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Collecting Observations about the Behavior of the System 13

Part I Algorithmic Issues

1.3 The Data Mining and Knowledge Discovery Process

1.4.1 Collecting Observations about the Behavior of the System 13

Como ocorre com o texto mítico, o herói-viajante rompe os liames com o mundo conhecido e dominado e passa a oscilar ao sabor das incontroláveis forças do universo. Hans Staden é o aventureiro alemão, herói-viajante que ocupa lugar central na estrutura da narrativa mítica. Lo- go, a personagem haveria de ter o papel invertido. Tomado por português e inimi- go, Staden seria preso pelos tupinambás, ameaçado de morte e devoração canibal. O conquistador torna-se prisioneiro. Do es- paço aberto do mar, passa ao interior do cativeiro na aldeia indígena. O desfecho da história irá pressupor nova inversão de pa-

O naufrágio no litoral de ltanhaém. quando Hans Staden chega à costa brasileira. Região de Bertioga, Santo Amaro, São Vicente e ltanhaém. "Viagens ao Brasil". Hans Staden, 1557.

pel. A astúcia de Staden consistirá em con- trolar, ou melhor, simular controle sobre os fenómenos da natureza. Como a sobrevi- vência dos índios, baseada na pesca e na plantação, se mostrasse subordinada à in- fluência do sol, da lua, dos ventos e das tempestades, a esperteza do herói estaria em simular controle sobre a natureza, pe- lo poder de sua mente ou pela força de seu Deus. O texto mítico vale-se ainda das in- versões e reconversões de conteúdo, jogan- do com o que é com o que parece ser. No curso circular da narrativa, o dese- nho da caravela figura a partida e o regres- so do herói ao mundo real: o mundo eu- ropeu. Em sinal de graça por estar de volta e salvo, Staden faz publicar o livro, no qual inclui cinquenta e três xilogravuras feitas sob sua orientação para tornar o relato ve- rossímel.

Não há correspondência precisa entre as ilustrações do livro de Staden e as divi- sões do texto em capítulos. No primeiro li- vro, cinquenta e três grupos de peripécias se sucedem no curso da viagem, merecen- do trinta e uma ilustrações. No segundo li- vro, nos vinte e oito capítulos do "Peque- no relatório verídico sobre a vida e os costumes dos índios tupinambás" compa-

recem vinte e uma ilustrações.

Staden narra a viagem na primeira pes- soa. Confessa medos, premonições, deno- ta coragem, conta mentiras. Na configu- ração visual é apresentado na terceira pessoa, entre protagonistas e antagonistas, vendo seu destino observado por um olho que tudo vê, subordinado, portanto, a uma cosmovisão. Não se impõem de um mes- mo ângulo, o discurso e a figura. O dese- nho gravado é também escritura e desdo- bra a narração. Vejamos a cartografia do conto, na qual se move o viajante perdido.

Os mapas são, a rigor, roteiros, cartas de percurso, registros do tempo vivido. O território, sem medida objetiva, vem assi- nalado por fatos imediatos e naturais, co- mo a ilha dos pássaros de penas coloridas, que era procurada pelos índios que apre- ciavam ovos de guará; por ocorrências en- tre indígenas e europeus, experimentadas por Staden. A linha do litoral brasileiro, es- tabelecida pelo mapa de Staden, é no fun- do, desenho de Deus, que, segundo a con- cepção religiosa da criação do mundo, separou as águas e as terras. Na mentali- dade do século XVI, o mundo natural é escritura divina, passível de interpretação por princípios de semelhança e de acordo com um código de correspondências es- tabelecidas por proximidades, compara- ções etc.

A identidade de um lugar é o ponto de encontro entre a experiência do viajante e as coisas reveladas. Guarda a tensão das lutas travadas pelo europeu para não se perder em terra estranha. Lá estão ainda marcos da ocupação portuguesa registra- dos esquematicamente nas fortificações de Bertioga e Santo Amaro. Respondem tam- bém ao desejo de construir a realidade da paisagem, os nomes de origem indígena que aderem ao território como escritura dos homens. Indicam que as palavras tam- bém participam da construção da realida- de do lugar.

Na narrativa e nas configurações vi- suais do livro de Staden, quase tudo se apresenta como índice ou sinal, propondo- se à adivinhação. Quase tudo é rastro, si- nalização do Criador pressentida pelo he- rói. 0 sentido oscila entre significações de ordem terrena e providência divina.

Coabitam no mesmo quadro diversas ordens de questão. A configuração hete- ronômica assimila aspectos visuais e refe- rências verbais; práticas mágicas e crenças cristãs. As palavras, ao se inscreverem no campo visual, seguem a mais variada orientação espacial. Da mesma maneira, as figuras atravessam direções da superfí- cie planar do quadro. Sem dimensão físi- ca, não são mensuráveis, nem palpáveis. A linearidade essencial e esquemática es- boça a imagem mental. No ritmo de figu- ras animadas, homens e plantas confundem-se com o gesto orgânico da gravação em madeira. A imagem é um amálgama. Uma ilustração dura a soma de seus momentos e rara é a oportunidade em que se estabelece uma sincronia entre o tempo e a ação representados no livro de Staden. Cada configuração contém ocor- rências em justaposição, constituindo um microcosmo, só abrangível por uma cos- movisão. O olho que tudo vê certamente conhece o curso dos acontecimentos, que nessa ótica se apresentam predestinados, naturalizados.

As configurações que ilustram o texto de Staden absorvem, ademais, conteúdos da cosmologia e astronomia pagã, revestindo-o de uma visão religiosa cristã. Os poderes do sol e da lua, os efeitos do vento e os danos causados pela chuva são exemplos das influências do céu sobre a vida dos homens. Aparecem nos argumen- tos de Staden combinados com a ideia de um mundo superior, misturando-se sinais e emanações de Deus com adivinhação pagã. No quadro de percepção do euro- peu , o seu universo articula-se ao do ín- dio americano. Perante índios que admi- tiam o poder do universo sobre os homens, Staden iria afirmar a existência de um Deus capaz de intervir nas forças naturais. A sal- vação do herói seria comemorada como vitória da sabedoria cristã sobre as práti- cas mágicas, mas não passa despercebido ao leitor que o herói opera por adivinha- ção e que, no centro da argumentação, a punição divina aparece como ameaça aos que comem carne humana.

No âmbito mitológico do conto ilustra- do, inversões de conteúdo se realizam pe- las transformações de posição no univer- so, mudando-se o comando do céu e da

terra. Operam-se também por transforma- ções biológicas, nos limites da vida e da morte, razão pela qual o corpo humano co- mo motivo irá se mostrar uma unidade ca- paz de amplas ressonâncias. Talvez isso ex- plique porque as imagens de canibalismo constituem o tema central da série de de- senhos estudados.

Uma breve menção à contribuição de