Com o aparecimento da internet, as comunicações online e todas as facilidades para o acesso à informação numa escala planetária, a revolução tecnológica consumou-se e transformou inevitavelmente a sociedade e as relações sociais. Surgiu a internet e depois veio o Google, o Facebook e outras redes sociais. Neste cenário torna-se evidente a ne- cessidade de uma visão integrada para o acesso à informação. Os serviços (culturais) de informação passam a estar na internet e a integrar redes sociais. Os utilizadores querem aceder rapidamente à informação, onde quer que ela esteja sem terem de usar lingua- gens normalizadas nem formalismos herméticos. A informação à distância de um click é
a panaceia do século XXI. A par dos instrumentos de acesso à informação normalizada temos a própria informação em texto integral, em imagem, em vídeo. Tudo digital, fácil, rápido e aparentemente eficaz. Porém, nem tudo são maravilhas! A era digital traz novos problemas no que toca à gestão, à preservação e à recuperação da informação, pois não basta colocar informação na rede. É preciso, como sempre aconteceu, ter alguém que exerça o papel de mediação e que dê ao utilizador a possibilidade de recuperar apenas a informação que lhe é útil e não quantidades imensas de informação por avaliar, que ele não consegue depurar para selecionar apenas a que lhe interessa.
Os especialistas/investigadores querem informação contextualizada, sem redun- dância. Querem informação de qualidade! Perante estes desafios, há que valorizar todo o património de conhecimento acumulado e, em matéria de organização e tratamento da informação, as operações tradicionais continuam válidas e são fundamentais, mesmo que hoje em dia surjam novas nomenclaturas. Organização, descrição, classificação, indexa- ção, agora sob novas designações como ontologias, taxonomias, folksonomias, são opera- ções técnicas que permanecem essenciais para garantir que a recuperação da informação é objetiva, precisa e não carregada de ruído.
Nos arquivos, nas bibliotecas e nos museus está em confronto a visão tradicional, tecnicista e normativista, que tem dominado, com uma nova postura em que os utilizado- res da geração do Google e das redes sociais impõem práticas de acesso e uso da informa- ção, as quais “ameaçam” e desafiam os profissionais da área. Como promover a qualidade da recuperação da informação sem o tecnicismo hermético é o principal desafio que os profissionais hoje enfrentam. Conciliar uma recuperação da informação de qualidade com os incomensuráveis volumes de informação disponível é outro desiderato a atingir. A grande novidade agora é dar a palavra ao utilizador, para que também possa colaborar no tratamento da informação e na criação de metadados que incrementem as taxas de recu- peração e facilitem o acesso. O profissional da informação passa a ser um mediador ativo que atua como gestor e avaliador, e não como o técnico documental de outrora. Mas, para poder exercer esta nova função mediadora, é imperioso que se alterem os modelos forma- tivos, por forma a promover novas competências e uma visão paradigmática diferente e focada, essencialmente, na gestão integrada da informação. Esta visão integrada implica uma síntese agregadora e uniformizadora das operações de tratamento da informação, a que não pode ser alheia a mediação tecnológica, por forma a que o utilizador possa seguir procedimentos análogos para recuperar informação, independentemente do serviço/ins- tituição de memória responsável pela sua gestão.
A+B+M+TI
Arquivos / Bibliotecas / Museus / Tecnologias da Informação
Aliada à necessidade de mudança nos modelos formativos, uma outra necessidade ocorre: a do investimento na investigação e na consolidação da Ciência da Informação como área académica amplamente reconhecida. Na verdade, no campo da investigação, várias tendências se desenham, em áreas que contribuem para consolidar a perspetiva integrada que a era pós-custodial exige. Problemáticas como a harmonização normativa, as linguagens de indexação, o comportamento informacional com foco nas necessidades do utilizador, o data mining, a preservação digital, a interoperabilidade semântica, o big
data são bons exemplos das tendências que têm vindo a emergir nos tempos mais recen- tes e ilustram bem o percurso que a investigação vem seguindo para fazer face aos novos desafios.
