Além de documentos da vida acadêmica, teses de concursos e teses doutorais, ob- jetos e artefatos que constituíam o labor do estudante e seus mestres da medicina, tanto na Bahia quanto em Portugal, em seus arquivos podemos vislumbrar a vida, obra, pen- samentos de médicos que não se limitaram apenas ao espaço da ciência, ultrapassaram as fronteiras do pragmatismo e produziram cultura. Médicos e médicas, com esse perfil, povoaram várias regiões do Brasil e de Portugal e legaram aos seus países, e ao mundo, a arte de conviver entre saberes, aparentemente, tão distantes e tão próximos da expressão humana.
Em 21 de novembro de 2006, iniciamos a pesquisa sobre os médicos que produ- ziram para além da medicina, em Portugal. Para tanto, foi necessário realizar incursões em instituições portuguesas possuidoras de acervos documentais relacionados com a vida, obra e pensamento de médicos com o perfil desta pesquisa. No Museu de História da Medicina Maximiano Lemos, da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, Portugal, prosseguimos em estudos no acervo de sua biblioteca, com rica documentação em livros publicados por médicos. Esse Museu apresentava-se, para a nossa pesquisa, como um dos espaços mais completos de dados informacionais acerca do objeto investi- gado. As obras existentes na biblioteca e no arquivo do Museu possuem riqueza incompa- rável de literatura e produção intelectual de médicos.
Pertencente ao citado acervo, no livro Homenagem ao professor doctor Luís de Pina: 60º Aniversário do Museu de História da Medicina, Museu de História da Medicina Maximiano Lemos (1998), apresentado pela médica e professora Amélia Ricon Ferraz, encontramos dados sobre a história do ensino médico, onde consta um belo poema de autoria do escritor- -médico Luís de Pina, nome representativo no cenário, não somente da medicina, como também da cultura de Portugal. A seguir, podemos observar um dos seus poemas, intitu- lado de “Em sol nascente”, Ferraz (1921):
Saudade!
Fatal aroma de uma flor que o adeus murchou. Cinza de lenha que ardeu,
Réstea de um sol que acabou…
Luís José de Pina Guimarães, foi escritor, humanista, possuidor de um perfil de postura humana e cultural, deixou um legado em livros publicados sobre memórias de indivíduos que representaram a intelectualidade de sua época. Como exemplo, citamos o livro de sua autoria: Ricardo Jorge e Ribeiro Sanches: dois homens, duas épocas, publicado em 1941 em Lisboa. E, dentre outras imperdíveis produções de Luís de Pina temos: Garrett e o Romanceiro, publicado no Studium Generale, em Porto, 1957, nas comemorações do cente- nário do falecimento de Almeida Garrett, realizadas no Porto em 11 de novembro de 1954.
Luís de Pina exerceu cargos importantes, foi presidente da Câmara Municipal do Porto, no período de 1945/1949; vereador, de 1935/1937 e deputado pelo círculo desde 1938. Entretanto, durante as pesquisas buscamos documentos arquivísticos pertencentes aos cargos e funções exercidos por Luís de Pina e não os encontramos, tanto da Câmara Municipal do Porto quanto na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Desta, o médico-escritor foi diretor e defendeu o ensino de áreas das Letras, considerando a Instituição como primitiva no ensino de importância do circuito acadêmico.
Luís de Pina teve participação na restauração da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, foi organizador da primeira Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto CALE e consagrou-se como o verdadeiro fundador da Faculdade de Letras e foi dela diretor. Visitamos os arquivos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e recebe- mos informações sobre o importante papel de Luís de Pina na formação da mencionada Faculdade.
O Museu de História da Medicina Maximiano Lemos, no Porto, Portugal, possui uma vasta relação alfabética sobre obras publicadas por Luís Pina, que abarca as ciências médicas e políticas bem como sobre temas relativos à literatura portuguesa. A maior parte de sua obra científica e literária encontra-se mantida no arquivo desse Museu e em uma sala que leva o seu próprio nome, documentação doada pelo próprio titular.
Do acervo do citado Museu, a segunda obra por nós analisada foi História do ensino médico do Porto, suplemento coordenado por Hernani Monteiro. Sobre este livro, encon- tramos ilustrações originais de Alberto Saavedra Salazar (íntimo – Abel Salazar, sobre o qual falaremos mais adiante) contendo desenhos dos médicos que se encontram nele bio- grafados. Trata-se de uma obra escrita a partir dos manuscritos deixados por Maximiano Lemos em seu espólio, falecido antes de vê-lo editado. O próprio Alberto Saavedra Salazar foi responsável pela coleta e organização dos manuscritos até a organização dos textos para publicação. No capítulo III, encontramos os nomes dos primeiros professores da Faculdade de Medicina do Porto. Selecionamos, nele, apenas os médicos que detêm o perfil de nossa pesquisa.
Sobre o livro Prof. Maximiano Lemos, de autoria de Hernani Monteiro, podemos ve- rificar no final da publicação, uma bibliografia extensa com obras sobre a medicina e a história das ciências médicas, deixando registrado, em nota de pé de página, a seguinte frase: “Para completar informações sobre a obra de Maximiano Lemos deve-se consultar a obra de: Alberto Saavedra – O Prof. Maximiano Lemos: inventário bibliográfico (a me- dicina moderna – 1928)”.
