Não é difícil perceber que o exercício efetuado, no item anterior, obedeceu a um simples propósito de estímulo à reflexão e ao debate, bem como de enquadramento do projeto “Os Médicos e a Cultura”, nascido em âmbito de um pós-doutoramento e esti- mulado por interrogações em torno da eventual existência de um ethos médico, inferido pela acumulação, pública e notória, de manifestações literárias e artísticas, rotuladas de incomuns em profissionais obrigados a enfrentar a morte e a assegurar a vida, escudados
numa formação científico-natural forte. A indagação desse eventual ethos, que tem sido abordado desde o I Medinfor, justificou a presença do conceito cultura e, consequência, o de patrimônio em geral e o de patrimônio cultural em particular, mas o desenvolvimento prático do projeto não tardou a convertê-lo em algo eminentemente informacional. Vem, aliás, a propósito frisar que no plano político, no plano jurídico e para algumas ciências, com a Arqueologia à cabeça, “patrimônio cultural” tornou-se uma expressão fácil, suficien- temente sugestiva e ambígua, para ser usada. (Hernández Hernández, 2002) Oficializou- se e ganhou uma chancela forte em instituições internacionais, como a Organização para a Educação, a Ciência e a Cultura das Nações Unidas (Unesco), que se viram inclusivamen- te obrigadas a criar variantes criativas, nomeadamente a de “patrimônio imaterial”. No entanto, o resultado deste tipo de criatividade, analisado dentro da Ciência da Informação trans e interdisciplinar, recebe mais reservas, que aplausos e a razão é simples: persiste uma ambiguidade que não ajuda no processo cientifico de pesquisa e da explicitação das respostas encontradas. “Bens culturais imateriais” não são construídos, como por exem- plo, o fado. Mas são inequivocamente informação, a cotejar com definição exposta atrás, assim como um edifício ou monumento resulta de um mentefacto (informação), designa- do por projeto arquitectónico ou escultórico.
Não há dúvida, pois, que o projecto foi inscrito no campo da CI com o propósito de recolher, organizar, representar e tornar acessível toda a informação relativa a cada médico português e baiano, no recorte temporal dos séculos XIX e XX, que se dedicaram à lite- ratura e às artes (pintura e música). O registo da informação, relativa à atividade clínica e científica dos médicos “polivalentes”, não foi excluído do escopo do Projeto, mas reen- caminhado para as “bases” analógicas e/ou digitais. Estamos, assim, perante um Projeto que suscita duas leituras possíveis, com implicações epistemológicas diferentes, a saber:
a. Uma leitura genérica e com forte conotação historiográfica: a ação sociocul- tural dos Médicos, produtores de “património (i)material” – obras literárias, quadros, esculturas, peças musicais – produtores de artefatos/documentos em espaços concretos (edifícios situados em espaços concretos, a geografia afetiva e inspiradora dos produtores);
b. Outra leitura, explicitamente vinculada ao programa metodológico e teórico- -conceitual da CI: de acordo com as exigências do programa, a abordagem em CI desse alegado “património (i)material” tem de ser holística e sistémica. A leitura da CI evita e denúncia a separação conceitual em “cultura erudita” e “cultura popular” ou, ainda, a separação entre a “obra e atividade” científicas e clínicas e a produção literária, artística e musical.
A divisão, que se foi estabelecendo na Modernidade, entre “ciências” e “artes e as letras”, entre a “Ciência”, com letra maiúscula e as Humanidades ambas foram muito es- timuladas e favorecidas pelo paradigma positivista da especialização, contra o qual Edgar Morin ergueu uma crítica sistemática e incontornável, demonstrando a necessidade de se enfrentar a complexidade através da mais saudável e profunda religação dos saberes.
O projeto “Os Médicos e a Cultura” colocou, em pauta, a evidência de um número elevado de médicos em Portugal e no estado da Bahia, no Brasil, que não se limitaram ao exercício da sua profissão e extravasaram a sua condição de cientistas, abraçando as artes
e as letras. Ao resgatar estes clínicos, a ideia nunca foi, nem podia ser, valorizar apenas uma parte do património legado aos vindouros, por esses médicos, mas chamar a atenção de todos os interessados que ele é escritor/artista e médico ou médico e escritor/artista. Entra, aqui, claramente a perspectiva holística e sistémica, integrada na abordagem da CI que se ensina e desenvolve na Universidade do Porto.
Para que se compreenda melhor a noção de sistema, aplicada aos médicos “poliva- lentes” ou multifacetados, importa referir que as diversas facetas ou partes não podem ser desligadas do todo, ou seja, daquele médico em particular, com suas circunstâncias, contextos, conjunturas e linha temporal bem definida. Podemos observar cada faceta de forma destacada, mas nunca devemos cometer o erro grosseiro de isolar ou de separar o inseparável. E, se quisermos exemplificar com o acervo documental geral de um médico deste tipo, diremos que esse acervo tem de ser representado como um sistema, onde cabe tudo o que o seu produtor coligiu e fez, tanto no plano clínico, como em outros planos da sua existência. Seguindo um pouco mais com o exemplo, importa considerar duas possibilidades ainda: o médico ter morrido e o médico permanecer vivo. Tendo já falecido, o que nos fica é informação materializada, ou seja, documentos e artefatos vários con- servados, o que implica a externalização instrumental da memória, enquanto capacidade de recordar ou de recuperar informação conservada intacta. No caso do médico “estar vivo”, o vínculo orgânico dos documentos e artefatos ao seu produtor, coletor e possuidor, mantém-se, e ele, enquanto pessoa, interfere dinamicamente no processo de “organização e recuperação” dos documentos, ativando a sua memória pessoal. Nas duas modalidades – “estar vivo” ou “ter morrido” – o que emerge como binómio essencial e perene é infor- mação – memória, em que aquela, sem esta, desfaz-se e perde-se, e esta, sem aquela, pura e simplesmente não chega a ser. Não há memória em si, memória abstrata – há memória, enquanto retenção de uma lembrança, e essa lembrança, seja uma imagem, um dito ou fala, uma inscrição manuscrita, ou impressa, remete para o conceito de informação intrín- seco à CI, ensinada e desenvolvida na Universidade do Porto.
Amarrando e completando, este feixe de conceitos, é oportuno frisar que a noção de Sistema de Informação (SI), quando começou a ser pensada e expressa, aparece asso- ciada a arquivo e recebeu esta definição operatória: “um sistema (semifechado) de infor- mação social materializada em qualquer tipo de suporte, configurado por dois factores essenciais: a natureza orgânica (estrutura) e a natureza funcional (serviço/uso), a que se associa um terceiro – a memória – imbricado nos anteriores”. (Silva et al., 1999: 2014) Todo o SI tem, assim, uma estrutura ou entidade produtora que se plasma na informação produzida, recebida e adquirida, conferindo-lhe a propriedade dinâmica de uso (serviço) e agregando-lhe, de imediato, a memória ou instância de evocação, ou lembrança, possível a qualquer instante.
Desta maneira, entramos no âmago do projeto “Os Médicos e a Cultura” que, antes de ser ou poder ser classificado de forma genérica e ambiguamente de cultural, é ma- tricialmente infocomunicacional, isto é, um projeto em que a informação conservada é recuperada (recordada e memorada) para ser comunicada.