A título ilustrativo, apresentamos em anexo alguns exemplos de teses de douto- ramento concluídas e/ou em curso, no âmbito do Programa Doutoral em Informação e Comunicação m Plataformas Digitais, lecionado conjuntamente pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e pela Universidade de Aveiro, que evidenciam as tendências de investigação referidas e procuram contribuir para a produção de conhecimento científico tendo em vista a expectativa integrada de que descrevemos ao longo deste texto.
Referências
DAY, R. P. Otlet’sbookandthewritingof social space, Journal of the American Society for Information Science, New York, v. 48, n. 4, p. 310-317, apr. 1997.
FERRÃO, A. Gabriel Pereira: a sua educação e cultura, a sua época e a sua obra. Anais das Bibliotecas e Arquivos, Lisboa, v. 19, série 2, n. 77, 78, p. 61-84, 1947.
JUSTINO, A. C. F. C. S. O Desafio da homogeneização normativa em instituições de memória: proposta de um modelo uniformizador e colaborativo. 2013. 496 f. Tese. (Doutoramento em Informação e Comunicação em Plataformas Digitais) - Universidade de Aveiro. Disponível em: <http://ria.ua.pt/handle/10773/10444>. Acesso em: 25 jun. 2015.
RIBEIRO, F. Organizar e representar informação: apenas um meio para viabilizar o acesso? Revista da Faculdade
de Letras: Ciências e Técnicas do Património, Porto, v. 4, n. 1, p. 83-100,2005.
RIEUSSET-LEMARIÉ, I. P. Otlet’s Mundaneum and the international perspective in the history of
documentation and information science. Journal of the American Society for Information Science, New York, v. 48, n. 4, p. 301-309, apr. 1997.
SILVA, A. M. da; RIBEIRO, F. Documentation / Information and their paradigms: characterization and importance in research, education and professional practice. Knowledge Organization: international jornal, Wurzburg, v. 39, n. 2, p. 111-124, 2012.
SILVA, A. M. da; RIBEIRO, F. Mediações e mediadores no comportamento informacional: passado, presente e futuro. In: SILVA, A. M. da; RIBEIRO, F. Paradigmas, serviços e mediações em Ciência da Informação. Recife: Néctar, 2011. p. 141-192.
SILVA, A. M. da; RIBEIRO, F. Paradigmas, serviços e mediações em Ciência da Informação. Recife: Néctar, 2011. SILVA, A. M. da; RIBEIRO, F. Recursos de informação: serviços e utilizadores. Lisboa: Universidade Aberta, 2010.
Anexo
Algumas teses concluídas e em curso no Programa Doutoral em Informação e Comunicação em Plataformas Digitais, programa conjunto da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e da Universidade de Aveiro:
Autor Título Estado
CUNHA, Elisabete Ferraz da Contributos para a eficácia do clustering utilizando tagging social Concluída em 2014 JUSTINO, Ana Cristina
Fernandes Cortês Santana
O Desafio da homogeneização normativa em instituições de memória: proposta de um modelo uniformizador e colaborativo
Concluída em 2013
LOPES, António Tavares Modelos de controlo bibliográfico no espaço da web semântica Em curso MIRANDA, MájoryKaroline
Fernandes de Oliveira
O Acesso à informação no paradigma pós-custodial: da aplicação da intencionalidade para afindability Concluída em 2010 ROCKEMBACH, Moisés Modelo de evidência da informação em plataformas digitais: estudo exploratório no âmbito da Ciência da Informação
Concluída em 2013
SANTOS, Thais Helen do Nascimento
A Taxonomia e a Folksonomia na recuperação da informação do acervo de imagens da Fundação Instituto Arquitecto José Marques da Silva (FIMS)
Em curso SERRANO, Anabela Prista
Saraiva
Sistemas de informação e
qualidade: a avaliação de arquivos e bibliotecas digitais
Concluída em 2014