Em uma das páginas do livro, existe um belíssimo desenho de Clemente Porto. A biografia está escrita pelo prof. Tiago de Almeida e foi publicada no Anuário da Escola Médico-Cirúrgica do Porto, de 1906-1907. Para além do citado livro, de autoria de Hernani Monteiro, descobrimos outros textos em publicações tão ou mais relevantes, a saber: Gazeta Médica do Porto; Gazeta dos Hospitais do Porto; publicação da Sociedade de medicina e cirurgia; Anuário dos Progressos da Medicina em Portugal.
Em leituras atentas, encontramos o tesouro desta pesquisa, o Annuário da Escola Médico-Cirúrgica do Porto. Trata-se de uma publicação que apresenta textos sobre a forma- ção médica, contendo, nela, o artigo de Maximiano Lemos com notícias históricas sobre Escola Médico-Cirúrgica do Porto.
Destaca-se o resumo sobre o conteúdo do primeiro Annuário encontrado: Gráfico das matrículas; matrículas desde o ano letivo de 1825-1826 – fundação da escola; oração inaugural; pessoal – corpo docente e pessoal; organização do curso, com relação dos livros que serviram de texto; corpo discente. O mesmo Annuário (1907) referente ao ano lectivo de 1906 – 1907 foi publicado no Porto pela Typografia a vapor de Arthur José de Souza & Irmão.
Outro Annuário da Faculdade de Medicina do Porto que é de grande valia para a nos- sa pesquisa foi o coordenado pelo prof. Teixeira Bastos, secretário da mesma Faculdade, referente ao ano lectivo de 1916-1917 e publicado no Porto pela Typografia a vapor da Enciclopédia Portuguesa (1918).
Essa publicação relaciona todos os professores da Escola, incluindo Maximiano Lemos, com breve biografia de cada um, como foram nomeados e quais as cadeiras que estes lecionavam. No livro, receberam destaque importantíssimas figuras médicas e pro- fessores da Escola Médico-Cirúrgica do Porto, com produção literária para além da me- dicina, tivemos a grande sorte de conhecer suas produções através da citada publicação. Durante o desenvolvimento da pesquisa, conhecemos a biografia de Pedro Augusto Dias, além de bacharel em medicina, essa ilustre figura também foi bacharel pela Faculdade de Philosophia, da Universidade de Coimbra, e publicou obras para além da medicina. Pedro Augusto Dias é natural de Vieira do Minho, onde nasceu em 1835, formou-se em 1880, pela Faculdade de Medicina do Porto.
Nas edições dos anuários analisados, encontramos biografias de outros professores médicos com produção literária, alguns deles listados a seguir:
1) Joaquim Alberto Pires de Lima; 2)Abel de Lima Salazar;
3) António de Almeida Garrett; 4) José de Andrade Gramaxo; 5) Hernâni Bastos Monteiro.
Após explorar intensamente edições históricas do mencionado Annuário, pas- samos à análise do catálogo publicado pela Faculdade de Medicina do Porto, Exposição Comemorativa do Centenário do Nascimento do Prof. Egaz Moniz com apresentação de Maria Olívia Rúber de Meneses, publicado em 1977.
Junto a este catálogo, iniciamos estudos a partir de uma fotografia do famoso mé- dico Egas Moniz. Passamos, a saber, então, da existência dos acervos desse grande nome da medicina e cultura de Portugal. Além disto, no referido Catálogo é possível encontrar uma lista contendo sua bibliografia, seus manuscritos e outros documentos importantes relacionados com a vida, obra e pensamento desse insigne mestre, acrescenta-se, ainda, as recordações pessoais e medalhas relativas a ele e a outros vultos médicos notáveis e uma relação de livros publicados em coautoria com outros nomes também ilustres.
O citado Catálogo é quase completo de itens documentais, entre textos de confe- rências, artigos de periódicos, notas bibliográficas e biográficas, homenagens recebidas, conferências literárias, investigação científica, escritos sobre Egas Moniz, escritos dele sobre outrem, como António Vieira, José Malhoa, S. Martinho de Gândara, recortes de
jornais, correspondências pessoais, fotografias, objetos vários, quadros com diplomas, re- trato a óleo, medalha, entre outros documentos do acervo documental do citado médico. Nesse rico catálogo, nos foi também possível conhecer nomes de professores e doutores que prestaram informações sobre Egas Moniz, a saber:
1. A. Rocha Melo; 2. Abel Tavares; 3. Albano Ramos; 4. Jacinto do Amaral; 5. José Manuel Pina Cabral; 6. Manuel Pissarra;
7. Raul Gonçalves; 8. Victor Cardoso.
Dedicada ao encontro de mais conhecimento, realizamos pesquisa nos acervos so- bre Egas Moniz na biblioteca da Faculdade de Medicina do Porto e na Fundação Egas Moniz e no Museu de História da Medicina Maximiano Lemos. A pesquisa foi muito preenchida de resultados quando tivemos a maravilhosa chance de visita a Casa-Museu de Egas Moniz.
