da qual o indivíduo participa, projetando-se graficamente na sociedade através da pintura, que o reveste como uma "pele social" (Turner 1980).
Não só a pintura, mas também os adornos e as máscaras, são formas plásti- cas de expressão de uma experiência ao mesmo tempo de ordem estética, social e mítica. A via da arte pode ser bastante fe- cunda para investigar as afirmações cons- cientes ou inconscientes das diferenças cul- turais, no sentido apontado por Roberto Cardoso de Oliveira, de considerá-las en-
quanto elementos de contrastividade, es- sencial à elaboração da identidade étnica e das representações que nela se configu- ram (Oliveira 1983).
Como enfatiza o estudo de Seeger, da Matta e Castro, sendo o corpo o locus es- truturador da experiência e organização das sociedades tribais sul-americanas, ele representa a arena central onde se definem relações e posições sociais, a partir de um "idioma de substância" : "mais importan- te que o grupo, como entidade simbólica, aqui, é a pessoa; mais importante que o acesso à terra ou às pastagens, é aqui a re- lação com o corpo e com os nomes" (p. 24).
Os caminhos abertos pela antropolo- gia para alcançar dimensões mais profun- das da realidade reatam, na atualidade, os laços entre ciência e arte, através da ten- tativa de compreender a própria criação dos símbolos e sua expressão estética.
Difícil tarefa, que nos deixa como con- clusão provisória a possibilidade de pen- sar as imagens do passado como "arqui- vos de identidade". Arquivos de identidade construídos tanto na busca de registros co- mo nas projeções de natureza simbólica, que definem um lugar para o outro. A ima- gem especular do paraíso perdido, ou do mal domesticado, que nos remete a novas indagações sobre os limites entre ciência e arte, entre expressão estética e significa- do, entre função social e função simbólica.
Notas
1. Entre os pintores-viajantes que estiveram no Bra- sil, no século XIX, destacam-se os alemães Wied (1815-17), Ender (1817), Spix e Martius (1817-20), Rugendas (1821-25), Poeppig (1827-32), Planitz (1831-44), Adalberto da Prússia (1842), Burmeis- ter (1850-52), Hagedorn (1852), Appun (1860-68), Keller-Leuzinger (1874) e W. von den Steinen (1886); os franceses Debret (1816-31), Adrian Tau- nay (1616-1824), Florence (1825-29) e Biard (1858-60); os ingleses Koster (1789-1845). Mawe (1807-11), Chamberlain (1815-20), Graham (1821-23) e Bates (1848-59) e os italianos Rad- di(1816-18), Osculati (1847-48) e Boggiani (1898).
2. Agradeço à Profa. Dra. Re n ate Rott e ao Lateinamerika-Institut da Universidade Livre de Ber- lim, o convite que tornou possível a realização des- te trabalho. Meus agradecimentos se estendem tam- bém ao DAAD e a Capes, cujo apoio financeiro permitiu o estágio como bolsista na Alemanha, e às
seguintes instituições, que me ofereceram todo o au- xílio necessário para o desenvolvimento da pesqui- sa: Ibero-Amerikanisches Institut, Museum Fur Vol- kerkunde, KupferstichKabit, Staatsbibliothek e Baessler Archiv, pertencentes ao Preussischer Kul- turbesitz de Berlim; Universitatsbibliothek de Heidel- berg; Robert Bosch GmbH de Stuttgart, Staatlisches Museum Fur Volkerkunde e Alte Pinakothek de Munique.
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