A ‘CASA DO MARINHEIRO’ agora transformada em CASA MUSEU EGAS MONIZ, conserva um ambiente de extremado gosto, despertando em rediviva evocação a individualidade relevante que nela passava grandes temporadas e onde em cada pormenor deixou expressos os seus gos- tos e as suas predilecções.
Nessa casa haviam nascido os seus antepassados e nela nasceu o Professor Egas Moniz, Prémio Nobel da Medicina em 1949 pelos seus excelsos trabalhos sobre a Angiografia e Leucotomia Pré – Frontal.
A CASA MUSEU EGAS MONIZ, apresenta no seu interior um belíssimo conjunto arquitectóni- co com os seus belos tectos em caixotão com apainelados aliado ao bom gosto do seu mobiliário de estilo D. José, D. João V, D. Maria, Luís XVI, Império, Holandês e Charão.
Como emérito e exigente coleccionador que era, com o seu bom gosto e perspicácia, Egas Moniz conseguiu ao longo da sua vida adquirir belíssimas peças que passam por inúmeras colecções e que hoje podemos apreciar deleitando-nos com o requinte e beleza de algumas peças, como é o caso de peças de Porcelana da Companhia das Índias, Cantão, Saxe, Sevres, Porcelanas e Faianças antigas Portuguesas.
Na pintura (com obras representativas da pintura portuguesa de Carlos Reis, João Reis, Falcão Trigoso, Eduarda Lapa, Silva Porto, Henrique Medina, José Malhôa, Abel Salazar, entre outros), gravura, escultura desenho, vidro (com espécies de vidro e cristais portugueses da fábrica da Vista Alegre e Marinha Grande e cristais de Bacará), na ourivesaria e tapeçaria conseguiu Egas Moniz peças de raridade e beleza, antiguidade e minucia que hoje se encontram na CASA MUSEU EGAS MONIZ e que nos permitem vislumbrar um pouco da sua vida pessoal, como que reencontrando-nos espiritualmente com o eminente cientista, analisando-o, numa perspectiva um pouco diferente – na sua intimidade. (EGAS MONIZ, [20--])
Analisamos outras publicações de grande valia, ao encontro de nomes de médicos que produziram para além da medicina em Portugal e seus acervos e, listados no livro do VII Congresso Nacional de Medicina, intitulado de Exposição bibliográfica escritores médicos séculos XIX e XX, 19 a 22 de novembro de 1989, tendo sua Comissão organizadora presidida por Manuel Machado Macedo publicado em Lisboa pela Fundação Calouste Gulbenkian.
No percurso de nossa pesquisa, descobrimos uma das obras mais importantes de autoria do Dr. Maximiano Lemos: Encyclopedia Portugueza illustrada, Diccionario Universal publi- cado sob a direcção de Maximiano Lemos, lente da Escola Medico-cirurgica do Porto. No trajeto da pesquisa in loco, tivemos a grande oportunidade de visitar e conhecer acervos de médicos que produziram para além da medicina, entre outras dezenas, citamos, além de outras, as seguintes instituições: Hospital de Santa Maria, Museu da Ciência e Tecnologia, Museu Monográfico de Conimbriga, Museu Nacional de Arqueologia, Museu do Teatro.
Dentre outros tantos, quase infinitos nomes, as produções escritas de médi- cos marcaram um lugar de destaque na cultura. Neste caso, além de outros: - Joaquim Guilherme Gomes Coelho; José Augusto Vieira; Campos Monteiro; Leite de Vasconcelos; Manuel Monterroso; Plácido da Costa; Teixeira Cabral; Ricardo Jorge; Maria Olívia Rúber de Meneses; Simão Pinheiro Morão e Duarte Madeira Arraes. Importante destacar, de autoria da médica Maria Olívia Rúber de Meneses, o famoso livro Plantas medicinais exóti- cas num manuscrito do século XVIII, de 1967. Trabalho também apresentado na 1ª Reunião Científica dos Serviços Laboratoriais e Clínicos da Faculdade de Medicina do Porto, do ano lectivo de 1964-1965, realizada em 20 de janeiro de 1965.
Analisamos também o catálogo referente à comemoração dos 160 anos da Instituição dos Estudos Médico-Cirúrgicos na Escola Médica do Porto, realizada no Salão de Alunos em 29 de janeiro de 1997. Nele, estão relacionadas obras expostas com os nomes dos au- tores médicos, e as descrições das pinturas, desenhos, caricaturas, esculturas, fotografias e indumentárias.
O que apresentamos até aqui é apenas o roteiro inicial desta pesquisa. Em termos de sua dimensão, não caberia, nesta resumida escrita, a pesquisa por inteiro, realizada no período de nossos estudos pós-doutorais. O levantamento dos médicos- cultural encontra- -se na plataforma digital SiS Médicos e a Cultura – Portugal e Bahia a ser, brevemente, hospedada nas páginas das universidades de Portugal e do Brasil, assim como também veiculada no espaço Wiki.